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Em busca da felicidade

Ansiedades de uma vida que se queria normal

Acordo com os primeiros raios de sol a bater nas persianas. Ainda só são 7 da manhã. Uma hora maravilhosa para os tempos de férias. O Nuno ainda dorme e o pequeno está espraiado na sua cama. No quarto dele. Destapado como sempre.

Bebo o meu smothie e saio para um treino rápido. O que tinha programado.

Volto. Passo o corpo por água. Visto-me para a praia.

Vou até à cozinha e preparo o pequeno almoço. Panquecas de aveia e maçã, acompanhadas de um smothie vitaminado de banana e frutos vermelhos.

Saímos para uma manhã mais quente do que seria de esperar. Passamos a manhã entre mergulhos e castelos na areia.

Voltamos para almoçar um peixinho grelhado.

À tarde arranjamos o resto da despensa. Penduramos os cortinados novos. Escrevo o texto que tenho em falta. Num magnifico momento de inspiração. Envio-o confiante. Preparamos a mala do pequeno e vamos leva-lo aos avós.

Passa lá a noite. É dia de ir ao cinema e jantar fora.

Chegamos ao restaurante e admiro satisfeita o meu próprio reflexo no espelho. Um vestido de jersey cinzento. Fresco e justo, como seria de esperar numas férias de verão. Abraça um corpo bem torneado. Resultado de uma alimentação cuidada, de um treino regular, de uma vida descansada.

Calçadas estão as minhas sandálias, as que comprei a bom preço mesmo no fim do verão. No pulso uma pulseira a condizer, daquelas surpresas que só o Nuno sabe fazer.

 

Depois acordo.

 

Passa das 8:30 e ainda estamos na cama. O pequeno esticado ao meu lado faz com que o meu cérebro se recorde que afinal acordei antes das quatro para o embalar, para lhe dar um biberão de leite. Para o deixar a dormir entre nós dois, enquanto nos contorcemos para criar o espaço que não existe.

"JÁ são 8:30?!" Está tudo por fazer. O que é normal porque estamos de férias e o que mais precisamos é de descanso e descontracção. De esquecer que existe uma coisa chamada relógio. Que existem ponteiros que se movem com vontade própria e que fazem os dias avançar a um ritmo que não é o nosso.

Lembro-me que já é quarta-feira, quando me devia recordar que ainda é quarta-feira. Pressiono-me a fazer mais porque já só faltam 5 dias para voltar ao trabalho, em vez de me recostar porque ainda faltam 5 dias para voltar ao trabalho.

O mesmo dilema de sempre.

O de querer encaixar nas férias tudo e mais alguma coisa, menos o descanso merecido. E depois volto ao trabalho tão cansada quanto no dia em que entrei de férias.

Levanto-me para perceber que estou em fraqueza, o sistema nervoso e a puta da pressão arterial de periquito que tenho, juntaram-se para me atazanar, para fazer com que tenha de ir comer não com vontade mas com urgência.

O Nuno anda vagaroso pela casa. O pequeno não se quer vestir. Desata aos pontapés cada vez que lhe tento mudar a fralda.

Enquanto lhe tiro a fralda da noite e preparo a nova faz um xixi gigante em cima da minha cama. Em resultado na inexistência de pessoas adultas incontinentes, na minha cama não há resguardo, pelo que fico com o colchão cheio de xixi.

Acabo de o vestir e pouso-o no não, sem estar bem certa se eu própria não vou acabar no chão.

Vou dar com ele a correr para a sala, o Nuno deixou a porta aberta.

Quer jogar às escondidas. O que implica que eu tenha de me levantar e baixar 1000 vezes atrás do sofá e fazer "cucu".

Quando saio da sala estou branca. O Nuno faz uma brincadeira e eu estou capaz de lhe apertar o pescoço. Não me apetece brincar. Só me apetecia que o dia não tivesse começado assim.

Saímos. Tomamos o pequeno almoço na rua. Dois galões, uma torrada e uma torta cheia de creme, exactamente como devia ser para alguém que quer rever as porcarias que come. Tudo comido à vez porque alguém tem de tomar conta da criatura pequena que não aceita ficar sentada à mesa.

Íamos seguir para a praia. Mas afinal havia uma borrada na fralda e o melhor era subir a casa para limpar um cu cagado.

Sentamo-nos no carro e seguimos para a praia.

O dia mais quente que já apanhamos, um bom dia de praia e cedo o pequeno quer ir embora. Aponta para o chuveiro. Sinal de que, para ele, tá bom de praia.

Lá vamos.

Chegamos a casa e dorme quase até às duas da tarde. Nós aproveitamos para fazer mais duas ou três coisas em falta e descansar uns minutos.

Despachados os almoços há coisas para fazer.

Um armário para arranjar, cortinados para pendurar, um treino por fazer (esta minha coisa de querer começar planos de emagrecimento nas férias em vez de descansar para voltar com vontade), um texto por escrever (e eu sem ideia nenhuma de como fazer), máquinas de roupa para estender, outras tantas por apanhar, a cesta de roupa para passar que se tinha de entregar, a mala do pequeno por fazer, o pequeno por entregar, sacos de roupa que temos para dar que ainda não fomos entregar.

O ar a faltar. A ser sugado e a cabeça a patinar. Tanta coisa por fazer e nós a ter de estar no restaurante no máximo às 20 para ter tempo de apanhar o filme que começava às 21.

A neura a aumentar e eu, sem perceber porquê, a perder a paciência e a capacidade de raciocínio para organizar as obrigações que se criam para dias que se querem de descanso. Dias onde a frase "temos de" não se devia proferir.

Passo-me da marmita. Mando vir com o Nuno e acabamos por deixar jantar e cinema de lado. A neura foi tal que nem isso se fez, nem se concluíram as outras tarefas.

Acabei a tarde a ver o extra da Casa dos Segredos (sim por eu vejo a casa dos segredos, ups, perdi os poucos leitores que tinha, eu sei! mas é verdade, vejo e gosto), enquanto o pequeno dormia a sesta. Com o meu vestido desmilinguido de andar por casa, sem as sandálias que andei o verão todo para comprar e não comprei, até porque no dia em que as quis ir experimentar já não havia o meu numero. Sem curvas trabalhadas, porque se come o que apetece e o treino tem ficado para outras núpcias.

 

Esta minha mania de querer começar coisas nos dias que devem ser diferentes das obrigações habituais. Esta minha mania de criar expectativas desproporcionadas. Esta minha incapacidade de compreender e interiorizar que o que tiver de acontecer, vai acontecer. Para o bem e para o mal.

Esta minha falta de jeito para estar onde estou sem criar planos e estatísticas e estimativas e expectativas para tudo e mais alguma coisa.

Esta minha falta de noção de que se não saboreio os momentos chego ao fim da vida sem viver nenhum.

Para quê criar obrigações para além das que tenho? Para quê retirar o prazer das coisas que faço exactamente pelo gosto que me dão? Para quê fazer de hobbies projectos? Eu sei, porque gostava que se tornassem projectos. Mas as coisas têm de ser feitas com calma. Sob pena de as expectativas não alcançadas darem lugar a valentes frustrações.

Porque não serei capaz de deixar a vida seguir e, quem sabe, se não consigo a habilidade de me surpreender a mim mesma! De ser positivamente surpreendida pela vida.

Hoje lembrei-me várias vezes do livro Marley e Eu. Do livro e do filme. Lembrei-me do momento da entrevista, em que o John Grogan diz "tenho esta tendência de me surpreender a mim mesmo"

E queria tanto isso para mim.

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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