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Em busca da felicidade

E depois fui comprar os medicamentos

 

Depois da consulta fui comprar os medicamentos. Quer dizer, deixem-me lá dizer a verdade, o Nuno obrigou-me a ir comprar os medicamentos. Que eu por mim tinha feito isso hoje à hora de almoço.

Chegados à Quinta passámos na farmácia principal. O Nuno fica no carro e eu vou aviar a receita (já disse que gosto desta expressão? Faz-me lembrar as velhotas).

Entro e a máquina das senhas está avariada. Boa! Pensei. Normalmente quando não há senhas é porque vai haver merda. Há sempre uma coisa para substituir a outra. É que há sempre alguém com uma vida mais atarefada que a dos outros, tão atarefada que não tem tempo para ser educada, então vai de passar à frente.

Mico quem está à minha frente, para não ser "comida" por quem venha a seguir e, naturalmente aguardo.

Como sou uma pessoa que atraí todos os cenários estranhos aparece uma velhota, a falar comigo como se eu estivesse do outro lado do quarteirão. Ao que parece não estava a perceber que a máquina estava avariada e eu estava ali para esclarecer. Esclareci, prestei esse serviço à farmácia e nem desconto me fizeram nos produtos.

A coisa vai andando sem problemas ou tentativas de passar à frente e chega a minha vez.

É que aquela farmácia é muito boa e tem muita coisa e tudo e tudo, mas, há sempre um mas, demoram tanto tempo para atender cada pessoa... não sei se é qualidade de atendimento se param para ler as bulas todas, não sei.

Entrego as receitas. A senhora desaparece lá para o mundo dos comprimidos e supositórios e volta com as três caixinhas. É aí que me ocorre que não perguntei à médica se as 4 gotas que tenho de pôr são para colocar ao longo do dia, se são as 4 de uma só vez.

- Eu não entendo o que a senhora entende do que a médica escreveu. O que eu vejo aqui são 4 gotas. Só devia colocar essa quantidade.

Paro, penso, assimilo e repito.

- Certo, mas o que eu quero saber é se coloco as gotas ao longo do dia ou as 4 de uma só vez.

- Continuo a achar que a senhora está a querer colocar gotas a mais. É melhor colocar a quantidade que a doutora indica.

Tenho um ponto de interrogação gigante na tola.

- Pois.

- Está a ver, é que 4 gotas, 4 vezes ao dia, parece-me muito, mas a senhora é que sabe.

Só pode ser parva, ou então tá a dormir!

- Acha!? Muito?! Nahhh! E eu a pensar em tirar o olho todo, está a ver? E coloca-lo de molho durante a noite. Acho que cabe no frasco.

Ora francamente. Tá tudo tolo ou quê?!

Daqui a nada esguichava cortisona com uma mangueira para dentro da vista!

E é isto. Tive o meu momento interior. Disse apenas à senhora que tinha razão, paguei e vim-me embora. Quando é assim é melhor...é melhor.

Um bom detergente para os olhos

 

Não há meio de me ver livre das maleitas, ora é o meu estômago, ora é o miúdo com febre e depois com borbulhas do calor, ora é o meu olho direito que insiste em dar-me cabo da tola. Uma cenceira e uma despesa, acrescente-se. Desde há um mês que ando com o olho vermelho, fizeram-me alguns diagnósticos de bolso, tensão alta, stress, conjuntivite, uma fagulha, alergias, eu sei lá. Só sei que passei o mês a esguichar soro fisiológico para a retina e nada de me ver livre da comichão e do vermelho. Até a porra do corretor de olheiras deixei de usar, esse amigo que faz parecer que dormi 7 horas quando mal foram 5.

Fartei-me e marquei consulta, simpáticos consegui para segunda feira, ontem.

Saio do trabalho mesmo em cima da hora da consulta e sou interpelada por um rapaz simpático com um avental verde e uma banete (ou lá o que é o nome daquela coisa que serve para segurar folhas) na mão. Quando vejo que é uma instituição de apoio animal penso, é pá mais cinco minutos e assino a petição. Meio dedo de conversa à frente e percebo que não há petição nenhuma, é para a venda de um cartão que ajuda um animal e dá descontos em vários espaços.

Sou uma pessoa dada a fazer todo o tipo de cartões, principalmente se for para ajudar, e mais ainda se der pontos, mas ontem não dava. Tempo, entenda-se. Era preciso NIB e eu não tinha. O rapaz insistiu e insistiu, que eu podia entrar no Colombo e ir tirar o NIB ao Multibanco. Acabei por lhe dizer ó amigo, vamos lá a ver, eu tenho uma consulta, acha que faz sentido faltar para fazer o vosso cartão? Pergunto se têm site, está em baixo. Pergunto se estão amanhã, que não, que nunca estão no mesmo sitio dois dias. Desculpa lá, mas vai ficar para outra altura.

Sigo, mas levo comigo um misto de culpa e de quem sabe que até geriu bem a situação.

Chego mesmo na hora certa. Orgulhosa, que detesto chegar atrasada.

Percorro metade do Hospital da Luz para encontrar a ala de oftalmologia e quando entro penso que se calhar podia ficar com o olho assim mais tempo. Tanta gente, mas tanta gente. Parecia a feira de enchidos numa tarde solarenga de Domingo.

Espero 10 minutos para dizer que estou e pagar, sim porque o tostão é logo à cabeça, não vá o cliente…desculpem, o paciente, desistir.

Passam mais 5 e sou chamada.

Penso, isto hoje está bem encaminhado.

Vou para uma salinha com metro e meio quadrado e assento a tola em duas máquinas, uma com um barquinho que a senhora dizia estar desfocado. Eu cá vi-o perfeitamente, outro menos agradável em que esguicharam uma coisa para cada vista.

Pensava que seguia logo para a consulta mas pelos vistos era apenas uma triagem. A consulta viria uma hora mais tarde.

Cerca de 100 likes mais tarde e 20 Crónicas na Corda Bamba depois, sou chamada. Ao que parece a médica teve uma urgência que lhe desgraçou a agenda toda.

Vê um olho, vê o outro e diz que tenho uma ipisq-qualquer coisa. Não fixei o nome. Nem sei se é com ou sem h.

Como deixou andar agora vai fazer o tratamento durante 1 mês, e nada de parar porque se sente melhor.

E eu que sim senhora. Consigo ser bem mandada.

Ontem e hoje já pus as primeiras gotas e até parece que o olho esteve em lixivia durante a noite. Não sei bem o que é que leva o detergente mas parece que é bom, limpou-me da vista todas as nódoas persistentes, qual vanish qual quê! Tal não é a brancura da coisa. Por mim parava já, uma vez que tá tudo numa cor normal, isso e porque esguichar coisas para dentro dos olhos não é assim nada que me dê um prazer por aí além. Mas vou ser uma menina bem comportada, vou pôr a gotas todas e todas e quando o tratamento acabar nem a águia do Benfica vê melhor que eu!

Mêneto e a sorte de ter os avós perto

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Ainda o Ricardo não tinha nascido quando os meus sogros se ofereceram para vir viver para perto de nós. A ideia não nos pareceu bem, até porque iriam deixar para trás tudo o que conheciam e o seu dia a dia passaria a ser, na maioria dos dias, demasiado monótono. Particularmente para o meu sogro que é pessoa pouco dada a estar parada.

Depois o campeão nasceu e as coisas começaram a mudar. As conjecturas que tínhamos feito caíram por terra e começaram a materializar-se todos aqueles receios que dissémos a nós próprios que não íamos alimentar. E se alguém não o cuida como queremos? E se o deixam o dia inteiro no berçário a chorar? E como é que duas pessoas tomam conta de 8 ou 9 crianças em simultâneo? Quem é que lhe vai dar mimo? É que 6 meses era muito pouco tempo de vida e mais de 8 horas por dia enfiado num colégio com pessoas que não conhecia, demasiado tempo para eu interiorizar.

E sim, fui uma daquelas mães que ponderou deixar tudo para trás e ficar a ser mãe a tempo inteiro. Confesso, sem qualquer problema, que o teria feito se não tivesse responsabilidades. Disso podem ter a certeza. (Mais uma coisa que jamais me passou pela cabeça).

Um dia de tarde, deu-me para ficar a ver o A tarde é sua com a Fátima Lopes, e logo um programa sobre crianças que tinham sofrido maus tratos em colégios e com amas. Aquilo deu-me o resto da volta à pinha. Nesse dia, quando fui ao comboio buscar o Nuno disse-lhe “vamos falar com os teus pais, que eles vêm viver para perto de nós e vão ficar a tomar conta do bebé”.

Acho que lhe caiu tudo ao chão. O homem nem sabia o que dizer, para além do "pois, pois, pois" e da pergunta obvia de “tens a certeza que queres isso?”.

É que a minha relação com a minha sogra, é uma relação com uma sogra. Eu não sou má pessoa, ela também não, mas ambas achamos que devíamos ficar com o Nuno. Eu com o meu marido, ela com o filho. A cuidar dele, a fazer-lhe as coisas todas, tudo aquilo que eu não lhe faço, enfim, a mesma perspectiva que eu hoje tenho para com qualquer lambisgóia que me venha levar o meu bebé cá de casa.

Mas tínhamos de pôr as nossas diferenças de parte. É que tendo outra hipótese não estava mesmo nada virada para deixar o bebé com 6 meses num berçário. (E digo desde já, que louvo a coragem de todos os pais que todos os dias o fazem, porque para terem filhos neste país poucas ou nenhumas hipóteses lhes restam).

Fez-se a mudança. Os meus sogros viraram costas ao Alentejo e rumaram à Netoland. Sim, à Netoland. Porque a terra deles é onde está o neto. Tem dias que nem do filho querem saber grande coisa, desde que saibam do neto…tá tudo fino.

O principio foi difícil, com umas quantas cabeçadas com a minha sogra, o stress e a saudade a acumular e a possibilidade de os fazer retroceder em tudo e regressar ao Alentejo.

Esses tempos já lá vão (em 95 % das vezes, porque ainda há situações em que me apetece agredir a minha sogra, mas não o faço, claro está, até porque isso dá cadeia) e hoje estamos todos muito mais satisfeitos uns com os outros. Isso e mais conscientes do papel de cada um.

A ajuda dos avós tem sido inestimável, desde tomarem conta do neto quando ao pais precisam de tratar de alguma coisa ou, por e simplesmente jantar fora, a cuidarem dele com toda a atenção e mimo quando uma febre desponta, como aconteceu nestes dias.

Claro que existem coisas que vão sempre ser coisas de avós, como acontece principalmente com o meu sogro, que quando entramos em casa diz “olh’ó mêneto!”, pega na criança e desaparece lá para o meio dos brinquedos. Às vezes até parece que o homem nem tem um filho, que por sinal é pai do neto.

O Nuno às vezes diz-lhe “então boa tarde, pai! Tá!? Eu tou bem, obrigada!”. Segue-se um encolher de ombros de quem já não tem idade para se chatear com esses comentários e mesmo que tivesse idade não está para isso.

Por isso sim, temos sorte, o Ricardo tem sorte, por termos os avós para ajudar, para cuidar dele, para dar apoio, ou, por e simplesmente para serem avós. Que é coisa que não tive na total acessão da palavra, pois faleceram ainda eu era muito pequena.

Pensei em escrever este texto depois de A Mocha me ter dito isso mesmo. A sorte que tenho de ter os avós para ajudar.

Panna cotta feliz de frutos vermelhos

 

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Se há coisa que deixa o maridão com um sorriso de orelha a orelha é dar-lhe uma Panna cotta. Pode ser com outra coisa que não frutos vermelhos, pode ser até com uma geleia barata, mas a melhor mesmo é a que se faz cá em casa.

Às vezes calha a ir almoçar a algum lado e quando há, é isso que pede, depois em casa diz-me "hoje comi uma panna cotta ao almoço, tava boa, mas não é como a que fazes".

Já não fazia cá em casa há algum tempo porque isto de ter uma criança pequena que vale por 3 tem que se lhe diga. Mas hoje, no terceiro dia consecutivo de clausura geral, decidi que um docinho ia calhar bem. Com a história do leite das vacas felizes (que dá sempre azo a forte gozo à minha pessoa), disse logo que iam haver panna cottas felizes.

E são certamente.

Por isso, para quem gosta aqui fica a receita. Fácil, fácil. (o doce também sou eu que faço, quanto mais caseiro e mais bio melhor).

Ingredientes panna cotta

  • 1 Embalagem de natas (200 ml);
  • 100 ml de leite (de preferência de vacas felizes);
  • 50 ml de açúcar (eu uso amarelo mas pode ser normal);
  • 3 folhas de gelatina.

Ingredientes para o doce

  • 1 Embalagem de frutos vermelhos (aproximadamente 125 gr, eu usei metade framboesas e metade mirtilos);
  • 1 Colher de sopa de geleia de arroz biológica (que é um adoçante natural, também podem usar stevia (mesma quantidade) ou açúcar);
  • 150 ml de água.

Preparação Panna cotta

  1. Colocar as folhas de gelatina numa taça com água fria;
  2. Num tachinho pequeno colocar todos os ingredientes com excepção da gelatina;
  3. Colocar o tachinho com o leite, o açúcar e as natas em lume médio e mexer até o açúcar ficar dissolvido;
  4. Adicionar a gelatina e mexer sempre para não ficar com grumos;
  5. Quando a gelativa estiver bem envolvida retirar do lume, dividir em tacinhas (ou reciclo os copinhos de vidro dos iogurtes) e levar ao frigorifico pelo menos por 3 horas.

Preparação do doce

  1. Colocar todos os ingredientes num tachinho e deixar ferver em lume médio durante 10 a 15 minutos;
  2. Retirar do lume e colocar numa taça para arrefecer, acabando sempre por engrossar.

Depois, já sabem, é colocar umas colheres do doce em cima da panna cotta e bota abaixo. De preferência devagarinho, para saborear e saber a mais.

Espero que gostem.

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 (Importa fazer atenção que as fotos foram tiradas por uma tipa com duas mãos esquerdas, para lá de aselha. Porque juro que estavam deliciosas, as que comemos ontem, e as duas que sobraram para hoje).

Ter cães é isto

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Acabar de limpar e esfregar bem um espaço e, quando paro, cansada, para ver os frutos do meu trabalho, encontrar um pêlo mesmo no meio.

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É dizer-lhes para irem para outra assoalhada porque estou a limpar o sitio onde ficam e eles mantêm-se a rondar. Quando acabo de aspirar o sofá não tenho 5 minutos para apreciar o espaço limpo. Saltam lá para cima e ainda olham para mim com cara de "qu'é? Não dava para vir? Devias ter avisado antes".

É entrar em casa depois de uma manhã de limpezas, com a casa a cheirar a lavadinho e dar com 2 tufos de pêlo na entrada.

Será que é só comigo?

Precisamos das velhas rotinas de sono, e que a casa apareça limpa

 

Era 3:30 da manhã quando começou às voltas, uma lambada para a direita, duas chapadas à esquerda e os gemidos de quem quer o que não sabe. 

- Outra vez!

O que será que se passa, não há febre, não parece der desconforto. Quer mimo.

Depois de o tentarmos ajudar nas suas voltas e reviravoltas lá acorda. Pergunto-lhe se quer leite e ri, a forma que conhece de dar a entender que sim, que é isso mesmo.

- Era fome.

Pois era. Bebeu o leite todo, chuchou 2 minutos no dedo e no final, estende o braço, aponta o dedo e "bâdâaaaa!".

A partir deste momento sabemos que está tudo estragado. Que está desperto, que quer conversa e que não vai desistir tão cedo.

Tentamos sentá-lo. Tentamos deitá-lo. Deixamos que faça um monologo a ver se se deixa adormecer. O ciclo repete-se por mais hora e meia. Quase adormece, depois estende o braço e "bâdâaaa!".

É nestas alturas que uma pessoas reavalia a condição humana e vê a sua paciência como uma especie de liquido mágico que se esvai do pote onde está cuidadosamente guardado.

Primeiro é "vamo fajere óó, tá bem?!", depois é "vamos fazer óó, filho", passa para, "vá lá filho, vamos dormir", até que chega ao "aí criatura, porque é que não dormes?!".

Adormece e deixa-nos ficar na cama até às 9 horas. Se hoje repete a proeza amanhã vai ser lindo!

Agora vai passar umas horinhas aos avós (benditos avós). E não, nós não vamos descançar, vamos tentar exorcisar a casa de todos os males que a apoquentam. Limpar, esfregar, lavar. 

Aí como é gostava de ter uma senhora simpática que cá aparecesse quando eu não estou e por magia fizesse tudo ficar a brilhar.

Morar num terceiro andar sem elevador

 

Um dia passado em casa entre febre, birras, vontades atendidas e negadas. No meio da preocupação da mãe, que às colide com a do pai, que não se preocupa menos, só tem uma paranóia menor e quando vê uma pequena borbulhagem no corpo do mais pequeno não pensa no pior. Afinal pode apenas ser do suor, do calor ou do detergente novo da roupa porque ele só se queixa de não lhe darmos o comando, não se anda a coçar de maneira nenhuma.

Um faz uma pausa para limpar a cabeça enquanto vai comprar qualquer coisa para o jantar, o outro passeia os cães, que cá em casa impera a divisão de tarefas e ao terceiro dia de clausura ambos precisamos de ar fresco e de uma fuga de dois minutos das birras e dos nãos às mãos nas gavetas.

Fiquei com o passeio dos cães.

Apesar de não serem os animais mais sociais, dos que param para cumprimentar os vizinhos, é sempre qualquer coisa que me dá prazer.

Gosto. Gosto da ideia de ir passar o cão. Gosto de ir passear o cão. Parece sempre um momento de reflexão. Não sei porquê mas parece, pelo menos na minha cabeça.

Damos a voltinha de sempre, a que a mim dá jeito e a que eles se habituaram a gostar.

Quando entramos no prédio tiro-lhes as trelas e deixo-os subir em liberdade. Aliás, se não fosse doidivanas era assim que andavam sempre, em plena liberdade.

Eles vão subindo e eu também, mais devagar, a pensar na vida. Chego ao primeiro andar e sei que a vizinha do primeiro direito esteve a tomar banho. Cheira a banho na escada. Conheço aquele cheiro, a mistura da condensação do ar na casa de banho com o perfume do champô. Não quero apostar na marca, mas podia jurar que era o Fã, não sei mas faz-me lembrar de quando era miúda e vínhamos da praia, todos a tomar banho uns a seguir aos outros e a casa, que ficava toda com cheirinho a lavado. Alcanço o segundo andar e cheira a torradas. Humm torradas, estava capaz de bater à porta dos vizinhos e perguntar se podia lanchar com eles. Abrandei o passo para sentir mais um pouco daquele cheiro, do pãozinho a torrar, da manteiga a derreter e do bem que sabe nas tardes de inverno quando a chuva cai forte lá fora.

Chego ao terceiro andar e tenho vontade de sorrir, passo a vida a queixar-me da falta do elevador, mas se ele houvesse não sabia que a vizinha do primeiro tinha tomado banho, quem sabe se para ir jantar à noite com as amigas, ou para vestir o pijama e sentar-se no sofá, dona do comando, a ver filmes românticos pela noite dentro. Nem que os vizinhos do segundo lanchavam torradas, sem motivo nenhum, se calhar só mesmo porque os miúdos queriam.

Se morasse num prédio com elevador custavam-me menos os sacos, mas não conhecia vizinhos nenhuns e não inventava histórias de pessoas que conheço de "bom dia" quando vou passear os cães.

Caracóis

Caracóis são verão.

Caracóis são praia.

Caracóis são jola na mão e uma tarde bem passada (pelo menos para quem os come, que para os caracóis não tem graça nenhuma).

 

 

E o maridão que não gosta das lesmas. E a mim que me calhava mesmo bem um pratinho deles. E depois a colega que liga e que diz que ao pé da minha casa há a melhor casa de caracóis. E eu que nem a conheço. Vergonha!

Eu e o "meu carro"

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Sou uma pessoa muito pouco apegada a bens materiais. Sabe bem disto quem me conhece. Dou facilmente uma camisa se alguém gostar dela. Desde que tenha outras, nem penso duas vezes. Não ligo grande coisa a marcas, não faço questão de guardar o que não me faz falta, nem o que penso que já não fará. Se no futuro fizer, alguma solução de arranjará. 

Provavelmente sou assim porque tenho um pai que guarda tudo. Até os brindes dos refrigerantes. Eu não guardo nada. Ou quase nada. Tenho algumas coisas do pequeno, que não são bens materiais, são memórias em forma de babygrow, memórias em sapatinhos que serviram uma ocasião especial. O resto, não uso, não faz falta, dou ou vendo.

Mas há uma excepção. O "meu carro". É velhote mas é meu. O primeiro e único. Temos uma carrinha mais nova, mas essa é de família, serve um propósito, não é uma companheira. Posso ganhar o Eurominhões esta semana, posso comprar um Ferrari, mas este jeitoso vai sempre, sempre, ser o meu carro.

No dia em que fiz 18 anos soube que o que queria fazer logo que tivesse 2 trocos era tirar a carta. Assim fiz. Sem carro próprio conduzia o carro do meu pai quando mo emprestava. Mas no dia em que, com 21 anos, me disseram que estava efectiva, então assumi a minha primeira responsabilidade financeira e comprei o meu carro. 

Gostava de ter um Peugeot 206, mas novo era caro, tinha um valor que podia pagar mensalmente e não o podia ultrapassar, ah e nada de pagar em mais de 60 meses (e isso já era muito tempo), acho que este devia ser o tempo máximo, se não conseguimos pagar um carro no tempo máximo de 5 anos, então devíamos escolher outro, de gama mais baixa, mais antigo, não importa, se possível, máximo de 5 anos.

Foi então que através de um conhecido de um dos meus irmãos alguém apareceu com esta beleza. Já tinha 6 anos por isso o preço enquadrava-se mesmo onde eu queria. Conduzi-o por 10 minutos e fiquei com ele. 

Foi o meu primeiro carro, foi com ele que sai com amigos, que fiz passeios a Cascais, que passei a ponte todos os dias, com ou sem fila, que fumei os meus cigarros até horas avançadas enquanto eu e uma amiga lamentávamos desgostos amorosos ou planeávamos o que queríamos para a vida. Foi ele que ficou parado quando à porta durante meses a fio quando eu e o Nuno começamos a nossa vida em conjunto e preferimos o Mercedes para as viagens de dia a dia. Foi ele que o substitui no dia em que desfizeram o carro dos meus sogros e o Mercedes passou a viver no Alentejo. Foi o "meu carro" que passou a ser o "nosso carro", o carro da nossa família. Mas ninguém estranha cá em casa que o trate por meu.

Foi nele que viajámos anos para o trabalho e que fomos de férias. Foi sentada neste companheiro que rumei à maternidade e foi no banco de trás que trouxe para casa o meu tesouro mais precioso. "Este carro está ensinado" costuma dizer o Nuno. Nunca me deixou na mão, e todas as maleitas que teve aconteceram depois de nos deixar no destino certo, como no dia em que avariou mesmo à porta da Midas, ou no dia em que ficou com uma roda presa mesmo à porta da Norauto.

Não é um carro, é um amigo, um companheiro. Daqueles em quem podemos confiar.

Quando decidimos o ano passado comprar a carrinha colocou-se em cima da mesa a hipótese de o vender. Chorei. Chorei muito. Senti que o estava a trair, que estava a vender um amigo. Ao ponto de o Nuno dizer que ficava fora de questão desfazermo-nos dele. Não íamos ficar mais pobres por isso.

Assim passa a maior parte do tempo aqui à porta, anda às vezes ao fim de semana e em períodos mais atarefados de 15 em 15 dias. Sempre que passo por ele penso "amanhã temos de dar uma volta", mas depois aparecem outras coisas e fica para o dia a seguir, para o próximo fim de semana.

Sonho com o dia em que tenho uma vivenda com garagem, onde o posso ter guardado da chuva e do frio, do sol e do calor. Onde, depois de limpinho lhe dou lustro e, a pouco e pouco, vou melhorando os acessórios que estão velhos e esgaçados. Que um dia, daqui a 25 anos é um clássico e nós saímos para passear nele, dar passeios a Sesimbra, com tempo na estrada e os apressados a buzinar.

1001 Maneiras de me sentir estúpida

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Depois de o "meu carro" não pegar (conto noutro post) e de me sentir combalida com a situação, rumo a pé ao hipermercado para comprar algumas coisas que faziam falta, afinal de contas estamos quase de "quarentena" a ver se afugentamos a maldita da febre de vez.

Compro os legumes, pego em algumas coisas para contribuir para o Banco Alimentar (devemos sempre, sempre, contribuir pessoas, não é por um pacote de massa que ficamos mais pobres, muito pelo contrário) e dirijo-me à secção do leite. Olho à volta para ver se encontro o habitual, quando os meus olhos se cruzam com um pacote que fala em vacas felizes. Paro para ler melhor e sim senhora, que são vacas galdérias que dão aquele leite, das que andam nas pastagens verdes a ruminar vagarosamente a sua erva, das que dizem "espera aí que eu já vou!" quando as chamam ao serviço.

Tinha de trazer este leite. Que a consciência agradece e com leite de vacas felizes até o galão me sabe melhor pela manhã.

Quatro paletes umas em cima das outras, duas de leite magro, duas de meio gordo. Estudo como é que vou fazer aquilo, afinal de contas só queria dois pacotes (ia carregar com eles a pé para casa), e decido derrubar uma palete de leite magro e alcançar a de meio gordo. Primeira parte concluída. Só faltava tirar dois pacotes da palete. Tento furar com os dedos, mas nada, o plástico é muito rijo. Saco das chaves de casa e vai de escarafunchar e escarafunchar até tirar o primeiro pacote. Já suava. Mas a vitória soube tão bem. Tiro o segundo pacote e volto a pôr o resto da palete no sitio.

Coloco os pacotes no meu cesto de compra e, quando agarro na alça e sigo em frente encontro o quê? Uma montanha de pacotes de leite iguais, todos fora das paletes, ali, assim, organizadinhos lado a lado para pegar e levar.

Dei meia volta e saí de fininho, a ver se não havia mais pessoas a perceber a minha estupidez.

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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