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Em busca da felicidade

Um ano de blog e o último post (a sério)

Este não é o meu primeiro blog. Se a memória não me falha será o quarto.

Este não é o meu primeiro blog, mas foi o primeiro que chegou a fazer um ano.

Não foi o primeiro em que me identifiquei. Mas é o primeiro em que mostrei a minha cara. Não é o primeiro que dei a conhecer à família, amigos. Mas é o primeiro que dei a conhecer de forma tão aberta.

Este não é o primeiro espaço que criei para escrever nem será o ultimo. Mas, como tantas outras coisas na vida é um momento de passagem, uma fase, um degrau na minha evolução enquanto ser humano que procura efetiva e verdadeiramente ser feliz.

Já há algum tempo que estou cansada de um conjunto de coisas neste meu espaço. Serviu o seu propósito, fez-me escrever todos os dias, fez-me cotocar a monha veia criativa, fez-me tentar fazer rir e tentar criar uma emoção mais forte em quem lê.

Fez-me criar alguma coisa e isso, por mais singelo que seja, para quem cria é sempre muito.

Fez-me sair do meu casulo e mostrar às pessoas facetas e sentimentos que normalmente não partilho.

Fez-me bem.

Mas depois chegou o momento em que comecei a olhar para este espaço e percebi que não era aqui que estava o caminho que quero trilhar. E não, para as almas censuradoras e comentadoras e opinativas de tudo e tudo sobre tudo e todos, não estou à procura de comentários, nem de atenção. Estou a escrever para as pessoas que aqui vêm todos os dias, uma vez por semana, uma vez por mês. Aquelas com quem criei um acordo tácito de que iria produzir alguma coisa para lhes entreter 5 minutos do dia e agora, apesar de clicarem, nunca há nada de novo.

Chama-se respeito. Respeito por aqueles que nos acompanham e nos leem.

Faz sentido dizer-lhes “olha, não vale a pena clicarem mais que já não volto aqui”.

E já agora para os que vão ler este post e dizer, senão mesmo escrever textos indiretos sobre os que buscam atenção com despedidas que não são despedidas, numa qualquer procura de atenção. Coisas que Freud certamente explicaria como ninguém. A esses digo que se calhar se deveriam preocupar mais com as suas vidas. Com os seus blogs. Com os seus posts. Torna-se demasiado evidente que a vida não corre bem para aqueles que procuram os defeitos nos outros em busca de ter alguma coisa para dizer.

Quando estamos bem, felizes, satisfeitos connosco próprios, resolvidos. Quando assim é não andamos à procura de preciosismos e de temas que nos preencham as linhas. Temos do que falar. Falamos de nós. Queremos fazer rir. Criamos personagens para fazer rir.

Mas não querem fazer rir, querem encher páginas, preencher linhas, e se há coisa que granjeia ainda mais visitas que posts de despedida é o mal dizer. Que país amargo o nosso, em que procuramos sempre as fábricas de azedume para rir, fazer pouco e gozar.

Não sou santa, gosto de fazer pouco de coisas, pessoas parvas e situações. Mas não ando à procura em lado nenhum. Brinco com aqueles com quem me esbarro. Ou que esbarram comigo, que eu bem me desvio. Faz-me confusão que um futebolista goze com o outro, que uma costureira goze com o trabalho da outra, que uma cozinheira goze com o prato da outra, que um adepto da corrida faça pouco dos quilómetros do outro, que um blogger impleque com outro.

Coisas minhas.

Por isso vá lá pessoas, mais amor, mais abracinhos. Vamos lá a contar peripécias, encontrar personagens onde sejam exacerbados defeitos, acontecimentos e tudo e tudo. Mas deixem lá quem tem outro blog estar descansado, em paz, a despedir-se e a voltar as vezes que quiser.

Tá bom?!

 

Adiante

 

Esta não é uma despedida à escrita. Provavelmente nem mesmo uma despedida à blogosfera. É uma despedida a este espaço. Um espaço que neste momento já não me ajuda nesta busca pela felicidade.

Serviu o seu propósito. Deu-me coisas muito boas. Validou em momentos que afinal até sou capaz de escrever alguma coisa que dois ou três gatos pingados gostem de ler e, acima de tudo, ajudou-me a perceber o que não quero. O que para mim não funciona e não faz sentido.

Há uns tempos vi um filme em que a personagem principal, mesmo no fim do filme diz qualquer coisa como “não sei bem o que é que quero fazer, mas sei que não quero cantar”. É tão importante sabermos o que queremos como sabermos o que não queremos. Sempre fazemos a triagem necessária à vida.

Esta é a minha triagem.

São recomeços. Eu gosto de recomeços.

Mudar de casa, começar do zero, conhecer novas vizinhanças e quem sabe voltar a encontrar vizinhos antigos. Aqueles que mesmo sem saberem quem somos nos reconhecem em qualquer espaço.

Os americanos têm muitos defeitos, mas há uma virtude que lhes reconheço inexoravelmente, a sua capacidade de cair, de perceber que falharam, que algo não está a funcionar e começar tudo de novo outra vez. Até dar certo. Até ser o que está mesmo certo.

Aprendemos com os projetos que correm menos bem. Percebemos onde erramos, percebemos o que queremos e o que temos a certeza de não querer. Acima de tudo aprendemos.

 

Já tinha tomado esta decisão há várias semanas, aliás este post foi escrito há várias semanas, mas quis garantir que o blog fazia um ano. Quis deixar que se publicassem todos os posts que prometi. E quis comemorar o ano com o fim do espaço.

Um ano de projeto.

Encontrei aqui um sitio onde publicar uma parte da minha insanidade, assim, em palavras. E felizmente encontrei qualquer coisa como centena e meia de pessoas que, ao que parece, nem que seja a espaços, vêm aqui ler o que se escreve neste antro de incultos. Provavelmente para ter uma espécie de barómetro do género “pensava eu que batia mal da mola, mas esta é pior que eu” e seguem à sua vida.

É claro que agradeço à Sapo, por esta plataforma linda, linda. Que, para além de permitir criar um blog para totós (com’a mim), ainda ajuda a dinamizar, com destaques numa página destinada a blogs e na sua página principal.

Nesta minha senda pela escrita o Sapo faltou a parte da medicação 19 vezes, tendo destacado posts meus no espaço destinado a blogs. Conto também 4 vezes em que provavelmente estivesse sob o efeito de alucinogénios porque destacou na página principal da Sapo 4 posts, um deles até partilhou no Facebook. Quando somos destacados na página principal da Sapo é como se o blog tivesse tomado esteroides, somam-se às milenas os cliques e uma pessoa, nesse dia, quase pensa que é uma espécie de blog mais lido do país. Depois o destaque saí e lá volto à realidade. A minha querida meia dúzia de gatos pingados.

E como eu adoro os meus gatos pingados.

De resto na minha vida tudo continua como no dia em que começou.

Continuo casada com o mesmo homem, tenho o mesmo filho, a mesma casa e os mesmos cães. Levanto-me todos os dias para o mesmo emprego, ganho o mesmo ordenado e até tenho o mesmo carro. Continuo tão despenteada como no primeiro dia, meço a mesma coisa e tenho o mesmo peso.

Contam-se diferentes os anos, que eram 32 e agora são 33, diga lá outra vez. Conta-se diferente o tamanho do cabelo, que por falta de tempo não tem sido aparado e em resultado disso está bem maior.

Às vezes parece que caminhamos e nunca saídos do mesmo sitio. E isso até é bom. Neste mundo louco em que vivemos, diria que é até bastante bom.

Mas caminhamos sempre, só que por vezes a caminhada é imperceptivel e saboreamos mais os poucos quilómetros percorridos.

 

Decidi fazer uma compilação de textos para comemorar esta marcante data:

 

Os 5 com mais favoritos

 

Uma espécie de crise dos trinta

Blogs há muitos

Eu vejo a Casa dos Segredos

A nova lei do atendimento prioritário

O mundo numa cápsula

 

Os 5 mais comentados

 

A nova lei do atendimento prioritário

Isto de ter um blog para totós

Uma espécie de crise dos trinta

Vou mudar-me para o Japão

O dia em que me aventurei na escrita criativa

 

Os 10 que mais gostei de escrever

 

Pirulitos de caramelo e saudades de tempos que já não voltam...

50 Sombras de Grey - Parte I e II

E se eu fosse refugiada. O que levava na mochila?

Cá em casa comem-se ovos de galinhas galdérias

A minha primeira Barbie

Manual de utilização do piaçaba

Se andasse sempre toda esticadinha...também eu

Cheiras a pão quente com manteiga

E aconteceu uma coisa chamada vida

Eu não sofro de depressão pós férias, eu sofro de depressão laboral

 

 

Agradeço a quem esteve, nos dias de bom e mau humor. Quem comentou e quem só leu. Quem esteve presente porque gostava de estar.

Até um dia destes, pode ser que nos encontremos por aí.

 

Concorri mas não ganhei #10

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Acordo com alguém a bater à porta ao de leva. Levanto-me estremunhada, os passos descompassados. Terei ouvido mesmo alguém a bater à porta ou terá sido o móvel velho da sala a ranger outra vez? Aquele que uma vezes me acorda, que outras me assusta.

O cão abana o rabo enquanto cheira por baixo da porta.

“O que foi Baltazar? Quem está à porta?!”

A pergunta retórica feita ao cão que sei incapaz de responder. Mas é alguém que conhece, nunca fica tão contente. Sempre desconfiado, o meu eterno protetor.

Espreito e lá estás tu. Encharcado. Chove lá fora. Que fazes aqui?

Abro a porta devagar. O corpo a pedir o teu abraço molhado com emergência. A cabeça a dizer que não. Que me deixaste, que me magoaste, que voltaste costas sem dó nem piedade, que me adormeci em lágrimas e não sei a que horas pararam os soluços e começaram os sonhos. Sempre contigo.

Entras sem dizer uma palavra. Invades a minha boca num beijo profundo, as tuas mãos a percorrer o corpo que ansiava por ti mesmo antes de te saber à minha porta.

“Não te quero aqui...” murmuro entre beijos e fôlegos. Não o queres aqui. Repete a minha consciência. Aquela que sabe que depois de mais uma noite de entrega vais embora. Vais dizer que não podes voltar. Vais lembrar-te que trazes um anel na mão esquerda que marca o teu compromisso com aquela que é a mãe dos teus filhos. Vais sair e eu, eu vou ficar aqui. Sozinha com as minhas lágrimas. Acompanhada pelo Baltazar que me trouxeste da primeira vez que voltaste para mim. Acordada não pelo teu abraço carregado de desejo, mas pelo móvel velho que continua a ranger.

Bateste ao de leve e eu abri a porta. Deixei-te entrar e perdi-me em ti.

Concorri mas não ganhei #9

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

“Toda a infelicidade dos homens provém da esperança”, Albert Camus.

Tinha razão, esta bandido.

Palmilho o curto corredor que separa o meu quarto da sala, no bolso a cigarreira que comprei à procura de esconder as imagens hediondas de mulheres grávidas com cigarros na mão. Tipos a definhar com os pulmões cinzentos. Imagens para quê? Há anos que definho e não é pelos cigarros que mais me decomponho.

Esperei uma vida inteira por uma vida diferente da que tinha a cada momento. “A esperança é a última a morrer”, dirinha a minha mãe que Deus tem. Venhinha e debruçada sobre o tanque da roupa. Quis comprar-lhe uma máquina, das boas naquele tempo, mas não quis. “Mulher que é mulher asseada esfrega os seus trapos com as mãos, só Deus sabe o que metem lá nessas máquinhas”. Esperou pela cura coitada. Atraiçoada pela esperança.

Casei porque disse que casava. Queria ter virado costas no dia mas não pude. Já tinha dito que casava. Tive esperança que a amasse. Não amei.

Não havia dinheiro para pagar para algum outro desgraçado ir no meu lugar. Passar pelos matos e pelos pântanos podres. Sobrou a esperança de uma doença desconhecida. Que me levasse a vida lentamente e não às mãos de um preto.

Atraiçoou-me a maldita. A esperança e Deus, que me meteram naquele barco a caminho de uma guerra que não era minha.

A mulher morreu cedo.

Seria agora que ela ficava comigo?

A esperança? Não. Essa porca. A que amei anos em silêncio.

A esperança era de que me quisesse.

Não quis.

A puta da esperança que alimentei.

Nunca aceitei nenhum dia como aparecia. Esperei sempre pelo que não tinha.

Sento-me com o talão na mão. É hoje que me sai a sorte grande. Há anos que tenho esperança nisso.

Concorri mas não ganhei #8

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

- Dizem que se chama Ernesto.

- Dizem?

Do outro lado desta porta branca e fria. Do outro lado deste pequeno quadrado de vidro a que chamam janela. A que usamos para espreitar os pacientes. Do outro lado continua a rir. Como quem vê a vida a acontecer naquele pedaço de parede sem cor.

- Dizem porque ninguém sabe ao certo quem é. De onde veio. Se tem familia. Apareceu aqui à porta um dia. Sem documentos. Sem telémovel. Nada.

- E o Dr. Sanches o que achou dele. Vejo na ficha que não chegou a conclusão nenhuma. Neurótico. Pouco mais que isso.

Acena para a parede. Está feliz.

- Tem momentos normais. Circula por aí. Sei que o Sanches já tentou que ele falasse...mas nada.

- Vou entrar.

- Espera! Normalmente os episódios mais complicados são assim. Passa quase uma hora a rir para a parede, a falar, depois acena e entra em estado de delirio total.

- Parece-me inofensivo.

A fração de segundos em que retirei os meus olhos deste homem para fitar o Dr. Fonseca foram suficientes para encontrar um cenário completamente diferente.

Os olhos espelham desespero. Grita. “Não”. “Não”. Mais alto. Corre para a parede. Para. Dobra-se sobre si mesmo em dor. Rosto contraído.

Desmaia.

 

Sento-me ao lado da cama onde agora está deitado com as mãos e os pés amarrados.

Procedimento.

Acorda.

- Prefere a parede à janela por algum motivo em particular?

Fita-me e não responde. Aguardo. Fita de novo o teto.

- A minha janela está aqui.

Aponta com o indicador para a parede.

- Como assim?

- No quadrado de vidro já não a vejo brincar. Nesta tela lembro-me do dia em que a ensinei a andar de bicicleta pela primeira vez. Em que lhe disse adeus. Em que a vida acabou.

Concorri mas não ganhei #7

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Recebeste uma mensagem

De: mãe

A fila está enorme. Queres fazer um jogo?

 

Recebeste uma mensagem

De: Filha linda

Um jogo?! Que jogo? Porque é que estás a mandar mensagens? Estou no carro contigo!

 

Recebeste uma mensagem

De: mãe

Sei lá, vamos inventar. Eu pouso o meu telemóvel e tu pousas o teu.

Porque assim garanto que me respondes.

Às vezes parece que não estás no carro comigo.

 

Recebeste uma mensagem

De: Filha linda

Tá bem! Mas se for chato volto para a net. Pouso em três…

 

Recebeste uma mensagem

De: Mãe

Combinado. Dois, um…

 

- Às vezes gostava que o céu fosse cor-de-rosa.

- Às vezes gostava de ter um avião para não ficar fechada no carro tantas horas. Nestas filas horríveis.

- Às vezes gostava de ter mais tempo para fazer o jantar.

- Às vezes gostava de não ter de comer verdes ao jantar. Especialmente brócolos.

- Às vezes gostava de cozinhar para a minha filha só o que ela gosta de comer. Mas tenho medo que fique doente.

- Às vezes gostava que a minha mãe fosse menos chata.

- Às vezes gostava de me preocupar menos.

- Às vezes gostava de poder falar com as minhas amigas o tempo que me apetece.

- Às vezes gostava de ter conversas com a minha filha sem ela se aborrecer comigo.

- Às vezes gostava de morar perto da escola e das minhas amigas.

- Às vezes gostava de trabalhar menos para estar mais tempo com a minha filha.

- Às vezes gostava de acabar com os jogos que a minha mãe inventa.

- Às vezes gostava de dizer à minha filha que a amo muito.

 

Porque amo. Mesmo muito, para lá do que a razão sabe explicar.

 

Recebeste uma mensagem

De: Filha linda

Também te amo, mãe.

Concorri mas não ganhei #6

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Para a estrela mais brilhante no meu céu

Podia contar-te um mundo de coisas. Explicar-te que a vida é complexa e que raramente se transforma no que esperamos dela. Que existem momentos que nos ultrapassam e redefinem as nossas vidas de formas que nunca antes pensamos ser possível.

Mas quero dizer-te que a vida tem vida própria. Que se move como entende e que, de forma inesperada, como uma bola que curva sem que estivéssemos à espera, nos tira o tapete e nos manda ao chão.

Lembro-me do dia em que desci a rua de Almada de mão dada contigo. Sabendo-me doente, sabendo-te pequena e indefesa. Sabendo-nos precisadas uma da outra.

A bola curva de que tenho fugido. Sei que inevitavelmente me atingirá.

Sonho com o dia do teu casamento. O teu cabelo em cachos debaixo de um véu imaculadamente branco. As curvas do corpo abraçadas por um vestido branco de cetim, costurado por mim. Cada pérola pregada pela mãe orgulhosa.

Imagino-te de canudo na mão. Alcançarás o que para mim jamais foi uma hipótese. Quanto mais um sonho.

Sonho com os momentos da tua vida desde o dia em que te abracei pela primeira vez.

A vida pode ser maravilhosa, porque a vida, meu amor, nada mais é que um aglomerado de momentos. Fazemos deles o melhor que conseguimos. Aproveitamos cada sopro.

Faz amigos. Brinca com as bonecas. Só mais um pedacinho. Pisa as poças que não pisaste até hoje. Rebola na areia da praia. Apaixona-te pelo Manuel que está na carteira ao lado, mas não lhe dês o teu coração. O amor virá mais tarde.

Lembra-te de mim sempre com um sorriso. Não penses nos momentos que podiam ser.

Aprende o que és. Escuta-te. Sê feliz. Que eu sou, feliz aqui dentro do teu coração.

Com amor,

mãe

Concorri mas não ganhei #5

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

O pequeno bairro escondido no meio das montanhas acordou sombrio e escuro depois de meses de alegria. O som dos gritos da mulher do médico ecoava pelos montes e transportava pelo ar a dor de quem perde quem ama. De quem perde a razão de viver.

- Não se entende quem o possa ter feito.

Tinham chegado aquela cidade ainda tudo era cinzento. Os miúdos corriam pelos campos sujos e descalços, não viam livros nem cadernos, comiam o que havia e entregavam-se às brincadeiras parvas que a ignorância traz. Os pais trabalhavam de sol a sol nas minas. Chegavam a casa tão escuros quanto os dias. Esses que não pareciam mais claros que a noite.

- Falta alegria a esta gente. Falta alento.

Disse para a mulher no dia em que decidiu ficar. Montou o consultório para tratar as maleitas de quem só lhe pagava em galinhas. Às vezes um queijo. Outras hortaliças.

- Aí doutor que me morre o homem.

Demasiado tempo dentro da mina. Falta de sol e uma alimentação de tripas e pão.

Aos domingos fazia de pastor. Trazia as histórias do Senhor. Falava da luz que havia para lá das montanhas. Da vida que ninguém conhecia. Passava os domingos sentado no jardim do bairro, a ensinar aos miúdos as letras. Que a vida podia ser diferente das minas.

Mesmo sem luz aquela gente foi ganhando alento. Dias melhores podiam vir.

- Porque faria alguém mal ao médico?

Estava um dia sombrio e os gritos chiavam aos ouvidos de todos. O bairro acordou em agonia.

- Mataram o médico!

A mulher foi encontra-lo estendido no escritório. No meio do próprio sangue. O bandido tinha entrado pela janela.

A mulher, essa enlouqueceu e o bairro, o bairro voltou à escuridão que o carvão das minas reserva sem perdão.

Concorri mas não ganhei #4

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Almada, 23 de Agosto de 2010

(como disseste “uma carta leva sempre data”, aqui vai ela. Nos e-mails não usamos isto, tens de abrir conta avô)

Tenho que te dizer, bela jogada. Estava mesmo a ver que me levavas o rei, mas não.

Como estás, avô?

“E tu rapaz?” Não é? Quase te ouço e tenho vontade de rir.

Estou bem. Tenho saudades tuas. Tenho saudades da aldeia. Das tardes passadas no alpendre, entre jogadas de xadrez, histórias do Ultramar e uns pedacinhos de pão com chouriço. Sempre um canto do pão. Sempre um pedaço de chouriço em cima. E a tua navalha que trouxeste da Guiné.

O pão aqui não sabe ao mesmo. Compro montes de pães com chouriço na cantina da escola, mas nenhum sabe da mesma maneira.

A mãe inscreveu-me num monte de atividades bué muito cansativas. Agora ando no Karaté, duas vezes por semana ao fim da tarde, na natação, noutros dois dias e ao fim de semana vou ao futebol.

Há montes de tempo que não vejo as minhas series na TV. Tenho saudades dessas tardes sem fazer nada depois da escola. Das tardes que passava em tua casa.

Aqui não vamos para a rua brincar. Fico sempre fechado em casa. Por isso é que ando em tantas atividades.

Tenho saudades da tua casa avô. Do cheiro a lenha acabada de cortar no Inverno. De te ajudar a carrega-la enquanto discutimos a minha ultima jogada.

Tens de falar com a mãe para ela me deixar ficar contigo nas férias. Está bem?

Porque é que não vens passar uns tempos connosco? Temos um quarto a mais.

Pensa nisso. E depois diz-me se queres começar um jogo novo.

Este acabou.

Adoro-te avô e tenho saudades tuas.

p.s.: rainha para bispo, C5 para F8. Xeque-mate

2 Anos e as Férias para esquecer (ou então não)

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Quem aqui vem com alguma regularidade sabe que, com exceção do fim de semana, sou pessoa para aqui escrever umas coisas numa base diária. Mas depois há momentos da vida em que as coisas não correm de feição e então não há nada como parar para pensar na vida e fazer um pause nas rotinas que pautam os nossos dias de sempre.

 

Ansiávamos por uma semana de férias como quem anseia por um copo de água no meio do deserto. Cansados e desgastados das obrigações e tarefas de todos os dias. Com horas de sono em divida e olheiras até aos joelhos.

Quando temos 18 anos e atingimos a dita liberdade que a maioridade comporta ninguém nos explica com detalhe que a liberdade se aproxima mais de uma espécie de conceito utópico do que da pura realidade. Deixamos de estar presos às regras impostas pelos pais para passamos a responder às responsabilidades. É a elas que temos sempre de perguntar se pudemos fazer o que nos apetece. O nosso maior ditador é o Tem-que-ser.

A sexta feira chegou com um suspiro de alivio que tremeu quando o Nuno se começou a sentir mal ao final do dia. No sábado acordou pior e no Domingo estava o pequeno doente também. Eu, que normalmente sou pior que uma flor de estufa, estava a passar pelos pingos da chuva. Até ter quase desmaiado no consultório veterinário a meio da consulta da Tulipa, pensei mesmo que ia cuidar do marido e filho e que as férias iriam passar numa brisa. Afinal de contas ainda era segunda feira.

Segunda mal me aguentava de pé. Terça estava mais ou menos. Quarta o pequeno mal se segurava nas pernas e à hora de almoço já andávamos os 2 a sumos de probioticos para reestabelecer a flora intestinal.

As férias pareciam cada vez menos férias e evitava-se a consulta médica porque aquilo ia passar a tempo de festejar o aniversário do pequeno na sexta feira e fazer a festinha no domingo.

Na quinta arriscámos sair de casa para comprar a prenda do pequeno. Não tínhamos ainda comprado nada. Afinal de contas tínhamos uma semana inteira de férias para tratar de tudo.

Voltámos para casa com um Panda que dança e um par de ténis.

Na sexta feira chegou o dia mais importante da minha vida. O meu pequeno fez 2 anos e eu continuava doente, ele também e o pai ainda não estava melhor.

- Amanhã chamo um médico cá a casa.

- Porquê amanhã?

- Porque não queria chamar um médico no dia de anos dele.

- Tem de ser, Cátia.

 

Chamámos um médico. E resumindo, porque confesso não me apetecer contar detalhes e pormenores, eu e o pai apanhámos uma bactéria na garganta, causando uma amigdalite que já se arrastava com a tosse. O pequeno terá apanhado uma gastroenterite que passou para nós.

Ou seja, ainda não disse mas esclareço agora, para além de passarmos as férias fechados em casa, doentes, de pijama, mal conseguimos comer e as tags mais usadas foram frango, canja e chá.

Ligámos à família e amigos para desconvidar para a festa de aniversário. Uns já não podiam ir, os que tinham crianças achamos melhor não irem. Especialmente a grávida.

 

Se chorei nesse dia? Chorei. Porque de todos os dias do ano, tínhamos de estar doentes neste.

 

Depois limpei as lágrimas e lembrei-me que estávamos todos juntos. Que o miúdo, apesar de andar a sumos probioticos e saquetas, estava contente. Que passámos 7 dias alapados uns aos outros sem pensar em tarefas e afazeres. Sem nos lembrarmos de compromissos. Sem nos deixarmos stressar com o que quer que fosse.

É que o estar doente tem isso mesmo. Impõe-nos o descanso que muitas vezes nos subtraímos.

Serviu para pensar que se calhar preciso levar a vida com outra calma. Com outra leveza. Que o stress pode mesmo dar conta de nós. Que é preciso passar mais tempo a viver e a saborear os momentos.

 

Não tive vontade de escrever. Não me apeteceu partilhar. Não me apeteceu sentar-me para contar um aniversário que devia ter sido diferente.

Mas foi o possível.

Aprendi com este ser que amo acima de tudo que a vida pode ser perfeita com as mais pequenas coisas. Decidimos que, apesar de doentes, não íamos ficar fechados em casa todo o dia de aniversário dele. Decidimos que íamos dar uma voltinha. Fomos ao shopping. Deixámo-lo correr pelos corredores e entrar nas lojas de telecomunicações para trazer panfletos. Ir às sapatarias correr e mexer em todos os ténis que lhe apetecesse.

As senhoras das lojas deviam pensar que éramos loucos.

Ele sorria e gargalhava. Nós esquecemo-nos que estávamos doentes.

 

No Domingo tirámos os pijamas, vestimos uma roupa composta, colocámos a mesa com a toalha do panda e recebemos os avós, os tios e a prima (que é quase uma adulta, mal acredito) para cantar os parabéns! O bolo com o panda, que tinha sido encomendado um mês antes e que tinha tamanho para quase 20 pessoas, estava ali, para ser comido pelos que restavam.

Passámos um bom bocado, o pequeno estava contente. E isso, é mais importante que qualquer outra coisa.

 

Acredito piamente que as coisas acontecem por um motivo. E nós temos apenas de prestar atenção para perceber o que está bem e o que tem de mudar.

 

Pensei bastante se escreveria este post, depois lembrei-me que, fossem dois leitores ou dois mil, seria apenas justo contar o que me leva a estar mais distante. Uma necessidade de pensar na vida, no que quero dela e dos meus dias. Na necessidade de saborear o tempo com os que mais amo. Com o resguardar dos detalhes que são apenas nossos.

 

Ah e ficam aqui os parabéns atrasados para aquele que mais amo. Puto, digo-te todos os dias e acho que entende melhor que ninguém, és a minha vida. E só contigo tudo vale a pena.

 

A minha incapacidade de avaliar arte

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 (imagem retirada da net, gostava muito de ter um em casa, o qual já teria vendido para ter uma vida mais desafogada, mas não tenho. Uma obra de um dos poucos pintores que sei apreciar)

 

Gostava de conseguir olhar para um quadro e sentir o que algumas pessoas dizem sentir (ou sentem mesmo) quando olham para um quadro, para uma escultura, etc. Gosto de quadros, confesso que tenho algum apreço por um senhor que quase ninguém conhece que é Picasso, mas de resto penso, sinto, sinto, penso e nada.

Quer dizer, a avaliar bem, os quadros da Paula Rego também me dizem qualquer coisa. Consigo perceber a história que contam. Mas depois há aqueles (de outros pintores cujos nomes desconheço) que são só traços e pintas e que não entendo. Quase dá a ideia que aquelas eram telas em que o pintor esteve a limpar os pincéis e que quando alguém da galeria foi levantar, um qualquer critico super intelectualoide, achou que aquele tinha sido um rasgo de sentimentos. Depois, dá-se aquele fenómeno meio amacacado, aquele em que quando alguém que os outros acham ser mais gente, ou mais entendido, vem dizer que aquilo é arte e depois todas as ovelhas dizer “ahhhh, sim, vejo, vejo, o sentimento, a dor”.

O pintor, esse, depois de lhe chamarem arte à tela borrada e de lhe acenarem com dinheiro e de o carregarem em ombros pelos sentimentos que fez sentir com aquela tela, percebe que mais vale estar caladinho.

Faz-me sempre lembrar aquela história do tipo que deixou um óculos pousados no chão de um museu e quando voltou para os ir buscar, toda a gente tirava fotos a dizer que era magnifico. Nem sabiam o quê. Ou como as pessoas entrevistadas no Lisboa fashion que sabiam as cores que gostavam de “estilistas” inventados por quem as entrevistava.

Tudo tem que ver com a pessoa que avalia. Com o que os outros - e dependendo de quem está a achar – acha daquilo que é feito.

Vou dar um exemplo.

Se eu, na sequência de uma conversa com a minha psicoterapeuta (que não tenho mas às vezes até me fazia bem) chegasse à concussão que pintar era coisa para me descontrair, e, em resultado disso pintar um quadro com 3 pintas, aquela tela não passa disso, de um quadro com 3 pintas. A família vai achar que é bom eu estar a seguir os conselhos da psicoterapeuta e talvez, apenas talvez, dependendo das cores das bolas, ainda se arranja uma parede refundida lá em casa para pendurar. Não como arte mas como forma de superar os meus demónios.

Se um qualquer pintor conhecido (não me lembro do nome de nenhum vivo) calha a pintar o mesmo quadro tudo muda. A pinta da esquerda é dor, a do meio o sofrimento e a da direita representa o recalcamento da raiva que o pintor sentiu quando a tia Clotilde lhe deu uma galheta na sequência de ter andado enfiado dentro das capoeira a sacar as penas às galinhas.

Tem tudo que ver com quem avalia.

É como o que se escreve, o que se canta.

Tinha um puto amigo na escola que dizia que quando uma banda começava a ser muito conhecida deixava de gostar dela. Não porque a musica piorasse, nada disso, era só porque já havia muita gente a gostar. Como se, caso a banda de afeição fosse uma coisa que quase ninguém conhecia o tornasse mais exótico. Mas não tornava, pensando hoje bem na coisa, só fazia dele parvo.

 

É como quem vai a exposições e acha apenas que é tudo “tremendamente qualquer coisa” porque “bué” não se usa numa galeria d’arte.

 

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