Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Em busca da felicidade

Músicas da minha adolescencia - Must have been love

 

Estávamos em 1990, eu ainda acabava a 1ª classe e tinha ido pela primeira vez ao cinema ver a Pequena Sereia, o ultimo filme passado no grande Cinema de Corroios, que estava em tão bom estado que se encalacrou a meio do filme e o intervalo foi uma eternidade. Para mim, que era uma garota em pleno êxtase por estar pela primeira vez numa sala de cinema passou com toda a naturalidade, havia muita coisa para ver, o que as pessoas faziam, como conversavam, a cor das cadeiras, os espaços para esperar lá fora. Para o meu irmão que teve a tarefa de me levar de contra vontade já não foi tão interessante. Enfim, o que é bom para uns nem sempre é bom para outros. A vida é mesmo assim.

Mas dizia, estávamos em 1990, não sei o que se passava no mundo, apenas que o Mário Soares era presidente e que lhe podíamos chamar de bochechas. De resto a minha vida era bonecas e saltar ao elástico depois dos trabalhos feitos. Mal sabia eu que saia uma das musicas mais marcantes dos anos 90, pelo menos para as senhoras, assim como o filme que marcaria a carreira de uma das maiores actrizes do mundo e uma das minha preferidas.

Os Roxette apareciam com o Must have been love e estreava o Pretty Woman, um filme que dispensa apresentações ou descrições e que colocou em perspectiva a profissão de prostituta (brincadeira, mas acredito que tenha havido malta a começar a ver o negócio de outra forma). Só conheci qualquer um deles anos mais tarde, com mais de 2 dígitos de idade, com as paixonetas a despontar e com a noção de que afinal também gostava de ter um conto de fadas, que um tipo galante me salvasse e me desse uma vida de princesa. Na altura as minhas amigas associavam o sonho aos putos da idade delas com as caras de adolescência, para mim era mesmo o Richard Gere, que eu sempre gostei deles mais velhos, se calhar não necessariamente com a diferença de idades que afinal de contas temos, eu e o Richard, mas um tipo composto, não um puto escrafeloso. Era o Richard ou o moço moreno que tinha entrado na novela brasileira que tinha estreado anos mais cedo, a Tropicaliente. Não têm nada a ver um com o outro mas quando temos 11 ou 12 anos o céu é o limite e tudo é possível, até que se dê uma relação de total pedofilia entre uma miúda de 12 anos e o Richard Gere – afinal de contas já tínhamos uma paixoneta desde o Oficial e Cavalheiro, outro filme que também termina com uma grande musica, mas que fica para outro post.

O Must have been love passa quando a bela Vivian decide que não quer ficar com o Edward nos termos que ele define, que quer o conto de fadas e um tipo simpático transporta-a na limusina do hotel onde tinha estado na ultima semana para o apartamento menos simpático onde vive. Eu, apesar dos quilos a mais também possuía uma vasta e encaracolada cabeleira, bastava mudar o tom, ir às compras a Beverly Hills e era a mesma coisa. Cabeças de adolescentes totós. Tão bom, sem preocupações da vida real.

Como já aqui disse antes cresci numa casa pouco abastada, com 4 filhos e mais tarde mais um cão para alimentar, não se pediam 12 CD’s de musica para o Natal, como algumas colegas de escola faziam, nem se escolhiam roupas de marca, nem se pediam cassetes de filmes (sim cassetes, lembram-se, de quando víamos os filmes montes de vezes começavam a ser comidas pelo vídeo?!), esperávamos que passassem na televisão e estávamos em frente à dita com muita atenção para clicar no record quando começasse, depois quando ia para anuncio clicavamos no stop e tínhamos de papar com todo o intervalo para clicar no record outra vez e reiniciar a gravação no momento exato em que recomeçava o filme. Acho que é por isso que ainda hoje tenho trauma com publicidade. As secas que apanhei. Não havia cá boxes que andam para trás ou que gravam sozinhas e que purgam a publicidade.

Então os filmes gravavam-se quando passavam na televisão ou, anos mais tarde, quando aquele amigo nerd do pai comprou um gravador de cassetes que permitia gravar numa outra cassete o que estava na primeira. Descobriu-se que podíamos por um filme a passar num vídeo e com outro gravar a imagem que passava na televisão e que estava a ser projectada pelo primeiro vídeo. Muito confuso?! Nada. Era fácil, bastava que o vizinho emprestasse o vídeo por algumas horas. As musicas, essas era mais fácil, bastava ter uma aparelhagem com 2 leitores de cassete e gravávamos de uma para outra, ou isso ou já na era dos CD’s se passava do CD para a cassete.

Foi assim que, em 1998 (se não estou em erro) pus as mãos pela primeira vez num CD dos Roxette, até lá só tinha musicas gravadas com videoclip do TOP + (será que era a única a fazer essa cromisse?! Não havia MTV e vídeos de musica só ao sábado à tarde, então a malta arranjava-se assim, gravava os vídeos que queria ver e via-os vezes sem conta). Uma amiga da escola, uma tipa para lá de inteligente, hoje é médica, recebeu um CD com os melhores êxitos pelo Natal, emprestou-me e eu gravei. Tinha um rádio daqueles que eram retangulares e liam uma cassete de cada vez, uns que tinham um botão encarnado para gravar e davam para gravar voz, eram usados para ligar a uns computadores de jogos que os meus irmãos tinham. Como já tinham idade para ter juízo e não usavam o computador deixaram-me ficar com o rádio, eu pu-lo na cozinha e ouvia Roxette no máximo do volume enquanto fazia qualquer coisa para o almoço e depois lavava a loiça. Lembro-me de ter dias em que me sentava num banco da cozinha a cantar aos altos berros todas as musicas que sabia de cor. A imaginar que haveria de chegar o dia em que sem querer alguém me ouvia cantar e descobria que eu tinha uma pérola na garganta, ia dar concertos e vender álbuns, depois gravava-me a cantar e sentia medo e pena pela pessoa que tinha feito aquilo. Eu.

Estamos em 2016 e ainda me lembro destes tempos como se fosse hoje, adoro o filme e sou sempre capaz de me sentar em casa com um pacote de pipocas ou de estrelitas (depende do estado de espírito) e ver o filme como da primeira vez, da mesma forma que adoro ouvir a musica e ver o vídeo, imaginar-me de cabelo curto e cheio de laca, vestido apertadinho e sem pneu a cantar como um rouxinol, como eu achava que ia ser a minha vida um dia que crescesse.

 

Ando cansada de ver as noticias, mortos de manhã, à tarde e mais à noite. Crimes onde só os honestos são punidos. Ando com saudades de fazer tudo sempre com a MTV ou a VH1 como ruído de fundo, então esta semana deu-me para isso. Liguei a TV da cozinha para a VH1 e os crescidos não estão autorizados a mudar. Num dos dias dei comigo a ouvir musicas antigas, esta estava lá pelo meio, e lembrei-me destas coisas todas e muitas mais. Fica a musica e o vídeo para os que também gostam. Eu ADORO!

 

Uma curiosidade para quem não sabe, o guiam do filme foi inicialmente criado para ser uma espécie de reportagem que espelhasse a crua realidade das prostitutas em Hollywood, os sonhos com que chegavam e a vida em que terminavam, até que a Disney, sim a Disney, decide comprar os direitos sobre o filme e transforma-lo num dos maiores contos de fadas para adultos até hoje conhecidos. Li esta informação há poucos anos numa reportagem com a Julia Roberts. Ela quis desistir porque não lhe fazia sentido. Incrível as voltas que a vida dá, o que tem de ser será. Mesmo. Será que esta mulher seria a actriz que é hoje sem este filme?!

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

------- Mais sobre mim -------

foto do autor

------ Gostar da Página ------

------ Blogs de Portugal ------

----- Seguir no Bloglovin -----

Follow

------------ Arquivo ------------

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D