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Em busca da felicidade

Não és tu...nem sou eu - VIII

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(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado) 

 

- Que idade têm os teus filhos?

Foi a primeira pergunta que me fez para quebrar o silêncio incomodamente agradável que sentia depois de me ver sentada no banco de pendura do carro dele. Foi tudo demasiado rápido e não sei bem nem como nem porquê a clara acabou a levar a casa a Barbara. Sim, a esfinge tem nome. E eu acabei a ter boleia do Rafael. Sim, Rafael. Já não é "o médico".

Estranho estar a ser tratada por tu. Por breves instantes custa-me a perceber que é comigo. Com quem mais havia de ser não há mais ninguém no carro. Como vim aqui parar?

- Têm 9 e 6.

Foi só o que respondi sem tirar os olhos da janela. Sinto-me intimidada de lhe enfrentar o olhar. Tenho medo que perceba que quero que goste de mim. Merda, quero que goste de mim. Não quero, não posso querer. Sou uma tipa simples, com um trabalho banal que qualquer outra pessoa pode fazer. Sou uma gaja cansada, desleixada, que não cuida de si. Sou mãe. Cuido dos meus filhos. Não posso gostar de um homem assim. Não posso gostar de quem não se pode enquadrar na minha vida. Não posso gostar porque me vou magoar, porque me vou desiludir. Porque se perceber que gosto vai rir. Vai dizer “entendeste tudo mal, és boa pessoas, mas”. Não posso gostar. Não quero gostar. Estou a gostar. Merda, concentra-te na janela. Daqui a nada estás em casa.

- Já percebi que não falas muito. Mas pareceste-me mais à vontade quando ainda eramos quatro. Estou enganado?

Não, não estás. Quando eramos quatro, não estava só tu e eu. Quando estávamos quatro podíamos olhar em varias direções sem ser estranho. Quando eramos quatro podia olhar para ti sem medo que percebesses que estava a olhar para ti. Quando eramos quatro não vidravas os teus olhos nos meus. Quando estavam mais duas pessoas não me sentia fraquejar.

- Até falo. Desde que tenha assunto, claro.

- E agora não tens?

- É estranho ouvi-lo tratar-me por tu.

- Trata-me por tu também. Agora não somos estranhos.

- Ainda somos.

- Não sinto dessa forma.

Então como sentes?

Não digo nada

- Sentes-me assim…distante?

- Não.

Sinto-te assustadoramente próximo. A ver-me assustadoramente bem.

Percorro mais uma vez o meu ser. A minha triste figura.

Devia perguntar-lhe o que quer com esta conversa. Já não sou uma menina. Sou uma mulher crescida. Não tenho tempo para estas coisas. Para estas brincadeiras. Não tenho espaço para mais mágoa. Entendeste?

- Tu és uma pessoa especial.

- E o que é que o…o que é que te leva a dizer isso. Não me conheces para saber isso.

- Conheço.

- Conheces?

Fito-o. Estou curiosa de saber o que tem para dizer.

Os nossos olhos cruzam. Ele vira o rosto para a frente, faz pisca e encosta o carro. Desliga-o e vira-se para mim.

Sinto a menina de 15 anos que já habitou este corpo. A adrenalina percorre cada centímetro do meu corpo. Porque é que encostou o carro? Porque é que está a olhar para mim? Liga o carro e vamos. Estou paralisada e não consigo desprender os meus olhos dos dele. Num silêncio incomodamente saboroso. Um momento em que o mundo parece estar parado.

- Tu és uma pessoa especial. Percebi isso desde o dia em que te vi. Tens qualquer coisa de especial. Qualquer coisa que me atraí. Não sei explicar porque te pedi que me contactasses para me dizeres como estava a alucinada da tua amiga. Sei que queria voltar a saber de ti. Nunca pedi isso antes. A louca da tua amiga esteve a importunar-me e ainda bem. Foi a forma que tive, a justificação que tive, para voltar a contactar contigo. Eu não sabia, não o fiz consciente por isso fui bruto.

- Não estou a perceber. – interrompo-o para dizer. E não estou. Não faz sentido o que diz com o que escreveu antes.

- Assustei-me com o que senti. De alguma forma fui respondendo com o que a minha cabeça manda. Ela que me protege, que evita que me magoe uma e outra vez. Não precisava de ter ido ter contigo hoje. Para quê? Quantas vezes achas que encontro pacientes meus? Não os abordo na rua! Abordei-te a ti. Quando dei por mim estava a falar contido. Como um zombie guiado por uma qualquer força. – esfrega a cara – eu também não sei o que se passa comigo. Sei que gosto de ti. Só isso.

- Não podes gostar de mim.

- Porquê? Porque não és uma mulher igual à minha irmã? Sim, eu percebi que ficaste incomodada quando ela chegou. Ficaste incomodada porque pensaste que era minha namorada. Porque te sentiste inferior. Vi no teu olhar feliz quando me chamou de mano. Vais negar que ficaste contente quando a percebeste minha irmã. Não companheira de cama.

Mas que raio. Está a ler-me. Mas como? Como?

- Eu não posso gostar de ti.

- Porquê?

- Porque. Só isso.

- Não vou aceitar essa resposta.

Devias. Era muito mais fácil de a aceitasses. Se me deixasses em casa e me esquecesses. Se ficasses apenas assim, perfeito no meu pensamento, perfeito para preencher os meus sonhos, com toda a tua perfeição. É que eu tenho defeitos, e dentro de poucos dias a adrenalina do principio vai dissipar-se e vais começar a percebe-los. A vê-los pelo que são, defeitos. Sim, porque no principio os defeitos são as maiores virtudes. É gira a forma como me chateio contigo porque a toalha ficou no chão. Discutimos de forma sedutora e resolvemos o nosso desentendimento na cama. Mas depois a toalha vai continuar no chão e eu vou ficar mais chateada. A sedução vai dissipar-se e eu vou só ser a chata que te melga a cabeça por coisas simples que não salvam a vida a ninguém. E tu. Tu, homem perfeito dos meus sonhos, tu. Tu salvas vidas o dia todo.

E depois eu vou começar a ver os teus defeitos. Que afinal não és o homem dos meus sonhos. Que não dizes sempre as coisas perfeitas e os momentos de silêncio deliciosamente incómodos vão começar as escassear. Os silêncios correspondem aos momentos em que estamos demasiado chateados um com o outro para nos dirigirmos palavra.

- Não posso porque não me posso magoar.

- Quem disse que vou.

- A vida.

A vida ensinou-me que nos fartamos um do outro. Que um dia vais conhecer uma enfermeira inteligente. Uma que te ajuda a salvar vidas todos os dias. Uma que vai ao ginásio à tarde. Uma enfermeira linda e descomplicada. Vais encontra-la e perceber que é tudo o que querias para a tua vida.

- A vida pode ser boa.

- Mas pode ser má também.

- Porque não te dás uma oportunidade.

- Dou a mim, não dou a ti.

Afasta-se incrédulo.

Liga o carro e arranca. Só para à porta da minha casa.

Digo-lhe boa noite, responde de volta com a cabeça baixa e não cruza o olhar com o meu. Saio e caminho para a porta.

Sou uma merda!

Estou à procura das chaves. Sei que estou mas não as encontro. A minha mão perdeu a sensibilidade e o meu peito ficou dentro do carro.

Sinto-o atrás de mim e volto-me.

- Porquê?

- Por causa da enfermeira.

- Da enfermeira?!

- Sim, a enfermeira jovem, fresca, feliz e descomplicada. A que vais encontrar um dia, a que vai estar contigo a salvar vidas todo o dia.

Perscruta o horizonte e inspira fundo, como quem tenta libertar a frustração e ao mesmo tempo encontra o alivio no que acabou de ouvir.

- És uma idiota.

Sem que consiga dizer uma palavra acaricia-me o rosto com a mão suave. Aproxima-se para me beijar. Primeiro de forma leve, mal sinto os seus lábios. Num toque que não se toca. Numa pele que se sente sem estar junto. Intensifica-se com o passar dos segundos, dos minutos. O seu sabor, o seu toque. A saudade que tinha de ser mulher. E as borboletas na barriga, como uma menina de 15 anos que morou neste corpo há muito tempo.

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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