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Em busca da felicidade

O dilema de aceitarmos o que somos

Antigamente olhava-se para os vizinhos. As senhoras alcoviteiras comentavam as vidas umas das outras num leva e trás permanente. A outra que tinha um penteado novo. Aquela que a saia tinha a racha maior. A outra que ainda se maquilhava, mas devia era cuidar dos filhos. As ricas que tinham amas para os pequenos e passavam as tardes nos salões, justificando dessa forma o tempo que tinham para se cuidar. As mães, super mães que renascem enquanto seres de altruísmo atroz incapaz de pensar em si. Só nos filhos. Só no matrimónio. Sé em ser boas esposas.

Os homens que ficavam nos cafés, que eram o ganha pão e as mulheres tinham no seu papel cuidar dos filhos e da casa. O jantar estava feito ao rodar a chave na porta.

A vida avançou. Os costumes mudaram (felizmente) e as mulheres passaram a estar (quase) ao lado dos homens nos mercados de trabalho (que há ainda um longo caminho a percorrer). A evolução é uma constante e sem que nos apercebamos a vida da vizinha não tem sabor. O que mais importa são as fotografias nas redes sociais. As celebridades que aconselham os milagres para uma vida feliz e quase próxima da perfeição.

Os sorrisos brancos e francos a cada fotografia. A cada vídeo. O desejo de fazer igual porque também queremos chegar à praia sem celulite no rabo. Sem o pneu que quase já é um membro de família. Com o cabelo longo e esvoaçante.

Antigamente preocupavamo-nos com o pouco que nos rodeava. Aceitávamos melhor as nossas vidas e vivíamos menos ansiosos por não estar a alcançar um qualquer Olimpo que alguém diz ser tangível mas que não conseguimos tocar.

Hoje queremos ser como a celebridade da novela. Aquela que na entrevista a mais uma revista, a vender mais um produto, nos diz todas as coisas que faz por si no seu dia para lá de preenchido. Explica como é tudo uma questão de força de vontade. Que se "ela consegue, qualquer pessoa consegue". Até porque tem 23 das 24 horas do dia mega ocupadas com coisas importanterrimas. E no tempo que lhe resta ainda cozinha pratos saudáveis, cheios de ingredientes cujos nomes a maioria dos seres humanos não sabe proferir, quem dirá escrever. E como se não bastasse ainda treina no ginásio diariamente pelo menos uma hora ou uma hora e meia.

Ficamos iludidas com os corpos esbeltos. Com as peles firmes. Com os cabelos esvoaçantes. Com a vontade de querer acordar no dia seguinte assim. Bela.

Ficamos tão iludidas que nos esquecemos da matemática mais simples, aquela que nos lembra que o dia só tem 24 horas e que a soma de tudo o que fazem não cabe nesse curto espaço de tempo.

Metemo-nos a comprar ingredientes que não sabemos cozinhar. Agendamos treinos que não conseguimos concluir porque o cansaço leva a melhor de nós.

Depois percebemos que se calhar dentro dos dias mega ocupados estão incluídas como tarefas as idas ao ginásio. As idas ao cabeleireiro. Os tratamentos de pele e até o sono reparador.

Perguntamo-nos se sabem, quando dizem que "se eu consigo, qualquer pessoa consegue", o que é acordar às 6 horas da manhã com um mar de tarefas para fazer. Com o pequeno almoço para arranjar, as camas para fazer, um filho para alimentar, vestir, preparar e entregar aos avós. Se sabem o que é começar o dia a preparar a marmita para o dia. Se sabem o que é passar mais de uma hora no transito e chegar ao trabalho com os nervos em franja porque estamos atrasados mais uma vez. Se compreendem que nos vestimos para o dia e não para o próximo quarto de hora. Que não nos arranjam e maquilham quando lá chegamos, mesmo antes de as câmeras se ligarem. Será que compreendem o que é passar mais de 8 horas atrás de uma secretária, atrás de um balcão. Que o fim do dia de trabalho acaba com uma fila de hora e meia para ir buscar o filho e não no ginásio a curtir a aula de zumba. Que a atividade mais divertida é o banho dos filhos. Que a seguir os crescidos têm de fazer o jantar. Dar o jantar. Lavar dentes e deitar. Ou convencer a deitar. Será que sabem o que é passar uma semana para acabar um capitulo de um livro. Que de tão cansados mal acabam uma página por dia.

Será que compreendem que as tarefas que incluem no seu complexo dia, as idas ao ginásios, os tratamentos, os almoços saudáveis, são os extras de quem tem no dia a vida de todos os dias.

E aceitarmos que a vida é assim?

Que afinal ser gostosa como a moça da revista não é tão simples. Que quando chega a casa já alguém limpou e a nossa espera pelas nossas mãos para ser esfregada.

Quando era miúda custava-me a aceitar que não era alta. Custava-me aceitar que o meu cabelo não era liso. Que tinha mais peso do que devia. Que não era bonita. 

Não me arranjava e habituei-me a dar mais valor ao conteúdo da minha cabeça que ao exterior do meu corpo.

O primeiro era grátis. O segundo dava trabalho e custava dinheiro.

Cresci para aprender que às vezes desejamos ser giras como as tipas das revistas. Que nos tentamos convencer que podíamos fazer só mais uma coisinha para ser assim. Esbeltas.

Aprendi que nem tudo é o que parece. Que nos contam o que querem que vejamos. Que sorriem porque querem fazer acreditar ter uma vida livre de problemas. Sem chatices, maleitas ou desamores.

Aprendi que ser feliz vende porque afinal de contas é disso que todos andamos à procura. Da formula mágica que nos faça sorrir todos os dias. 

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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