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Em busca da felicidade

Uma música - uma história #5

 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

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Pai consegue pôr a mala no carro ou quer ajuda? – Estava distraído mas saí do meu torpor quando ouvi chamarem por mim, Pai. Engraçado como a cabeça se habitua e desabitua aos nomes porque nos chamam. A maior parte do ano não chamam por mim. A vida é complicada, eu sei. Há o trabalho, há os miúdos, há os afazeres da vida e o que faz um velho o dia inteiro em casa?!

Fica melhor assim, pai, com pessoas da sua idade. – Pessoas que eu não conheço e nunca vi. Como se eu tivesse perdido a minha capacidade de pensar, como se estivesse inerte. Pessoas da minha idade, como se fossemos diferentes das outras pessoas só porque somamos mais anos. Como as crianças que são afastadas dos temas dos adultos quando a conversa é, para os adultos que a têm, demasiado complexa. Em crianças não sabemos que chegue para fazer parte, quando envelhecemos perdemos a capacidade de achar. Somos velhos e as nossas ideias são velhas. Fraldas, rabos por limpar, arrastadeiras e dentes na mesa-de-cabeceira. É assim que se veem os velhos. Já não são úteis à sociedade, nem à família, nem a ninguém.

Eu e a minha Amélia tínhamos planeado passar a velhice juntos. Uma casa perto da dos filhos, ajudar a cuidar dos netos. Ver os netos crescer e mimar o que não mimamos os filhos. A Marta conseguiu emprego longe e quis ir viver perto dos pais do marido. O Paulo ainda ficou aqui por perto, mas nunca se quis casar, gosta muito de ter a vida dele. Não quer compromissos, pelo menos é o que ele diz. Foi o que me disse há dias atrás quando me cumprimentou na noite de natal. Nem sei se me conhecia bem. Então pai como está? – Estou bem obrigada e tu como tens andad… - e assim ficou pendurada a pergunta, Já estava a ver lá o e-mail dele. Não quis incomodar. Devem ser coisas importantes do trabalho.

Eles pensam que eu não percebo nada mas lá onde estou vamos à internet, tenho conta de facebook e tudo. Mas não lhes mandei pedido de amizade, podem não ter tempo de aceitar, podem achar que me quero meter e não quero. Vem cá jantar pelo natal pai? Tá bem?

Tá, claro que está. Foi a nossa conversa quando a Marta me ligou há dias para me ir buscar. O natal lembra o melhor das pessoas e vão sempre buscar-me para cá passar uns dias. Ver os miúdos, trocar umas prendas, contar peripécias. Eu sento-me sempre na mesma cadeira e ouço. O pai do meu genro tem sempre histórias mirabolantes para contar. Eu sou um homem simples. Levei uma vida simples. Eu e a minha Amélia. Só queríamos ver os miúdos a crescer, a casar, a ter filhos. Tomar conta dos netos. Os netos. Lindos os meus netos, a Constança e o Guilherme. Lindos como os seus nomes.

Um dia hão de ir visitar o avô sim? O avô gostava muito. – Disse-lhos no ano passado. Não têm tempo. Ficaram sem jeito. Olharam um para o outro e não tinham tempo. Percebi que até gostavam de ir, mas têm as coisas deles e não podem perder tempo com velhos porque ser jovem dura pouco, ser velho é que parece uma eternidade. Se calhar é porque não tenho muito para fazer. Pouco para conversar. Lá fazemos jogos e temos “atividades”, uma espécie de colégio com alunos cheios de artrose. Valem-me os livros. Mantém-me vivo. Leio os meus e os da minha Amélia. Íamos ver os netos a crescer.

Quando soube que a Marta ia viver para longe perdeu anos de vida. Tinha o sonho de ter os filhos perto.

Porque não ficas ao pé da mãe filha? Ajudamos com os meninos! – disse-lhe – Aí mãe, os meninos vão para o colégio e os meus sogros ajudam com o que fizer falta. Tenho de sair daqui, evoluir mãe. Entende?

Não entendia. Nunca entendeu. Porque raio evoluir tinha de ser longe?

Vimos os netos de quando em vez. E numa manhã de primavera a Amélia partiu. Fiquei eu. Eu e o tempo que sempre me faltou, veio para me fazer companhia todo o dia, como quem diz, tanto pediste pelo tempo, ora agora aqui me tens!

E tenho. Tempo é coisa que não me falta. É estranho, tenho o fim da vida à porta e o que não me falta é tempo, se me perguntassem aos quarenta dizia que era o que mais falta me fazia.

Há um silêncio estranho quando olham para mim, uma culpa que ninguém deve ter. A vida é assim, quem quer um velho em casa? Um velho a meter o bedelho e a estorvar. Sempre que se contorna o frigorífico lá está o velho, ao sair da casa de banho, ao entrar na sala. A ver televisão. E se o velho adoece, quem lhe muda as fraldas?

Vamos pai? Está pronto? – Estar, não estou, mas é a vida. Passei a vida a dizer que é a vida. E é, cada um com o seu destino.

Calho a ser promovido um dia e hoje morava mais perto, como os sogros da minha filha. Viajam eles. Eu vou à terra, quer dizer…ia.

É o que mais me custa, não sair. Não passear para onde me apetece. Temos espaços e jardins e até fazemos excursões. Mas não é passear.

Entre no carro pai. Temos de ir. – Pois temos. Quer dizer tu tens. Eu podia fazer o que me apetecesse, mas não pode ser. Não posso arranjar dificuldades. Às vezes penso que havia de fazer birra como os miúdos. Afinal de contas levam-nos tão a sério a uns quanto a outros. Mas não, sei que ainda sou crescido.

O carro arranca e lembro-me da minha Amélia, do dia em que a Marta nasceu e dos planos que fizemos. Do dia em que o Paulo nasceu e compramos uma casa maior. Poupámos mais. Um quarto para cada um. Como eramos felizes. No dia em que cada um partiu e na cor cinzenta que tomou conta da minha Amélia, que ia criar os netos e viver perto dos filhos.

Mas fica para mim. No meu silêncio. Na vida que ainda vivo com a minha Amélia enquanto olho pela janela do meu quarto, nos dias de sol, nos dias em que as mocinhas lá me perguntam. – Então, estão tão caladinho, está a magicar alguma?

Não estou. Estou a viver o meu silêncio. Aquele de que é feita a minha vida quando se apaga o barulho de fundo.

 

 

 

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Feliz Natal - Merry Christmas

 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

 

Sento-me na minha cadeira atrás do balcão. Uma cadeira alta que me permite ver com atenção todas as pessoas que passam à porta da loja. No meio das mãos tenho o chocolate quente que acabei de fazer. A loja não tem feito dinheiro que chegue para mandar arranjar o aquecimento e lá fora...lá fora neva. Casaco, gorro e luvas. Assim ando eu.

Em torno dos livros enfeites de natal. Umas bolas vermelhas que já não se seguram no pinheiro velho que tenho à entrada, uns pisa papeis com o pai natal e a neve que lhe cai em cima. À entrada uma rena com um ar chanfrado. Normalmente rouba uma gargalhada a quem entra.

Vendi alguns livros para crianças. Especiais nesta altura. Uns romances. Dos namorados para as namoradas de há poucos meses. Outros de maridos que o ano passado tiveram a terrível ideia de oferecer uma varinha mágica. A joia está mais do que vista e o livro passa a mensagem de que se preocupam. Isso e levar uma dedicatória amorosa na primeira página.

Aquela que normalmente ajudo a escrever.

Só por isso vêm a esta velha livraria. Porque os supermercados vendem todos os livros mais barato.

Já liguei à Clara, que vai passar o natal com os sogros. Queria que eu fosse. Mas família é família e eu sinto-me fora de sitio. E o meu sitio é aqui. A ver a neve cair.

Decidi abrir a loja, nunca se sabe quem tem um livro para comprar à ultima da hora.

 

Está a nevar lá fora. Passa das sete da tarde e já escureceu. A rua está linda. As luzes que enfeitam os prédios. As casas que parecem piscar com os pinheiros junto à janela. As pessoas que não fogem da neve. Afinal é natal e só alguns privilegiados têm neve como fundo de pano.

Parece tirado de um livro.

Resguardo-me com mais um casado e fecho a loja. Páro de costas para a porta, olho para o céu e deixo que a neve me caia sobre o rosto. Seria quase romântico se alguém me esperasse em casa.

 

Mal rodo a chave na porta ouço a coleira do Fiódor. 

- Olá menino. Já tinhas saudades minhas.

Roça-se nas minhas botas e faz um olhar ameaçador ao Winston, que apesar de ter três vezes o tamanho dele e lhe rosnar de vez em quando, fica sempre em sentido.

Adoram-se....mas os ciumes.

Passeio o Winston e aproveito para me perder na azafama das outras famílias. A menina que avisa o pai que o peru já está pronto, "a mãe mandou dizer", o pai que rosna "na minha terra é bacalhau", enquanto se desfaz no sorriso de quem não perde tempo com estas coisas. Afinal é Natal.

Volto para casa e acendo a lareira. Está tanto frio.

Ponho a mesa para mim e preparo as taças do Winston e do Fiódor.

São especificas com desenhos de natal. Eu tenho um individual vermelho e guardanapos dourados. 

A meu lado a melhor prenda que o pai e a mãe me deram. O meu primeiro livro. Gosto de o ler todos os anos, pelo menos até adormecer. É como se voltássemos ao mesmo natal e o recebesse outra vez. Não troco prendas à meia noite nem deixo bolachas ao pai natal. Recordo memórias boas.

A campainha toca.

- A esta hora deve ser engano. - digo para mim.

O Winston corre para a porta. Não conhece por isso é engano de certeza.

Espreito e vejo que o Edward. Mas o que é que está a fazer aqui?

Abro a porta.

- Hi, I mean, Hola!

- Hi.

 

O ano passado a minha prenda de natal da Clara e do Jorge foi uma viagem a Londres. Nunca tinha saído de Portugal e sempre sonhei em conhecer Londres, passear nos jardins, ir a camden lock...sei lá!

- Mas o que vou eu para lá fazer sozinha? - perguntei-lhes.

- Nunca se sabe, ainda conheces alguém. Nós ficamos com o Winston e o Fiódor.

Ficaram com os patudos e eu lá fui. Num dos dias passei num pequeno supermercado para comprar avelãs. 

Descalcei-me e fui passear na relva em Hide Park. Os esquilos por todo o lado. A subirem pelas minhas pernas, em cima do meu ombro.

- Uma avelã para ti, outra para ti, mais uma para ti...

You shouldn't feed the squirrels.

Viro-me.

Tem olhos escuros e barba por fazer. Anda a passear o cão que, por estranho que pareça ignora os esquilos, deve estar habituado.

- Yeah...I know, but this are hazelnuts...squirrels eat hazelnuts, righ?! I bought them just for them.

Ele sorriu. Estava a meter-se comigo.

- OK, I wont tell...you bought hazelnuts just for the squirrels...and I thought I was nuts.

Ficámos a conversar o resto da tarde. Passeámos pelo jardim e conversámos como se nos conhecêssemos desde sempre.

- I have a crazy idea...we should exchange numbers.

Disse ele. Trocámos.

No dia seguinte encontrei-o novamente. Se calhar porque sem saber, de propósito fui ao mesmo sitio na esperança não admitida de o voltar a encontrar. E ele, se calhar porque todos os dias passeia os cães no mesmo sitio ou porque procurava o mesmo que eu, lá estava, à mesma hora.

Conversámos. Despedimo-nos.

Nunca o esqueci. O olhar. A forma como parecia que nos conhecíamos desde sempre.

Trocámos mensagens. E-mails. Mas recentemente nunca mais soube nada dele e toda esta coisa da distância fez-me cair em mim e perceber que sou parva.

 

Agora ele está aqui.

 

So, it's Christmas and you're here.

- Yeap.

- Why?

Ele olhou em volta e parou os olhos em mim. Não me pareceu estar incerto quanto às palavras. Estava a aproveitar aquele momento. Tanto quanto eu.

Não aguentei a tensão que sentia e quebrei o silêncio.

Shouldn't you be with you family?

- Yes, I should.

- But yet...

- Yet I'm here, on your living room, looking at you and I'm sure I made the right choice.

- What's that?

- Coming here for my present...

Dá dois passos em minha direção e acaricia o meu rosto.

- ...you.

Beijou-me. Beijámo-nos. 

As músicas de natal que tocavam na televisão começaram a fazer sentido e quando nos afastamos, alguns centímetros um do outro, o Fiódor enroscava-se às pernas dele.

O Fiódor raras vezes gosta de alguém. 

Sentámo-nos no sofá, dividimos o jantar que eu tinha só para mim. Ele riu-se das taças de comer do Fiódor e do Winston e quando começou a nevar pegou-me na mão e saímos. Dançamos debaixo da neve como nos filmes.

 

 

 ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***  ***

 

O Natal é o que quisermos, como quisermos, com quem queremos, com quem amamos. É um momento que deve ser feliz, passado junto dos que mais amamos. As prendas, essas devem ser a companhia dos outros e aquela mala que combina com os sapatos que gosyámos. 

 

Dessejo a todos um feliz natal, cheio daquilo que mais importa, de pessoas que amamos.

Um grande natal em especial para aqueles que hoje, no lugar de estar com as suas familias, estão a trabalhar para garantir que todos temos um feliz natal e que quem sabe está ali, de banco, para dar a alguém o melhor presente de sempre. Vida.

 

Feliz Natal a todos!

Este é o meu presente. Uma pequena e lamechas história.

Piroseiras!

 

Have yourself a merry little Christmas

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 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

 

As ruas estão preenchidas pela azafama feliz dos que comprar os últimos presentes de natal. As luzes brilham como se a vida se passasse dentro de uma bola de cristal, cuidadosamente pendurada numa árvore quase perfeita. A neve cai ligeira e adorna os gorros de quem passa. Cai quase numa suave melodia de inverno.

Páro em frente à loja de brinquedos e torno-me mais uma vez na criança que fui um dia. As luzes, os comboios e as bonecas. Espreito pela pequena fresta e vejo as famílias. Os pais procuram os presentes que os olhos dos filhos dizem ser os favoritos. As que o pai natal vai entregar naquela manhã nevosa de dia 25. Antes mesmo de saírem para construir o boneco de neve, com o nariz que é uma cenoura velha e os olhos, que, quem sabe, serão este ano dois botões de um casaco velho.

O mesmo chapéu de sempre.

Atrevo-me a entrar.

- Precisa de ajuda.

Aceno que não.

Só quero ver o rosto das crianças que correm pela loja. Cada uma com dois brinquedos, um em cada mão. Ansiosos por mostrar aos pais o que mais desejam. A menina, de saia aos quadrados e laço de cetim. A que ainda não largou a mão do pai, a que estende o dedo na direção da boneca que está na prateleira mais alta.

A musica de natal ouve-se em toda a loja. Não há chatices, nem as crianças brigam.

- Sobrinhos ou filhos? – diz a vós a meu lado.

- Como?

- Parece-me nova demais para filhos…de qualquer forma…sobrinhos ou filhos?

- Ahhh, nem uma coisa nem outra.

- Eu, sobrinhos. Raio dos miúdos querem tudo.

Sorrio e penso em dispersar.

- Não me quer ajudar?

- Como?

- Ajudar-me. Precisava de uma mão feminina que me ajudasse.

Sorri. Ajudei-o a escolher a boneca para a sobrinha. O comboio para o afilhado.

Saímos da loja juntos. Eu de mãos a abanar.

- Bebemos um café?

Acenei que sim. Quem sabe o meu presente de natal.

 

O gira discos chega ao fim da música e abro os olhos. Encontro a nossa árvore velha, as mesmas bolas e as mesmas fitas. Por baixo não há presepio. Na televisão passam os mesmos programas de todos os anos, aqueles que tu já não conseguias ouvir.

Pus a mesa para nós. Nós e a nossa música de natal.

Lá fora neva, tal como no dia que nos vimos pela primeira vez.

O filho está bom, foi passar o natal com a família da mulher. Diz que é uma casa grande, gente de bem. A filha está para fora, sabes disso. A vida aqui está difícil. Quis pagar-lhe o bilhete mas conheceu alguém para lá e quer um natal diferente.

Entendo.

As minhas irmãs lá estão. Já me ligaram a desejar boas festas.

A Lola faz-me companhia. Este ano comprei-lhe um fato vermelho, coçou-se um bocado mas depois lá percebeu que é quentinho.

Fazes-me falta tu.

Fazer bacalhau para um é esquisito. Mas fiz. Porque tu estarás sempre cá.

Olho para as bolas de natal e lembro-me do dia em que bebemos o nosso chocolate quente depois de nos escondermos da neve que depois de ligeira se impôs. Ou porque nos queriamos esconder do mundo para um momento só nosso.

Lembro-me de conversarmos como se nos conhecêssemos há mil anos. Naquela cafetaria velha, chocolate quente a aquecer as mãos que teimavam em estar frias.

Fecho os olhos e dançamos outra vez no meio da rua ao som da música que saía das lojas. Debaixo da neve.

- Posso ver-te amanhã outra vez? – perguntaste.

Beijei-te e soubeste que sim.

Pediste-me para trocarmos presentes.

- Aqui, agora.

- Não tenho nada para dar à troca.

- Tens. Quero o teu numero de telefone. Quero poder ligar-te.

Dei-te o meu número e, em troca deste-me a boneca que tinhas comprado. Não havia sobrinha nenhuma.

Nem sobrinho.

Tinhas entrado na loja para falar comigo. Contaste-me anos mais tarde.

- Entrei na loja porque vi o que mais queria este natal. E todos os outros. Tu.

 

Levanto-me da cadeira que sempre foi tua. Ponho a nossa musica no gira discos. Aquela que sempre dançamos no natal. Com a casa cheia ou só nós dois, como nos primeiros natais e nos últimos. Os momentos em que estamos sempre por nossa conta, não é? No principio e no fim.

Fecho os olhos e finjo dançar contigo. Se apertar bem os olhos ainda consigo sentir os teus braços em torno de mim.

A boa boca encostada ao meu ouvido e uma musica num sussurro….

Have yourself a merry little Christmas

Let your heart be light

 

 

Um canteiro de buganvilias

  (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

 

Tinha de fazer a pergunta. A que trazia presa na garganta desde o dia em que nos beijamos pela primeira vez.

Perguntaste-me se sim porque ela te disse que não?

A moça composta. A serena. A senhora. A que todos queriam. A joia de valor no meio da prata.

Carregamos os sacos para dentro de casa. Passamos o quintal que tanto desejei ter e olho para ti. Vejo-te empenhado em organizar tudo. O cuidado nos passos para não pisar as buganvilias que insisti em plantar. As que regas porque me queres ver feliz. Ou as que regas porque te custa que nunca me queiras como eu queria que quisesses.

Pouso os sacos no chão. Estás atrás da porta do frigorífico. Tudo arrumado e organizado nas caixas certas.

Mil vezes parei aqui neste mesmo sitio. Mil vezes fiz a pergunta dentro da minha cabeça. Mil vezes perdi a coragem antes de a verbalizar.

Perguntavas o que queria para o almoço e eu deixava para mais tarde.

Um ano mais tarde. Dois anos mais tarde. Três anos mais tarde. Uma casa e quatro anos mais tarde.

- Perguntaste-me se sim porque ela te disse que não?

Percebo que verbalizei pela primeira vez a pergunta. Paira no ar. Paira em ti enquanto seguras uma caixa que fica suspensa na tua mão. Não sei se pela surpresa na pergunta, se pela dificuldade em encontrar a resposta. Porque a verdadeira não me podes dar.

- Não percebi o que disseste.

- Percebes-te sim.

Agora que deixei sair tenho de seguir em frente.

- Sabes que gosto muito de ti.

- Essa não é a resposta para a minha pergunta.

- Mas de que raio te foste lembrar?!

- Vejo que sabes de quem estou a falar.

- Como assim?!

- Nem perguntaste quem era ela. Sabes quem é ela.

- O que se passa contigo?

- Responde.

- Não vou responder a perguntas tontas. Sabes que gosto muito de ti.

Continua com as arrumações. Vejo-o nos minutos que se seguem, não sei quantos, não os contei. Descontraído a arrumar as suas coisas. Perdido no seu mundo. Alheio à pergunta que ficou no ar. Como se se evaporasse. Como se fosse possível que ficasse rarefeita em pequenos pedaços que respiramos e deitamos fora numa expiração forte. A de quem sopra um bolo com 100 velas.

Dou pequenos passos atrás.

Pego na mala e ponho-a ao ombro.

Em transe saio pela porta. Despeço-me das buganvilias e desejo que as continue a regar. Saio pelo portão.

Não olho para trás, que se olhar volto e finjo que não perguntei a pergunta que tinha encravada na minha garganta como uma espinha.

Ando. Primeiro devagar. Sinto a primeira lágrima e ando mais depressa. Quero que o vento que me bate na cara a leve. Vem outra, maior, mais forte. Sinto-me a ceder. Corro. Com as minhas calças de ganga velhas e a t-shirt que lhe roubo todos os fins de semana. Corro. Corro para esquecer o aperto que trago ao peito.

Corri todo o quarteirão e voltei à casa de partida.

Digo olá às buganvilias e segredo-lhes que foi tudo uma partida tola.

Entro em casa para o encontrar a fazer o almoço. Descontraído.

- Tens fome?

- Tenho.

- A mesa está posta. Vamos almoçar.

 

Uma música - Uma história #5

 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

 

Acordo com alguém a bater à porta ao de leva. Levanto-me estremunhada, os passos descompassados. Terei ouvido mesmo alguém a bater à porta ou terá sido o móvel velho da sala a ranger outra vez? Aquele que uma vezes me acorda, que outras me assusta.

O cão abana o rabo enquanto cheira por baixo da porta.

“O que foi Baltazar? Quem está à porta?!”

A pergunta retórica feita ao cão que sei incapaz de responder. Mas é alguém que conhece, nunca fica tão contente. Sempre desconfiado, o meu eterno protetor.

Espreito e lá estás tu. Encharcado. Chove lá fora. Que fazes aqui?

Abro a porta devagar. O corpo a pedir o teu abraço molhado com emergência. A cabeça a dizer que não. Que me deixaste, que me magoaste, que voltaste costas sem dó nem piedade, que me adormeci em lágrimas e não sei a que horas pararam os soluços e começaram os sonhos. Sempre contigo.

Entras sem dizer uma palavra. Invades a minha boca num beijo profundo, as tuas mãos a percorrer o corpo que ansiava por ti mesmo antes de te saber à minha porta.

“Não te quero aqui...” murmuro entre beijos e fôlegos. Não o queres aqui. Repete a minha consciência. Aquela que sabe que depois de mais uma noite de entrega vais embora. Vais dizer que não podes voltar. Vais lembrar-te que trazes um anel na mão esquerda que marca o teu compromisso com aquela que é a mãe dos teus filhos. Vais sair e eu, eu vou ficar aqui. Sozinha com as minhas lágrimas. Acompanhada pelo Baltazar que me trouxeste da primeira vez que voltaste para mim. Acordada não pelo teu abraço carregado de desejo, mas pelo móvel velho que continua a ranger.

Bateste ao de leve e eu abri a porta. Deixei-te entrar e perdi-me em ti.

 

 

 

Uma música - Uma história #4

 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

 

Procuro-te nas nossas conversas. No que eras. O que eu conhecia. Como tínhamos assunto para falar horas a fio. Nem dávamos pelos minutos a passar. Os cafés fechavam e nós ali, na mesma mesa, quase escorraçados. Íamos cada um para sua casa sempre com coisas para contar. Um assunto para terminar. Tínhamos sonhos e vontades. Coisas que íamos fazer.

Começar uma vida juntos. Aos poucos. Passos pequenos.

As compras da semana. A prestação do carro. A renda da casa. Tomar conta do ordenado um do outro e ter uma opinião sobre o que cada um gasta.

Perguntar se parece bem levar aquela blusa quando na verdade quero perceber se vais ficar preocupado com mais aquele dinheiro que vai sair da conta.

Aprender a viver de forma desindependente. E sim desindependete. Porque não passei a ser dependente. Ganho o meu ordenado e sou dona do meu nariz. Mas deixei de fazer dele o que quero. Porque agora tenho um parceiro nos negócios da vida. O que paga metade da renda. O que paga metade das contas. Metade do colégio dos miúdos.

E as conversas vão ficando sempre iguais. As contas substituem as memórias de infância. Os recados da escola dos miúdos as nossas peripécias de infância. As chatices do trabalho os nossos sonhos de tudo o que íamos ser.

E a vida vai passando. Os dias vão contando sem nos apercebermos que aos poucos nos afastamos mais e mais. Que pouco sabemos um do outro. Afinal de contas fizemos as perguntas todas quando devíamos ter feito. Que perguntas vamos fazer agora? Já sabemos tudo um do outro, não é?

Achas que não é?

Se calhar devia ser diferente.

Hoje sei que gosto do que antes me parecia estranho. Hoje vejo a vida de forma diferente e até encaro a forma de viver dos outros com a possibilidade de assemelhar a minha à deles. Daqueles que em tempos erradamente critiquei. Não porque agora lhes quero seguir os passos. Mas porque agora aprendi que não se critica. Que a vida de cada um a cada um pertence. E eu nada tenho que ver com isso. Que enquanto estive a olhar para as escolhas dos outros segui em carreiro e não pensei para mim. Não vi os erros que cometia e segui de forma sempre igual.

Não percebi que devia ter perguntado mais vezes como estavas. Que queria que me perguntasses mais vezes como estou. Não como quem pergunta já sabendo a resposta que quer ouvir. Porque se respira e os exames dizem que está de saúde é porque está bem. Há muitas formas de estar mal e o pior é o mal estar da alma. É um mal que se entranha e nos consome. Nos faz esquecer o que somos, o que queremos, o que desejamos.

Esquecemo-nos de rir. E aprendemos a esboçar o sorriso adequado. A invejar. Porque o tempo passa e os nossos dias são iguais.

Tão iguais que por vezes parece que se repetem. Com os mesmos gestos e as mesmas expressões.

Queria que me dissesses para hoje ir jantar à beira da praia. Levar os miúdos e deixa-los correr no meio da areia. Se calhar acabávamos a correr atrás deles. Se calhar acabávamos sentados na areia, conscientes da nossa idade, felizes e abraçados.

Os miúdos dormiam logo quando chegassem a casa. Cansados.

Queria que me abraçasses com um abraço e não pondo os braços em torno de mim. Esse gesto que passou a ser o teu abraço. A reação de rotina porque é assim. Como quem nem dá conta de que já está a chegar a casa quando o trajeto de comboio é sempre igual.

É segunda feira e jantávamos à beira mar. Comíamos chocos grelhados e conversávamos com bebidas coloridas. Não te ia contar coisas da minha infância. Acho que já as conheces todas. Queria lembrar-me contigo das memórias que construímos em conjunto. Sonhar com a casa que vamos comprar quando ganharmos a lotaria.

E os miúdos corriam na areia.

E nós encontravamo-nos outra vez.

Tenho saudades de te ver. Há anos que não converso contigo.

E estás lá em casa todos os dias.

 

 

Sonhos perdidos

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A espaços sonho contigo. Voltamos a ser colegas de carteira. Lado a lado. Esta noite eras minha colega numa cadeia da universidade. Mas sentávamo-nos nas carteiras da escola. Tu ao pé da janela, eu ao lado. Tu sempre composta, confiante, escutavas as coordenadas dos professores com atenção, com a concentração necessária. Inabalável. Eu a distraída de sempre. Nervosa com as minhas duvidas. Perdida nos sonhos de coisas que não faziam parte da minha vida. Perdida nas minhas ideias.

Alguém disse que o exame ia começar. E tínhamos de ler e interpretar. Ler o quê? Não tinha ouvido nada. Alguém tinha apagado a luz. Tínhamos de interpretar de forma cega. Pôr no papel os sentimentos. O que vimos sem olhar por entre as linhas do texto que tínhamos acabado de ler.

Mas que texto? Não tinha tido tempo de ler texto nenhum. Peço-te ajuda. Tentas mas já não consegues. Percebem que falas comigo.

Fico em aflição. Como vou interpretar? Não vou conseguir interpretar? Não vou conseguir passar?

Aparece alguém com uma solução. Vou conseguir ler o texto, mas vou ter menos tempo que os outros.

 

Acordo cansada com toda a pressão de um sonho. Aflita. Lembro-me que já não somos colegas. Que és médica. Que serás certamente bem sucedida.

Que no fundo ainda sou a miúda distraída. A que se pela por uma gargalhada. A que gosta de sonhar. De imaginar histórias. De rir e fazer rir.

 

Hoje lembrei-me de ti. E sem saberes safaste-me outra vez.

 

Uma música - Uma história #3

 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)  

(imagem retirada do site Getefre

 

Paro no meio da sala de todos os dias e deixo o meu olhar percorrer cada centímetro da parece. Os móveis escolhidos no detalhe dos nossos gostos. O sofá onde tantas vezes deixamos filmes por ver para nos perdermos um no outro. As molduras que seguram as imagens de momentos só nossos. Pedaços de uma vida que julguei feliz. Uma vida que julguei verdadeira.

Os sorrisos. As prendas. O teu braço em torno da minha cintura sempre que saímos pela porta. Uma manifestação de orgulho na mulher que trazes a teu lado.

Aquela que pensei que te bastasse. Eu.

A cabeça gira e as lágrimas caem. Percorrem cada milímetro do meu ser que grita por dentro, contendo a raiva do animal que se sabe traído. Que se vê ferido no meio da selva. A ferida da mão que o alimenta.

No corredor vejo os filhos que não tivemos a correr de um lado para outro. Vejo a menina que seria a princesa do pai. O menino que seria o menino da mamã. Cabelo liso e escuro como o meu.

Os filhos que não tivemos. Os filhos que não vamos ter.

 

Abro as malas de forma violenta e arranco as roupas de dentro do armário. As que me compraste porque fico sempre tão bela.

Dá uma volta para eu ver como estás linda. És linda. A mulher mais linda do mundo.

O troféu. A que levas para os jantares com os amigos. A que fica em casa para apresentar aos pais. A que tem tudo para ser a esposa.

Jogos de futebol com amigos três vezes por semana. Amigos com perfume de mulher. O cansaço de um homem saciado ao meu lado.

 

Ontem não houve jogo. Mas houve divertimento. Sabes onde anda o teu marido?

 

O e-mail de uma conta criada para contar o que ninguém devia saber. Porventura o traste de mulher que te ocupa as noites de futebol.

Será que agora ficas com ela?

Ficas melhor de rosa. Ficas melhor de creme. Vamos pôr esses sapatos encarnados de lado. Não te dão o aspecto certo.

Os meus sapatos de salto alto. Encarnados. Os meus preferidos. Dentro de uma caixa. Guardados porque não assentam bem à mulherzinha que queria criar a teu lado.

Fecho a mala e curvo-me ao sabor das minhas lágrimas. A estúpida que sou. A que acreditou em tudo.

Uma noite de chuva com futebol na mesma. Ela à tua espera no mesmo sitio de sempre. Tinhas-me por tão certa que nem te apercebeste que estive todo o caminho dois carros atrás de ti.

Quero destruir a casa. Bater na minha cara por ser idiota. Destruir tudo o que tens.

Mas não mereces as minhas energias. Mereces o meu desprezo. Eu mereço ser mais esperta para meu próprio bem.

 

Saio e deixo um bilhete.

Sou melhor do que mereces. Devias saber disso. Levo os meus sapatos encarnados. Fica com o resto.

 

Na mala levo o que tinha meu. Não o que compraste para me moldar.

 

Sento-me no carro e no pendura ocupam lugar os meus sapatos encarnados. A única companhia que preciso hoje. A dos que me lembram que sou mulher sem ti. Que valho mais sozinha que mal acompanhada. Que tudo vai ficar bem se não me voltar a esquecer de mim.

 

 

 

 

Uma música - Uma história #2

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 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)  

 

Os dias são passados de forma sempre igual. Vou à escola mas tenho pouca paciência para ouvir o que a professora tem para dizer. Ela é simpática e tudo mas não percebe que eu sou um miúdo em missão. Não sabe o que é a vida numa família que não é uma família porque é uma coisa feita à pressa para crianças que já não têm pai nem mãe.

Às vezes uma das educadoras deixa-nos ir até ao jardim. Elas ficam a conversar. Coisas da vida delas. Às vezes coisas sobre as nossas. No outro dia percebi que falavam de mim. Elas desviaram o olhar, fingiram quando acharam que eu estava a entender que era de mim que estavam a falar. Este já não é adotável. Que para quem não sabe significa que não há família que me queira.

É verdade, não me apresentei. Chamo-me Pedro, tenho sete anos, o meu pai é uma nuvem que passou e nunca mais ninguém viu, ou pelo menos era assim que a minha mãe o descrevia. Eu tenho pensado muito nisso e acho que ele não me queria e por isso foi-se embora. A mãe tentou fazer o lugar dos dois. A minha mãe foi para o céu o ano passado. Aqui gozam comigo porque digo que a minha mãe foi para o céu, os bebés é que falam assim. Mas morrer é muito pesado. É muito "para sempre". E eu acho que ela anda sempre comigo. Que toma conta de mim. Eu só não a vejo.

Ficou doente quando eu tinha quatro anos. A mãe dela tinha deixado de lhe falar, porque ela tomava más decisões. Eu acho que a má decisão fui eu. Nunca me disseram, mas como a mãe dizia, sou um miúdo esperto demais. O meu avô já tinha ido para o céu. Espero que a mãe o tenha encontrado, falava bem dele, gostava muito dele, deve estar feliz por vê-lo de novo.

A avó deve ser uma bruxa. Eu se tiver uma filha um dia vou tomar conta dela até ir para o céu. Como a mãe fez comigo. Só espero é ir para o céu mais velhinho que a mãe.

Como não tinha ninguém e a avó não quis ficar comigo. Disseram que não me reconheceu como família. Vim parar aqui.

Aqui tomam conta de crianças que não têm pais ou que os pais não conseguem tomar conta delas. Devem estar a trabalhar ou coisa assim. Ainda que no outro dia uma menina falava que o pai tinha umas brincadeiras esquisitas com ela. Eu pelo menos achei. Mas o que é que eu sei de brincadeiras com o pai? Só tive mãe.

Quero dizer. Tenho.

Vou estar sempre contigo, aqui, no teu coração. Disse enquanto pousava a mão no meu peito. Fazia isso quando queria que eu prestasse atenção ao que dizia. Acho que já sabia que não ia ficar muito tempo.

Vim para cá antes de a mãe ir para o céu porque não tinha com quem ficar e como a mãe estava muito fraquinha as senhoras enfermeiras tinham de estar a tomar conta dela. Mas a Joana, daqui da casa, levava-me para a ver todos os dias.

- Tens de te portar bem para encontrares outra mãe.

- Mas eu não quero outra mãe. Quero-te a ti.

- Eu sei. E eu vou estar contigo sempre, aqui, no teu coração.

Tivemos esta conversa montes de vezes.

Depois um dia não tivemos mais.

 

A Primavera começou cedo este ano e por isso ficámos mais tempo no jardim. Encontrei-a sentada num dos bancos, trazia um lenço na mão e parecia estar a chorar porque aquela coisa preta que as senhoras põem à volta dos olhos estava toda borrada. Não me parece que se tenha pintado assim de propósito.

Não sei porquê mas fui sentar-me ao lado dela.

- Olá. - disse-lhe. Usei o meu melhor sorriso. A mãe disse-me para usar sempre o meu melhor sorriso. E eu uso, porque ela está a ver e eu quero que saiba que faço o que ela diz.

Olhou para mim e chorou mais.

- Não gostaste de mim. - se calhar é por isso que dizem que eu não sou adotável. Se calhar sou feio.

Riu enquanto chorava. Limpou as lágrimas.

- Não.

- Então vou-me embora.

- Espera. Não. Não é isso. Conheci um menino parecido contigo.

- Eu conheço muitos meninos parecidos comigo.

Riu-se.

- Eu imagino. Era meu filho.

Ah. Já tem filhos. Não vai querer mais um. Do que ouvi "as probabilidades de adopção de casais com filhos é muito reduzida."

- E era muito parecido contigo.

- Era?

- Sim.

- Queres dizer é? Ou era quando tinha a minha idade.

- Não. Era. Só. A tua mãe?

- Está no céu.

- Tenho pena.

- Eu também. Mas ela está sempre comigo. Aqui, no meu coração. - bati no peito. Onde a mãe costumava pôr a mão dela.

Sorriu.

- O teu filho já é crescido?

- Não.

- Que idade tem?

- Tinha sete anos?

- Tinha?

- Sim. Está no céu.

Entendo. Coitadinha. A mãe dizia muitas vezes que era normal as mães irem para o céu. Mas os filhos não. É contra a natureza.

Limpou as lágrimas.

- Então e o teu pai?

- É uma nuvem que nunca mais ninguém viu.

Franziu a testa e depois fez uma cara de quem entendeu tudo.

 

Nas ultimas semanas encontrei a Margarida todos os dias no jardim. Enquanto os outros meninos brincavam nos escorregas nós conversávamos. Eu contava-lhe das coisas que fazia com a minha mãe. De como ela brincava comigo como se fosse do meu tamanho. Nunca falamos da parte má. Ela contou-me as brincadeiras que fazia com o filho. Nunca me contou a parte má. É que a parte má não interessa. Percebem? Só interessam as coisas boas. É assim que guardamos as nossas pessoas dentro do coração. Com as coisas boas. Com os dias de riso.

Hoje vou encontrar a Margarida outra vez e tomei uma decisão. Quando queremos alguma coisa temos de trabalhar para isso. Foi uma coisa que a mãe me ensinou. Quando gostamos de alguém temos de lhe dizer.

Hoje sentei-me no banco onde encontrei a Margarida da primeira vez. Escolhi as melhores roupas que tinha e tive a certeza de que as cores combinavam. Peguei na caixinha com a prenda que tinha preparado. Uma pulseira cheia de cores. A mãe dizia que eu tinha jeito para as fazer e usava-as toda orgulhosa.

Quando chegou reparou que eu estava muito giro.

Fiquei contente por ter reparado.

- Margarida, sabes que gosto muito de ti e acho que gostas de mim.

- Verdade.

Começou a rir e a ficar corada.

- Tenho um pedido para te fazer.

Levantei-me. Pus um joelho no chão. Abri a caixa onde estava a pulseira que fiz e perguntei-lhe.

- Aceitas ser minha mãe?

 

Acabei agora de arrumar o meu ultimo livro na minha caixa de cartão. Olho à volta e despeço-me do quarto cheio de camas onde dormi nos últimos dois anos. Saio e espero cá fora pela Margarida. Olho para o céu e lembro-me que lá estás.

Tu vais estar sempre aqui, no meu coração. Pus a mão no meu peito, no mesmo sitio onde a mãe costumava pôr.

 

 

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