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Em busca da felicidade

Era uma vez eu (nós) velhinha (os)…

 

Sempre que esta música passa na rádio sou transportada no tempo, desta vez não para o meu passado, para as memórias boas de que tenho saudades, aquelas que me esforço por guardar. Desta vez leva-me para daqui a 50 anos, a cara já bem diferente do que é hoje, se calhar com menos rugas que as da minha avozinha, que na época dela não havia cremes anti-rugas, muito menos para senhoras do campo, mas com as marcas de uma vida vivida. As bochechas marcadas pelos momentos de riso, de felicidade, que de tanto repuxar para deixar os dentes expostos deixaram memória, na mente e na pele. As rugas na testa pelas vezes que fico incrédula, outras pelas vezes que me zango, tantas, às vezes demais. A pele do corpo sem firmeza, já não há ginásio nem cremes que lhe valham ainda que a persistência se mantenha.

Quando ouço esta musica sou transportada para o futuro, para quando o corpo já não interessa, a cara de menina ficou lá para trás, mas o amor continua tão jovem como no primeiro dia. Ouço a música e lembro-me do filme, uns desenhos animados de um velhote que perdeu o amor da sua vida e agora faz tudo para salvar a casa colorida onde viveram uma vida inteira, tenta levá-la do mundo frio de betão para o sitio onde tinham sonhado viver. Olho para aquele velhote, um boneco animado e vejo o Nuno, velhote e rezingão como sempre. A sua roupa polida e a sua falta de paciência habitual.

Vejo-nos a nós. Velhinhos mas sempre juntos. Bem dispostos com a presença um do outro. Felizes com as pequenices do dia a dia, contornando os percalços do caminho que tantas vezes nos roubam os sonhos maiores. A trabalhar todos os dias, querendo ou não, para amealhar mais duas moedas e fazer aquela viagem, comprar aquela casa e depois, lá vem percalço e esquece a viagem, esquece a casa. Dão-se as mãos, olham-se as fortunas de cada um, aquelas com que dormimos todas as noites, aquela que beijamos todas as noites e deitamos hoje na sua caminha de grades e, com um sorriso maior ou menor, com um encolher de ombros…adiante.

A casa colorida, pirosa, um espelho da cor que nos vai nos corações, sem designers nem coisas de marca, sempre com uma ou duas peças fora do sitio que eu detesto casas imaculadas, fico sempre com a ideia que não mora lá ninguém. Tenho que ter sempre alguma coisa fora do sitio, nem que sejam as chaves de casa, sinal de uma vida num espaço de quatro pareces.

Vejo-nos assim, velhinhos. Filhos criados. Eu a louca de sempre, com ideias mirabolantes, a fazer tonteiras que o fazem revirar os olhos ou partir o coco à gargalhada, não lhe ocorreria tamanhas trapaças. Ele rezingão a precisar de convencimento para tudo e mais alguma coisa. O complementar permanente, da tonta que vive no limiar da loucura e do razoável que lhe segura a consciência por um fio. Juntos, com maior ou menor trambolhão encontramos o nosso equilíbrio.

Juntos e alegres com o que somos e temos. Filhos criados, netos estragados com mimos, cães, gatos e coelhos. Passeios e trilhos na reforma. Viagens com caminhadas até à exaustão, que se vivem com o descanso de um velhote que pode deixar a sua velhota fazer figuras à vontade porque provavelmente já não volta aquele lugar. Não há vergonhas no dia a seguir.

Depois dos 50 mais 20, que vamos ser velhos chatos e o Senhor mantém-nos cá porque não tem paciência para nos aturar. Vamos para lá dar-lhe conta da tola!

Um dia a velhinha parte e o velhote fica, rezingão. Também vejo assim. Uma partida em primeiro, já bem velhinha, satisfeita por ter gozado tudo o que tinha para gozar. Uma partida primeiro porque já conheço a perda e sei que lido mal com ela.

E no fim deixo um livro de memórias felizes, porventura não aquelas que programei viver, mas aquelas que o caminho da minha vida trouxe, estou certa de que são aquelas que precisava viver.

 

Para quem ainda não viu o filme, vejam, os que nos conhecem vão perceber as semelhanças, os que não conhecem talvez encontrem algumas na sua.

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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