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Em busca da felicidade

Epicrítico e Protopático

Epicrítico - Que tem uma sensibilidade fina, especifica e localizada ao tacto, à pressão, à dor ou á temperatura, por oposição ao protopático.

Protopático - Que tem uma sensibilidade grosseira, pouco especifica ou pouco localizada ao tacto, à pressão, à dor ou à temperatura, por oposição ao epicrítico.

(informações disponíveis no dicionário Priberam

 

Gosto e usar o dicionário, saber o que as palavras são e o que podem ser, até porque muitas vezes têm mais significados do que aqueles que eu conheço para lhe atribuir.

 

Sempre gostei de me rir. Sempre gostei de brincar com as palavras. Tiro gozo de fazer pouco das circunstâncias da vida, até porque, de outra forma é tudo tão mais cinzento, tão mais forçado, tão mais rígido.

Gosto de pessoas que não se levam demasiado a sério. Gosto de não me levar a sério e é exatamente por isso que faço pouco de mim, das minhas escolhas, da minha cabeça, do que sou e das decisões que tomo. É possível que seja a minha forma de lidar com a aspereza da vida, mas lá está, cada um com a sua.

Apetece-me contar uma história.

Quando era miúda tinha uma amiga que vou chamar de Maria. Assim só Maria. Não nos vemos há muitos anos e estou certa que é algo bom para ambas. Esta minha amiga comportava-se como se fosse a mais especial das raparigas: o que ela fazia era o que estava certo, o que ela dizia era perfeito, os cadernos dela eram os melhores, as pessoas de quem ela gostavam eram sempre as mais fixes; os outros andavam por ali.

Eu nunca fui líder de nada. Nunca fui especial para coisa nenhuma, mas também nunca tive perfil para ser um mamífero ruminante e lanífero da espécie Ovis, vulgo carneiro. No meio de todos os defeitos que assumo ter há um que me orgulho de não constar da lista: não sigo as ideias dos outros só porque eles são fixes ou porque a maioria acha que sim. Penso pela minha própria cabeça, gosto de pensar pelo prazer de pensar, gosto de desconstruir os temas e é aí, nesse momento em que me avalio a mim mesma, que sou capaz de me rir das minhas fragilidades, das minhas escolhas, do que sou. É um processo de conhecimento que pode ser bastante divertido.Ou então não.

Mas voltando à Maria. Ela ria-se muito quando eu fazia pouco de mim mesma, concordava quando alguém fazia pouco das peculiaridades alheias, mas quando o tema era a própria tudo mudava de figura. Apenas ela podia escolher com o que fazer troça e só a própria podia faze-lo. Ela podia fazer troça dos outros, mas ninguém podia brincar com as suas idiossincrasias.

Descobri isto porque houve um dia em que ela se espatifou no chão porque, distraída, embrulhou os pés um no outro. Ri-me que nem uma perdida. Ri-me de forma incontrolada. Não demorou 5 minutos para que aquela amiga - que se ria quando eu fazia pouco de mim mesma por ser gorda - me oferecesse um tabefe. Não demorou mais de uma semana para que eu passasse a ser uma pessoa menos desejada no seu circulo de amigos.

Eu defequei para a situação. Como aliás faço sempre. Considerando que nunca tinha feito parte do rebanho, não me causou incomodo.

Mas deu-se o fenómeno da aprendizagem. Eu aprendi que as pessoas não são exatamente aquilo que nos dão a ver, que se melindram com pouco, que mesmo quando fazem pouco de si, se outra pessoa se atreve, sentem-se ofendidas e com uma espécie de refluxo esofágico de defesa. Tantas vezes injustificado.

Nos dias que correm isto acontece mais vezes do que seria de esperar. Apesar de ser espectavel, com o acesso à escolaridade para todos, que a capacidade de interpretação estivesse mais apurada. Acontece porque as pessoas se ofendem a troco de nada. Porque quando leem ou ouvem algo garantem a retenção exclusiva de um conjunto de palavras e, a partir daí, fazem as extrapolações que entendem, resultando estas, na maior parte das vezes, em manifestações de melindramento, ofensa, repulsa pelo outro e no bendito refluxo de defesa. Mesmo que não haja nada que de tal careça.

Deve ser da celeridade dos dias, ou quem sabe do calor, ou do frio, ou de uma qualquer necessidade de indignação que parece pairar como o vírus da gripe.

O facto de as pessoas se ofenderem com as palavras alheias resulta, muitas vezes, de um profundo narcisismo, até porque, exceção feita para os casos em que o nome da pessoa é apontado, é preciso que a pessoa ache mesmo que é, não só a melhor bolacha do pacote, como a única; para sentir que alguém está a tentar fazer pouco de si.

Quem escreve tem vida, espera-se que tenha mais que fazer, por isso não levemos tão a peito as palavras. Essas só nos magoam se deixarmos. Não são socos.

As palavras, os textos, esses que deviam ser interpretados e que hoje são absorvidos de forma literal, como se nenhuma outra função pudesse ser atribuída a uma palavra.

Há umas semanas reli esta crónica do Ricardo Araújo Pereira e, infelizmente, voltei a adorar. Vou explicar: infelizmente porque era melhor que não fosse assim, que ela não tivesse de ter sido escrita. Convido-vos a ler também, a ler e a refletir. A fazer um exercício simples: quando lerem um texto escrito por alguém demorem o tempo que for preciso, garantam que leem todas as palavras, assegurem-se que não se estão a agarrar a duas ou três que vos são mais próximas, desconstruam o texto e pensem em tudo o que pode estar dito. Pensem sobre as palavras escritas e depois reflitam. No fim vão ver que não há nada para se indignar, nada para justificar, nada para ofender. No fim, nada do que lá está é sobre vocês.

É um exercício que carece de treino, mas no fim é compensador.

Tenham uma boa semana.

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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