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Em busca da felicidade

Não és tu...nem sou eu - IV

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(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado) 

 

Margarida

Talvez devesse ser aconselhado acompanhamento psiquiátrico à sua amiga. Voltou a estar aqui no Hospital. Voltou a fazer um escândalo até ser atendida por mim. Voltou a dizer-me coisas fantásticas de si (que não questiono). Voltou a insistir que nos devíamos conhecer melhor.

Voltou a dar-me cabo da paciência. Honestamente!

Tem a certeza que tem falado com ela? Que lhe tem dito para parar de me importunar? Ou não está a ser muito convincente ou a sua amiga não a respeita muito!

Se voltar a acontecer vou pedir apoio à ala psiquiátrica.

Cump,

 

 ____________________________________________________________________________

 

Dr. Rafael,

Talvez tenha razão. Talvez seja meio louca. Talvez devesse ter acompanhamento.

Se o que está a querer insinuar é que eu tenho alguma coisa a ver com isso, está muito enganado. Tenho, ou ainda tenho algum, orgulho e vergonha na cara. Jamais me sujeitaria a algo desta natureza! Lá porque é médico e bem parecido não quer dizer que as mulheres percam a cabeça por sua causa. Era o que faltava!

Eu pelo menos não perdi a minha!

E também me esta a dar cabo da paciência a mim! Honestamente!

Se voltar chame a ala psiquiátrica e ligue-me, eu própria vou aí busca-la e arrasta-la até casa!

Cump.

 

_____________________________________________________________________________

 

Parece que a conversa de ontem com a Clara teve algum efeito.

Há dois dias que vejo o meu e-mail e pouco mais há que publicidade. Sempre os mesmos e-mails dos ginásios em que me inscrevi. Querem que volte. Dos centros de estética a que fui e prometi voltar, mas nunca mais lá pus os pés. Das lojas de roupas bonitas em que em outros tempos fiz compras de roupas espectaculares que hoje estão coçadas no armário, de tão usadas que estão.

Tenho vontade de fazer um e-mail geral para resposta a estes belos estabelecimentos. Aliás, acho que vou fazer isso mesmo, vou explicar a minha vida para que estas pessoas entendam de uma vez por todas que os meus dias não são iguais aos que tinha há 12 anos atrás, quando era só eu, antes de ter acreditado que os príncipes encantados existiam.

Bebo um valente gole do meu segun…terceiro copo de vinho, esfrego as mãos e debruço-me sobre o computador.

Ora vãos cá abrir um novo e-mail.

 

Olá pessoas e estabelecimentos e coisas em geral,

Todos os dias consulto o meu e-mail e vos encontro, com convites para compras e treinos e visitas e tratamentos e coisas que não tenho como fazer. Porque não tenho tempo. Porque não tenho dinheiro. Porque a minha vida, quando me inscrevi nos vossos ginásios era a de uma mulher jovem com a vida pela frente, como sonhos e vontades, uma mulher que ia conquistar o mundo e sabia que o ia conseguir fazer com os glúteos mais firmes que o normal, sem pneu e com a possibilidade de puder abrir o guarda vestidos e escolher a roupa que me apetecesse. Hoje tenho que fazer um trabalho de triagem. Primeiro ficam de fora as roupas que têm nódoas que já não saem, depois as que estão descosidas ou demasiado coçadas para levar para o único sitio com que me preocupo hoje em dia. O meu trabalho. Depois, depois, preocupo-me com as que estão mais largas, as que não mostram que não ponho o meu lombo flácido num espaço como o vosso há mais de 8 anos. Mas porque raio ando eu preocupada com as roupas quando me dão tão bons descontos, não é? Porque mesmo com descontos as vossas roupas são, atenção, preparem-se….CARAS! Caras para caraças! OK?! Porque não vou comprar uma blusa para vestir com as calças coçadas que tenho no armário e porque, mesmo que as calças que tenho no armário não estivessem coçadas, hoje não ia ter dinheiro para comprar uma blusa vossa. Mesmo com os magníficos descontos que me proporcionam. Obrigada! E mesmo, mesmo que num mês milagroso me sobre algum dinheiro que, num momento de rasgo de loucura pudesse levar-me a comprar essa maldita blusa, quando abrisse a minha carteira e visse a fotografia dos meus filhos não ia conseguir gastar essa réstia de dinheiro comigo. Há sempre alguma coisa que eles querem, que eu prometo, e que compro, a muito custo com o que sobra.

Entendem pessoas, hoje em dia eu não existo. Eu fui mulher de alguém que hoje não me quer, sou mãe de quem um dia se vai esquecer, e não sou futuro de pessoa nenhuma.

Aprendi há alguns anos que afinal não há príncipes encantados. Que não há homens bons. Há homens. Venham eles a cavalo, num bom carro ou de comboio. Todos querem uma mulher jovem, firme e alegre. A que já conhecem há anos, cansada do dia a dia, que nem sempre usa perfume porque se esquece dele na maioria dos dias, a que tem mais dores de cabeça do que libido. A que num final de dia de trabalho, refeições, limpezas, roupa para lavar e para passar, birras, histórias de embalar e um cabeço em permanência desalinhado, não tem vontade de rir das suas piadas.

Só há homens que querem continuar a sua vida e que por isso, numa qualquer epifania de vida, voltam costas às promessas que fizerem e procuram uma solução mais fácil. De preferências de sorriso no rosto e glúteos firmes.

Como os que eu tinha e que agora não consigo ter de novo.

Há tempos decidi fazer um desafio, daqueles de fazer exercício em casa. Fazia agachamentos todos os dias. Consegui completar esse desafio, eram trinta dias. Fiquei tão empolgada que decidi fazer um igual com flexões. Num dos dias estava tão cansada que à 15ª me deixei cair no chão e adormeci. Acordei já passavam das 2 horas da manhã, quase afogada na minha própria baba.

Triste ah!?

Nada disso.

Por isso, pessoas, estabelecimentos comerciais e de roupas belas que não posso comprar. Estabelecimentos de estética que provavelmente poderia fazer de mim um ser quase belo, não fosse eu não ter dinheiro para vos pagar o tratamento ou, mesmo que tivesse, estar em permanente stress e preocupação com o desperdício de tempo que seria estar deitada sob os vossos cuidados quando tenho o chão da minha cozinha o maior nojo do mundo.

Parem. Parem de me mandar e-mails de publicidade, coisas que me fazem ter sonhos que não devo, com uma vida que provavelmente nunca mais vou ter.

 

Grata pela vossa compreensão,

Margarida

 

Escolho todos os endereço de e-mail que me recordo, é só por a letra do inicio e escolher. Agora é só clicar em “enviar”.

Aparece uma mensagem. Não tem titulo? Arranja-se já. Que tal “deixem-me em paz!”. Parece-me bem.

Clico em enviar, reclino-me no sofá e bebo o resto do vinho que tenho no copo.

Hoje foram dois ou três? Penso.

Bhaaa! Que é que interessa. Estava a precisar e os miúdos estão a dormir.

Agora vou eu. Está na hora.

Arrasto-me até ao quarto e mando-me para cima da cama. Adormeço como caí.

Só de manhã quando acordo é que percebo que me deixei adormecer ainda com o avental da cozinha e que nem os dentes lavei.

Mais um dia.

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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