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Em busca da felicidade

Não és tu...nem sou eu

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

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A culpa não era só minha. Mas também não era dele. Ambos tínhamos falhado. Não sei bem no quê, defeitos todos temos, por fases todos passamos. Quando os filhos nascem precisam mais da nossa atenção. Vestimos menos saias e mais calças. Mais rasos e menos saltos. Depois os miúdos crescem, chegam aos sete, aos oito e nós ainda não calçamos saltos. Não é que não tenhamos vontade, é que não dá jeito dar conta das tarefas todas com os saltos calçados. Para além disso os pés já estão destreinados e mais parece que caminhamos numa falésia. Acomodámo-nos ao confortável.

Acomodei-me.

A culpa não era minha. Nem dele. Só tinha encontrado alguém mais descomplicado. Alguém que não tinha filhos, não queria filhos logo não vivia para eles. Alguém que não dizia que não apetecia a maior parte dos dias da semana. Apetecia sempre. Alguém que não tinha um emprego exigente do qual não podia desistir porque tinha uma hipoteca e dois filhos para criar. Alguém que se cuidava, que garantia que cada nádega era uma bola lisa e não uma laranja gigante. Alguém que rodopiava da praia sem pneu a abanar. Alguém que se bronzeava por completo e não apenas nas pernas, com a vergonha de despir a t-shirt.

Alguém que não promete ir ao ginásio. Vai. Tem vida e tempo.

Não faz o jantar. Nem sabe cozinhar. E isso é motivo de rir.

Cá em casa não riamos. Almoçar fora todos os dias era coisa de quem ganhava mais. Agora é normal. Que o dinheiro serve para gastar, não para guardar.

A culpa não é minha. Não é dele. É de ambos. Não resultou.

Foi a explicação para as malas à porta de casa. Para dar um beijo aos filhos e sair. Eles não perceberam nem eu. Acho que vou demorar alguns anos a entender. Porventura porque tenho tantas responsabilidades que não vou ter tempo para encaixar as ideias todas e chegar a uma conclusão.

Recusei-me a chorar. Choro pela minha filha, choro pelo meu filho. Mas não choro por quem não quer estar perto de nós.

Tem direito a ser feliz. Tem.

Eu também. Mas as responsabilidades alguém tem de as ter.

Alguém tem de olhar pelos miúdos. Educa-los. Dar-lhes amor e carinho. Leva-los à escola. Ir busca-los. Garantir que tomam banho e fazem os trabalhos. Que dormem a horas e não têm a cabeça enterrada na playstation.

Alguém tem de cozinhar. Limpar a casa.

Alguém tem de ser o adulto. E isto tudo com um trabalho a tempo inteiro porque as contas não se pagam sozinhas.

Perguntam-me porque não saio mais. Porque não encontro ninguém. Acham que eu é que sou esquisita. Ou que ainda estou presa ao meu marido, na esperança de que não tenha passado de uma crise de meia idade e que volte para casa, de cabeça baixa, redimido, percebendo, reconhecendo que o seu lugar é ao lado da família.

Não o quero.

Não foi preciso muito tempo depois de ter saído para eu perceber que a nossa vida já tinha acabado. Para eu perceber que foi melhor assim. Ele queria uma mais jovem, descomplicada. Eu quero, se conseguir, encontrar um companheiro, alguém com quem partilhar uma família e uma vida. Não uma criança que nunca cresceu e nem sabe lavar a própria loiça.

Pegou nas malas há 3 anos e eu olho-me ao espelho, de saia e blusa meio transparente. Saltos altos com os pés aos gritos. Maquilhagem. Pela primeira vez em 3 anos.

Nem me reconheço.

Foram os miúdos. Foram eles que me convenceram. Que ligaram aos avós a pedir para lá ir passar o fim de semana. Que convenceram a Clara a levar-me a sair. Beber um copo.

Já não sei beber ir beber um copo.

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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