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Em busca da felicidade

Have yourself a merry little Christmas

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 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

 

As ruas estão preenchidas pela azafama feliz dos que comprar os últimos presentes de natal. As luzes brilham como se a vida se passasse dentro de uma bola de cristal, cuidadosamente pendurada numa árvore quase perfeita. A neve cai ligeira e adorna os gorros de quem passa. Cai quase numa suave melodia de inverno.

Páro em frente à loja de brinquedos e torno-me mais uma vez na criança que fui um dia. As luzes, os comboios e as bonecas. Espreito pela pequena fresta e vejo as famílias. Os pais procuram os presentes que os olhos dos filhos dizem ser os favoritos. As que o pai natal vai entregar naquela manhã nevosa de dia 25. Antes mesmo de saírem para construir o boneco de neve, com o nariz que é uma cenoura velha e os olhos, que, quem sabe, serão este ano dois botões de um casaco velho.

O mesmo chapéu de sempre.

Atrevo-me a entrar.

- Precisa de ajuda.

Aceno que não.

Só quero ver o rosto das crianças que correm pela loja. Cada uma com dois brinquedos, um em cada mão. Ansiosos por mostrar aos pais o que mais desejam. A menina, de saia aos quadrados e laço de cetim. A que ainda não largou a mão do pai, a que estende o dedo na direção da boneca que está na prateleira mais alta.

A musica de natal ouve-se em toda a loja. Não há chatices, nem as crianças brigam.

- Sobrinhos ou filhos? – diz a vós a meu lado.

- Como?

- Parece-me nova demais para filhos…de qualquer forma…sobrinhos ou filhos?

- Ahhh, nem uma coisa nem outra.

- Eu, sobrinhos. Raio dos miúdos querem tudo.

Sorrio e penso em dispersar.

- Não me quer ajudar?

- Como?

- Ajudar-me. Precisava de uma mão feminina que me ajudasse.

Sorri. Ajudei-o a escolher a boneca para a sobrinha. O comboio para o afilhado.

Saímos da loja juntos. Eu de mãos a abanar.

- Bebemos um café?

Acenei que sim. Quem sabe o meu presente de natal.

 

O gira discos chega ao fim da música e abro os olhos. Encontro a nossa árvore velha, as mesmas bolas e as mesmas fitas. Por baixo não há presepio. Na televisão passam os mesmos programas de todos os anos, aqueles que tu já não conseguias ouvir.

Pus a mesa para nós. Nós e a nossa música de natal.

Lá fora neva, tal como no dia que nos vimos pela primeira vez.

O filho está bom, foi passar o natal com a família da mulher. Diz que é uma casa grande, gente de bem. A filha está para fora, sabes disso. A vida aqui está difícil. Quis pagar-lhe o bilhete mas conheceu alguém para lá e quer um natal diferente.

Entendo.

As minhas irmãs lá estão. Já me ligaram a desejar boas festas.

A Lola faz-me companhia. Este ano comprei-lhe um fato vermelho, coçou-se um bocado mas depois lá percebeu que é quentinho.

Fazes-me falta tu.

Fazer bacalhau para um é esquisito. Mas fiz. Porque tu estarás sempre cá.

Olho para as bolas de natal e lembro-me do dia em que bebemos o nosso chocolate quente depois de nos escondermos da neve que depois de ligeira se impôs. Ou porque nos queriamos esconder do mundo para um momento só nosso.

Lembro-me de conversarmos como se nos conhecêssemos há mil anos. Naquela cafetaria velha, chocolate quente a aquecer as mãos que teimavam em estar frias.

Fecho os olhos e dançamos outra vez no meio da rua ao som da música que saía das lojas. Debaixo da neve.

- Posso ver-te amanhã outra vez? – perguntaste.

Beijei-te e soubeste que sim.

Pediste-me para trocarmos presentes.

- Aqui, agora.

- Não tenho nada para dar à troca.

- Tens. Quero o teu numero de telefone. Quero poder ligar-te.

Dei-te o meu número e, em troca deste-me a boneca que tinhas comprado. Não havia sobrinha nenhuma.

Nem sobrinho.

Tinhas entrado na loja para falar comigo. Contaste-me anos mais tarde.

- Entrei na loja porque vi o que mais queria este natal. E todos os outros. Tu.

 

Levanto-me da cadeira que sempre foi tua. Ponho a nossa musica no gira discos. Aquela que sempre dançamos no natal. Com a casa cheia ou só nós dois, como nos primeiros natais e nos últimos. Os momentos em que estamos sempre por nossa conta, não é? No principio e no fim.

Fecho os olhos e finjo dançar contigo. Se apertar bem os olhos ainda consigo sentir os teus braços em torno de mim.

A boa boca encostada ao meu ouvido e uma musica num sussurro….

Have yourself a merry little Christmas

Let your heart be light

 

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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