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Em busca da felicidade

Era tão bom que a vida fosse assim…

 

Não leio nenhum jornal de fio a pavio e evito o Correio da Manhã de todas as maneiras possíveis, diz que para uma pessoa medrosa e com tendências hipocondríacas é um mau jornal. Uma pessoa lê a primeira página e fica a saber de pelo menos 50 formas diferentes de como pode morrer ou ficar gravemente ferido. Quando lê o jornal todo ergue a cabeça para os céus e agradece a Deus o milagre de ainda estar vivo.

Por isso vou seguindo as noticias da actualidade pela rádio ou pelo telejornal – coisa que também não vejo na totalidade, normalmente tenho um limite de mortos, quando chegamos ao terceiro mudo – e no que respeita a outras coisas menos da actualidade, chamemos-lhe assim, vou ficando a saber pelo meu querido Facebook, este entretém tão recente e que parece que finalmente aprendi a usar. Estou a pensar em abrir também uma conta no Instagram, mas isso só depois de comprar umas calças de ganga rasgadas, os ténis dourados já tenho.

Ora, foi por este meio de comunicação, o Facebook, que tive acesso a um estudo que foi publicado esta semana pelo Observador, ora diz este magnifico – e com o qual concordo inteiramente, afirmo já – estudo que existem inúmeros benefícios em não trabalhar mais de 25 horas por semana, particularmente para pessoas com mais de 40 anos, sendo aconselhável que não trabalhem mais de 3 dias seguidos com turnos de 8 horas ou que tenham apenas no total uma carga horária de trabalho não superior às tais 25 horas semanais. Dizem ainda que “O trabalho pode ser uma faca de dois gumes, estimulante para a actividade cerebral, mas ao mesmo tempo as pessoas precisam de moderação. Longas horas de trabalho podem causar stress e fadiga, potencialmente prejudiciais para as funções cognitivas".

Ora este estudo vem demonstrar aquilo que eu vejo como verdade e que a maioria das pessoas sabe ser, o desgaste físico e mental – que varia no seu peso consoante as profissões – leva-nos muitas vezes a um desgaste tremendo do nosso corpo e da nossa mente. Isto associado a um nível de responsabilidades cada vez maior e à impossibilidade de fazer coisas que nos dão prazer, seja por falta de tempo, seja por falta de dinheiro, ou ambas, resulta num permanente estado de stress porque nunca encontramos mecanismos de descompressão. Não temos tempo para eles.

Inscrevemo-nos nos ginásios porque o desporto faz bem e vamos relaxar, mas vamos para lá a correr, fazemos o que temos a fazer o mais depressa que der, arranjamos treinos intensos para fazer mais com menos minutos, tomamos banho sem saborear a água quente nas nossas costas e quando saímos ainda suamos porque o relógio não parou e a vida continua, nós ali a relaxar. Dizemos para dentro que nos soube bem, e soube, os escassos minutos em que treinámos, mas o resto foi mais um motivo para colocar pressão em cima dos ombros. Depois lemos textos de pensamentos positivos, que a vida tem de ser vista com o copo meio cheio e nós lá tentamos olhar para ele dessa forma. Que o que interessa é estar, é ser, e coisa e tal.

Tudo isto é verdade, não há aqui mentiras, a questão é que não temos tempo para saborear, para respirar, para fazer as coisas com calma. Detesto que me digam para ter calma, exactamente porque não a deixo de ter porque me apeteceu, ela evaporou-se porque estou numa espiral de pressão e responsabilidades, com o cérebro em modo de leitura de lista de compras para todos os afazeres do dia. Devo ocupar-me do que estou a fazer no momento e não preocupar-me com o que falta fazer. Certo, mas com a idade e o desgaste a cabeça deixa de se lembrar naturalmente do que tem de fazer e então quando falha zanga-se consigo mesma e os outros com ela, quando falhamos com o prometido.

Se os dias de trabalho não fossem tão pesados havia tempo para mais. Para poder fazer a ginástica sem a culpa de ter de escolher entre estar mais uma hora com o filho ou ir desenvolver a massa muscular. Havia mais tempo para comprar os legumes certos e preparar o jantar em vez de mandar alguma coisa para o prato e sentar-me já sem vontade de comer com o trabalho que aquilo me deu, e a loiça que ainda tenho de lavar. Mais valia ter comido uma taça de estrelitas. Mas não posso ensinar isso ao pequeno e com a idade a avançar cada vez menos posso encher-me de açúcar no bucho.

Um turno de 25 horas. Trabalhar 4 a 5 horas por dia. Que sonho! Dava para me levantar com calma, preparar o pequeno, preparar um pequeno almoço gostoso, ir entregar o pequeno à escola ou aos avós e seguir à minha vida. Cumprir os meus deveres acerrimamente durante estas horas e sair para passar no ginásio, desanuviar calmamente com 45 minutos de treino e uma água quente no lombo, quem sabe até um banho turco 2 ou 3 vezes por semana. Dava para sair do ginásio, relaxada com o meu treino, de banhinho tomado e as chatices lá para trás. Passar no mercado e comprar os legumes certos e todos os outros ingredientes frescos para preparar o jantar. Podia ir buscar o pequeno e, se tivesse sol, podíamos ir ao jardim, brincar e saltar. Passear os cães com calma e deixa-los correr à vontade no jardim. Ir para casa e fazer o jantar, com tempo para pausas e sem pressão. Jantar e rir sem olhar para o relógio. Ir pôr o pequeno a dormir e ler uma história as vezes que ele quisesse, responder a todos os porquês sem a pressão de quem quer que adormeça depressa porque ainda tem tarefas para acabar. Dar o beijo de boa noite com todo o tempo do mundo e ir-me deitar com um livro na mão. Antes passar pelo blog e escrever mais umas balelas. Encostar-me à almofada de livro em punho com a confiança de quem pode acabar um capitulo e dormir 8 horas seguidas logo depois. Acordar de manhã com a cabeça descansada, feliz e com vontade de repetir tudo outra vez.

Era isto. Não parece muito mas é o mundo. Para mim era ganhar o mundo. Ter tempo. Mas mais tempo custa dinheiro e dinheiro que faz falta para as contas. É nestes momentos que penso nas responsabilidades em que nos metemos, se não vivíamos melhor com um carro mais velho, uma casa mais barata, umas roupas mais coçadas ou em menor numero. Mas todas estas coisas se tornam essenciais, só ainda não percebi se porque são de facto, ou se porque se tornam, como compensação por tudo o resto que não temos.

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