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Em busca da felicidade

Não és tu...nem sou eu - XII

 

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(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)  

 

Que raio se passa com esta mulher? Porque carga de água é que o ex-marido ao fim de tanto tempo separados ainda tem a chave da casa dela? Já não moram juntos. Já não são nada um ao outro. Ele tem outra pessoa.

Porque raio nunca teve mais ninguém? OK, ok, tem dois filhos. Mas não são bebés, porra! Será que tem estado à espera que ele volte? Há mulheres assim, vivem obcecadas por um homem e são capazes de viver uma vida inteira em torno deles. Se calhar é o caso dela. Mas se é porque se haveria de ter envolvido comigo? Não tinha que o fazer. Merda. Não sei o que fazer. Não estou para isto de andar a ter brigas a torto e a direito com um otário qualquer porque a mulher com quem vivo não se impõe ao monte de merda que é o pai dos filhos.

Mas pareceu-me tão honesta. Tão genuína. Tão “sem merdas”. Tão diferente do que conheço. Tão “estou-me a borrifar para o que és e o que tens”. Tão frágil.

Medo. Em momentos só vi medo. Medo de ser magoada. Aquele cabrão! Se volta a magoa-la outra vez…não sei.

Pára Rafael! Não tens nada a ver com isso. A não ser que faças parte da vida dela. Queres fazer parte?

Quero.

A voz dentro da minha cabeça. A voz da minha consciência debate-se com o medo que tenho de meter os pés pelas mãos. Conheço a vida com mulheres fúteis e belas. Pouco intelecto e pouco remorso quando lhes digo que já não sinto nada por elas. Nunca senti. Para além de as levar para a cama e gozar o momento. Sim, gostei de algumas. Diverti-me muito. Mas, meu Deus, tenho de ser sincero, nunca me apaixonei por nenhuma. Só atracção. Também nunca magoei nenhuma. As coisas acabavam quando tinham de acabar. Bons momentos para ambos. Sempre.

Agora é diferente. Quero estar. Quero saber da vida dela. Do que quer. Do que gosta. Do que a faz feliz.

Merda Rafael, este não é tu! Tu és o gajo que não quer ter filhos porque não está para a responsabilidade. Ela tem dois, bem crescidos, e filhos de outro gajo que por acaso é um monte de esterco. A probabilidade de terem genes iguais é grande. Vão-te foder a vida toda! Aquela que tu conheces como boa! Levantas-te às horas que queres, vais jantar onde te apetece, na tua vida não há programas para menores de 18.

Merda, merda, o que é que eu faço, bato ou não bato!?

Ando às voltas sobre mim mesmo neste hall, não sei o que fazer.

- Dr.? Dr. Rafael?

Merda! É tudo o que me faltava agora. Uma paciente. Com a sorte que tenho é uma das alucinadas.

- Sim.

- Bem me pareceu que era o Dr. Não se lembra de mim?

Uma chanfrada. Estava-se mesmo a ver. Eu atendo dezenas de pacientes por dia minha senhora. Como que raio me havia de lembrar de si?

- Confesso que não. Peço desculpa. - digo.

- Não tem mal. O que o trás aqui?

- Venho ver uma pessoa…amiga.

Olha de relance para a porta da casa da Margarida e faz um olhar suspeito.

- Ahhh. Não sei se a vizinha está. Sabe, é que tem uma vida complicada. Com os filhos e o ex-marido e tudo. Diz que ele a deixou porque conheceu uma mais nova. Coitada nunca recuperou. Devia gostar mesmo dele. E depois, duas crianças, não é fácil.

Uma cusca! Foda-se. Vá-se embora!

Sorrio para não parecer mal educado. A porra da educação da minha mãe sempre a travar-me de dizer às pessoas quando estão a ser umas idiotas.

- Sabe Dr. Pedro, ainda bem que o vejo!

Foda-se! Porquê?!

- Ah sim?! Então porquê?

- Tenho andado aqui com uma dor no peito.

- Pode ser só mau jeito.

- Sabe lá o Dr. Nem me examinou! Ora veja.

Não me quero acreditar. A mulher está a começar a tirar a blusa no meio da escada. Esta não é chanfrada. Esta é ala-psiquiátrica em atraso. Ó mulher tape isso!

- Não tenho aqui nada com que a examinar. Por favor, volte a vestir-se, marque consulta. Atendo-a com urgência. Ou se quiser aconselho-a a um colega.

Pega na minha mão e põe-ma em cima da mama direita.

- Ó Dr. com a experiencia que tem estou certa de que conseguirá pelo menos perceber se os meus batimentos cardíacos estão bem. Acho-os acelerados.

OK, mais uma sedutora. Filha, tens ideia das gajas boas que vejo todos os dias? Querida, tenho dias em que a minha vida são mamas consulta sim, consulta não. Chego ao fim do dia com um enjoo tal que sou capaz de pedir à que tenho…tinha….em casa para guardar as dela.

- A sério que não. - tento livrar-me dela.

Puxo a mão e a tipa agarra-a com mais força.

- Dr. com alguma boa vontade…

Ouve-se a porta a abrir.

-Vá lá meninos. Venham lá para irmos comprar qualquer coisa para o almoço. Já viram as horas?!

Quando levanta a cabeça cruzamos o olhar. Ficamos estáticos durante mais de um minuto. Acho que a matar saudades de um olhar que nos faltava.

- Olá.

- Olá.

Ela olha em volta. Olha para si mesma e toca no cabelo. Como quem quer perceber se está mesmo tão despenteada quanto se lembrava de estar.

Eu estava esquecido que tinha a minha mão sobre a mama da vizinha.

Merda!

- Desculpe. Não posso mesmo atende-la aqui a meio do corredor do prédio.

- Mas... - ainda insiste a chanfrada.

- Acha que é normal? Se se anda a sentir menos bem deve consultar um médico. No sitio certo. E vista-se! Farto de ver mamas estou eu. E melhores que as suas.

Pus de lado a educação da minha mãe. Livrei-me da louca e fui ter com ela.

Eu salvo-te e tu salvas-me a mim deste momento constrangedor. Deste silencio incomodamente delicioso.

- Olha o namorado da mãe.

A miúda é gira. Pequenina, desbocada e sempre de tutu cor de rosa.

- Gosto da tua filha. – digo-lhe. – É muito perspicaz.

- Achas? Desbocada, talvez…

- Perspicaz. Se tu deixares. Perspicaz.

Sorri.

- Íamos buscar alguma coisa para o almoço.

- Posso ir convosco.

Aceita. Por favor aceita.

- Acho que sim.

- Óptimo.

Suspiro.

- Mas carregas os sacos.

- OK.

Nem sabes a felicidade com que vou carregar esses sacos.

Caminhamos para o elevador. Os nossos braços tocam-se numa tensão saborosa de quem quer tocar mais mas ainda não pode.

O elevador chega. Entramos e carrego no zero.

Dentro do elevador dá-me a mão.

Sorrio por dentro e por fora.

Uma mão pequena aperta a mão que tenho vazia.

- Tu vais ficar. – diz-me a pequena de tutu.

- A nossa vida é assim. Não há mais do que isto no passar nos nossos dias.

- A nossa vida vai ser óptima, mesmo assim. Nestes dias que não parecem ser especiais. Nestes dias que fazem da vida uma coisa que vale a pena viver.

_______________________________________________________________

 

Para quem leu a história e gostou faço um desafio. Clicar em play no video, fechar os olhos e ouvir a musica até ao fim. Creio que consigam ver a história que termina hoje a desenrolar-se. Ou pelo menos uma parte dela.

 

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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