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Em busca da felicidade

Lingua da sograaa! Olha a lingua da soograa!

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Batata frita! Língua da sograaa! Olha a língua da soograa!

Ainda as toalhas não estavam estendidas na areia e eu os meus olhos já procuravam a senhora, que cansada e queimada do sol, fazia arrastar atrás de si um saco cheio de pacotes da língua da sogra.

Baunilha deliciosa.

- Eu quero línguas da sogra.

- Tu queres esperar que as toalhas estejam estendidas na areia. Que o chapéu esteja posto. E mais um bocado em cima disso para pedires alguma coisa. Ainda agora chegamos.

- Mas...

- Mas. Nada.

E não se faziam mais perguntas. Sempre fui mais pedinchona que os meus irmãos. Eles sabiam bem que para receber alguma coisa tinham de lhes perguntar. Pedinchices eram meio caminho andado para não receber nada.

Mas a baunilha. O sabor da baunilha que me crescia na boca. E a senhora que se afastava cada vez mais de nós. Será que ainda voltava a tempo de nos apanhar na praia?

Claro que voltava. Comprava-se uma embalagem de línguas da sogra. Uma para cada um e as que sobrassem ficavam para mais logo. Na maioria das vezes comia-as eu. Hoje percebo que não tive de aprender a dividir da mesma forma que os meus irmãos. Eu era a menina. A mais nova. Por isso, enquanto crescidos deixava de lhes apetecer porque eu era pequenina.Hoje sei disso.

Há anos que não vou às praias da Costa. Há anos que não vejo a senhora que, calmamente e com uma voz que nunca se cansa, caminha praias de ponta a ponta, com o bronze que uns desejam, com a pele estragada e sem remédio de quem se queima pelo oficio e não pelo prazer.

Quando hoje fomos às compras encontrei uma embalagem. Não aquele pacote antigo de plástico, preso com um pedacinho de fita branca ou amarela. Não aquele pacote que no fundo de um saco gigante de plástico, que se arrastava todo o dia pela areia solta, e que por milagre não tinha um grão de areia lá dentro. Mas um pacote finório. Com uma caixinha de papel azul, a fazer publicidade à receita tradicional. Não consegui esperar que se acabasse de pagar a conta, tinha de comer uma. No caminho da minha mão à boca uma vida de memórias, quase voltei a estar no areal, a minha mãe ao lado, os meus irmãos cada um com uma língua da sogra na mão e eu, pequena e egoísta, a contar se sobrava alguma para comer mais. Quando dou a primeira trinca, o desgosto. Tradicionais talvez, mas não eram as minha línguas da sogra. Demasiado açúcar. Demasiado finas. Queria aquela baunilha grosseira, de textura rogada. Seca. Deliciosa. O Ricardo gostou mais que eu. O Nuno gostou mais que eu.

Estava capaz de pegar no carro, ir até à Costa e correr as praias à procura da senhora que há 20 anos apregoava "Olha a língua da sooograaa!".

Mas por esta altura espero que já esteja reformada. Porventura a tomar conta de uma penca de netos que não sabem nem sonham que a avó está nas memórias mais doces de quem há 20 anos tinha o tamanho deles.

...entre a tristeza dos dias e a ansiedade dos momentos.

 

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Passa das nove da noite e corres pela caso como se o dia ainda tivesse 10 horas pela frente. Dormiste, descansaste, brincaste. Não estiveste preocupado com a vida, nem ansioso com os momentos que se seguem na realidade dos nossos dias.

Passa das nove da noite e estás feliz. Corres. Queres que te apanhe para largares uma gargalhada quando te abraço e eu, eu choro por dentro. Engulo as lágrimas de quem está demasiado cansado para ter vontade de brincar contigo. Forço-me a ir atrás de ti. Mais com medo de que caias e te magoes do que pela tua gargalhada. E sinto-me triste. Sinto-me impotente perante o meu cansaço. Sinto-me menos porque devia querer ver-te rir. Afinal é essa a mãe que eu sou, não é? A mãe palhaça.

A semana passou sem que eu desse conta de existir na maior parte dos dias. Ainda que todos tenham sido mais longos do que deviam ser. Entre o que precisas e o que tenho de fazer porque não quero que nada te falte, faltamo-nos um ao outro. Porque não há heranças de família para nos fazer ricos de um dia para o outro, porque tu vais ter o que eu não tive. Porque te quero bem demais para correr o risco de te faltar alguma coisa.

Então falto eu. Mal te vejo na maioria dos dias.

Entro e saio de sala em sala. Mais uma reunião. Outra ali, outra aqui. Pensa, pensa. Problema atrás de problema. Mais outra questão para resolver. E a cabeça que vai explodir. Esta semana não dormi 6 horas noite nenhuma. Dormi menos que isso e ainda acordei a meio.

Hoje acabei o dia sem saber quem era. Acabei a semana capaz de cair para o lado. Desistir. Saí para casa com a pensar que já não consigo mais, em vez de a semana terminou.

Tu não sabes que passo as semanas entre a tristeza dos dias e a ansiedade dos momentos. A gerir o stress de quem tem de ter um mundo de coisas feitas quando nem um continente de tempo tem para o fazer. Não sabes que muitas vezes o peito me doí e o ar me falta porque não sei em que direcção me devo guiar. Não sabes que começo o dia com medo do que ainda tenho para fazer. Se o vou conseguir fazer.

E penso que quero uma vida diferente para ti. Uma vida em que a ansiedade chegue porque queres estar, porque à paixão no que fazes. Como quero que entendas isso. Como quero que trabalhes para isso. Como queria que me tivessem dito desde o primeiro dia.

Todos temos de fazer coisas que não queremos. Bem sei. Mas a vida podia ser mais equilibrada. 

Corres pela casa e estou cansada. 

- Dá-me 5 minutos para desaparecer. Já venho.

Preciso de mim para juntar as peças outra vez. Queria deitar-me e só acordar amanhã ao meio dia. Mas isso não vai acontecer. Vais acordar antes das 7, com a alegria de quem tem amor à vida. Graças a Deus desconheces a palavra preocupação. Não anseias pelo amanhã, porque para ti ele alinda não existe. Existe o hoje até caíres para o lado de sono.

Agora vou ter contigo à sala, onde brincas com o pai. Onde carregas nos botões do comando. Onde o atiras para o chão depois de garantires que deixou de funcionar.

Vou esquecer-me que estou cansada. Vou cavar um buraco na minha memória e pôr lá a minha ansiedade. Esquecer que na próxima semana há uma segunda feira cheia de problemas à minha espera. Esquecer que mais um dia vou estar contigo pouco mais de fracções de segundo. Que vou entrar e sair de salas. Que vou ter o peito apertado e o ar vai escassear.

Aprender a dizer Não

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Tenho muito que aprender nesta coisa do Não. Apesar de ter noção de que sou daquelas pessoas que tem um tique estúpido de começar qualquer frase com não, a verdade é que tenho mais tendência a dizer que sim do que a dizer que não. Especialmente quando alguém precisa de alguma coisa. Saio muitas vezes prejudicada, porque tiro a mim, porque dou mais do que tenho para dar, porque roubo ao tempo da família, porque o faço com a consciência de que muitas vezes não faço por mim o que faço pelos outros.

Liga-me alguém aflito porque dava mesmo jeito isto. Era mesmo, mesmo preciso aquilo. E eu, lá tendo esticar mais um bocado a corda. Depois não admira que tenha a cabeça feita em caca. Não me poupo.

Já me poupei menos. A vida tem tido o dom de ser a minha melhor mentora. Tem-me ensinado que se não formos nós a cuidas dos pedacinhos de gente que somos neste mundo gigante, somo engolidos por ele. E depois, depois ninguém quer saber. Ou se calhar alguns. Mas normalmente não os que tantas vezes se lembraram de nós, porque faltava qualquer coisa.

Hoje tenho mais capacidade de dizer que não. Ainda não o faço de consciência tranquila. Ainda não o faço com a leveza que devia. Faço-o muitas vezes porque o meu filho nasceu para me ensinar a viver. Para me ensinar que as coisas que importam estão mesmo ao nosso lado e que o resto pode esperar. Afinal de contas amanhã também é dia, e no final das contas, mais para a direita, mais para a esquerda, não ando a salvar a vida a ninguém.

Hoje parei num dia caótico. Já fora de horas no escritório. Mais uma e outra coisa para fazer. Parei com a cabeça a querer começar a latejar. Com o pescoço cansado e a massa cinzenta a gritar por descanso. Parei depois de mais um perdido de "só mais isto" e disse para mim mesma que já não dava, que o meu horário tinha acabado, que eu tinha de ir. Tinha de ir ter com o meu filho, que ir cuidar de mim, que ir ganhar energias para outra semana de batalha.

Hoje disse que não dava quando primeiro acedi. E ainda bem que o fiz. Por mim. Só isso. Por mim.

Conversas de balneário a que só eu assisto

 

- Aí vou de férias e não tenho vontade nenhuma.

- Então?!

- Aí não estou com paciência.

- Mas porquê, dá umas caminhadas ao final do dia...

- À NOITE! Não. É muito perigoso.

- Não arranja companhia?

- Arranjava. A minha cunhada...mas morreu-lhe uma irmã.

- Ahhh, coitada. A mim morreu-me um primo.

- É, anda a morrer muita gente.

- Para além disso estou chateada que o meu filho vai ser presente a tribunal.

- Então?

- Foi apanhado a conduzir com álcool. Quer dizer, foi apanhado por um estúpido, isto tudo por causa de um bocadinho de álcool.

 

Esta foi a conversa de 2 senhoras na casa dos 60 anos hoje no balneário do ginásio. Em primeiro lugar queixar-se de ir de férias devia dar multa.

Agora, o filho a conduzir embriagado e a culpa ainda é do policia....

Deus que me ajude a ser boa mãe, mas que a estupidez fique fora desse assunto.

Filho, meu querido filho, estou cá para te amparar em tudo. Mas se fizeres uma destas quem te dá umas valentes lambadas sou. Que não te crio a pão de ló para aleijares esse lombo lindo de forma irresponsável, nem para correres o risco de fazer mal aos outros.

O meu novo programa preferido

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O Nuno descobriu este programa no Travel Channel - BIG TIME RV. E eu fico a olhar para isto com a baba a escorrer. A sonhar….a sonhar. O que eu gostava de ter uma autocaravana.

 

O mundo acaba amanhã

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Hoje de manhã diziam na Rádio Comercial que o mundo axaba amanhã. Pelos vistos um profeta chegou a essa conclusão.

A NASA já veio dizer para estarmos descansadinhos que isto não acaba coisissima nenhuma.

O Nuno tem uma prespetiva descontraída sobre o tema:

- Olha se acabar, ao menos o Trump não é eleito. Desse mal estamos safos.

Concordo.

Tá bem assim.

Ontem foi dia dos avós

 

Quando era miúda, antes de saber invejar a magreza e os cabelos lisos e longos das minhas amigas, antes de saber que ter uns ténis de marca era mais cool do que andar com uns de marca branca. Antes de começar a querer formatar a minha cabeça para me sentir parte de um grupo. Antes de perceber que não queria fazer parte de um grupo, que gosto de muitas coisas diferentes e que não tenho de ter cabelo rapado ou pelos joelhos para me dar com hippies, que não tenho de andar de pólo Lacoste para me dar com betos, que não tenho de andar sempre de ténis para ser amiga de desportistas. Antes de perceber que posso ler o que quero e não o que dizem ser bom para ter algum intelecto. Antes destas coisas todas. Destas que fazem parte da minha vida e que definem muito do que sei ser hoje. Antes de tudo isso invejava 2 coisas aos meus amigos. A primeira era que tivesse "uma terra". Eu não tenho "uma terra". Não vou passar férias "à terra". Nasci e fui criada na Margem sul. É que nem vim nascer a Lisboa. Toda a minha vida se desenrola na margem certa do Tejo. Eu não tenho terra. Era o que pensava. Invejava os outros miúdos que nas férias iam com os pais passar férias "à terra", seja lá onde isso fosse. Ainda hoje tenho isso, invejo o Nuno porque ele tem terra. Eu não.

A segunda coisa que invejava nos outros miúdos era que tinham avós. Avós mesmo. Dos que tomavam conta. Dos que compravam prendas. Dos que davam mimos e faziam as vontades. Dos que defendiam dos ralhetes dos pais.

É claro que tive avós. Mas mal os conheci. A minha avó paterna, a velhota Gertrudes, pequenina como só ela, a típica alentejana, sempre vestida de preto desde que o filho mais novo morreu num acidente de trabalho. Como a entendo hoje, não ria muito, a vida tinha sido má para ela. Levou-lhe a primeira filha. Depois levou-lhe mais um filho. Um dos gémeos. Mais tarde levou-lhe o filho mais novo dos três que a vida lhe permitiu ter.

A velhota Gertrudes que tratava os filhos como meninos. Fazia tudo por eles. Descascava-lhes a fruta. A responsável por o meu pai ainda hoje ser o mimado que é. É a avó que me lembro melhor. Fazia anos no dia 1 de Abril. Dia das mentiras. Levava-me ao mercado da esquina e comprava-me um bolinho seco com canela. Sempre. Mesmo quando a minha mãe dizia que não podia. Especialmente quando a minha mãe dizia que não podia. Arriscaria a dizer que é a mulher que o meu pai mais amou. Ainda hoje chora quando fala da mãe, e já lá vão mais de 20 anos. Faleceu em nossa casa. Aos nossos cuidados.

A velhota Gertrudes.

O meu avó João era um homem com H grande. Pai do meu pai. O que a minha mãe gostava dele. O que a minha mãe gostava de o chamar pai apesar de ser sogro. Um homem que era só coração. Dele só me lembro de se rir para mim. De resto lembro-me dele sempre a tentar passar despercebido. O Alzheimer levou a melhor.

Coisas más acontecem a pessoas boas.

Gostava tanto de te ter conhecido melhor avô. De saber em primeira mão o que a mãe tantas vezes me contou.

A avó Maria, que nunca se chamou Maria. De nome Lurdes, sempre foi a avó Maria. Não sei porquê. Sei que sempre foi assim. A que dividia as sardinhas pelos filhos, sobrinhos e netos. A que comia as cabeças do peixe porque eram mais saborosas. A que vivia num rés do chão "casa de bonecas" e que albergava lá dentro mais de 20. Havia sempre mais um canto para alguém. A que comia doces às escondidas e faleceu cega porque ninguém mandava no que comia. Foi com 86 anos. Já foi bem. Para quem teve 13 filhos e uma vida de provação, 86 não é mesmo nada mau.

Lembro-me de a ir visitar a casa da minha tia. Lembro-me de comer um gelado. Eu um, ela outro. Lembro-me que dava uma nota à minha mãe para "comprar à menina umas collants das que ela gosta". Lembro-me como se fosse hoje de ter pedido ao genro que salvasse a cadelinha feia que ninguém queria. Não podia ver animais a passar mal. E o Augustinho lá fez a vontade à velhota. Sempre foi o fraco dele. Os pedidos dos velhotes. Acho que sempre teve medo do que idade pode fazer dele, que não lhe atendam aos pedidos, por isso sempre atendeu aos outros de cabelo grisalho.

Por fim o meu avô António. O pai da minha mãe. Nunca o conheci. Faleceu antes de eu nascer.

Sempre vivi com uma pena terrível de não o ter conhecido. Tenho esta coisa desde miúda. De terem existido pessoas que eu gostava de ter conhecido e que agora já não existem.

Queria tanto ter uma ligação com o meu avó que lhe quis ficar com o Clube de Futebol. Um dia, numa conversa, percebi que o meu avó era do Sporting. Eu, Benfiquista até aí, decidi mudar. Não nos tínhamos conhecido, mas íamos ter alguma coisa em comum, éramos os 2 do Sporting.

Mais tarde percebi que afinal era do Benfica e eu tinha entendido mal a conversa. O orgulho impediu-me de voltar atrás.

Por isso hoje sou do Sporting. Não de coração, mas por convicção. Por decisão.

Quando o Ricardo nasceu, veio como eu. Já com uma avó em falta. A minha mãe. Aquela que tomaria conta dele e que lhe ensinaria tudo o que me ensinou a mim. A que me responderia torto todos os dias que lho levasse com a t-shirt por passar. Que o aprumo é coisa de muita importância.

Quando o Ricardo nasceu percebi que lhe queria dar o que eu não tinha tido. Não os bonecos, os jogos e as roupas caras. O carinho que nem sempre tive. A atenção que nem sempre esteve disponível. Os avós que fazem parte da família.

Hoje fica com os avós paternos. Tem mimos demais e ainda bem. Tem as vontades feitas e dois guardas a cada segundo.

Tem a avó que lhe arranja os calções e o avô que ainda ontem dormiu mal não fosse os "irresponsáveis" dos pais cortarem demais os caracóis aos menino.

Tem o avô que faz birra quando não lá vai pelo menos uma hora ao fim de semana. Que isto de passar 48 horas sem ver o neto não é coisa que se faça. Um homem que passou a vida a trabalhar para que nada faltasse ao filho. Só faltou ele muitas vezes. Porque não se pode estar em todo o lado.

Hoje vejo-o a viver no neto tudo de uma vez. O filho e o neto. Por isso, a não ser que seja para o obrigar a fazer o que não quer "porque o mêneto comigo não chora" é ele que faz tudo. Dá papa, adormece e troca fraldas.

Depois há o Augustinho. Homem de poucas responsabilidades, mas aquele cromo que faz tanta em qualquer família. Aquele avô que dá as batatas fritas às escondidas dos pais e depois põe as culpas no miúdo ou diz que não sabe como aquilo aconteceu.

Podia ter posto um post ontem sobre os avôs. Mas o dia dos avós é todos os dias. Quando faz frio ou faz sol.

É sempre que queiramos, que saibamos pôr as nossas diferenças de parte, que compreendamos que podemos não ver as coisas da mesma forma, mas que há sempre algo de muito especial num amor velhote de avós. Aquele que nunca se esquece, aquele que alimenta as nossas memórias de Natal, aquele que saboreamos nas filhoses de abobora, feitas à mão e que um dia não voltarão a existir.

Vivam os avós e tudo o que foram para nós. Que são para os nossos filhos. Às vezes basta deixarmos.

As férias da minha infância

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Sempre que posso vou visitar o Dias de uma Princesa. Gosto. Gosto muito. No post de hoje, também a crónica do Dinheiro Vivo desta semana, a Catarina fala de férias. Se vale ou não a pena gastar dinheiro nas férias.

Eu acho que sim. Vale muito a pena. Fazer um esforço – para os que precisam de o fazer, para os que o podem fazer – para, pelo menos, uma vez ao ano passar uns dias fora da vida do dia a dia.

Mas não é por isso que agora escrevo.

O post da Catarina sobre as ferias fez-me lembras das que tínhamos em família.

Lá em casa não havia condição financeira para férias fora. Família de colarinho azul com 4 filhos, tornava difícil ter dinheiro para ferias fora. Para além disso tínhamos a Costa da Caparica mesmo ao lado e para ir à praia não era preciso ir ao Algarve. Depois o dinheiro que havia a mais dava sempre para um arranjo em falta, o seguro do carro, comprar uma prenda melhor de aniversário a cada filho. Remediar qualquer coisa que estava em espera daquela verba extra.

Por isso as férias grandes eram feitas rumo a Sesimbra. Todos nos levantávamos cedo. A minha mãe preparava a cesta. Sandes de paio e sandes de fiambre. Melão cortado em pedaços. Uma garrafa grande de água bem fresca.

Na praia brincávamos. Jogávamos raquetes. Nadava muito. Lembro-me de ir a nadar até aos barcos com o meu pai. O pato e os patinhos todos. A minha mãe na toalha. Nunca soube nadar.

Houve um dia que subimos a um barco. Um senhor convidou. Subimos e demos um mergulho. Depois seguimos ao nosso passeio pelo mar. Sempre calmo em Sesimbra. Não havia ondas que puxassem para alto mar. Não havia rebentação para passar.

Ao meio dia de voltar ao carro. Um caminho de vinte e tal quilómetros pela frente. Um carro pouco potente. carregado de gente. O ar condicionado era a janela aberta.

Pelo meio uma paragem para um peixe fresco. Se houvesse, sardinhas. Quando chegávamos o meu pai acendia o fogareiro num pátio em frente ao prédio.

- Não quero a casa com cheiro a peixe.

Dizia a minha mãe.

Enquanto o pai assava as sardinhas a mãe fazia a salada, ou ela ou um irmão mais velho. Antes dos 10 já era eu.

Tomate meio verde-meio maduro, pepino, cebola e no fim, depois do tempero, um bocadinho de orégãos.

Almoço e sesta. Ou um filme. Ou cada um no que lhe apetecesse. Amanhã havia mais.

Não queria voltar atrás no tempo porque a minha vida é confortável hoje. Mas lembro-me com carinho  desse tempo. Boas memórias dos dias em que a palavra preocupação não me dizia nada. Dias em que a maior responsabilidade que tinha era garantir que as bonecas ficavam arrumadas quando acabava de brincar.

O teu primeiro corte de cabelo

 

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Podia ter registado este momento num livro próprio. Num daqueles que são feitos para contar as primeiras vezes de tudo. O primeiro passo, a primeira palavra, a primeira queda. Mais ou menos como o que comprei para ti. O que vou completando aos poucos, mas que já tem informação e falta. Sabes, é que tem espaço para registar a data, duas linhas para descrever o que aconteceu, mas faltam linhas para descrever o que esse momento significou para mim. Para o pai. Para nós. Cada pequena coisa uma conquista do tamanho do universo. O livro não tem espaço para isso.

Por isso registo aqui. Aponto o que quero lembrar. Sem ter que me preocupar com o espaço, sem ter que me preocupar com a letra cada vez mais ilegível. A letra destas mãos mais habituadas aos teclados que às canetas.

Hoje decidimos que te cortávamos o cabelo. Estava fora de questão levar-te à cabeleireira, jamais deixarias que alguém estranho te lavasse a cabeça, te passasse um pente, fizesse o que fosse. 

Tinha de ser eu. Com muito ou pouco jeito. Tinha de ser eu.

Um trabalho de equipa, tu na banheira, o pai no entretenimento e eu, depois de debater contigo com quem ficava o pente, eu lá te consegui aparar os caracóis.

O pai de coração nas mãos. Não me cortes demais o cabelo ao miúdo. O avó em aflição. Cortem, cortem, mas não muito. E eu, a ter de ouvir esta conversa sendo aquela que sempre disse que ninguém te tira os caracóis, só tu, um dia quando fores mais velho, e se quiseres.

No fim aconteceu o impossível, achava que não era possível ficares ainda mais bonito, ainda mais perfeito. Ficaste. O que deu uma grande ajuda ao meu trabalho desajeitado.

Agora andas aqui de um lado para o outro. O pai atrás de ti. Eu a escrever para não esquecer. Todos a fazer tempo porque já lanchamos tarde. O pai de máquina fotográfica na mão. Depois de telemóvel. É preciso registar em todo lado que os teus caracóis têm menos 2 dedos.

O amor é assim filho. Faz de nós tolos.

Cheiras a pão quente com manteiga

Faltam 5 minutos para as 5 da manhã e começas às voltas na tua cama. Está calor e tu tens uma mistura de sede e fome na tua barriguita. Enquanto o pai te aquece o leite eu fico contigo ao colo.

- Acalma-se sempre melhor ao teu colo.

Diz o pai quando te passa ao meu colo.

Porventura uma memória que só nós conhecemos de quando éramos dois a ocupar o espaço de um.

Quero dizer asneiras. Tenho sono e quero voltar para a cama. Mas cheiro-te.

És mais meu filho quando te cheiro. Esse teu cheiro que é só teu. Que me acalma o coração. Esse cheiro a pão quente. A pão quente com manteiga. Esse cheiro à mistura de coisas boas que tens em ti. Uns dias a pão quente outro a bolos acabados de fazer. Daqueles que esperamos arrefecer enquanto nos sentamos na mesa do cozinha à espera que o nosso olhar os arrefeça.

Encho-te de beijos e arranjo desculpas para te cheirar mais e mais. Uma forma de gravar esse cheiro tão teu na minha mente.

Quando acordas à noite cheiras a coisas boas. Cheiras a pão quente com manteiga. E é tão bom.

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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