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Em busca da felicidade

Uma música - Uma história #1

 

Quero mais.

Foram as ultimas palavras que ouvi. As ultimas palavras que me disseste antes de sair. As ultimas palavras que escutei da tua boca. Aquela que hoje, cinco anos depois, ainda quero beijar como no primeiro dia que te vi, do outro lado da estrada. Cruzámos o olhar, tu fingiste que não me viste, fingiste que não prendeste o olhar no meu por breves instantes, fizeste de conta que não querias saber. Eu não parei de olhar. Sempre soube bem demais o que queria da vida. E naquele momento, meu amor, naquele momento queria-te a ti. Não sabia que durante anos te ia continuar a querer. Não imaginava que ainda hoje, cinco anos depois te podia continuar a querer.

O sinal ficou verde e esperei que atravessasses. Fui ter contigo.

- Esqueceu-se de travessar. - Disseste.

- Não, não esqueci.

- Tem a certeza.

- Tenho. É que percebi que a minha vida vinha ter comigo a este lado, não faz sentido atravessar para o outro.

Sorriste e contornaste-me. Continuaste a fazer de conta. A fazer de conta que não querias saber.

Segui o caminho a teu lado.

- Como te chamas?

- Não tem coisas para fazer.

- Trata-me por tu. Por favor trata-me por tu. Não tratamos por você o amor da nossa vida.

Riste.

- Porque te ris?

- Achas que não devia?

- Acho que me devias levar a sério. Podes magoar os meus sentimentos.

Nunca desisti de uma conquista. Naquele dia não sabia que eras o amor da minha vida. Já tinha chamado de amor da minha vida a muitas outras mulheres. E eram. Por instantes. Por momentos. Depois perdiam a graça e eu seguia em frente. Elas também.

Contigo foi diferente. Assustaste-me. Ainda me assustas. Sinto medo do que sinto por ti. É forte, desgarrado, incontornável. Faz o meu peito doer, como se uma tonelada estivesse assente mesmo no meu coração.

Quando te aproximas a minha respiração muda, ajusta-se a ti.

Queres mais. Queres um anel, uma festa, um vestido branco, um sim, um para sempre “na saúde e na doença”. E eu quero-te só a ti, na liberdade do descompromisso.

Queres mais. Queres um filho no teu ventre. Depois outro. Queres uma criatura a correr pela casa a chamar por ti. Queres um marido e um pai que carrega às cavalitas um pirralho de cabelo desgrenhado como o meu.

E eu quero-te a ti. Só a ti. Assim, de forma desgarrada e sem prisões. Enquanto o coração quiser e esse, esse quer sempre.

Não queres ir embora e eu não quero que vás. Quero que fiques, mas também quero os meus quereres. A vida quando muda, muda as pessoas. E eu não quero que a vida mude para que tudo fique sempre igual.

Quero chegar a casa para te encontrar com a minha t-shirt vestida, sem roupa interior e o cabelo mal apanhado enquanto fazes qualquer coisa deliciosa para o jantar. Quero amar-te antes e depois do jantar. Quero que a nossa cama possa ser a casa toda e não as assoalhadas que não têm Lego por toda a parte. Quero poder gritar de prazer e não conter a minha satisfação porque posso acordar a princesa do quarto ao lado.

Mas ter uma princesa como tu a correr por toda a parte. Ter uma miniatura de ti podia ser delicioso.

Se bem que depois vai crescer e vai ser linda como tu e eu não vou aguentar quando um cabrão como eu a vier buscar cá a casa.

Era giro ter uma princesa como tu. Talvez uma bailarina.

Estás a mexer com a minha cabeça e ainda não me levantei desta cadeira na cozinha desde que passaste por mim com a tua mala na mão. Levavas o essencial e passavas mais tarde, quando eu não estivesse, para levar o resto.

Não quero que leves o resto. Quero que tragas de volta o que levaste agora. Que te tragas a ti porra.

Queres um anel? Vou-te dar. Escolhe. Queres casar? Casamos amanhã.

Foda-se não vás!

Uma descarga de adrenalina percorre o meu corpo e saldo da cadeira. Acho que foi o primeiro movimento que fiz desde que passaste por mim. Desde que disseste quero mais.

Vou encontrar-te. Vou parar-te. Vou dizer-te o quanto te quero. Queres um filho? Fazemos um agora. Queres uma casa com alpendre? Com piscina? Dois cães e um gato. Um pónei branco talvez. Tudo. Tudo o que quiseres, mas volta.

Desço as escadas em desespero.

És estúpido. Sou estúpido. Tens medo de quê? De deixar de a querer? E se a quiseres para sempre. Adiei cada instante com medo de acordar um dia e já não sentir nada. De me sentir obrigado a estar preso a uma vida que não queria. De gravata posta, a picar o ponto às oito, de carregar a marmita para o micro-ondas, de sair às cinco e desejar que um autocarro me passasse por cima para que a desgraça do meu malfadado destino acabasse com o meu sofrimento.

Mas que sofrimento? Corres para casa para a ver. Pensas nela todos os dias. Não queres saber da Judite da contabilidade. Que é boa e está desejosa para que lhe pegues.

Mas tu não queres. Queres encontra-la em casa, com a tua t-shirt todos os dias.

Quando chego ao fim das escadas vejo-a à porta do prédio, parada, inerte no meio do passeio. A mala ao lado. A cabeça baixa.

Que raio fizeste? És um cabrão de merda!

Podias. Devias ter-lhe dado o mundo e recusaste. Recusaste um anel. Recusaste um sim. Recusaste um filho. Egoísta.

Saio do prédio.

- Dou-te tudo.

Os olhos dela estão vermelhos e carregados de água.

Foste tu que fizeste isto. Devias ser sovado por faze la sofrer.

- Por favor. Dou-te tudo. Queres um anel? Vamos comprar agora. Queres casar? Caso-me hoje contigo. Queres uma festa grande ou pequena? É como quiseres eu apareço desde que prometas que ficas. Que todos os dias te encontro quando chego a casa. Queres um filho? Sobe comigo? Fazemos um filho. Por favor seca essas lágrimas. Diz-me o que posso fazer para que parem de cair.

Pego na mala e estendo-lhe a mão.

Olha para o horizonte.

- Prometes?

- Prometo. O que tu quiseres.

Da-me a mão e subimos juntos.

___________________________

 

A igreja está cheia. Eu a suar como um porco. Não sei se é do fato com colete e tudo neste dia quente de verão se dos nervos. Nunca mais a vejo. Nunca mais digo que sim e pego nela para a levar comigo. Para dizer que é minha.

A musica começa e vejo 2 crianças a lançar pétalas ao chão.

Ela vem aí.

E é a visão mais perfeita.

 

Rubrica "Uma musica – uma história"

 

Decidi começar uma espécie de rubrica. Já tinha tido esta ideia mas não sabia se me organizada a levar a cabo. E não, ainda não sei. Mas vamos a isso, logo se vê no que dá. Afinal e contas ninguém me paga na mesma. Vou escolher musicas e escrever uma história para essa musica, ou, se me ocorrer uma história vou escolher uma musica que acho que lhe fica bem. E assim, uma musica/uma história.

É isto. Não tenho jeito para descrever coisas.

Uma rubrica quinzenal, a começar esta 3ª feira.

 

Não és tu...nem sou eu - XII

 

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(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)  

 

Que raio se passa com esta mulher? Porque carga de água é que o ex-marido ao fim de tanto tempo separados ainda tem a chave da casa dela? Já não moram juntos. Já não são nada um ao outro. Ele tem outra pessoa.

Porque raio nunca teve mais ninguém? OK, ok, tem dois filhos. Mas não são bebés, porra! Será que tem estado à espera que ele volte? Há mulheres assim, vivem obcecadas por um homem e são capazes de viver uma vida inteira em torno deles. Se calhar é o caso dela. Mas se é porque se haveria de ter envolvido comigo? Não tinha que o fazer. Merda. Não sei o que fazer. Não estou para isto de andar a ter brigas a torto e a direito com um otário qualquer porque a mulher com quem vivo não se impõe ao monte de merda que é o pai dos filhos.

Mas pareceu-me tão honesta. Tão genuína. Tão “sem merdas”. Tão diferente do que conheço. Tão “estou-me a borrifar para o que és e o que tens”. Tão frágil.

Medo. Em momentos só vi medo. Medo de ser magoada. Aquele cabrão! Se volta a magoa-la outra vez…não sei.

Pára Rafael! Não tens nada a ver com isso. A não ser que faças parte da vida dela. Queres fazer parte?

Quero.

A voz dentro da minha cabeça. A voz da minha consciência debate-se com o medo que tenho de meter os pés pelas mãos. Conheço a vida com mulheres fúteis e belas. Pouco intelecto e pouco remorso quando lhes digo que já não sinto nada por elas. Nunca senti. Para além de as levar para a cama e gozar o momento. Sim, gostei de algumas. Diverti-me muito. Mas, meu Deus, tenho de ser sincero, nunca me apaixonei por nenhuma. Só atracção. Também nunca magoei nenhuma. As coisas acabavam quando tinham de acabar. Bons momentos para ambos. Sempre.

Agora é diferente. Quero estar. Quero saber da vida dela. Do que quer. Do que gosta. Do que a faz feliz.

Merda Rafael, este não é tu! Tu és o gajo que não quer ter filhos porque não está para a responsabilidade. Ela tem dois, bem crescidos, e filhos de outro gajo que por acaso é um monte de esterco. A probabilidade de terem genes iguais é grande. Vão-te foder a vida toda! Aquela que tu conheces como boa! Levantas-te às horas que queres, vais jantar onde te apetece, na tua vida não há programas para menores de 18.

Merda, merda, o que é que eu faço, bato ou não bato!?

Ando às voltas sobre mim mesmo neste hall, não sei o que fazer.

- Dr.? Dr. Rafael?

Merda! É tudo o que me faltava agora. Uma paciente. Com a sorte que tenho é uma das alucinadas.

- Sim.

- Bem me pareceu que era o Dr. Não se lembra de mim?

Uma chanfrada. Estava-se mesmo a ver. Eu atendo dezenas de pacientes por dia minha senhora. Como que raio me havia de lembrar de si?

- Confesso que não. Peço desculpa. - digo.

- Não tem mal. O que o trás aqui?

- Venho ver uma pessoa…amiga.

Olha de relance para a porta da casa da Margarida e faz um olhar suspeito.

- Ahhh. Não sei se a vizinha está. Sabe, é que tem uma vida complicada. Com os filhos e o ex-marido e tudo. Diz que ele a deixou porque conheceu uma mais nova. Coitada nunca recuperou. Devia gostar mesmo dele. E depois, duas crianças, não é fácil.

Uma cusca! Foda-se. Vá-se embora!

Sorrio para não parecer mal educado. A porra da educação da minha mãe sempre a travar-me de dizer às pessoas quando estão a ser umas idiotas.

- Sabe Dr. Pedro, ainda bem que o vejo!

Foda-se! Porquê?!

- Ah sim?! Então porquê?

- Tenho andado aqui com uma dor no peito.

- Pode ser só mau jeito.

- Sabe lá o Dr. Nem me examinou! Ora veja.

Não me quero acreditar. A mulher está a começar a tirar a blusa no meio da escada. Esta não é chanfrada. Esta é ala-psiquiátrica em atraso. Ó mulher tape isso!

- Não tenho aqui nada com que a examinar. Por favor, volte a vestir-se, marque consulta. Atendo-a com urgência. Ou se quiser aconselho-a a um colega.

Pega na minha mão e põe-ma em cima da mama direita.

- Ó Dr. com a experiencia que tem estou certa de que conseguirá pelo menos perceber se os meus batimentos cardíacos estão bem. Acho-os acelerados.

OK, mais uma sedutora. Filha, tens ideia das gajas boas que vejo todos os dias? Querida, tenho dias em que a minha vida são mamas consulta sim, consulta não. Chego ao fim do dia com um enjoo tal que sou capaz de pedir à que tenho…tinha….em casa para guardar as dela.

- A sério que não. - tento livrar-me dela.

Puxo a mão e a tipa agarra-a com mais força.

- Dr. com alguma boa vontade…

Ouve-se a porta a abrir.

-Vá lá meninos. Venham lá para irmos comprar qualquer coisa para o almoço. Já viram as horas?!

Quando levanta a cabeça cruzamos o olhar. Ficamos estáticos durante mais de um minuto. Acho que a matar saudades de um olhar que nos faltava.

- Olá.

- Olá.

Ela olha em volta. Olha para si mesma e toca no cabelo. Como quem quer perceber se está mesmo tão despenteada quanto se lembrava de estar.

Eu estava esquecido que tinha a minha mão sobre a mama da vizinha.

Merda!

- Desculpe. Não posso mesmo atende-la aqui a meio do corredor do prédio.

- Mas... - ainda insiste a chanfrada.

- Acha que é normal? Se se anda a sentir menos bem deve consultar um médico. No sitio certo. E vista-se! Farto de ver mamas estou eu. E melhores que as suas.

Pus de lado a educação da minha mãe. Livrei-me da louca e fui ter com ela.

Eu salvo-te e tu salvas-me a mim deste momento constrangedor. Deste silencio incomodamente delicioso.

- Olha o namorado da mãe.

A miúda é gira. Pequenina, desbocada e sempre de tutu cor de rosa.

- Gosto da tua filha. – digo-lhe. – É muito perspicaz.

- Achas? Desbocada, talvez…

- Perspicaz. Se tu deixares. Perspicaz.

Sorri.

- Íamos buscar alguma coisa para o almoço.

- Posso ir convosco.

Aceita. Por favor aceita.

- Acho que sim.

- Óptimo.

Suspiro.

- Mas carregas os sacos.

- OK.

Nem sabes a felicidade com que vou carregar esses sacos.

Caminhamos para o elevador. Os nossos braços tocam-se numa tensão saborosa de quem quer tocar mais mas ainda não pode.

O elevador chega. Entramos e carrego no zero.

Dentro do elevador dá-me a mão.

Sorrio por dentro e por fora.

Uma mão pequena aperta a mão que tenho vazia.

- Tu vais ficar. – diz-me a pequena de tutu.

- A nossa vida é assim. Não há mais do que isto no passar nos nossos dias.

- A nossa vida vai ser óptima, mesmo assim. Nestes dias que não parecem ser especiais. Nestes dias que fazem da vida uma coisa que vale a pena viver.

_______________________________________________________________

 

Para quem leu a história e gostou faço um desafio. Clicar em play no video, fechar os olhos e ouvir a musica até ao fim. Creio que consigam ver a história que termina hoje a desenrolar-se. Ou pelo menos uma parte dela.

 

 

Não és tu...nem sou eu - XI

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado) 

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Acordo a sentir o seu braço em torno de mim, ajeito a mão para lhe tocar. Não está. Rodo o meu corpo para encontrar os lençóis vazios. Não está aqui mais ninguém. Só eu. Eu e a fantasia de um homem que podia ser perfeito mas que eu mandei sair da minha vida.

A minha vida louca. A minha vida de quem não quer saber de si. A minha vida em que o único adulto mais ao menos são vou sendo eu. A minha vida sem carinho. Sem o abraço forte de alguém que me ama ao final do dia. Um abraço que sem palavras me diz que tudo vai correr bem. Um corpo quente para me enrolar nos dias frios. Depois dos sonhos maus.

Uma respiração que incomoda. O incomodo delicioso de quem está perto.

Mandaste-o embora. Deu a cara por ti.

Ou será que queria apenas sair daqui?

Não corrigiu a princesa quando ela o chamou de teu namorado.

- Não pode ser meu namorado. - Digo em voz alta. Como quem não para os seus pensamentos.

Rodo vezes sem conta na cama. Queria que estivesses aqui. O teu toque. Tão carinhoso. Não conhecia um toque tão carinhoso. Com o Pedro foi sempre tudo tão, tão, desapegado. Hoje parece que foi sempre tudo tão distante.

Foi por isso que não sentimos a falta um do outro quando os miúdos nasceram. Foi por isso que para mim era mais fácil ter uma dor de cabeça. Não lhe sentia a falta. Foi por isso. A culpa foi tão dele quanto minha. Ele queria uma vida de miúdo. Eu queria um conto de fadas. O príncipe a cavalo. O que pergunta, o que quer saber, o que acaricia, o que cuida, o que se declara. Que abraça, beija, toca, com a vontade de quem quer estar. Com a saudade de quem sofre pelo momento que passa e já não volta.

Quem ama com tempo.

Estendo a mão e percebo que desta vez tenho de ser eu. Tenho de seguir atrás do que quero.

Levanto-me, tomo um banho. Visto-me. Escolho as roupas mais coçadas que tenho. Esqueço o perfume de propósito.

- Deixem a televisão. Vamos sair.

- Boa.

- Não quero.

- Queres sim. Por uma vez na vida vais fazer o que a mãe te está a dizer. E já.

A pequena risse. O mais velho põe as trombas e vai buscar os casacos.

 

Estaciono à porta do Hospital. Está de banco de certeza. Tem de estar.

 

- Boa tarde, preciso falar com o Dr. Rafael Mendes.

- Qual é o assunto minha senhora.

Merda! Qual é o assunto. O assunto é que eu sou uma idiota de merda. Pode ser esse o assunto. O assunto? O assunto? Pensa porra!

- Sou eu que estou doentinha. Tivemos mesmo de vir assim de pijama. A mamã está muito nervosa.

- Compreendo.

Faz uma chamada. Regista os nossos dados e pede que aguarde numa sala.

Não está ninguém. Graças a Deus. A ultima coisa que precisava neste momento era de vir enfiar os miúdos no meio de um hospital cheio de gente acamada e moribunda. Não seria propriamente uma memoria muito feliz...sei que é a vida. Que há pessoas a sofrer, só podia era passar bem sem ter os meus filhos a ver pessoas acamadas por todo o lado.

- Maria Clara! - é ele. Está a chamar a pequena.

- Somos nós mamã.

Entramos no consultório. Aperta-me a mão com a distância de um paciente que nunca viu antes na vida. Faz uma festa na cabeça da Maria Clara e senta-se atrás da secretária.

Magoa-me a distância.

Mereço.

- Então o que te trás por cá minha querida. A mãe está nervosa, disseram-me. Queres explicar tu.

- Tenho uma dor forte na garganta.

Eu estou branca e capaz de cair. De onde raio saiu esta coisa pequenina que tem mais coragem que eu. Sorri para mim. Ele observa-a.

- Humm. Tens aqui uma chatice na garganta que é mesmo muito chata. Vou-te dar aqui um medicamente que cura já isso. - tira um chupa de dentro da gaveta - e outro para o mano. Diz que se comeres em parceria com alguém ficas melhor mais depressa.

- Boa!

- Agora esperas aqui fora para o Dr.. falar com a mamã sobre a tua garganta, OK?

Acena que sim e pisca-me o olho a sair do consultório.

Quem é esta pessoa pequenina?

Rio-me para ela.

- O que é que a trás aqui na verdade?

- A trás aqui...?

- Sim. Não trato as minhas pacientes por tu.

- Paciente...

Eu nunca fui tua paciente.

- Eu nunca fui tua paciente.

- Sua...

- O quê?

- Sua. Não somos próximos.

- Foda-se. És um idiota. És um idiota como todos os outros. Tu és a razão pela qual há três anos me mantenho sozinha. E estou-me a lixar para as tuas merdas. Não trato por você pessoas que já dormiram na minha cama. E tu, quer queiras quer não, dormiste.

- Com essa pluralidade toda parece que já teve alguma rodagem a tua cama. Algum movimento para quem não tem ninguém há mais de três anos. Se calhar o problema és tu. Também enxotas-te os outros para fora?

Eu sabia que isto ia acontecer. As conversas são sempre iguais. Têm sempre de dar a volta e a culpa senta-se sempre ao meu colo. Filha da puta da culpa. Sempre às minhas costas. Como uma pedra. Porquê? Porque raio me calo? Porque raio ouço e calo? Desta vez não me vou calar. Estou cansada. Se não me quer, não me quer. Que tenho eu a perder. A ele? Ele está perdido. Não é por me saber os sentimentos que o perco mais. É certo que também não o ganho. Mas liberto-os. Assim fazem parte do mundo. Da minha vida. Não ficam guardados num recanto empoeirado do meu ser.

- Apaixonei-me por ti. Não sei porquê. Não sei como. Não é suposto apaixonarmo-nos por alguém que nunca vimos antes. Mas aconteceu. Esqueci. Guardei. Paixões platónicas de adolescente. Sentimentos para alimentar os sonhos. Ias ser o príncipe dos meus sonhos. Quando era miúda tinha príncipes para os meus sonhos. Sonhava que íamos ser felizes. Que nos amávamos, que nos entendíamos, que tudo era bonito. Depois de o Pedro me ter deixado com três filhos para criar perdi os meus príncipes. Perdi o meu marido. Tinha esquecido os príncipes no dia em que lhe disse que sim. Sabia que ele não era um príncipe. Mas não podemos esperar pelos príncipes para sempre. Senão estamos condenadas à solidão. Irónico. É o que me aconteceu. Condenada à solidão.

Apaixonei-me e sabia que não podia. A minha cabeça de mulher adulta. De mãe de dois. De tipa que já soube o que era ser uma mulher interessante sabia que não havia nada para acontecer. Mas nos meus sonhos. Nos meus sonhos eu podia ser interessante para ti.

Depois, do nada, também me querias. O sonho misturou-se com a realidade. É que nos sonhos não há filhos de casamentos anteriores. Não há ex-maridos trastes. Não há pneu na barriga nem celulite nas pernas. Há uma mulher atraente, sempre composta, com um corpo de sonho. Culta. Capaz. Impossível de ignorar.

Depois, também me querias e eu não soube o que fazer com esse querer.

Quando que ti. Assim, perfeito. Perdido no meio do meu mundo de caos...Quando te vi ali, na minha sala desarrumada. De forma tão diferente do que eu tinha sonhado. Quando te vi ali percebi que te ias afastar. Preferi afastar-te primeiro. Pensei que me custasse menos assim.

Mas depois o sono custou a chegar à noite e a minha mão procurou a tua. Acordei a sentir o abraço que só tive uma vez.

Sabia que tinha de te dizer o que sinto. Apesar de estar a ser escorraçada.

Mas tens razão.

Aprendi alguma coisa contigo. A não fugir do que quero. Mesmo que não seja exactamente igual ao meu sonho. A felicidade pode ter várias formas. Não te incomodo mais.

Sinto o silêncio incomodo. Mas desta vez não é um incomodo saboroso. É o desajuste de alguém que acabou de abrir o seu coração e alguém que só quer que essa pessoa saia da sua vida.

O que estará a pensar?

Não sei. Já não me diz respeito.

- Se isso conta para alguma coisa. Nunca te vou esquecer.

Saio do consultório com as lágrimas a formarem-se nos meus olhos. Respiro fundo e dou a mão aos meus dois filhos. Metade do meu coração em cada mão.

A vida pode ser boa assim. Comigo e convosco.

Não és tu...nem sou eu - X

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(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)   

 

Desmaiei mesmo.

Quando acordo vejo o rosto dele a acariciar o meu.

- Está tudo bem.

- Não sei, é melhor ir ao médico.

Estaca a olhar para mim com um sorriso de gozo carinhoso. A ironia. Não preciso de ir ao médico, o médico está ali.

- Não precisas mamã. Está aqui um. - diz a Maria Clara divertida.

- A mamã tem um namorado médico. E giro!

Diz enquanto dança pela sala.

- Maria Clara, acalma-te. O Rafael é apenas amigo da mamã. - digo enquanto olho para ele.

Fica descansado. Não és meu namorado. Não vou dizer isso aos sete ventos. Não vou andar para aí a dizer o que não é verdade. Não vou pedir o que não tens que me dar. Sei que neste momento só queres fugir desta casa de loucos. Queres fugir de mim. Da minha filha que anda com tutu, mesmo nunca tendo passado uma hora numa aula de ballet. Do meu filho que não quer saber e que mesmo com a mãe desmaiada esteve preocupado com o nível do jogo na playstation.

Sei que queres ver esta porcaria toda pelas costas.

Baixa a cabeça. Não sei se resignado se descansado.

- Se calhar é melhor ir.

- Foi a decisão mais sensata que teve hoje.

O traste a falar de sensatez.

- Não Pedro, sensato era tu ires trabalhar. Não era?! Sensato era tu pegares nesse teu lombo metediço e o levares para junto da tua namorada, jovem e fresca. Sensato...

- A Joana deixou o pai.

A minha princesa desbocada. Que apesar das minhas chamadas de atenção ainda rodopia na sala com o seu tutu.

- Magoaste-me com o que disseste.

Magoei-o. Eu, magoei-o.

Fodas-se. É um traste.

- Eu magoei-te? Eu, magoei-te?! De um dia para o outro pegaste nas tuas coisas e saíste. Deixaste-me. E sabes que mais? Deixaste-nos. Mas tudo bem. Querias a tua vida. Querias os teus dias melhores. Maiores. Mais para ti. Tinhas conhecido alguém que não te mandava apanhar as toalhas do chão. Alguém que não discutia contigo porque jogavas futebol de salão com os teus amigos 5 dias da semana, em vez de vires jantar com a família. Já agora, quantas dessas vezes foste ter com a tua amante florida? A companheira que se fartou de ti agora?

- Margarida, tem cal...

- Cala-te! Desta vez falo eu. Quem pensas que és? Três anos. TRÊS ANOS! Esse é o tempo em que não tenho ninguém. Muitos dos dias nem a mim. Já sei que me vais dizer que tenho os meus filhos. E tenho. Mas a vida não pode ser só os nossos filhos. E eu? Eu sou alguém. Três anos. Há três anos que não sei o que é ter um companheiro. Três anos. Cinco anos. Seis anos. Há quanto tempo já não me vias Pedro? Há muito. Há tanto tempo quanto passei a ser a mãe dos teus filhos. Passei a perder a piada. Arquei com todas as responsabilidades e tu ficaste com o quê? Com o divertimento. Três anos que faço tudo sozinha. Três anos. Cinco anos. Seis anos. Que já não sujas cá em casa, há três. Mas não ajudas há muito mais. Tenho criado os meus filhos sozinha.

Estendo-lhe a mão aberta.

- Dá-me. Dá-me as chaves de minha casa. Já não moras cá. Não te quero a entrar e a sair a torto e a direito.

- Mas.

- NADA DE MEIO MAS. Dá-me as chaves e não me faças ficar mais irritada. E sabes que mais, não és tu - meu querido - nem sou eu. Fomos os dois. Cometemos o erro de fingir estar apaixonados.

Entrega-me as chaves que ponho no bolso.

- Agora sai e sai certo de uma coisa, no próximo fim de semana que seja teu. Vai ser todo teu. Eu também tenho vida. E essa vida é para ser respeitada. Agora sai. Depressa.

Ele vira costas. Nem sei como consegui dizer tudo isto. Quem é esta mulher? Não estou certa de estar a respirar.

- Margarida , eu acho que fizeste muito be...

- Tu também.

Está incrédulo.

- Eu também?

- Sai.

- Tens a certeza.

- Tenho. Sai. Quero ficar com os meus filhos. Se me queres vais entender. Falamos depois. Falamos de tudo. De tudo o que quiseres. Teremos os nossos momentos. Se não quiseres não ligues. Não contactes. Não te vou guardar rancor. Entendo. Mas agora sai.

Saiu.

Inspiro fundo e fito o teto.

Recompõe-te. O que tiver de ser será. Disso podes estar certa.

E o dia segue como se nada tivesse acontecido.

Não és tu...nem sou eu - IX

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(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)  

 

Quando acordo estranho a respiração de outra pessoa no meu quarto. Já me tinha desabituado a dormir com os sons de outra pessoa. De outro adulto. Já me tinha desabituado há muito tempo de dormir dentro de um abraço. De sentir o calor de outra pessoa perto de mim. Enroscado em mim. Claro que perco a conta às noites em que acabo com companhia. Um sonho mau. Uma insónia. A preocupação do jogo do dia seguinte. Os testes da escola ou os filmes que o mais velho põe na televisão sem eu autorizar e que assustam a mais pequena. Tem a mania que é forte e não quer ceder às insistências do irmão, de que ela é mais nova, de que se calhar tem medo. Ela não tem medo.

Ainda dorme. Dorme profundamente. Um sono descansado. Invejo-lhe o sono. Não consigo dormir assim na minha própria casa. Ele consegue dormir tranquilamente na casa de uma desconhecida. Afinal de contas é isso que sou. Uma desconhecida. 

Toco-lhe ao de leve. Não o quero acordar. Quero vê-lo. Apreciar este momento. Toco-lhe no braço e mantenho-me quase imóvel. Controlo a minha respiração. Confesso que queria rodar para o olhar, para lhe ver melhor o rosto enquanto dorme. Mas posso acorda-lo. E depois de acordar ela vai perceber que está na hora de ir. Que não está aqui a fazer nada. Vai olhar em volta, ver o quarto fracamente arrumado. As coisas de duas crianças espalhadas por todas as assoalhadas - e o meu quarto não é excepção - vai perceber que não quer estar no meio disto. Desta confusão. Que pode ter muito melhor. Que tudo aconteceu por um impulso. Que aconteceu com o consentimento dos dois. Que somos adultos. Vai dizer que ambos sabemos que não passa disto e que o melhor é seguir cada um com a sua vida. Vai rir, se lhe disser de contrário.

Mantenho-me aninhada nos seus braços. No seu abraço e sorrio. Sorrio porque aconteceu. Sorrio porque me sinto uma miúda. Sorrio porque também quis. Sorrio porque afasto da minha cabeça os pensamentos da mulher adulta que só sabe ser mãe e deixo-me estar. Não quero adormecer. Quero ficar aqui acordada a saborear este momento.

Um barulho na porta sobressalta-me deste sonho acordado. Deste sonho delicioso.

- Vão lá ver onde está a mãe.

Foda-se! É a vós do Pedro! Que horas são! Quase 11 da manhã! Merda!

O Rafael começa a acordar. Espreguiçasse calmamente e esfrega a cara.

- O que foi? Pareces assustada!

Depressa se apercebe que estão outras vozes em casa.

- Pensava que os miúdos estavam com o pai?!

- E estão...quer dizer, estavam. - digo atabalhoadamente enquanto me levanto da cama meio enrolada no lençol. Totalmente desesperada por uma peça de roupa grande e larga que me tape da cabeça aos pés.

E não, não estou preocupada que os meus filhos me vejam nua. Não há grandes surpresas cá em casa. É lógico que não ando de um lado para o outro nua, como se estivesse um calor de 40 graus lá fora e eu cheia de afrontamentos. Mas numa casa em que só existe um adulto. Em que às vezes há gritos porque caíram, porque bateram contra qualquer coisa. Porque bateram um no outro. Porque o coração de uma mãe não responde à racionalidade, responde ao impulso de salvar a sua cria do mal, sempre, mesmo que isso signifique fazer figura de idiota. Por todos esses motivos às vezes não é possível estar sempre composta. Por esses e por todas as vezes que entram de rompante no meu quarto. Por todas as vezes em que depois os enxoto.

- Maaaaãe!? - é a Maria Clara.

- Depressa, vai para a casa de banho.

- Os teus filhos não estavam com o pai?

Estaca à porta da casa de banho. Naturalmente quer explicações por estar a ser enfiado numa casa de banho. Por ter acordado em tamanho alvoroço. Por ter adormecido na cama de uma mulher independente e estar a acordar no quarto de uma mãe tresloucada.

Paro. Tenho de lhe responder. Entre o pânico de me entrarem pela porta do quarto a dentro e a necessidade de explicar a este homem maravilhoso - que daqui a nada vai querer fugir a sete pés destas quatro paredes - que os meus filhos nunca me conheceram com ninguém para além do pai deles. Que esse traste continua a ter chave da minha casa e que quando trás os filhos a casa entra como se nunca tivesse saído de cá.

- Estavam com o pai e ele deve - por um motivo que ainda vou ficar a saber - tê-los trazido mais cedo porque tem alguma coisa muito importante para fazer esta tarde.

Não sei se parece furioso se apenas impaciente.

- Não exiges que respeite o teu espaço?!

- Maaaaãe.

- É a minha filha, por favor, entra para a casa de banho, já falo contigo.

- Mas falas mesmo.

Fecho a porta mesmo a tempo de o esconder desta princesa que me entra de tutu pelo quarto adentro.

- Olá filha, chegaram mais cedo.

- Sim, o papá tem de ir trabalhar.

Certo. Filho da puta. Eu sei bem o trabalho que ele tem para fazer. O traste.

Chego à sala e está a examinar os 2 copos de vinho vazios que tenho em cima da mesa da sala.

- Parece que tiveste companhia.

Que raio tens tu que ver com isso?!

- E teve.

Quando olho para trás vejo o Rafael. Muito naturalmente a responder ao meu ex-marido. Não sei gerir isto. Não sei gerir isto. Não sei gerir isto.

- Quem é este homem, Margarida? - pergunta-me o traste, como se me tivesse apanhado com um amante em casa. Percebo que ainda pensa que lhe pertenço.

- Rafael Mendes, como está?

- Pedro, o marido.

Ex-marido! Traste!

- Marido? Pensei que era ex-marido. - Faz marcar o ex. e eu continuo congelada no meu sitio. Como se tudo isto estivesse a acontecer em câmara lenta.

- Uma coisa ou outra tanto faz. Sou o pai dos filhos. Estas duas crianças que estão certamente muito confusas com o facto de estar um homem estranho na casa delas.

- Não, não estamos pai. - responde a minha princesa - é o médico namorado da mãe.

Olho para a Maria Clara e bocejo um ah!? com a boca. Como raio sabe ela que ele é médico? E que raio de conversa é esta de namorado?

- Li os teus e-mails, mãe. - diz ela enquanto inocentemente encolhe os ombros.

Entro em pânico e perco a força nas pernas. Vou desmaiar.

Não és tu...nem sou eu - VIII

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(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado) 

 

- Que idade têm os teus filhos?

Foi a primeira pergunta que me fez para quebrar o silêncio incomodamente agradável que sentia depois de me ver sentada no banco de pendura do carro dele. Foi tudo demasiado rápido e não sei bem nem como nem porquê a clara acabou a levar a casa a Barbara. Sim, a esfinge tem nome. E eu acabei a ter boleia do Rafael. Sim, Rafael. Já não é "o médico".

Estranho estar a ser tratada por tu. Por breves instantes custa-me a perceber que é comigo. Com quem mais havia de ser não há mais ninguém no carro. Como vim aqui parar?

- Têm 9 e 6.

Foi só o que respondi sem tirar os olhos da janela. Sinto-me intimidada de lhe enfrentar o olhar. Tenho medo que perceba que quero que goste de mim. Merda, quero que goste de mim. Não quero, não posso querer. Sou uma tipa simples, com um trabalho banal que qualquer outra pessoa pode fazer. Sou uma gaja cansada, desleixada, que não cuida de si. Sou mãe. Cuido dos meus filhos. Não posso gostar de um homem assim. Não posso gostar de quem não se pode enquadrar na minha vida. Não posso gostar porque me vou magoar, porque me vou desiludir. Porque se perceber que gosto vai rir. Vai dizer “entendeste tudo mal, és boa pessoas, mas”. Não posso gostar. Não quero gostar. Estou a gostar. Merda, concentra-te na janela. Daqui a nada estás em casa.

- Já percebi que não falas muito. Mas pareceste-me mais à vontade quando ainda eramos quatro. Estou enganado?

Não, não estás. Quando eramos quatro, não estava só tu e eu. Quando estávamos quatro podíamos olhar em varias direções sem ser estranho. Quando eramos quatro podia olhar para ti sem medo que percebesses que estava a olhar para ti. Quando eramos quatro não vidravas os teus olhos nos meus. Quando estavam mais duas pessoas não me sentia fraquejar.

- Até falo. Desde que tenha assunto, claro.

- E agora não tens?

- É estranho ouvi-lo tratar-me por tu.

- Trata-me por tu também. Agora não somos estranhos.

- Ainda somos.

- Não sinto dessa forma.

Então como sentes?

Não digo nada

- Sentes-me assim…distante?

- Não.

Sinto-te assustadoramente próximo. A ver-me assustadoramente bem.

Percorro mais uma vez o meu ser. A minha triste figura.

Devia perguntar-lhe o que quer com esta conversa. Já não sou uma menina. Sou uma mulher crescida. Não tenho tempo para estas coisas. Para estas brincadeiras. Não tenho espaço para mais mágoa. Entendeste?

- Tu és uma pessoa especial.

- E o que é que o…o que é que te leva a dizer isso. Não me conheces para saber isso.

- Conheço.

- Conheces?

Fito-o. Estou curiosa de saber o que tem para dizer.

Os nossos olhos cruzam. Ele vira o rosto para a frente, faz pisca e encosta o carro. Desliga-o e vira-se para mim.

Sinto a menina de 15 anos que já habitou este corpo. A adrenalina percorre cada centímetro do meu corpo. Porque é que encostou o carro? Porque é que está a olhar para mim? Liga o carro e vamos. Estou paralisada e não consigo desprender os meus olhos dos dele. Num silêncio incomodamente saboroso. Um momento em que o mundo parece estar parado.

- Tu és uma pessoa especial. Percebi isso desde o dia em que te vi. Tens qualquer coisa de especial. Qualquer coisa que me atraí. Não sei explicar porque te pedi que me contactasses para me dizeres como estava a alucinada da tua amiga. Sei que queria voltar a saber de ti. Nunca pedi isso antes. A louca da tua amiga esteve a importunar-me e ainda bem. Foi a forma que tive, a justificação que tive, para voltar a contactar contigo. Eu não sabia, não o fiz consciente por isso fui bruto.

- Não estou a perceber. – interrompo-o para dizer. E não estou. Não faz sentido o que diz com o que escreveu antes.

- Assustei-me com o que senti. De alguma forma fui respondendo com o que a minha cabeça manda. Ela que me protege, que evita que me magoe uma e outra vez. Não precisava de ter ido ter contigo hoje. Para quê? Quantas vezes achas que encontro pacientes meus? Não os abordo na rua! Abordei-te a ti. Quando dei por mim estava a falar contido. Como um zombie guiado por uma qualquer força. – esfrega a cara – eu também não sei o que se passa comigo. Sei que gosto de ti. Só isso.

- Não podes gostar de mim.

- Porquê? Porque não és uma mulher igual à minha irmã? Sim, eu percebi que ficaste incomodada quando ela chegou. Ficaste incomodada porque pensaste que era minha namorada. Porque te sentiste inferior. Vi no teu olhar feliz quando me chamou de mano. Vais negar que ficaste contente quando a percebeste minha irmã. Não companheira de cama.

Mas que raio. Está a ler-me. Mas como? Como?

- Eu não posso gostar de ti.

- Porquê?

- Porque. Só isso.

- Não vou aceitar essa resposta.

Devias. Era muito mais fácil de a aceitasses. Se me deixasses em casa e me esquecesses. Se ficasses apenas assim, perfeito no meu pensamento, perfeito para preencher os meus sonhos, com toda a tua perfeição. É que eu tenho defeitos, e dentro de poucos dias a adrenalina do principio vai dissipar-se e vais começar a percebe-los. A vê-los pelo que são, defeitos. Sim, porque no principio os defeitos são as maiores virtudes. É gira a forma como me chateio contigo porque a toalha ficou no chão. Discutimos de forma sedutora e resolvemos o nosso desentendimento na cama. Mas depois a toalha vai continuar no chão e eu vou ficar mais chateada. A sedução vai dissipar-se e eu vou só ser a chata que te melga a cabeça por coisas simples que não salvam a vida a ninguém. E tu. Tu, homem perfeito dos meus sonhos, tu. Tu salvas vidas o dia todo.

E depois eu vou começar a ver os teus defeitos. Que afinal não és o homem dos meus sonhos. Que não dizes sempre as coisas perfeitas e os momentos de silêncio deliciosamente incómodos vão começar as escassear. Os silêncios correspondem aos momentos em que estamos demasiado chateados um com o outro para nos dirigirmos palavra.

- Não posso porque não me posso magoar.

- Quem disse que vou.

- A vida.

A vida ensinou-me que nos fartamos um do outro. Que um dia vais conhecer uma enfermeira inteligente. Uma que te ajuda a salvar vidas todos os dias. Uma que vai ao ginásio à tarde. Uma enfermeira linda e descomplicada. Vais encontra-la e perceber que é tudo o que querias para a tua vida.

- A vida pode ser boa.

- Mas pode ser má também.

- Porque não te dás uma oportunidade.

- Dou a mim, não dou a ti.

Afasta-se incrédulo.

Liga o carro e arranca. Só para à porta da minha casa.

Digo-lhe boa noite, responde de volta com a cabeça baixa e não cruza o olhar com o meu. Saio e caminho para a porta.

Sou uma merda!

Estou à procura das chaves. Sei que estou mas não as encontro. A minha mão perdeu a sensibilidade e o meu peito ficou dentro do carro.

Sinto-o atrás de mim e volto-me.

- Porquê?

- Por causa da enfermeira.

- Da enfermeira?!

- Sim, a enfermeira jovem, fresca, feliz e descomplicada. A que vais encontrar um dia, a que vai estar contigo a salvar vidas todo o dia.

Perscruta o horizonte e inspira fundo, como quem tenta libertar a frustração e ao mesmo tempo encontra o alivio no que acabou de ouvir.

- És uma idiota.

Sem que consiga dizer uma palavra acaricia-me o rosto com a mão suave. Aproxima-se para me beijar. Primeiro de forma leve, mal sinto os seus lábios. Num toque que não se toca. Numa pele que se sente sem estar junto. Intensifica-se com o passar dos segundos, dos minutos. O seu sabor, o seu toque. A saudade que tinha de ser mulher. E as borboletas na barriga, como uma menina de 15 anos que morou neste corpo há muito tempo.

Não és tu...nem sou eu - VII

 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

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Não tenho a certeza de ter visto o filme todo. Tentei concentrar-me mas os olhos tendiam a cair para as duas cadeiras que estavam pouco abaixo do lugar em que estava sentada. Os gestos, os carinhos, os toques aqui e ali, o braço por cima, as cabeças encostadas. A espaços o ocasional rodar de cabeça, certamente de quem se sente observado. O cruzar de olhares, quando rapidamente tendo fingir que só estou a olhar em frente mas parece que estava a olhar para ele.

Eu a sentir-me observada pela minha grande amiga. Satisfeita com o meu incomodo. Deliciada. Acho que foi o filme mais divertido que viu.

 

O filme acaba finalmente e tenho as pernas doridas e estar permanentemente em tensão. Só queria sair dali.

A Clara começa a levantar-se para sair e eu seguro-lhe no braço. Quero esperar que eles saiam primeiro. Não quero que me perguntem se gostei do filme. Não quero cruzar olhares. Só quero ir para casa e lidar com os meus stresses conhecidos do dia a dia. Já não tenho estofo para isto. Sinto-me incomodada.

- O que foi, o filme acabou, não vamos ficar aqui! – diz-me desafiadora, sabe bem porque a segurei.

- Senta-se e está calada. Sê minha amiga uma vez na puta da vida!

Vejo-a chocada com a minha assertividade. Normalmente leva sempre a melhor. Faço-lhe as vontades. Não porque acho que tenha razão. Mas porque normalmente o que diz da boca para fora não tem impacto na minha vida. Mas agora vai servir para me incomodar outra vez. E eu não quero.

Quando percebo que se estão a levantar e olham para nós, finjo-me distraída com o telemóvel. Assim não tenho de acenar sequer, e também fica a ideia de que a minha vida não é totalmente desprovida de sentido. Tem bastante sentido e eu tenho pessoas que querem falar comigo. Para além dos meus filhos. E do idiota do meu ex-marido.

Vou olhando para o ecrã enquanto mexo sem grande sentido no telemóvel. Percebo que em vez de descer as escadas estão a subir. Percebo que olham para nós e que a Clara sorri na sua direcção. Mas que merda!

- Boa tarde, como está?

Dirige-se a Clara.

- Bem, e o doutor. Diria que muito bem. Pelo menos bem acompanhado está!

Clara! É exasperante.

- Sim. Estou. Uma das mulheres mais bonitas do mundo. Não acha, Margarida?

Pisa! Mais um bocadinho. E sim, é Margarida!

Aceno que sim.

Sim para tudo amigo. A gaja é boa como o milho e sim é esse o meu nome. Mas eu gostava mais que fosse Gisele!

- Bom, nós temos de ir andando.

- Nós também.

Começamos a andar para a porta e não sei bem como mas em fracções de segundo a Clara está a falar com a esfinge e eu fui largada ao lado do médico.

Suspiro, cruzo os braços e olho para a parede como quem admira uma montra.

- Gostou do filme?

- Sim. E o doutor?

- Rafael, por favor.

- É esquisito.

- O meu nome.

- Trata-lo pelo seu nome.

- Porquê?

- Porque você é “o” doutor. O tipo que nos passa remédios. Não o compincha que tratamos pelo primeiro nome, nem o vizinho do primeiro direito.

- Por acaso moro num primeiro direito, logo sou vizinho do primeiro direito de alguém.

Respiro fundo. Está a tentar ser engraçadinho e eu não estou para brincadeiras. Porque raio está a falar comigo? Aaaaaa! Só me apetece gritar.

- Pois, mas não é meu.

- Nem seu nem de ninguém.

Ops. Como?!

- Não é meu vizinho. – digo enfaticamente.

Está a observar-me e a sorrir. Deve ter mesmo a mania que é esperto. Foda-se, o que eu gostava de ser mais como a Clara nestes momentos. Já estavas a piar fino ó espertinho!

Paramos todos ao lado uns dos outros e a esfinge mostra-se feliz de nos ter conhecido. De ter conhecido a Clara, como é obvio. E a doente. Eu.

- Vamos comer qualquer coisa. Façam-nos companhia?! – diz a esfinge toda empolgada. Nem pensar! Penso.

 

- Boa ideia! Vamos.

Esta Clara, sempre pronta para mais uma saída. Passeios, jantares. De facto nem sei como mantêm uma amizade comigo. Mais entediante não podia ser. Porventura porque sou a única que ouve calada as suas peripécias loucas.

- Eu vou andando. Não me levem a mal.

- Então?! – diz a Clara.

- Tenho…tenho…

- Tens o quê? Uma casa vazia à tua espera. Os miúdos estão com o pai hoje. Vamos aproveitar e jantar, não sejas desmancha prazeres.

Olho para o médico e fico com a sensação de que me dava mesmo jeito que me aconselhasse um medicamento qualquer para me fazer passar a náusea.

Ah, e as carícias que trocam. Que lindos.

Olho para eles e rodo sobre os calcanhares para me por de frente para a Clara. Um ar de quem não está para discutir o tema. Só quer fazer o que quer fazer.

- Eu não vou. Preciso de ir descansar.

- Às vezes o melhor descanso está num pedaço de tempo a divertir-se. Umas gargalhadas ajudam a descansar mais do que uma noite passada no sofá. Estou sempre a recomendar isso aos meus pacientes.

- Pois mas eu não sou sua pa….estou a ver. Se calhar tem razão. – Verbalizo a custo. Eu não sou tua paciente, otário. Não tens de ir tomar conta da esfinge? Que raio. Devo estar a dar um gozo a este gajo. A sério. Recompõe-te Margarida. És uma mulher crescida, não tens de te sentir intimidada por um parvo e sua esfinge.

Os olhares centrados em mim. Como eu detesto isso. Tirem-me daqui!

- OK.

- Óptimo – grunhe a esfinge – sempre soube que o meu mano aconselhava os pacientes dele da melhor forma. É por isso que tem tão bom ar. Deve estar a ser bem acompanhada. – diz enquanto lança um olhar cúmplice ao médico.

São irmãos.

OK, são irmãos.

Sorrio como uma tonta. Baixo a cabeça e sorrio. Volto a olhar para as minhas sandálias feias, mas confortáveis, de fim de semana. Olho para ele e está a observar-me divertido. Sorrio só para ele.

Pareço uma miúda tonta.

Não és tu...nem sou eu - VI

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(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado) 

 

Já tinha saudades de vir ao cinema. Quer dizer, para ver um filme de adultos. Com personagens reais. Já tive outras oportunidades de vir ao cinema, claro. Nos dias em que os miúdos estão com o pai eu estou por minha conta. Mas detesto vir ao cinema sozinha. Detesto sentar-me com o balde de pipocas na mão. Faz-me sentir verdadeiramente só. Faz-me sentir que não tenho ninguém. Algo em mim diz que ir ao cinema é levar companhia. É levar a amiga para ver aquele filme de gajas que estreou à pouco tempo e não há homem que nos queira acompanhar. É ir com o nosso par, aquele encontro que esperamos que acabe num beijo apaixonado à porta de casa, ou o passeio de duas pessoas que se amam e que encontram no cinema mais um cenário romântico, em que partilham um balde de pipocas, as mãos de um a atrapalharem-se com as do outro. As mãos que já não encontram pipocas mas encontram algo mais saboroso. Que se entrelaçam e esbanjam carícias, que se apertam quando há um beijo no ecrã. O olhar que se troca, com a sugestão escondida de que mais tarde seremos nós os apaixonados do ecrã.

- Já viste quem está ali?

Sou afastada do meu sonho acordado pela louca da Clara. Pisco os olhos como que a tentar acordar-me de um sonho desejado mas longe de ser cumprido.

- Estás cá!? - Aceno que sim, ainda a voltar à terra – não parece.

Ambas queríamos vir ver "O Diário da Bridget Jones", por isso, e porque neste momento não há parceria amorosa para esta minha amiga que troca de amigo colorido mais depressa do que eu troco de camisa, lá viemos as duas engeitadas. Ou melhor, a enjeitada e a que enjeita.

- Mas afinal, viste quem está ali?

- Quem?

- O doutorrrrrr!

- Qual doutor?

- Ora, qual doutor?! O teu!

O meu. Mas que raio. Ah, foda-se! Espero que não me veja.

- Onde? – pergunto aflita. Tenho de tentar encontrar um sitio para passar onde não me veja. Quer dizer, muito provavelmente nem se lembra da minha cara idiota. Mas neste momento não consigo gerir bem as minhas ideias e só quero que nem roce os olhos em mim.

- Porquê essa aflição toda?

- Nada. – tento parecer normal.

- Nada?! Sei. Estás quase a desmaiar e ficaste sem cor. Mas está tudo normal?! É isso?

- Sim, exactamente.

Os meus olhos percorrem todo o espaço. Preciso de encontra-lo para puder garantir que fico fora do caminho dele.

- Então, já fez as pazes com os ginásios e outros estabelecimentos que lhe tentam vender coisas que não quer?

A voz está atrás de mim e a força sai das minhas pernas. Vou desmaiar. A Clara olha para mim com os olhos muito abertos, com uma expressão completamente atónita que rapidamente muda para a cara de quem lhe escapa qualquer coisa. Rodo sobre mim mesma e confirmo que o médico está ali à minha frente.

- Des…ah…Não sei…Bom, tinha todas as intenções de lhe responder, mas não tive oportunidade. – digo completamente encavacada.

- Compreendo. Pelo que li no seu e-mail a sua vida é muito, como hei-de dizer, preenchida.

- É verdade. – aguento-me conforme posso, mas a vontade é de fugir, ou melhor enfiar-me num buraco bem fundo e só sair de lá daqui a 50 anos.

- A sua amiga parece já ter visto dias melhores. Está um pouco pálida. De qualquer forma gosto mais dela assim. Em silêncio. E sossegada.

Rodo a cabeça para olhar para a Clara que está ainda com a mesma expressão no rosto. A qual muda quando os seus olhos encontram os meus.

- Estou aflita para ir à casa de banho. Volto já. – Diz-me enquanto pisca um olho de forma declarada.

Não me podias estar a enterrar mais.

Quando volto a olhar para o médico, está a observar-me com um ar entretido. Parece estar a gostar de me ver totalmente atrapalhada. Olho para os meus pés e rapidamente percorro a minha pessoa. Vejo as minhas sandálias castanhas desportivas, daquelas que todos os australianos usam quando vêm de férias a Portugal. As minhas calças de ganga esgaçadas. A minha blusa de manga curta bem larga, aquela que tem tantas flores que nem dá para ver a ultima nódoa de iogurte que lá pus.

- A sua amiga não desiste.

- Não. Mas eu percebo-a.

- Percebe.

- Sim. Está farta de mim e enquanto não me arranjar companhia não se sente confortável em deixar-me sozinha.

- Então é quase uma questão de apoio social.

- Podemos dizer que sim.

- Bolas!

Bolas o quê!

- Bolas o quê?! – penso e verbalizo sem me aperceber disso.

- Tenho-me em melhor conta. Nunca pensei que me vissem como assistente social.

Ri-se divertido. Eu passo do branco ao vermelho vivo. Não sei o que dizer e cria-se um silêncio constrangedor.

Enfio as mãos nos bolsos e olho à minha volta à procura de salvação. Onde é que está aquela estúpida? Porra! Será que o filme não começa.

- Que filme veio ver? – acho que acabou por ficar cansado de me observar e apiedou-se de mim. Quebrando esta silêncio estúpido.

- Venho ver o Diário da Briget Jones. Eu e a Clara adoramos.

- Acredito.

Estúpido! O que é que isso quer dizer? Os meus olhos fulminam-no.

- Calma, estou só a dizer…

- Ufa, estava a ver que nunca mais. Estava uma fila interminável para comprar pipocas. Tinhas razão devia ter comprado logo quando fomos buscar os bilhetes.

Uma moça linda. Alta, elegante, bem vestida, penteada e mais importante fresca e nova, coloca-lhe a mão no ombro e só depois repara em mim.

- Ah, olá, como está?

Olha de novo para ele como que a perguntar quem raio sou eu.

- É uma paciente.

Uma paciente?! Foda-se! Nunca fui paciente deste gajo. Mas como tenho ar de nojo é melhor dizer que sou uma pobre doente.

- Ah, OK. Como está? – diz dirigindo-se a mim. Sorri simpática. Nojenta. Para Margarida! A rapariga não te fez nada. Só existe e tem um existir melhor que o teu!

- Bem obrigada. O doutror… - olho para ele e depois de volta para esta esfinge – é um excelente médico. Tem tratado da minha…condição, de forma exemplar. Agora se não se importam vou tentar encontrar a minha amiga que deve ter sido engolida por um cano. Ou quem sabe está estendida no chão depois de uma jibóia que chegou à casa de banho pela canalização, lhe ter apertado o pescoço. Percebo muito de canos….e a minha amiga merecia.

Faço um sorriso estúpido enquanto evito o olhar de ambos, mas percebo que estão ambos com um ar divertido a apreciar a minha falta de “saber estar”. Volto as costas furiosa. Desejo profundamente que a Clara esteja estendida no chão depois de uma jibóia lhe ter apertado o pescoço. Aquela porca! Para que é que uma pessoa quer uma amiga se não é para nos salvar quando precisamos.

- Então, conversaram?

Salta de repente de um lado qualquer quando eu estava a caminho da casa de banho. Estúpida. Estava ali a fazer tempo.

- És uma idiota! Uma idiota ouviste.

Ela ri-se. Ri-se de mim.

- Idiota porquê? – pergunta divertida.

- Porquê? – volto-lhe costas e começo a andar em direcção à sala de cinema. – é a ultima vez que venho contigo ao cinema. E estou a pensar em nunca mais sair contigo. Não te controlas e metes-te na minha vida.

- Porque fui à casa de banho? Estava aflita! – diz. Está a adorar.

- Porque me deixaste sem jeito a falar com o coitado do médico que tu importunaste.

- Mas ele veio falar contigo, todo simpático e carregado de mel.

Reviro os olhos e sinto o sangue a ferver. Mas…será?! Pfff, nada! Esta parva.

- Não havia mel nenhum. Apenas foi simpático e cordial.

- Sei.

- Para com isso, já te disse.

Deixo-a a falar e entro na sala.

 

Procuramos os nossos lugares. Eu calada e em fúria. A Clara ainda a tagarelar, ainda que num sussurro, o médico isto, o médico aquilo.

Quando nos sentamos já estou farta.

- Mas tu calas-te com a porra do médico?! Estou aqui estou a ir-me embora. Estou a começar a ficar farta de ti.

Só quando me calo percebo que falei alto de mais. Finjo não ter sido eu e quando olho em frente vejo duas cabeças viradas em minha direcção. Precisei de um segundos para que os olhos se habituassem ao escuro da sala, para perceber que o médico e a esfinge estavam sentados dois lugares abaixo.

Merda!

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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