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Em busca da felicidade

Este (estranho) sentido de conhecer

O que é feito do tradicional sentido de amizade? Aquela que nascia na rua depois de jogar às escondidas. Aquela que nascia na primeira carteira da escola. Aquela que nasce no primeiro dia de faculdade. Aquela que nasce no primeiro dia de emprego. Aquela que nasce quando decidimos encontrar aquele hobbie que nos vai mudar e encontramos aquela outra pessoa que gosta quase tanto de tricot quanto nós. Aquela que nasce depois de uma batida de carro que serviu apenas para os astros colocarem uma pessoa no caminho da outra.

O que é feito do sentido de amizade onde olhar nos olhos de alguém era critério fundamental para o chamar de amigo?

O que é feito?

Amigos no facebook, amigos do facebook, amigos no instagram, amigos do instagram, amigos nos blogs, amigos dos blogs.

Não tenho.

Não tenho amigos nas redes sociais e muito menos amigos das redes sociais.

Tenho sim, pessoas que me são queridas, a quem chamo de amigas porque lhes conheço o olhar, porque lhes beijei o rosto, porque as abracei. Porque lhes conheço as fragilidades ou porque têm nas veias o mesmo sangue que eu. Algumas destas têm, tal como eu, uma conta aberta numa ou mais redes sociais, e partilhamos peripécias por lá. Permitem-nos pequenos momentos em que parecemos estar mais perto.

Encurtam distâncias.

Não tenho amigos do facebook, nem amigos do instagram, nem amigos dos blogs.

Acho graça às redes sociais, muito em especial aos blogs. Acho que sei das pessoas que leio aquilo que me querem contar, mas não somos amigos. Conto às pessoas o que entendo que me apetece reduzir a escrito e contar ao mundo, não somos amigos.

Cria-se um estranho sentido de conhecer. Porque se contam histórias, sentimentos, peripécias. Porque se dão opiniões. Porque se conversa nos comentários. Porque se deixam likes e corações.

Não somos amigos por isso.

Quem sabe meros conhecidos.

O que não quer dizer que em alguns casos não acabe por resultar numa amizade. Mas não assim, por trocas de meia duzia de palavras e dois emojis.

Não conto nada que não queira contar ao mundo. Não conto nada que não contaria à senhora Hilda da paragem em Entrecampos quando espera pelo 166 e a Carris está em greve.

Amigos são aqueles com quem conto nos momentos difíceis. Aqueles com quem partilho as minhas tristezas, as minhas angustias. Não os desamigo.

No facebook desamigo. Se me fartar desamigo. Porque pôr likes numa fotografia não alimenta uma amizade. São piscos num ecrã de computador. Apenas isso. Não desamigo da minha vida os meus irmãos, por mais parvos que possam ser para mim. Porque não os desamigo da minha vida. Fazem-me falta porque fazem parte do que sou.

No facebook desamigo. Já desamiguei. Não os meus irmãos mas outras pessoas. Fartei-me da pessoa, fartei-me das parvoeiras, fartei-me de lhe pôr piscos nas fotografias e quando percebi que nem Bom dia me dizia, pensei “então não faz sentido”.

Não entendo essa coisa de ser amigo do facebook. Tenho pessoas que estão lá no meu facebook que são colegas de trabalho, alguns já passaram por mim mais do que uma vez e nem me disseram bom dia. Acho que não é por mal, é só porque nem sabem bem quem sou. Conhecem-me o nome. Pediram para ser meus amigos, aceitei.

Que mal tem, afinal são só piscos num ecrã?! Se me fartar desamigo.

O mesmo acontece com o instagram.

O mesmo acontece com os blogs. Se me canso da pessoa, se me canso do conteúdo do que escreve, se sei que não tenho interesse em ler o que escreve, deixo de seguir. Já aconteceu mais do que uma vez. Para mim um blog não é diferente de uma qualquer revista online, levada a cabo por uma pessoa (normalmente só uma, ou mais comummente só uma), quando tenho interesse em ler leio, quando perco o interesse não faz sentido manter a subscrição.

Não há amizade. Há textos escritos. Uns que comento, se assim entender, outros que leio porque ler me ocupa o tempo, me relaxa a mente. Me distrai quando antes fumava um cigarro.

Não há amizade. Há, na melhor das hipóteses, uma troca de ideias. A mesma que se leva a cabo com o senhor que está à frente na cafetaria de todos os dias.

Mas há quem volte e comente sempre e leia sempre e tudo e tudo.

Pois há.

E gera-se assim um estranho sentido de conhecer. Uma proximidade que não existe. Porque no fim, no fundo, existem histórias contadas, analepses e prolepses de uma vida. Porque no fundo cada um conta o que quer contar. Dá a sua opinião.

Mas pode haver amizade!!! Podem dizer-me.

Claro que sim. Mas não na mera troca de textos. Para mim, não na mera troca de textos. Porque na amizade, lá está, falta o olhar, falta o beijo no rosto, falta o ombro, falta o abraço. Falta o conhecer de facto. Conhecer de verdade.

Falta o fazer falta.

Porque um amigo faz sempre falta.

Podemos passar anos sem ver um amigo, mas de quando em vez lembramo-nos dele.

Porque é das vivencias que se fazem as amizades. Dos momentos passados, das gargalhadas partilhadas, das angustias amparadas, das lágrimas limpas. Porque nos lembramos do dia em que fomos jantar todos e um bebeu demais e depois disse estas e aquelas baboseiras e todos nos rimos. Ninguém lembra uma amizade “daquele dia em que puseste um like no meu vestido azul” nem daquele dia “em que comentaste aquele texto tão bem escrito que publiquei”.

Cria-se este estranho sentido de conhecer.

Mas só conhecemos as palavras escritas. As que quem escreve quer deixar. Só conhecemos os momentos sorridentes, que a pessoa quer partilhar.

Amizade é muito mais do que isso.

É um verdadeiro sentido de conhecer.

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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