Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Em busca da felicidade

Fazes...quer dizer fizeste... 18 meses e eu vou contar-te que achava que eras feio

Escrevi este texto quando o meu foguete fez ano e meio. Sim 18 meses. Sim é lamechas. Lamechas como eu. Comemoro cada mês. Cada semana e cada dia. Todos os momentos contam para celebrar esta coisa de estar vivo. E quando passa mais um mês dá-me para isto. Para lembrar. Contar e ter alguma pena de não conseguir agarrar o cabrão estúpido do tempo...

20160629_093916.jpg

 

Eu não fui uma criança desejada. Nasci porque onde se criam 3 criam-se 4. Porque a avô não teve coragem de subir mais um lance de escadas. Porque tudo se cria, e que não ia ser exceção.

Nasci grande e gorda, com os poucos acompanhamentos médicos que existiam há 33 anos para famílias de poucas posses.

Não sei se era bonita nem feia. Sei que era gorda e nasci de um parto complicado em que só Deus sabe como sobrevivi.

Não tenho fotografias do dia em que nasci. Não tenho fotografias dos dias nem dos anos seguintes.

A primeira fotografia que me foi tirada já devia ter pelo menos 3 anos e, mascarada de empregada de limpeza de uma casa rica, com folhos e tudo, lá fui à fotografa tirar uma fotografia.

Não fiz um sorriso, não sabia porque havia de rir para uma máquina enquanto abanava um espanador.

Não houve enxoval nem bonecas especiais para mim. Não houve um quarto pronto nem ecografias que mostravam os dedos das mãos e dos pés. Que garantiam que tinha um rosto completo e que crescia com o coração a bater da forma certa.

Não. Em vez disso pedia-se a Deus que a criança nascesse sem problemas. Tal como os irmãos.

O pai foi um bebé desejado. Muito desejado. Bebé de enxoval feito. O bijou e uma família. Hoje diz que não fica doente porque passou por tudo quando era pequeno.

E tu. Tu meu amor foste tão desejado.

Tão desejado desde antes mesmo de seres concebido.

Sonhávamos com o dia em que nascias, em que corrias pela casa. O bebé que ainda nem sabíamos que vinha, menino ou menina, que ia correr pela casa e dar-nos conta da cabeça.

No dia em que soube que estavas na minha barriga pensei que era o dia mais feliz da minha vida. Depois chegou o teu dia. Faz hoje 1 no e seis meses. Um ano e meio. O dia em que te vi pela primeira vez. A primeira pessoa para quem olhaste. O nosso olhar preso um no outro. Um olá sem palavras. Um "então és tu" em silêncio.

Cada minuto que passaste na minha barriga foi seguido com todos os cuidados. As ecografias mostravam todos os dedos, o coração a bater, um nariz perfeito, uma boca pequenina e dois olhinhos perfeitos. As ecografias mostravam tudo o que eu precisava saber.

Sabia que ias ter um bebé feio. É suposto os bebés serem parecidos com os pais. E eu, meu amor, eu não posso contar com a minha beleza para chegar a lado algum. O pai, é um homem bem parecido, mas também não é nenhum Brad Pitt. Somos boas pessoas, acreditamos que com uma fatia simpática de massa cinzenta, mas sem grande apelativos de beleza.

E tu, tu ias ser como nós. Lindo aos nossos olhos. O bebé mais lindo do mundo, para mim. Ia dizer-to todos os dias. Porque para mim serias o bebé mais maravilhoso de sempre. O meu.

Depois nasceste. E eu, enquanto chamava por ti. Para te ter ao meu colo pensava como eras lindo. Não só aos meus olhos. O bebé mais lindo que tinha visto. Não só porque és meu, mas porque és.

Ainda bem que te vi sair de mim, que de outra forma mal acreditava que conseguisse trazer ao mundo uma cara como a tua.

"Têm um bebé lindo, é tão fofo!"

E eras. E és.

Depois pensei. Vai crescer e perder esta graça toda. Vai ficar feio.

Enganei-me outra vez.

Continuas o menino mais lindo que já vi. Mais lindo todos os dias. Com esses olhos grandes, cheios de vida. Capazes de exprimir cada sentimento.

Fazes ano e meio e só sabes dizer que “já está” mas quando olho nos teus olhos sei exatamente o que queres. O que te incomoda ou o que te deixa feliz. Não sabes fazer de conta.

"O seu filho é muito expressivo."

Pois é. É um coração gigande que anda de um lado para o outro da minha casa como um foguete.

Fazes ano e meio e decidi contar-te que achava que eras feio. Porque sempre foste lindo aos meus olhos, mesmo quando ainda não te tinha visto.

Decidi contar-te que achava que eras feio, e que hoje acho que provavelmente vais ser um homem lindo e esperto. Se calhar de mais para meu próprio bem, que não quero a casa cheia de lambisgoias de todos os géneros e feitios.

Podia ter escrito sobre tudo o que aprendeste, mas cada segundo que passa fazes uma coisa nova. Podia contar-te que aos 15 meses decidiste aprender a gatinhar, mesmo já correndo a casa toda.

Podia ter feito uma serie de coisas, mas um dia vais saber – se é que já não sabes – que tens uma mãe um nadinha peculiar. Uma mãe que nestas coisas do coração gosta de contar o que lhe apetece contar e não o que ficava bem dizer.

Uma mãe que a cada palavra que escreve quer apenas que saibas o quão desejado foste. O quão amado és. Que és o amor da sua vida e que tudo faz sentido quando tu estás perto.

Uma mãe que quer que tu tenhas tudo o que não teve, e não estou a falar dos brinquedos.

Fazes ano e meio puto e eu quero agarrar o tempo com mãos, pés e dentes. Segurar o idota do ponteiro porque está a ir depressa demais. Porque a cada dia que passa estás maior e mais independente. Porque um dia vou olhar para ti de barba por fazer, cabelo desgrenhado e ver todos os meus filhos num só. O meu bebé, o meu menino, o meu rapaz e um homem que pertencerá a alguém. E tenho medo, muito medo de perder algum momento.

Agora chega de lamechices. É o que me vais dizer daqui a uns anos e eu vou rir, porque vou ter mais uma certeza de que és meu e que tens em ti um nadinha de mim.

Ano e meio puto. A vida é uma brisa.

4 comentários

Comentar post

------ Gostar da Página ------

----ATENÇÃO!----

Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

--------Instagram--------

------Blogs de Portugal------

----- Seguir no Bloglovin -----

Follow

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

------- Mais sobre mim -------

foto do autor

------------ Arquivo ------------

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D