Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Em busca da felicidade

Não és tu...nem sou eu - XI

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado) 

tumblr_o7z3az3kFi1slhhf0o1_1280.jpg

 

Acordo a sentir o seu braço em torno de mim, ajeito a mão para lhe tocar. Não está. Rodo o meu corpo para encontrar os lençóis vazios. Não está aqui mais ninguém. Só eu. Eu e a fantasia de um homem que podia ser perfeito mas que eu mandei sair da minha vida.

A minha vida louca. A minha vida de quem não quer saber de si. A minha vida em que o único adulto mais ao menos são vou sendo eu. A minha vida sem carinho. Sem o abraço forte de alguém que me ama ao final do dia. Um abraço que sem palavras me diz que tudo vai correr bem. Um corpo quente para me enrolar nos dias frios. Depois dos sonhos maus.

Uma respiração que incomoda. O incomodo delicioso de quem está perto.

Mandaste-o embora. Deu a cara por ti.

Ou será que queria apenas sair daqui?

Não corrigiu a princesa quando ela o chamou de teu namorado.

- Não pode ser meu namorado. - Digo em voz alta. Como quem não para os seus pensamentos.

Rodo vezes sem conta na cama. Queria que estivesses aqui. O teu toque. Tão carinhoso. Não conhecia um toque tão carinhoso. Com o Pedro foi sempre tudo tão, tão, desapegado. Hoje parece que foi sempre tudo tão distante.

Foi por isso que não sentimos a falta um do outro quando os miúdos nasceram. Foi por isso que para mim era mais fácil ter uma dor de cabeça. Não lhe sentia a falta. Foi por isso. A culpa foi tão dele quanto minha. Ele queria uma vida de miúdo. Eu queria um conto de fadas. O príncipe a cavalo. O que pergunta, o que quer saber, o que acaricia, o que cuida, o que se declara. Que abraça, beija, toca, com a vontade de quem quer estar. Com a saudade de quem sofre pelo momento que passa e já não volta.

Quem ama com tempo.

Estendo a mão e percebo que desta vez tenho de ser eu. Tenho de seguir atrás do que quero.

Levanto-me, tomo um banho. Visto-me. Escolho as roupas mais coçadas que tenho. Esqueço o perfume de propósito.

- Deixem a televisão. Vamos sair.

- Boa.

- Não quero.

- Queres sim. Por uma vez na vida vais fazer o que a mãe te está a dizer. E já.

A pequena risse. O mais velho põe as trombas e vai buscar os casacos.

 

Estaciono à porta do Hospital. Está de banco de certeza. Tem de estar.

 

- Boa tarde, preciso falar com o Dr. Rafael Mendes.

- Qual é o assunto minha senhora.

Merda! Qual é o assunto. O assunto é que eu sou uma idiota de merda. Pode ser esse o assunto. O assunto? O assunto? Pensa porra!

- Sou eu que estou doentinha. Tivemos mesmo de vir assim de pijama. A mamã está muito nervosa.

- Compreendo.

Faz uma chamada. Regista os nossos dados e pede que aguarde numa sala.

Não está ninguém. Graças a Deus. A ultima coisa que precisava neste momento era de vir enfiar os miúdos no meio de um hospital cheio de gente acamada e moribunda. Não seria propriamente uma memoria muito feliz...sei que é a vida. Que há pessoas a sofrer, só podia era passar bem sem ter os meus filhos a ver pessoas acamadas por todo o lado.

- Maria Clara! - é ele. Está a chamar a pequena.

- Somos nós mamã.

Entramos no consultório. Aperta-me a mão com a distância de um paciente que nunca viu antes na vida. Faz uma festa na cabeça da Maria Clara e senta-se atrás da secretária.

Magoa-me a distância.

Mereço.

- Então o que te trás por cá minha querida. A mãe está nervosa, disseram-me. Queres explicar tu.

- Tenho uma dor forte na garganta.

Eu estou branca e capaz de cair. De onde raio saiu esta coisa pequenina que tem mais coragem que eu. Sorri para mim. Ele observa-a.

- Humm. Tens aqui uma chatice na garganta que é mesmo muito chata. Vou-te dar aqui um medicamente que cura já isso. - tira um chupa de dentro da gaveta - e outro para o mano. Diz que se comeres em parceria com alguém ficas melhor mais depressa.

- Boa!

- Agora esperas aqui fora para o Dr.. falar com a mamã sobre a tua garganta, OK?

Acena que sim e pisca-me o olho a sair do consultório.

Quem é esta pessoa pequenina?

Rio-me para ela.

- O que é que a trás aqui na verdade?

- A trás aqui...?

- Sim. Não trato as minhas pacientes por tu.

- Paciente...

Eu nunca fui tua paciente.

- Eu nunca fui tua paciente.

- Sua...

- O quê?

- Sua. Não somos próximos.

- Foda-se. És um idiota. És um idiota como todos os outros. Tu és a razão pela qual há três anos me mantenho sozinha. E estou-me a lixar para as tuas merdas. Não trato por você pessoas que já dormiram na minha cama. E tu, quer queiras quer não, dormiste.

- Com essa pluralidade toda parece que já teve alguma rodagem a tua cama. Algum movimento para quem não tem ninguém há mais de três anos. Se calhar o problema és tu. Também enxotas-te os outros para fora?

Eu sabia que isto ia acontecer. As conversas são sempre iguais. Têm sempre de dar a volta e a culpa senta-se sempre ao meu colo. Filha da puta da culpa. Sempre às minhas costas. Como uma pedra. Porquê? Porque raio me calo? Porque raio ouço e calo? Desta vez não me vou calar. Estou cansada. Se não me quer, não me quer. Que tenho eu a perder. A ele? Ele está perdido. Não é por me saber os sentimentos que o perco mais. É certo que também não o ganho. Mas liberto-os. Assim fazem parte do mundo. Da minha vida. Não ficam guardados num recanto empoeirado do meu ser.

- Apaixonei-me por ti. Não sei porquê. Não sei como. Não é suposto apaixonarmo-nos por alguém que nunca vimos antes. Mas aconteceu. Esqueci. Guardei. Paixões platónicas de adolescente. Sentimentos para alimentar os sonhos. Ias ser o príncipe dos meus sonhos. Quando era miúda tinha príncipes para os meus sonhos. Sonhava que íamos ser felizes. Que nos amávamos, que nos entendíamos, que tudo era bonito. Depois de o Pedro me ter deixado com três filhos para criar perdi os meus príncipes. Perdi o meu marido. Tinha esquecido os príncipes no dia em que lhe disse que sim. Sabia que ele não era um príncipe. Mas não podemos esperar pelos príncipes para sempre. Senão estamos condenadas à solidão. Irónico. É o que me aconteceu. Condenada à solidão.

Apaixonei-me e sabia que não podia. A minha cabeça de mulher adulta. De mãe de dois. De tipa que já soube o que era ser uma mulher interessante sabia que não havia nada para acontecer. Mas nos meus sonhos. Nos meus sonhos eu podia ser interessante para ti.

Depois, do nada, também me querias. O sonho misturou-se com a realidade. É que nos sonhos não há filhos de casamentos anteriores. Não há ex-maridos trastes. Não há pneu na barriga nem celulite nas pernas. Há uma mulher atraente, sempre composta, com um corpo de sonho. Culta. Capaz. Impossível de ignorar.

Depois, também me querias e eu não soube o que fazer com esse querer.

Quando que ti. Assim, perfeito. Perdido no meio do meu mundo de caos...Quando te vi ali, na minha sala desarrumada. De forma tão diferente do que eu tinha sonhado. Quando te vi ali percebi que te ias afastar. Preferi afastar-te primeiro. Pensei que me custasse menos assim.

Mas depois o sono custou a chegar à noite e a minha mão procurou a tua. Acordei a sentir o abraço que só tive uma vez.

Sabia que tinha de te dizer o que sinto. Apesar de estar a ser escorraçada.

Mas tens razão.

Aprendi alguma coisa contigo. A não fugir do que quero. Mesmo que não seja exactamente igual ao meu sonho. A felicidade pode ter várias formas. Não te incomodo mais.

Sinto o silêncio incomodo. Mas desta vez não é um incomodo saboroso. É o desajuste de alguém que acabou de abrir o seu coração e alguém que só quer que essa pessoa saia da sua vida.

O que estará a pensar?

Não sei. Já não me diz respeito.

- Se isso conta para alguma coisa. Nunca te vou esquecer.

Saio do consultório com as lágrimas a formarem-se nos meus olhos. Respiro fundo e dou a mão aos meus dois filhos. Metade do meu coração em cada mão.

A vida pode ser boa assim. Comigo e convosco.

------ Gostar da Página ------

----ATENÇÃO!----

Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

--------Instagram--------

------Blogs de Portugal------

----- Seguir no Bloglovin -----

Follow

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

------- Mais sobre mim -------

foto do autor

------------ Arquivo ------------

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D