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Em busca da felicidade

Não és tu...nem sou eu - VI

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(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado) 

 

Já tinha saudades de vir ao cinema. Quer dizer, para ver um filme de adultos. Com personagens reais. Já tive outras oportunidades de vir ao cinema, claro. Nos dias em que os miúdos estão com o pai eu estou por minha conta. Mas detesto vir ao cinema sozinha. Detesto sentar-me com o balde de pipocas na mão. Faz-me sentir verdadeiramente só. Faz-me sentir que não tenho ninguém. Algo em mim diz que ir ao cinema é levar companhia. É levar a amiga para ver aquele filme de gajas que estreou à pouco tempo e não há homem que nos queira acompanhar. É ir com o nosso par, aquele encontro que esperamos que acabe num beijo apaixonado à porta de casa, ou o passeio de duas pessoas que se amam e que encontram no cinema mais um cenário romântico, em que partilham um balde de pipocas, as mãos de um a atrapalharem-se com as do outro. As mãos que já não encontram pipocas mas encontram algo mais saboroso. Que se entrelaçam e esbanjam carícias, que se apertam quando há um beijo no ecrã. O olhar que se troca, com a sugestão escondida de que mais tarde seremos nós os apaixonados do ecrã.

- Já viste quem está ali?

Sou afastada do meu sonho acordado pela louca da Clara. Pisco os olhos como que a tentar acordar-me de um sonho desejado mas longe de ser cumprido.

- Estás cá!? - Aceno que sim, ainda a voltar à terra – não parece.

Ambas queríamos vir ver "O Diário da Bridget Jones", por isso, e porque neste momento não há parceria amorosa para esta minha amiga que troca de amigo colorido mais depressa do que eu troco de camisa, lá viemos as duas engeitadas. Ou melhor, a enjeitada e a que enjeita.

- Mas afinal, viste quem está ali?

- Quem?

- O doutorrrrrr!

- Qual doutor?

- Ora, qual doutor?! O teu!

O meu. Mas que raio. Ah, foda-se! Espero que não me veja.

- Onde? – pergunto aflita. Tenho de tentar encontrar um sitio para passar onde não me veja. Quer dizer, muito provavelmente nem se lembra da minha cara idiota. Mas neste momento não consigo gerir bem as minhas ideias e só quero que nem roce os olhos em mim.

- Porquê essa aflição toda?

- Nada. – tento parecer normal.

- Nada?! Sei. Estás quase a desmaiar e ficaste sem cor. Mas está tudo normal?! É isso?

- Sim, exactamente.

Os meus olhos percorrem todo o espaço. Preciso de encontra-lo para puder garantir que fico fora do caminho dele.

- Então, já fez as pazes com os ginásios e outros estabelecimentos que lhe tentam vender coisas que não quer?

A voz está atrás de mim e a força sai das minhas pernas. Vou desmaiar. A Clara olha para mim com os olhos muito abertos, com uma expressão completamente atónita que rapidamente muda para a cara de quem lhe escapa qualquer coisa. Rodo sobre mim mesma e confirmo que o médico está ali à minha frente.

- Des…ah…Não sei…Bom, tinha todas as intenções de lhe responder, mas não tive oportunidade. – digo completamente encavacada.

- Compreendo. Pelo que li no seu e-mail a sua vida é muito, como hei-de dizer, preenchida.

- É verdade. – aguento-me conforme posso, mas a vontade é de fugir, ou melhor enfiar-me num buraco bem fundo e só sair de lá daqui a 50 anos.

- A sua amiga parece já ter visto dias melhores. Está um pouco pálida. De qualquer forma gosto mais dela assim. Em silêncio. E sossegada.

Rodo a cabeça para olhar para a Clara que está ainda com a mesma expressão no rosto. A qual muda quando os seus olhos encontram os meus.

- Estou aflita para ir à casa de banho. Volto já. – Diz-me enquanto pisca um olho de forma declarada.

Não me podias estar a enterrar mais.

Quando volto a olhar para o médico, está a observar-me com um ar entretido. Parece estar a gostar de me ver totalmente atrapalhada. Olho para os meus pés e rapidamente percorro a minha pessoa. Vejo as minhas sandálias castanhas desportivas, daquelas que todos os australianos usam quando vêm de férias a Portugal. As minhas calças de ganga esgaçadas. A minha blusa de manga curta bem larga, aquela que tem tantas flores que nem dá para ver a ultima nódoa de iogurte que lá pus.

- A sua amiga não desiste.

- Não. Mas eu percebo-a.

- Percebe.

- Sim. Está farta de mim e enquanto não me arranjar companhia não se sente confortável em deixar-me sozinha.

- Então é quase uma questão de apoio social.

- Podemos dizer que sim.

- Bolas!

Bolas o quê!

- Bolas o quê?! – penso e verbalizo sem me aperceber disso.

- Tenho-me em melhor conta. Nunca pensei que me vissem como assistente social.

Ri-se divertido. Eu passo do branco ao vermelho vivo. Não sei o que dizer e cria-se um silêncio constrangedor.

Enfio as mãos nos bolsos e olho à minha volta à procura de salvação. Onde é que está aquela estúpida? Porra! Será que o filme não começa.

- Que filme veio ver? – acho que acabou por ficar cansado de me observar e apiedou-se de mim. Quebrando esta silêncio estúpido.

- Venho ver o Diário da Briget Jones. Eu e a Clara adoramos.

- Acredito.

Estúpido! O que é que isso quer dizer? Os meus olhos fulminam-no.

- Calma, estou só a dizer…

- Ufa, estava a ver que nunca mais. Estava uma fila interminável para comprar pipocas. Tinhas razão devia ter comprado logo quando fomos buscar os bilhetes.

Uma moça linda. Alta, elegante, bem vestida, penteada e mais importante fresca e nova, coloca-lhe a mão no ombro e só depois repara em mim.

- Ah, olá, como está?

Olha de novo para ele como que a perguntar quem raio sou eu.

- É uma paciente.

Uma paciente?! Foda-se! Nunca fui paciente deste gajo. Mas como tenho ar de nojo é melhor dizer que sou uma pobre doente.

- Ah, OK. Como está? – diz dirigindo-se a mim. Sorri simpática. Nojenta. Para Margarida! A rapariga não te fez nada. Só existe e tem um existir melhor que o teu!

- Bem obrigada. O doutror… - olho para ele e depois de volta para esta esfinge – é um excelente médico. Tem tratado da minha…condição, de forma exemplar. Agora se não se importam vou tentar encontrar a minha amiga que deve ter sido engolida por um cano. Ou quem sabe está estendida no chão depois de uma jibóia que chegou à casa de banho pela canalização, lhe ter apertado o pescoço. Percebo muito de canos….e a minha amiga merecia.

Faço um sorriso estúpido enquanto evito o olhar de ambos, mas percebo que estão ambos com um ar divertido a apreciar a minha falta de “saber estar”. Volto as costas furiosa. Desejo profundamente que a Clara esteja estendida no chão depois de uma jibóia lhe ter apertado o pescoço. Aquela porca! Para que é que uma pessoa quer uma amiga se não é para nos salvar quando precisamos.

- Então, conversaram?

Salta de repente de um lado qualquer quando eu estava a caminho da casa de banho. Estúpida. Estava ali a fazer tempo.

- És uma idiota! Uma idiota ouviste.

Ela ri-se. Ri-se de mim.

- Idiota porquê? – pergunta divertida.

- Porquê? – volto-lhe costas e começo a andar em direcção à sala de cinema. – é a ultima vez que venho contigo ao cinema. E estou a pensar em nunca mais sair contigo. Não te controlas e metes-te na minha vida.

- Porque fui à casa de banho? Estava aflita! – diz. Está a adorar.

- Porque me deixaste sem jeito a falar com o coitado do médico que tu importunaste.

- Mas ele veio falar contigo, todo simpático e carregado de mel.

Reviro os olhos e sinto o sangue a ferver. Mas…será?! Pfff, nada! Esta parva.

- Não havia mel nenhum. Apenas foi simpático e cordial.

- Sei.

- Para com isso, já te disse.

Deixo-a a falar e entro na sala.

 

Procuramos os nossos lugares. Eu calada e em fúria. A Clara ainda a tagarelar, ainda que num sussurro, o médico isto, o médico aquilo.

Quando nos sentamos já estou farta.

- Mas tu calas-te com a porra do médico?! Estou aqui estou a ir-me embora. Estou a começar a ficar farta de ti.

Só quando me calo percebo que falei alto de mais. Finjo não ter sido eu e quando olho em frente vejo duas cabeças viradas em minha direcção. Precisei de um segundos para que os olhos se habituassem ao escuro da sala, para perceber que o médico e a esfinge estavam sentados dois lugares abaixo.

Merda!

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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