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Em busca da felicidade

Lingua da sograaa! Olha a lingua da soograa!

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Batata frita! Língua da sograaa! Olha a língua da soograa!

Ainda as toalhas não estavam estendidas na areia e eu os meus olhos já procuravam a senhora, que cansada e queimada do sol, fazia arrastar atrás de si um saco cheio de pacotes da língua da sogra.

Baunilha deliciosa.

- Eu quero línguas da sogra.

- Tu queres esperar que as toalhas estejam estendidas na areia. Que o chapéu esteja posto. E mais um bocado em cima disso para pedires alguma coisa. Ainda agora chegamos.

- Mas...

- Mas. Nada.

E não se faziam mais perguntas. Sempre fui mais pedinchona que os meus irmãos. Eles sabiam bem que para receber alguma coisa tinham de lhes perguntar. Pedinchices eram meio caminho andado para não receber nada.

Mas a baunilha. O sabor da baunilha que me crescia na boca. E a senhora que se afastava cada vez mais de nós. Será que ainda voltava a tempo de nos apanhar na praia?

Claro que voltava. Comprava-se uma embalagem de línguas da sogra. Uma para cada um e as que sobrassem ficavam para mais logo. Na maioria das vezes comia-as eu. Hoje percebo que não tive de aprender a dividir da mesma forma que os meus irmãos. Eu era a menina. A mais nova. Por isso, enquanto crescidos deixava de lhes apetecer porque eu era pequenina.Hoje sei disso.

Há anos que não vou às praias da Costa. Há anos que não vejo a senhora que, calmamente e com uma voz que nunca se cansa, caminha praias de ponta a ponta, com o bronze que uns desejam, com a pele estragada e sem remédio de quem se queima pelo oficio e não pelo prazer.

Quando hoje fomos às compras encontrei uma embalagem. Não aquele pacote antigo de plástico, preso com um pedacinho de fita branca ou amarela. Não aquele pacote que no fundo de um saco gigante de plástico, que se arrastava todo o dia pela areia solta, e que por milagre não tinha um grão de areia lá dentro. Mas um pacote finório. Com uma caixinha de papel azul, a fazer publicidade à receita tradicional. Não consegui esperar que se acabasse de pagar a conta, tinha de comer uma. No caminho da minha mão à boca uma vida de memórias, quase voltei a estar no areal, a minha mãe ao lado, os meus irmãos cada um com uma língua da sogra na mão e eu, pequena e egoísta, a contar se sobrava alguma para comer mais. Quando dou a primeira trinca, o desgosto. Tradicionais talvez, mas não eram as minha línguas da sogra. Demasiado açúcar. Demasiado finas. Queria aquela baunilha grosseira, de textura rogada. Seca. Deliciosa. O Ricardo gostou mais que eu. O Nuno gostou mais que eu.

Estava capaz de pegar no carro, ir até à Costa e correr as praias à procura da senhora que há 20 anos apregoava "Olha a língua da sooograaa!".

Mas por esta altura espero que já esteja reformada. Porventura a tomar conta de uma penca de netos que não sabem nem sonham que a avó está nas memórias mais doces de quem há 20 anos tinha o tamanho deles.

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----ATENÇÃO!----

Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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