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Em busca da felicidade

Dar milho aos pombos

(imagem retirada da net)

 

Lembro-me de ser pequena e ir passear à baixa com a minha mãe. Os irmãos mais velhos tinham as coisas deles, por isso íamos as duas. Íamos às lojas de tecidos da baixa. Pintas, riscas, flores. Algodão, linho, cetim e napa. Botões simples e com brilhantes. Fechos grande e pequenos, das mais variadas cores.

Cada tecido um vestido possível.

- Se sobrar da cliente fazemos um para ti. Com pintas e riscas. A mãe viu numa revista. Fica bem lindo.

Dois metros de renda.

- Se sobrar alguma, ainda pomos no vestido.

Feliz.

Era feliz nesses dias.

Nesses dias que não sabia o valor das coisas. Só conhecia o que eu lhes dava. Que a minha mãe costurava. Que mais ninguém tinha. Que eu rodava por casa e era uma princesa sem mais ninguém saber.

Que fechava os olhos e os caracóis rebeldes se transformavam em cabelos lisos e sedosos. Uma vez loiros outros morenos. Esvoaçavam e quando parava, voltavam sempre ao seu lugar.

Lembro-me dos dias em que a minha mãe vestia o fato azul e os sapatos de verniz. Costureira sim. Uma senhora também. Sempre bem apresentada. Os seus sapatos de salto alto de verniz.

Eu de totós. Ou com uma trança longa. Quem sabe nos dias que nos levantávamos mais cedo se não fazia um rabo de cavalo cheio de canudos.

Um vestido de algodão e cetim. Um sapatos com fivela. As meias com renda inglesa.

Apanhávamos o autocarro. Chegávamos a Cacilhas a tempo de ficar a ver as pessoas na azafama de ir trabalhar. A pensar porque raio tinham tanta pressa.

Íamos a Lisboa. Lisboa é linda. Não há pressa em Lisboa.

Apanhávamos o Cacilheiro.

O que eu gostava de passar o Tejo de cacilheiro. Tenho saudades.

A professora tinha contado que há muitos anos tinham sido vistos golfinhos no Tejo. Se calhar ainda aparecia um, só para eu ver.

No Rossio comprava-se milho à senhora. Dava milho aos pombos.

Nessa altura gostava de pombos. Ainda não me sujavam o carro.

Depois alguém decidiu que era proibido dar milho aos pombos no Rossio.

Já não lá ia há anos quando o proibiram. Mas ficou a saudade.

Gostava de ir apanhar o cacilheiro. De ir comprar milho à velhota e de o mandar aos pombos.

Lembrar-me de quando era pequena. De quando vestia pintas com riscas e era feliz por nada. De quando fechava os olhos e acreditava que era uma princesa. Só porque sim. Só porque eu queria.

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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