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Em busca da felicidade

Não és tu...nem sou eu - II

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

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Chegamos ao bar e lá estão os amigos todos da Clara. Entra, estende os braços e abre um sorriso. Abraços e beijos. Ao tempo que já não se viam desde a ultima saída. As viagens exóticas, os restaurantes caros, o bronze da amiga com mais estilo.

Eu não tenho nada de aventureiro para contar. Para mim uma aventura, neste momento, é conseguir chegar ao fim do dia sem nódoas na roupa, sem ter gritado com ninguém por estar a dar cabo de alguma coisa em casa ou, por e simplesmente, por não estar a fazer o que deve. É conseguir, numa tarde que a criançada passa com o pai, despachar a arrumação da casa, abraçar-me a um balde de pipocas e ver um filme sem adormecer.

Apareço como uma sombra atrás da Clara. Não sem onde pôr as mãos, como cumprimentar as pessoas, não tenho razões para tamanha efusividade.

- Esta é a minha amiga Margarida. Está há 3 anos divorciada, o que dá mais ou menos...hummm, 1000 e tal dias...sem sair para beber um copo, engatar um homem, passar um bom bocado. Enfim, temos que ajudar a soltar-se um bocado.

Não ajudou. Ver a minha vida privada ali para toda a gente comentar, opinar, achar o que devo fazer. Não é de facto o cenário em que fico mais confortável.

Mas não foi por muito tempo. Depois dos comentários iniciais, do compreendemos a tua situação, do é que tenho 2 filhos e não é fácil, depois dos acenos de cabeça. Depois de tudo isso as pessoas continuaram a sua vida como é habito. A contar as suas histórias, as suas aventuras, as grandezas profissionais. Ali não há mães de 2, com afazeres enfadonhos, não há pessoas que discutem fim de semana sim fim de semana não com os ex-maridos. Seja porque estão em falta com as responsabilidades financeiras para com os miúdos, seja porque afinal têm uma coisa para fazer e não os podem ir buscar. Eu se calhar também tinha coisas para fazer. Mas ele já sabe que não sou capaz de virar costas.

A meu lado sentou-me um homem simpático. Insistia em rir-se para mim, em trazer-me mais uma bebida, em fazer-me perguntas vazias sobre a minha vida. Não demorei a perceber o que se estava a passar. Alguém me queria dar uma ajuda com a triste vida amorosa que tenho. Então alguém encontrou um amigo que não está num relacionamento e vá de tentar fazer de casamenteiros.

Detesto estas coisas. Detesto!

Levanto-me para ir à casa de banho. Respirar. O que estou eu a fazer aqui? Este não é o meu mundo? O mundo que conheço tem bolas de futebol sujas de relva espalhadas pela casa. Ténis gastos. Princesas com vestidos cheios de brilhantes. Discussões que não vão salvar o mundo. Lutas de irmãos e pazes cheias de amor. No meu mundo os dias acabam com o cabelo num carrapito e farripas desalinhadas para todo o lado. Umas calças de ganga gastas que não combinam com a t-shirt velha, os pés nus e um copo de vinho depois de os miúdos adormecerem. Um suspiro antes de deitar.

Quem sabe fechar os olhos e sonhar com o príncipe encantado, que não precisa vir a cavalo, nem mesmo num bom carro. Basta que me dê carinho. Que fique.

- Desculpa mas vou andando. Estou com uma dor de cabeça terrível e tenho de me deitar.

- Mas não trouxeste carro. Queres que te leve?

- Não, deixa, eu apanho um táxi. Diverte-te.

A dor de cabeça é a melhor desculpa do mundo. Não só para dar aos maridos quando o dia é longo e não há vontade, mas também para despachar aquela amiga que já está com um copo, que nos levou a sair porque estamos sempre em casa, e que agora não tenho cara de lhe dizer que estou farta de estar aqui.

Entro no táxi e digo a morada. Ainda vou a tempo de um copo de vinho e um episodio do Castle que tenho gravado.

Chego e dispo-me de tudo o que faz de mim a pessoa que já não sou hoje. Lavo a cara e volto a encontrar a Margarida. A Margarida de hoje.

Deito-me no sofá e recosto-me. Estranho o silêncio e por segundos desejo que estivessem em casa. Como é possível? Passo os dias a desejar que queiram ir para os avós e agora, agora que posso estar só eu, sinto-lhes a falta.

O episodio vai a meio quando o telefone toca.

- Estou.

- É a Dona Margarida Rodrigues?

- Sim, a própria.

- Estamos a ligar-lhe do Hospital de Santa Maria, a sua amiga Clara teve um acidente de viação. Pode vir até cá?

Nem me lembro se respondi. Voei para lá.

Feita louca procuro pela Clara. Tento parar todos os auxiliares e enfermeiros a perguntar se me conseguem ajudar, até que a ouço.

Já ligaram à minha amiga ou não?! Estou certa de que me vem buscar. Alguém disse mais qualquer coisa que não ouvi. Eu não estava embriagada. Aquele otário é que não sabia o que estava a fazer. A mesma pessoa disse mais qualquer coisa. Fez-se silêncio.

Vejo um médico sair de dentro de um gabinete e caminhar em minha direcção.

- Pela descrição da sua amiga e pelo seu ar desnorteado presumo que seja a amiga da D. Clara.

- Sou sim.

Tenho de estar preocupada com aquela tola, mas não consigo deixar de reparar no médico. Tem qualquer coisa. Qualquer coisa que me faz ganhar consciência de que tenho umas calças de fato de treino cheias de nódoas vestidas, uma t-shirt que, muito provavelmente tem pelo menos um buraco. Que o meu cabeço parece um espanador, que pareço ensandecida. Faz-se ganhar consciência e ficar incomodada. Fecho o casaco como reflexo. Como quem tenta esconder-se na roupa porque não encontra um buraco.

- A sua amiga bebeu demais e depois decidiu conduzir. Não lhe aconteceu nada de grave, mas podia ter acontecido. Não lhe quero dar alta, mas acho que vou ter de o fazer. Francamente, porque está a dar cabo da cabeça de todos nós aqui.

- Sim, a Clara consegue ser um pouco...um pouco...

- Inconveniente e incorrecta.

- Sim, talvez.

- Por isso peço que a leve para casa e lhe faça companhia. Ela bateu com a cabeça e nesses casos só podemos deixar o paciente ir para casa se estiver acompanhado. Pode leva-la?

A Clara continuava a gritar com mais alguém lá para trás. Qualquer coisa de que se queria ir embora.

- Posso. Não tenho vontade. Mas posso.

Sorriu. Sorriu para mim. É só pena, estúpida. Só pode ser pena. Até eu tenho pena de mim.

- Muito bem. Peço então só que assine este documento. 

Assinei.

- Vou então passar-lhe a alta. Tem aqui os meus contactos aqui no hospital, o e-mail e o telefone. Irá para o geral e depois alguém me passa ou me vai chamar. Peço-lhe que me dê alguma informação amanhã de como está a sua amiga...simpática!

Voltou costas e foi à vida dele.

Eu fui à minha. Com a Clara a reclamar o tempo todo no carro. Os infortúnios da vida dela e eu, eu a sonhar que tudo tinha acontecido meia hora mais cedo. Que tinha ido busca-la ainda como uma crescida composta. Que aquele homem maravilhoso tinha reparado em mim. Que lhe mandava um e-mail e ele respondia:

- Gostava de convida-la para beber um café. Aceita?

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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