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Em busca da felicidade

Cansa-me falar do cansaço…

…mas é extremo, é intenso, é pesado, é absorvente, é prufundo, quase parece esgotante. Mas depois lá está, talvez não seja cansaço, pode sempre ser fadiga, alguns dirão uma certa falta de motivação; quem sabe?! Uma certa falta de adaptação aos dias que correm mais depressa que as horas e eu não consigo acompanhar os pedidos, as exigências, os estímulos, os pensamentos que deviam chegar um de cada vez e eu tenho de os gerir como se de uma fábrica de bolachas se tratasse. Uma fabrica de bolachas que prepara os bonequinhos de aveia para as crianças na noite de natal. Os meus neurónios mil duendes, sem fato de várias cores, sem sorrisos e com olheiras, a minha mente cinzenta em vez de preenchida com todas as cores.

Os dias prolongam-se pela noite, as horas de sono repartidas como uma tablete de chocolate, cheia de socalcos, às mesmas horas, os mesmos pedidos, o mesmo colo. De manhã o despertador toca à mesma hora, implacável, lembra-me que o dia está a começar.

Mas como se ainda não acabou?

E a semana transforma-se num dia gigante, cheio de horas que se parecem misturar umas com as outras. No banho lembro as tarefas pendentes no trabalho, as que me faltam em casa, deixo cair o champoo quando me lembro que falta sopa para amanhã. As refeições preparam-se com antecedência. Um pequeno patrão exigente chega para jantar à hora de entrar em casa. Tem fome e pouca culpa por os pais não conseguirem horários melhores, pela casa ficar a mil quilómetros de distância. A vida ainda lhe corre alheia aos percalços da realidade.

Lá chegará, com tempo.

A caminho de casa ouço os meus próprios pés a arrastar pelo chão, a pernas sem força já nem se dão ao trabalho de levantar o pé da calçada, erguem-no quanto baste para pôr um à frente do outro, para arrastar o corpo à escadaria do prédio, para o encaminhar para o segundo emprego: de passeadora de cães, de cozinheira, de faxineira, de engomadeira; mas, quem sabe, se tudo correr bem, ainda me é possível um momento lúdico para ser a mãe que brinca. Nunca um pouco para ser a mulher que descansa. A outra mãe manda comer, gere birras, manda sentar, dá a sopa de contra-vontade, põe no banho, tira do banho, veste pijama, diz que não. A outra mãe é uma espécie de sargenta que cansa o filho e que cansa ainda mais a mãe.

Quando estou sozinha, nestes momentos em que quase silencio a minha mente, consigo ouvir todos os sons: os sapatos que se arrastam no chão, a alça da mala do computador que desliza pelo chão, o clique da tecla do código de entrada, aquela que tenho de pressionar sempre mais um pouco, a chave a rodar na porta, as patas dos cães na porta de entrada, o barulho dos sacos a pousar, o suspiro dos meus braços quando os pouso, a torneira a abrir e a água a correr. Fecho os olhos e quase descanso por 5 segundos.

Aprecio o silêncio.

Daqui a pouco tudo vai mudar, eu sou mandar os cães para a cama para pôr as trelas, vou manda-los calar 20 vezes porque ladram aos vizinhos, vou dizer mil vezes, até me deitar, que a cadela não pode roer as patas, a chave vai rodar na porta e pai e filho vão entrar, o pequeno vai querer tudo e não querer nada, quem sabe dar-me-á um beijo, ou quem sabe vai perguntar se a minha mala traz uma surpresa, vou lidar com as birras, com as coisas de que não tem vontade, com tudo aquilo que só a mãe pode fazer, mesmo quando o pai se oferece.

Vou entrar na banheira como um ser dormente, ciente de que o dia não acaba ali.

Vou vestir pijamas em guerra, vou pedir para estar quieto mil vezes, vou dar medicamentos para alergias e ler histórias, vou convencer a dormir e pegar no meu livro. Vou lutar contra o sono e ler um capitulo. Vou ganhar vontade de continuar e fechar na próxima página porque o dia já vai longo e amanhã tudo começa cedo. Vou encostar-me à almoçada acreditando que me vai custar adormecer. Vou apagar em menos de 5 segundos e acordar sem acreditar que a noite já está a meio.

Tudo começa outra vez, não quando acordo, mas quando acabo de me deitar.

Ao longo do dia não ouço os sons. Gosto do barulho das teclas do computador. Parece-me um som adocicado, faz-me pensar em gomas fofas e algodão doce. Não sei explicar porquê. Acalma-me, o som das teclas. Escrevo mais rápido com um teclado à frente. Tudo o que escrevo parece mais nítido.

Lembro-me várias vezes do dia em que me sentei ao lado da cama da minha tia Lurdes, quando a casa ainda era no 3º andar, sentada no chão com as costas na colcha de renda, a luz que entrava da portada de vidro, parecia um espaço diferente e eu tinha à frente a maquina de escrever da minha prima. Carregar nas teclas fazia sentido. Acalmava-me.

Ainda hoje me lembro desse dia com quase 30 nos.

Lembro-me quando ando cansada. Provavelmente por causa da fadiga. Ou do esgotamento da energia que move tudo isto cá dentro.

Dias há em que caminho com a sensação que me apago. Assim, como quem apaga a luz, há um interruptor de carrega para baixo e fim. Acaba-se. Ou quem sabe uma espécie de reiniciar de computador.

Cansa-me isto de falar do cansaço. Especialmente porque nunca sei bem se é cansaço, se é fadiga. Sei que me parecem esgotadas as reservas e não há poço mágico.

Cansa-me isto porque não tem graça, porque as frases parecem perdidas, porque se percebe o cansaço do meu cansaço.

Enfim. É uma canseira.

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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