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Em busca da felicidade

Não és tu...nem sou eu - VII

 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

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Não tenho a certeza de ter visto o filme todo. Tentei concentrar-me mas os olhos tendiam a cair para as duas cadeiras que estavam pouco abaixo do lugar em que estava sentada. Os gestos, os carinhos, os toques aqui e ali, o braço por cima, as cabeças encostadas. A espaços o ocasional rodar de cabeça, certamente de quem se sente observado. O cruzar de olhares, quando rapidamente tendo fingir que só estou a olhar em frente mas parece que estava a olhar para ele.

Eu a sentir-me observada pela minha grande amiga. Satisfeita com o meu incomodo. Deliciada. Acho que foi o filme mais divertido que viu.

 

O filme acaba finalmente e tenho as pernas doridas e estar permanentemente em tensão. Só queria sair dali.

A Clara começa a levantar-se para sair e eu seguro-lhe no braço. Quero esperar que eles saiam primeiro. Não quero que me perguntem se gostei do filme. Não quero cruzar olhares. Só quero ir para casa e lidar com os meus stresses conhecidos do dia a dia. Já não tenho estofo para isto. Sinto-me incomodada.

- O que foi, o filme acabou, não vamos ficar aqui! – diz-me desafiadora, sabe bem porque a segurei.

- Senta-se e está calada. Sê minha amiga uma vez na puta da vida!

Vejo-a chocada com a minha assertividade. Normalmente leva sempre a melhor. Faço-lhe as vontades. Não porque acho que tenha razão. Mas porque normalmente o que diz da boca para fora não tem impacto na minha vida. Mas agora vai servir para me incomodar outra vez. E eu não quero.

Quando percebo que se estão a levantar e olham para nós, finjo-me distraída com o telemóvel. Assim não tenho de acenar sequer, e também fica a ideia de que a minha vida não é totalmente desprovida de sentido. Tem bastante sentido e eu tenho pessoas que querem falar comigo. Para além dos meus filhos. E do idiota do meu ex-marido.

Vou olhando para o ecrã enquanto mexo sem grande sentido no telemóvel. Percebo que em vez de descer as escadas estão a subir. Percebo que olham para nós e que a Clara sorri na sua direcção. Mas que merda!

- Boa tarde, como está?

Dirige-se a Clara.

- Bem, e o doutor. Diria que muito bem. Pelo menos bem acompanhado está!

Clara! É exasperante.

- Sim. Estou. Uma das mulheres mais bonitas do mundo. Não acha, Margarida?

Pisa! Mais um bocadinho. E sim, é Margarida!

Aceno que sim.

Sim para tudo amigo. A gaja é boa como o milho e sim é esse o meu nome. Mas eu gostava mais que fosse Gisele!

- Bom, nós temos de ir andando.

- Nós também.

Começamos a andar para a porta e não sei bem como mas em fracções de segundo a Clara está a falar com a esfinge e eu fui largada ao lado do médico.

Suspiro, cruzo os braços e olho para a parede como quem admira uma montra.

- Gostou do filme?

- Sim. E o doutor?

- Rafael, por favor.

- É esquisito.

- O meu nome.

- Trata-lo pelo seu nome.

- Porquê?

- Porque você é “o” doutor. O tipo que nos passa remédios. Não o compincha que tratamos pelo primeiro nome, nem o vizinho do primeiro direito.

- Por acaso moro num primeiro direito, logo sou vizinho do primeiro direito de alguém.

Respiro fundo. Está a tentar ser engraçadinho e eu não estou para brincadeiras. Porque raio está a falar comigo? Aaaaaa! Só me apetece gritar.

- Pois, mas não é meu.

- Nem seu nem de ninguém.

Ops. Como?!

- Não é meu vizinho. – digo enfaticamente.

Está a observar-me e a sorrir. Deve ter mesmo a mania que é esperto. Foda-se, o que eu gostava de ser mais como a Clara nestes momentos. Já estavas a piar fino ó espertinho!

Paramos todos ao lado uns dos outros e a esfinge mostra-se feliz de nos ter conhecido. De ter conhecido a Clara, como é obvio. E a doente. Eu.

- Vamos comer qualquer coisa. Façam-nos companhia?! – diz a esfinge toda empolgada. Nem pensar! Penso.

 

- Boa ideia! Vamos.

Esta Clara, sempre pronta para mais uma saída. Passeios, jantares. De facto nem sei como mantêm uma amizade comigo. Mais entediante não podia ser. Porventura porque sou a única que ouve calada as suas peripécias loucas.

- Eu vou andando. Não me levem a mal.

- Então?! – diz a Clara.

- Tenho…tenho…

- Tens o quê? Uma casa vazia à tua espera. Os miúdos estão com o pai hoje. Vamos aproveitar e jantar, não sejas desmancha prazeres.

Olho para o médico e fico com a sensação de que me dava mesmo jeito que me aconselhasse um medicamento qualquer para me fazer passar a náusea.

Ah, e as carícias que trocam. Que lindos.

Olho para eles e rodo sobre os calcanhares para me por de frente para a Clara. Um ar de quem não está para discutir o tema. Só quer fazer o que quer fazer.

- Eu não vou. Preciso de ir descansar.

- Às vezes o melhor descanso está num pedaço de tempo a divertir-se. Umas gargalhadas ajudam a descansar mais do que uma noite passada no sofá. Estou sempre a recomendar isso aos meus pacientes.

- Pois mas eu não sou sua pa….estou a ver. Se calhar tem razão. – Verbalizo a custo. Eu não sou tua paciente, otário. Não tens de ir tomar conta da esfinge? Que raio. Devo estar a dar um gozo a este gajo. A sério. Recompõe-te Margarida. És uma mulher crescida, não tens de te sentir intimidada por um parvo e sua esfinge.

Os olhares centrados em mim. Como eu detesto isso. Tirem-me daqui!

- OK.

- Óptimo – grunhe a esfinge – sempre soube que o meu mano aconselhava os pacientes dele da melhor forma. É por isso que tem tão bom ar. Deve estar a ser bem acompanhada. – diz enquanto lança um olhar cúmplice ao médico.

São irmãos.

OK, são irmãos.

Sorrio como uma tonta. Baixo a cabeça e sorrio. Volto a olhar para as minhas sandálias feias, mas confortáveis, de fim de semana. Olho para ele e está a observar-me divertido. Sorrio só para ele.

Pareço uma miúda tonta.

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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