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Em busca da felicidade

Não és tu...nem sou eu - IX

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(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)  

 

Quando acordo estranho a respiração de outra pessoa no meu quarto. Já me tinha desabituado a dormir com os sons de outra pessoa. De outro adulto. Já me tinha desabituado há muito tempo de dormir dentro de um abraço. De sentir o calor de outra pessoa perto de mim. Enroscado em mim. Claro que perco a conta às noites em que acabo com companhia. Um sonho mau. Uma insónia. A preocupação do jogo do dia seguinte. Os testes da escola ou os filmes que o mais velho põe na televisão sem eu autorizar e que assustam a mais pequena. Tem a mania que é forte e não quer ceder às insistências do irmão, de que ela é mais nova, de que se calhar tem medo. Ela não tem medo.

Ainda dorme. Dorme profundamente. Um sono descansado. Invejo-lhe o sono. Não consigo dormir assim na minha própria casa. Ele consegue dormir tranquilamente na casa de uma desconhecida. Afinal de contas é isso que sou. Uma desconhecida. 

Toco-lhe ao de leve. Não o quero acordar. Quero vê-lo. Apreciar este momento. Toco-lhe no braço e mantenho-me quase imóvel. Controlo a minha respiração. Confesso que queria rodar para o olhar, para lhe ver melhor o rosto enquanto dorme. Mas posso acorda-lo. E depois de acordar ela vai perceber que está na hora de ir. Que não está aqui a fazer nada. Vai olhar em volta, ver o quarto fracamente arrumado. As coisas de duas crianças espalhadas por todas as assoalhadas - e o meu quarto não é excepção - vai perceber que não quer estar no meio disto. Desta confusão. Que pode ter muito melhor. Que tudo aconteceu por um impulso. Que aconteceu com o consentimento dos dois. Que somos adultos. Vai dizer que ambos sabemos que não passa disto e que o melhor é seguir cada um com a sua vida. Vai rir, se lhe disser de contrário.

Mantenho-me aninhada nos seus braços. No seu abraço e sorrio. Sorrio porque aconteceu. Sorrio porque me sinto uma miúda. Sorrio porque também quis. Sorrio porque afasto da minha cabeça os pensamentos da mulher adulta que só sabe ser mãe e deixo-me estar. Não quero adormecer. Quero ficar aqui acordada a saborear este momento.

Um barulho na porta sobressalta-me deste sonho acordado. Deste sonho delicioso.

- Vão lá ver onde está a mãe.

Foda-se! É a vós do Pedro! Que horas são! Quase 11 da manhã! Merda!

O Rafael começa a acordar. Espreguiçasse calmamente e esfrega a cara.

- O que foi? Pareces assustada!

Depressa se apercebe que estão outras vozes em casa.

- Pensava que os miúdos estavam com o pai?!

- E estão...quer dizer, estavam. - digo atabalhoadamente enquanto me levanto da cama meio enrolada no lençol. Totalmente desesperada por uma peça de roupa grande e larga que me tape da cabeça aos pés.

E não, não estou preocupada que os meus filhos me vejam nua. Não há grandes surpresas cá em casa. É lógico que não ando de um lado para o outro nua, como se estivesse um calor de 40 graus lá fora e eu cheia de afrontamentos. Mas numa casa em que só existe um adulto. Em que às vezes há gritos porque caíram, porque bateram contra qualquer coisa. Porque bateram um no outro. Porque o coração de uma mãe não responde à racionalidade, responde ao impulso de salvar a sua cria do mal, sempre, mesmo que isso signifique fazer figura de idiota. Por todos esses motivos às vezes não é possível estar sempre composta. Por esses e por todas as vezes que entram de rompante no meu quarto. Por todas as vezes em que depois os enxoto.

- Maaaaãe!? - é a Maria Clara.

- Depressa, vai para a casa de banho.

- Os teus filhos não estavam com o pai?

Estaca à porta da casa de banho. Naturalmente quer explicações por estar a ser enfiado numa casa de banho. Por ter acordado em tamanho alvoroço. Por ter adormecido na cama de uma mulher independente e estar a acordar no quarto de uma mãe tresloucada.

Paro. Tenho de lhe responder. Entre o pânico de me entrarem pela porta do quarto a dentro e a necessidade de explicar a este homem maravilhoso - que daqui a nada vai querer fugir a sete pés destas quatro paredes - que os meus filhos nunca me conheceram com ninguém para além do pai deles. Que esse traste continua a ter chave da minha casa e que quando trás os filhos a casa entra como se nunca tivesse saído de cá.

- Estavam com o pai e ele deve - por um motivo que ainda vou ficar a saber - tê-los trazido mais cedo porque tem alguma coisa muito importante para fazer esta tarde.

Não sei se parece furioso se apenas impaciente.

- Não exiges que respeite o teu espaço?!

- Maaaaãe.

- É a minha filha, por favor, entra para a casa de banho, já falo contigo.

- Mas falas mesmo.

Fecho a porta mesmo a tempo de o esconder desta princesa que me entra de tutu pelo quarto adentro.

- Olá filha, chegaram mais cedo.

- Sim, o papá tem de ir trabalhar.

Certo. Filho da puta. Eu sei bem o trabalho que ele tem para fazer. O traste.

Chego à sala e está a examinar os 2 copos de vinho vazios que tenho em cima da mesa da sala.

- Parece que tiveste companhia.

Que raio tens tu que ver com isso?!

- E teve.

Quando olho para trás vejo o Rafael. Muito naturalmente a responder ao meu ex-marido. Não sei gerir isto. Não sei gerir isto. Não sei gerir isto.

- Quem é este homem, Margarida? - pergunta-me o traste, como se me tivesse apanhado com um amante em casa. Percebo que ainda pensa que lhe pertenço.

- Rafael Mendes, como está?

- Pedro, o marido.

Ex-marido! Traste!

- Marido? Pensei que era ex-marido. - Faz marcar o ex. e eu continuo congelada no meu sitio. Como se tudo isto estivesse a acontecer em câmara lenta.

- Uma coisa ou outra tanto faz. Sou o pai dos filhos. Estas duas crianças que estão certamente muito confusas com o facto de estar um homem estranho na casa delas.

- Não, não estamos pai. - responde a minha princesa - é o médico namorado da mãe.

Olho para a Maria Clara e bocejo um ah!? com a boca. Como raio sabe ela que ele é médico? E que raio de conversa é esta de namorado?

- Li os teus e-mails, mãe. - diz ela enquanto inocentemente encolhe os ombros.

Entro em pânico e perco a força nas pernas. Vou desmaiar.

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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