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Em busca da felicidade

Eu e o homem da sunga vermelha

A pedido de algumas centenas de milhar de famílias inteiras, que se debruçaram sobre o tema com tamanho empenho que até fizeram uma petição online, decidi contar então a história do homem da sunga vermelha, a qual menciono aqui, e que sim, me causa transtornos, numa espécie de reflexo pavloviano que me faz encarquilhar na minha própria pele.

 

Tinha eu os meus áureos vinte e um ou vinte dois anos, já não sei precisar, quando umas amigas de faculdade me desafiaram para ir passar uns dias ao Gerês. Nunca lá tinha ido, não sabia o que esperar e nessa altura da minha vida vivia num conceito pleno de despreocupação tal que quando lhes disse que sim nem sabia bem no que me estaria a meter. Dei comigo a saber que íamos acampar (nunca tinha acampado), a saber que nos íamos meter em empreitadas de caminhadas e cascatas e cavalos e o diabo a quatro. Dito o sim lá fui eu.

Chegamos e a tenda que nos foi emprestada não tinha uma vareta. Falamos de uma daquelas tendas que têm mais divisões que o meu T3, por isso é possível de imaginar que tivéssemos gasto algumas horas de vida para erguer aquele edifício de pano ao qual, no final, faltava um pilar fundamental (e tudo rimou, foi sem querer, ca giro, ca fofinho). Resultado, de volta à cidade para comprar uma tenda barata para mim e outra desgraçada.

Os dias passaram entre passeios a cavalo nas montanhas, onde pensei que a vida podia de facto terminar a qualquer segundo, afinal de contas tenho medo de alturas e o cavalo faz trilha mesmo ao lado da ravina.

“Não tenha medo, o cavalo tem mais medo que você de cair!” disse-me o guia quando confrontado com o meu olhar esgazeado de medo.

Andámos de moto quatro, sendo que fui agredida verbalmente pelo proprietário dos veículos, ao que entendi tinha menos paciência para medricas do que o treinador de cavalos.

Passeámos por Vilarinho das Furnas e vimos uma serra a arder. Infelizmente.

No penúltimo dia as minhas amigas decidem ir até às cascatas. Quando me falam em cascatas (e sendo que eu há 12 anos era profunda e incomensuravelmente mais inculta) achei que ia bater com os costados a uma coisa muito semelhante ao cenário da Lagoa Azul. Ao contrário disso havia uma espécie de uma ravina da qual desciam, pedra a pedra, famílias inteiras. As famílias, as geleiras e os tachos do almoço. Eu, que me borro de alturas disse “podem ir vocês, eu digo-vos adeus aqui de cima!”

Não me quiseram deixar sozinha, de maneira que fomos para uma espécie de mini cascatas que desaguavam na cascata grande….que ficava a uns bons metros abaixo destas.

Lá estivemos nós, deitadas ao sol, quais lagartos, quando decidimos que havíamos de ir comprar alguma coisa para comer. Eu que sim senhor, que a fominha já apertava. Vai daí que me levanto e caminho como se estivesse a andar numa qualquer calçada arranjadinha do centro de Lisboa. Mas não, caminhava em cima de uma espécie de verdete, vai dai e, qual boneco animado, salta-me uma perna quase até há altura da vista, a outra acompanha, aterro de befe e deslizo até à berma da pequena cascata de água, mesmo a milímetros de me escaqueirar lá em baixo, batendo diversas vezes com a cachola nas pedras que encontraria pelo caminho. Quando o corpo parou de deslizar pensei que tinha havido um milagre…mas só até ter aparecido ao pé de mim um transmontano, com uma pança enorme e uma sunga vermelha que se lhe enterrava nas carnes fartas. De pé mesmo ao meu lado, sem se dar sequer ao trabalho de me oferecer uma mão para me ajudar, grita (em nortenho) “VOCÊ QUER MORRER OU É O QUÊ?!”. Lembro-me que balbuciei um não muito singelo, levantei-me e fiz de conta que não tinha acontecido nada de grave.

Faço notar que estava estiraçada no chão, pelo que num momento em que quase me finei, tive também de sobreviver à visão (de baixo para cima) daquele ser dantesco.

Fiquei com a perna e parte das costas todas negras.

 

Até hoje evito espaços semelhantes e pessoas com as mesmas escolhas de outfit.

 

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