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Em busca da felicidade

Na sombra dos dias sempre iguais

Quando criei este espaço fi-lo com o propósito de escrever. Ponto. Escrever. Porque quando escrevo não penso em mais nada. Porque quando escrevo a minha mente fica presa às palavras, presa aos caracteres que se conjugam para cada palavra. Presa ao bater dos dedos no teclado do computador. 

Quando criei este espaço queria apenas escrever. Fosse o que fosse. Triste. Melancólico. Humorístico. Uma piada. Uma nova descoberta do pequeno campeão. Uma nova vitória. Outra derrota. Enfim, fosse o que fosse.

Os dias de escrita foram passando de forma mais melancólica e os textos com uma tendência mais cómica a surgir com mais frequência. O contar das peripécias. O rir enquanto escreve ao invés de debitar sentimentos presos no peito.

Esta tem sido uma semana menos fácil. Uma semana de dias mais complicados. De questões interiores. De razões que se interrogam.

Uma crise dos quarenta que chega aos trinta, ou a dúvida de quem não sabe ao certo se tem feito tudo o que podia fazer.

Ontem acordei doente. Uma constipação. A garganta inflamada. O nariz sem conseguir inalar um milímetro cúbico de oxigénio. Os olhos pesados. O corpo maçado.

- Não devias ir trabalhar.

Fui na mesma. Tinha coisas para fazer. Reuniões importantes para preparar. Mais trabalho que tempo disponível. A luta constante por fazer mais com o tempo que tenho. Para conseguir sair a horas. Para conseguir ir buscar aquele que faz com que a vida valha a pena.

Passo o dia doente atrás do computador. Termino a preparação da reunião e mando para validação. Fico satisfeita por me ter aguentado apesar de mal conseguir manter os olhos abertos.

Saio com o coração apertado não devias ir busca-lo, devias deixa-lo a dormir nos avós, devias pensar no bem dele, devias garantir que não lhe passas essa porcaria.

Pois devia. Devia pensar no bem estar. Mas a egoísta em mim quer ver o filho todos os dias. Nesta ansiedade de separação que não se resolve.

Faz-te mulher. Ganha coragem. Põe-te boa! Descansas, ele descansa, amanhã estás fina para trabalhar e não deixas o miúdo doente.

Ficou nos avós. Um acesso de raiva. De cólera. Um choro guardado que deito cá para fora a par com as algaraviadas que tinham deixado presas na garganta.

A mesma porcaria que me deixou doente algumas 10 vezes no ultimo ano. O ar condicionado que tenho em cima da minha cabeça. Ar frio nas minhas costas e eu, flor de estufa assumida, lá fico doente, doente, doente.

E volto para trabalhar doente. Nem esperta sou.

A minha prima fazia anos ontem. Não lhe queria ligar para lhe dar os parabéns e desatar a falar de ben-u-rons e cêgripes. O meu dia de aniversário normalmente mal é celebrado, mas gosto da ideia de que o nosso dia de aniversário é só nosso. É o nosso dia. Queria ligar-lhe contente. Gritar "Parabéns!" .

Ligo e dou-lhe os parabéns com a melhor voz que consigo. Falamos da minha constipação. Da gripe dela. Chegamos à conclusão que só estamos a falar de maleitas e digo-lhe que não lhe liguei para fazer conversa de doente.

- Deixa lá, no dia dos meus anos há sempre uma merda qualquer. Acontece sempre qualquer coisa. Já tenha a noticia chata de hoje.

O primo. Um ano mais novo andava com umas dores de cabeça. Foi ao médico e mandaram-no fazer um TAC. Depois de completar o exame já não o deixaram sair do hospital. Tinha um tumor e precisava ser operado de urgência.

Mas que merda!

Penso. Verbalizo.

Uma mulher. Duas filhas pequenas que quer ver crescer.

A injustiça.

Que raio fazemos com os nossos dias?

Onde é que os passamos?

Vemos que chegue os que mais amamos?

E enraiveço-me que não vejo o meu. Que estou doente. Que para ele é melhor. A menos de 1 km de mim. Mas fora da minha vista.

Deito-me no sofá depois de comer uma sandes e um galão. Não havia fome para jantar. Não tinha paladar. Aliás, não tenho.

Passo mal a noite e acordo mais vezes do que seria desejado. O despertador toca quando já estou acordada. A garganta colada. Dores quando falo. O nariz sem deixar entrar milímetro de ar. O corpo maçado. De quem mal descansou.

- Hoje não consigo ir. Não posso continuar assim.

Fico em casa. Aviso que não posso ir à reunião. Mal consigo falar. A garganta parece estar colada e ando a colheres de mel.

Encontro uma nova data para publicar o post que tinha para hoje. Agarro-me ao pc e escrevo. Escrevo para lembrar. Para guardar este dia. Para ter sempre presente os momentos em que vivemos sempre iguais. Passados na sombra dos dias. Nas semanas que andam sem darmos conta. Nos filhos que olhamos e mal vemos de tão cansados. E pergunto-me porque raio a vida não é mais simples. Porque não temos uma vida com menos dilemas. Alguém dirá que "sem o que é mau não damos valor ao que é bom". Balelas.

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