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Em busca da felicidade

Olá pai. A mãe tá furiosa!

As férias estão a acabar e é preciso organizar a casa. Detesto fazer limpezas. Detesto arrumações. Tenho alergia à lida da casa. Mas como tenho amor ao dinheiro, cá em casa, tratamos nós das limpezas e arrumações.

Sôtor meu rico filho ia passar o dia com os avós. Os velhotes estão cheios de saudades do neto e nós precisávamos de tempo e descanso para arrumar. Sim, alguns dias parece que arrumar seria um descanso.

Tomámos o pequeno almoço, eu fiquei em casa para começar a aspirar camas de cães e o pai saiu com ele.

Tudo estada a correr pelo melhor, estava embalada, já tinha quase uma assoalhada tratada e até tinha arrumado a minha «ala dos sapatos», quando vejo sôtor a entrar pela porta do quarto.

Hipocondríaca como sou a primeira coisa que me ocorreu foi: estava a ter visões. Que o miúdo não estava ali, a minha cabeça estava a vê-lo. A culpa estava a trazer a imagem da coitada da criança que estava a ser entregue aos avós por meio dia para eu limpar sem afazeres extra.

A minha mãe sempre arrumou tudo com os pirralhos em casa.

A minha mãe era uma mulher feita de uma fibra diferente da minha.

Vejo o Nuno entrar e só quando este encolheu os ombros me consciencializei que eram mesmo eles e não o principio de demência.

Eu - Então?

Nuno - Não quis ficar.

Eu - Então?

Nuno - Disse que «papá e mamã em casa, 'Cado casa. Pá chemana mamã e papá tabalhari, 'Cado vô e boís e vó!»

Em resumo: se os pais estão em casa, ele quer estar em casa. Quando forem trabalhar e ganhar tostões aí sim senhor, podem deixar a criatura com os velhotes de sempre e o cão Boris. Afinal de contas alguém tem de dar o lombo para pagar isto tudo.

Eu - Certo.

Nuno - Não ia deixá-lo a chorar.

Eu - Certo. Vamos demorar 10 vezes mais tempo a limpar isto.

Nuno - Eu sei.

Eu - Vou acabar de limpar o quarto e tu ficas a dar conta dele. Senhor Ricardo, você vai portar-se como deve de ser senão vamos ter problemas sérios. Hoje é dia de limpezas, tens de ajudar. Ou então vais para os avós que querem muito brincar contigo.

Sôtor - Tá bem mãezinha!

Sempre que está a ganhar a batalha eu sou a «mãezinha». Também já aprendeu que dizer que se vai comportar compensa, por isso vai sempre portar-se bem.

Ligo o aspirador.

Eu - Sai dai. Não pises isso. Desvia-te do aspirador. Sai que a mãe tem de arrojar a cama. Vai para o teu quarto. Vai para o teu quarto. VAI para o teu quarto. Vai brincar filho. Não puxes o fio. NUUUUUUNO! Leva o menino daqui. Se. Faz. Favor. Grata!

O pai levou-o para o quarto dele para brincar.

Acabei de arrumar o quarto. Passei a «pasta» ao pai. O pai saiu para ir despejar lixo e ir buscar almoço.

Eu - Lembras-te que hoje é para arrumarmos coisas, certo?

Sôtor - Certo.

Eu - A mãe tem de estender a roupa. Tu ficas a brincar no teu quarto.

Sôtor - Anda bincar com o 'Cado.

Eu - A mãe vai estender a roupa. Podes vir para o pé de mim. Mas eu acho melhor que brinques no teu quarto.

Sôtor - Tá bem mãe....

Começo a estender a roupa na varanda e vejo-o chegar com os bonecos. Está a transportar tudo do quarto para o escritório.

Eu - Filho, chega de bonecos. Caso contrário depois temos de voltar a pôr tudo no quarto.

Sôtor - Tá bem mãe...

Decide ir brincar mesmo para a porta que dá acesso à varanda. Impedindo a minha passagem.

Eu - Ricardo sai daí filho, a mãe tem de passar. Ricardo desvia-te. Não te pendures no móvel. Não. Não Não. NÃO. Não te pendures no móvel. Vou contar até 3, desce dai. Obrigada. Larga a bola. Larga. A bola. Não atires isso ao cão. Essa bola é muito pesada filho, não dá para jogar com o Ghandi. Saí dai. Sai. Sai. Sai. Aíiiiiiiiiiii! Não. Não te metas dentro da cama dos cães. Sai. Saí. Não. Sai. Ai. Ai. Aiiiiiiiiii! A mãe vai zangar-se contigo. Ricardo devias ter ficado nos avós, eles tinham tempo para brincar filho. Sai do móvel. Não te pendures aí. Sai. Desvia-te. Desvia....te. Estou a ficar zangada contigo, daqui a nada vais para o teu quarto pensar na vida. Queres?

Pegou no telefone fixo de casa, saiu e pondo o auscultador no ouvido disse:

- Olá pai. A mãe está furiosa!

Só me deu para rir.

Estava a acabar de estender a roupa e ouço:

- Está pesa! Está pesa! Está....pe...sa!

ZABUM!

- Ah, já tá!

Tinha acabado de conseguir tirar uma gaveta inteira do móvel e espalhado os brinquedos todos. Estava satisfeito.

Acabei de estender a roupa.

Suava.

Ele arrancou para a cozinha. Quando lá chego estavam todos os pacotes de natas em cima da mesa da cozinha.

Eu - Que estás a fazer?

Sôtor (com um sorriso vitorioso) - Uma toggi!

Estava a fazer uma torre.

Para isso usava todos os pacotes e latas que estavam à mão na primeira prateleira da dispensa.

Eu - O frasco de polpa de tomate não. Não, o grão não. Não, os tremoços não. Não, o feijão não. Se é vidro é não.

Quando o pai chegou estava Sôtor sentado para comer a sopa. Eu estava a precisar de medicação e a ver o 5º episódio do Ruca.

Só acalmou quando foi dormir a sesta e depois...

...depois, quando acordou, we did all over again...

 

 

 

Estou a criar um mafioso

Descasquei fruta pata todos. 

Ele a ver o Ruca. Tinha pedido companhia para ver os bonecos. Fomos. Uma pausa nas limpezas.

O pai avisou mil vezes para não estar a ver TV em cima do ecrã.

Eu avisei mil vezes para não estar a ver TV em cima do ecrã.

- Vou contar até 3, depois sais daí ou desligo o Ruca. 1, 2, 3. 

O pai desligou.

Foi até à taça com a fruta. Pegou em todos os pedaços e disse ao pai:

- Liga o Ruca.

O pai disse:

- Hei...a fruta é para dividir.

Sôtor a segurar na fruta com toda a força, semicerra os olhos e diz:

- Liga. O. Ruca.

 

Watafaque!

 

Se tudo correr bem sou a próxima dona Dolhores

Íamos sair.
Apanhei-o a mexer na minha carteira:
- O que estás a fazer, pá?
- Pixijo de um catão.
- Queres um cartão para quê?
- Hoje pago eu.

Meu rico menino, que mantenhas esse pensamento e não arranjes uma jagunça a quem pagar coisas. Sempre à mãezinha primeiro.

 

Mãe peçonhenta!

Estávamos a brincar a fazer bolas de sabão. A certa altura dei-lhe um abraço e um beijo. Diz-me:

- Mãe larga o Ricardo.

 

É o principio do fim. 

Saber brincar tem ciência

Decidiu trepar o móvel da sala onde está a TV. O pai tirou-o de lá e ralhou com ele por dois motivos: tinha subido para o móvel; não estava a querer ouvir o pai.

No fim veio ter comigo:

- Mãe, o pai nã sabi bincar!

 

Este pai é de facto uma besta.

Ser avaliado por um puto de 2 anos...

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Sôtor meu rico filho está a demonstrar-se um extraordinário CEO. Gere os elementos desta equipa, seus subordinados com um punho de ferro numa mão e um chicote na outra.

Juro que há momentos em que o meu nome é Isaura e a minha profissão escrava, mas depois lembro-me que eu mando mais do que ele e tento impor a minha vontade.

Dá-se aquele momento a que conhecemos por: birra.

Nesta semana que passou, e após conviver mais horas com as nossas competências sôtor concluiu:

1. A mãe não sabe lavar o cabelo. É uma função de seu pai. Único elemento competente nesse campo.

2. O pai é incapaz no que respeita à secagem pós-banho. Esse é um trabalho onde a mãe brilha.

3. Sua mãe é incompetente no que concerne à preparação de biberão. Devendo ser o pai - independentemente do que está a fazer - que lhe prepare o petisco lácteo. Caso tal não seja possível aceita com enfado a preparação pela mãe, manifestando um «já contava», caso a temperatura não esteja do agrado.

4. O pai deverá ter as mãe tortas, porque a administração do leite é feita pela mãe. Sim, pela mãe. O próprio sabe manusear o equipamento, mas fingir ter perdido a mobilidade nos membros superiores sempre que isso obriga carregar o biberão cheio.

5. O pai não sabe dar a sopa. A mãe é a pessoa mais competente.

6. Nos últimos dias descobrimos que o pai também «na sabi bincar».

 

É assim que se constrói um gestor. Pena que eu tenha de ser uma das cobaias.

Não há moluscos no céu, a dourar o meu caminho...

- Mãe, tá escuro lá fora.

- Pois está. Quando está escuro é porque é...?

- Noite.

- E o que há no céu quando é de noite?

- Estelas e lulas.

 

Colinho de praia

Lembro-me das manhãs de praia passadas com os meus pais. A sacola de palha da minha mãe onde iam as sandes de fiambre e as garrafas de água. No topo as toalhas bem dobradas num retângulo que ocupava toda a boca da sacola e se dependuravam de cada lado. Tão bem dobradas para depois se amarfanharem quando segurava numa alça de cada lado.

Íamos à praia pela manhã. Acordávamos cedo e, ainda antes das nove, já estávamos a arranjar lugar para estender o turco colorido na areia. Esperávamos pelo pai pôr o chapéu de sol, era o trabalho do homem da casa.

- Mãe, posso ir à água? Posso? Posso? Quando é que posso?

Nunca soube estar quieta na toalha. 

Hoje revejo-me no meu filho. É como se revisitasse as minhas memórias, como se me fosse dada a possibilidade de me ver a mim crescer. Tais são as semelhanças...

No Domingo fomos à praia. A maré estava baixa e, entre corridas e desafios, consegui convence-lo a dar saltos nas poças enormes que se faziam à beira mar. Para mim poças, para ele pequenas piscinas com água pelo umbigo.

Orgulho-me de manter viva a criança que tenho em mim. A vida já me bateu bastante, já me arrastou pelos cantos, já me fez quanto baste para fazer de mim uma adulta séria. Mas a criança que sou é mais resistente que a mulher adulta. É, aquilo que hoje se chama de resiliente. Ou talvez seja apenas uma miúda feita de matéria de outro tempo, em que os fracos não tinham lugar e até os moles se endureciam.

Saltei nas poças como se fosse mais pequena que ele. 

- Anda filho, salta! Assim! Vê a mãe!

E ele foi atrás. Saltou. Pulou. Perdeu-se nas gargalhadas mais doces. Aquelas que nem as melodias de Mozart conseguem bater.

No fim não queria ir para casa. Queria correr, saltar nas poças, pular. Mas aceitou. Ia para casa e, quando chegasse, ganhava uma goma.

(com sorte até chegar a casa esquecia-se).

Tirei-lhe uma boa parte da areia numa das poças mais pequenas. Depois peguei-lhe e ele disse-me:

- Ahhh colinho. Enconsta mãe.

Diz-me sempre que melhor que o colo é ir encostadinho ao ombro da mãe. E continuou:

- Ahhh, este colinho de paia!

E eu percebi-o tão bem. O colinho de praia. O abraço depois do cansaço das brincadeiras boas, com a pele a saber a mar; aquele momento em que nos enroscamos na toalha com os olhos pesados e a cabeça limpa, como se nada mais no mundo nos pudesse preocupar.

Adoro estes fins de tarde lentos, onde nos perdemos em abraços e mimos, porque ainda não há vergonha do colinho da mãe.

 

Rico filho de sua mãe #1

Passamos por um autocarro.

 

Sôtor

Mãe tócarro.

 

Eu

Sim é um autocarro.

 

Sôtor

'Ssoas.

 

Eu

Sim leva as pessoas.

 

Sôtor

Pessoas e bebés.

 

Eu

Sim, pessoas e bebés. Já agora velhotes também.

 

Sôtor

'Ssoas, bebés, velotis.

 

As nossas tardes

Passa tão pouco tempo em casa que hoje, com a possibilidade de uma tarde lenta entre os brinquedos espalhados em casa e os bonecos na televisão, me disse: "mamã hoje, casa, quato".

Que é como quem diz: "fica lá aqui a brincar comigo e deixa-te de passeios".

Às vezes racionalizamos tanto tudo. Vemos por todo o lado as hipóteses de passear. Preocupamos-nos tanto em fazer tanto que muitas das vezes nos esquecemos que estas tardes lentas valem semanas.

Não estou no topo dos meus dias alegres. Estou cansada e ressacada dos dias pesados de trabalho. Valem-me os abraços e os mimos deste meu pequeno, grande herói.

 

Arte do dia:

 

Sôtor. Não aos meus olhos, mas segundo as minhas mãos

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Criatividade a jorrar pelas paredes

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O Ruca e a mãe fizeram um arco íris. Nos também.

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----ATENÇÃO!----

Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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