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Em busca da felicidade

Feliz Natal - Merry Christmas

 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

 

Sento-me na minha cadeira atrás do balcão. Uma cadeira alta que me permite ver com atenção todas as pessoas que passam à porta da loja. No meio das mãos tenho o chocolate quente que acabei de fazer. A loja não tem feito dinheiro que chegue para mandar arranjar o aquecimento e lá fora...lá fora neva. Casaco, gorro e luvas. Assim ando eu.

Em torno dos livros enfeites de natal. Umas bolas vermelhas que já não se seguram no pinheiro velho que tenho à entrada, uns pisa papeis com o pai natal e a neve que lhe cai em cima. À entrada uma rena com um ar chanfrado. Normalmente rouba uma gargalhada a quem entra.

Vendi alguns livros para crianças. Especiais nesta altura. Uns romances. Dos namorados para as namoradas de há poucos meses. Outros de maridos que o ano passado tiveram a terrível ideia de oferecer uma varinha mágica. A joia está mais do que vista e o livro passa a mensagem de que se preocupam. Isso e levar uma dedicatória amorosa na primeira página.

Aquela que normalmente ajudo a escrever.

Só por isso vêm a esta velha livraria. Porque os supermercados vendem todos os livros mais barato.

Já liguei à Clara, que vai passar o natal com os sogros. Queria que eu fosse. Mas família é família e eu sinto-me fora de sitio. E o meu sitio é aqui. A ver a neve cair.

Decidi abrir a loja, nunca se sabe quem tem um livro para comprar à ultima da hora.

 

Está a nevar lá fora. Passa das sete da tarde e já escureceu. A rua está linda. As luzes que enfeitam os prédios. As casas que parecem piscar com os pinheiros junto à janela. As pessoas que não fogem da neve. Afinal é natal e só alguns privilegiados têm neve como fundo de pano.

Parece tirado de um livro.

Resguardo-me com mais um casado e fecho a loja. Páro de costas para a porta, olho para o céu e deixo que a neve me caia sobre o rosto. Seria quase romântico se alguém me esperasse em casa.

 

Mal rodo a chave na porta ouço a coleira do Fiódor. 

- Olá menino. Já tinhas saudades minhas.

Roça-se nas minhas botas e faz um olhar ameaçador ao Winston, que apesar de ter três vezes o tamanho dele e lhe rosnar de vez em quando, fica sempre em sentido.

Adoram-se....mas os ciumes.

Passeio o Winston e aproveito para me perder na azafama das outras famílias. A menina que avisa o pai que o peru já está pronto, "a mãe mandou dizer", o pai que rosna "na minha terra é bacalhau", enquanto se desfaz no sorriso de quem não perde tempo com estas coisas. Afinal é Natal.

Volto para casa e acendo a lareira. Está tanto frio.

Ponho a mesa para mim e preparo as taças do Winston e do Fiódor.

São especificas com desenhos de natal. Eu tenho um individual vermelho e guardanapos dourados. 

A meu lado a melhor prenda que o pai e a mãe me deram. O meu primeiro livro. Gosto de o ler todos os anos, pelo menos até adormecer. É como se voltássemos ao mesmo natal e o recebesse outra vez. Não troco prendas à meia noite nem deixo bolachas ao pai natal. Recordo memórias boas.

A campainha toca.

- A esta hora deve ser engano. - digo para mim.

O Winston corre para a porta. Não conhece por isso é engano de certeza.

Espreito e vejo que o Edward. Mas o que é que está a fazer aqui?

Abro a porta.

- Hi, I mean, Hola!

- Hi.

 

O ano passado a minha prenda de natal da Clara e do Jorge foi uma viagem a Londres. Nunca tinha saído de Portugal e sempre sonhei em conhecer Londres, passear nos jardins, ir a camden lock...sei lá!

- Mas o que vou eu para lá fazer sozinha? - perguntei-lhes.

- Nunca se sabe, ainda conheces alguém. Nós ficamos com o Winston e o Fiódor.

Ficaram com os patudos e eu lá fui. Num dos dias passei num pequeno supermercado para comprar avelãs. 

Descalcei-me e fui passear na relva em Hide Park. Os esquilos por todo o lado. A subirem pelas minhas pernas, em cima do meu ombro.

- Uma avelã para ti, outra para ti, mais uma para ti...

You shouldn't feed the squirrels.

Viro-me.

Tem olhos escuros e barba por fazer. Anda a passear o cão que, por estranho que pareça ignora os esquilos, deve estar habituado.

- Yeah...I know, but this are hazelnuts...squirrels eat hazelnuts, righ?! I bought them just for them.

Ele sorriu. Estava a meter-se comigo.

- OK, I wont tell...you bought hazelnuts just for the squirrels...and I thought I was nuts.

Ficámos a conversar o resto da tarde. Passeámos pelo jardim e conversámos como se nos conhecêssemos desde sempre.

- I have a crazy idea...we should exchange numbers.

Disse ele. Trocámos.

No dia seguinte encontrei-o novamente. Se calhar porque sem saber, de propósito fui ao mesmo sitio na esperança não admitida de o voltar a encontrar. E ele, se calhar porque todos os dias passeia os cães no mesmo sitio ou porque procurava o mesmo que eu, lá estava, à mesma hora.

Conversámos. Despedimo-nos.

Nunca o esqueci. O olhar. A forma como parecia que nos conhecíamos desde sempre.

Trocámos mensagens. E-mails. Mas recentemente nunca mais soube nada dele e toda esta coisa da distância fez-me cair em mim e perceber que sou parva.

 

Agora ele está aqui.

 

So, it's Christmas and you're here.

- Yeap.

- Why?

Ele olhou em volta e parou os olhos em mim. Não me pareceu estar incerto quanto às palavras. Estava a aproveitar aquele momento. Tanto quanto eu.

Não aguentei a tensão que sentia e quebrei o silêncio.

Shouldn't you be with you family?

- Yes, I should.

- But yet...

- Yet I'm here, on your living room, looking at you and I'm sure I made the right choice.

- What's that?

- Coming here for my present...

Dá dois passos em minha direção e acaricia o meu rosto.

- ...you.

Beijou-me. Beijámo-nos. 

As músicas de natal que tocavam na televisão começaram a fazer sentido e quando nos afastamos, alguns centímetros um do outro, o Fiódor enroscava-se às pernas dele.

O Fiódor raras vezes gosta de alguém. 

Sentámo-nos no sofá, dividimos o jantar que eu tinha só para mim. Ele riu-se das taças de comer do Fiódor e do Winston e quando começou a nevar pegou-me na mão e saímos. Dançamos debaixo da neve como nos filmes.

 

 

 ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***  ***

 

O Natal é o que quisermos, como quisermos, com quem queremos, com quem amamos. É um momento que deve ser feliz, passado junto dos que mais amamos. As prendas, essas devem ser a companhia dos outros e aquela mala que combina com os sapatos que gosyámos. 

 

Dessejo a todos um feliz natal, cheio daquilo que mais importa, de pessoas que amamos.

Um grande natal em especial para aqueles que hoje, no lugar de estar com as suas familias, estão a trabalhar para garantir que todos temos um feliz natal e que quem sabe está ali, de banco, para dar a alguém o melhor presente de sempre. Vida.

 

Feliz Natal a todos!

Este é o meu presente. Uma pequena e lamechas história.

Piroseiras!

 

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