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Em busca da felicidade

Assumo: fiz um juízo de valor precipitado

Há vários anos atrás a minha prima trabalhava num Hospital veterinário; trabalhavam por turnos e ela estava a fazer o horário da noite. Já tinham visto o mesmo carro a rondar, mas não passaram grande atenção, até porque às vezes as pessoas passam só mesmo para perceber se é ali o Hospital ou se está mesmo a funcionar.

Ao fim de alguns minutos a minha prima vê dois encapuçados a vir direitos ao Hospital, já estavam no jardim de entrada; gritou para a colega: «fecha a porta!», a rapariga, atarantada com os nervos fechou a porta de vidro em vez de fechar a porta de segurança, e ficou ali, parada, a vê-los chegar e apontar-lhe uma arma.

 

Tudo isto para dizer que, em situações limite nenhum de nós sabe o que faria. Sabemos sempre tudo e achamos sempre o mundo, porque à distância, é como se brincássemos com um jogo de computador. Há sempre mais vidas.

 

Ontem escrevi este texto. Tem juízos de valor? Tem. Tem achamentos fáceis de quem está no seu sofá a saber o que fazer, porque da televisão é sempre mais fácil? Tem.

A verdade é que me senti afetada pela situação. Emocionei-me. Fiquei com ainda mais medos. Vi o meu filho a brincar à beira mar como faz todos os fins de semana.

Vi o meu menino de dois anos e meio no areal da Costa e desejei que tivessem atirado o avião ao mar. Desejei que tivessem pensado melhor. Desejei que tivessem sido perfeitos e racionais. Desejei que estivessem isentos de erros. Desejei que preferissem morrer a acertar em alguém. Roguei pragas aos aviões que passam nas praias. Quis que se acabassem com os aviões num todo. Que o ser humano anda por terra ou por mar, o ar é para os pássaros. Quis que a vida não tivesses estas coisas.

Só consegui ver o meu filho a brincar à beira mar. Não tentei, porque se o fizesse desmaiava, mas pensei muito em como seria sentir a dor daquele pai.

 

É-me difícil aceitar que a vida é a vida. Que as coisas às vezes acontecem sem que lhes encontremos uma explicação. Que o azar existe e que por vezes se está no sitio errado a uma hora que não é, de todo, a melhor. E adivinha-la? Gostava de saber adivinhar essa hora.

 

Depois de ter publicado o meu texto, fui dar uma volta pelos blogs do costume. Dei com este texto da Cocó na Fralda e com este da Pipoca mais doce. Não fossem estes suficientes o João apareceu para me dizer qualquer coisa como «olha lá, que isto não é assim tão linear….ninguém sabe o que foi estar naquele avião!»

 

E eu dei comigo a pensar: «O que farias tu Cátia? De repente, aqui da cadeira do trabalho, aterravas no mar. Aterravas porque nas várias vidas que tens quando te colocas no lugar dos outros, voltas sempre para casa ao final do dia. Então e se estivesses mesmo dentro do avião? E quando aparecesse a frase: podes nunca mais ver o teu filho! Que fazias tu, mulher? Mandavas-te à água? Tentavas aterrar. Sabes lá!»

Daqui não foi difícil ver o meu filho a pilotar o avião: «então e se o miúdo um dia te diz que quer ser piloto? Vais matar-te a trabalhar para lhe pagar a formação. Vais desejar e rezar – mesmo sem ser crente – para que nunca aconteça nada ao avião. Mas e se fosse ele a pilotar aquele avião? E se fosse ele a aprender? Que querias tu, mulher? Querias que fizessem tudo para que ele estivesse em casa à hora de jantar. Tal como tinha saído nesse dia de manhã. Nem mais um arranhão!»

 

Por isso se calhar deixemos os juízos de valor para outra altura. Estes textos fizeram-me pensar, o que me disse o João fez-me refletir, e eu, apesar do sangue quente que grita desvairado por vezes, parei, pensei, refleti e percebi-me errada.

 

Os pilotos, com erros ou sem eles já têm, como muito bem disse a Pipoca, a maior condenação de sempre…viver com o que aconteceu. Se mais responsabilidades houver a apurar, que seja a justiça a encarregar-se disso.

Aos familiares do senhor que faleceu, lamento.

Aos pais da menina de 8 anos, lamento. E peço desculpa por não ter mais palavras para expressar de forma mais eloquente o quanto sinto a perda.

 

Agora vou ali aproveitar este ensinamento de vida para organizar ideias fim de semana afora e fazer de mim alguém, milímetro e meio melhor.

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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