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Em busca da felicidade

Ontem foi dia dos avós

 

Quando era miúda, antes de saber invejar a magreza e os cabelos lisos e longos das minhas amigas, antes de saber que ter uns ténis de marca era mais cool do que andar com uns de marca branca. Antes de começar a querer formatar a minha cabeça para me sentir parte de um grupo. Antes de perceber que não queria fazer parte de um grupo, que gosto de muitas coisas diferentes e que não tenho de ter cabelo rapado ou pelos joelhos para me dar com hippies, que não tenho de andar de pólo Lacoste para me dar com betos, que não tenho de andar sempre de ténis para ser amiga de desportistas. Antes de perceber que posso ler o que quero e não o que dizem ser bom para ter algum intelecto. Antes destas coisas todas. Destas que fazem parte da minha vida e que definem muito do que sei ser hoje. Antes de tudo isso invejava 2 coisas aos meus amigos. A primeira era que tivesse "uma terra". Eu não tenho "uma terra". Não vou passar férias "à terra". Nasci e fui criada na Margem sul. É que nem vim nascer a Lisboa. Toda a minha vida se desenrola na margem certa do Tejo. Eu não tenho terra. Era o que pensava. Invejava os outros miúdos que nas férias iam com os pais passar férias "à terra", seja lá onde isso fosse. Ainda hoje tenho isso, invejo o Nuno porque ele tem terra. Eu não.

A segunda coisa que invejava nos outros miúdos era que tinham avós. Avós mesmo. Dos que tomavam conta. Dos que compravam prendas. Dos que davam mimos e faziam as vontades. Dos que defendiam dos ralhetes dos pais.

É claro que tive avós. Mas mal os conheci. A minha avó paterna, a velhota Gertrudes, pequenina como só ela, a típica alentejana, sempre vestida de preto desde que o filho mais novo morreu num acidente de trabalho. Como a entendo hoje, não ria muito, a vida tinha sido má para ela. Levou-lhe a primeira filha. Depois levou-lhe mais um filho. Um dos gémeos. Mais tarde levou-lhe o filho mais novo dos três que a vida lhe permitiu ter.

A velhota Gertrudes que tratava os filhos como meninos. Fazia tudo por eles. Descascava-lhes a fruta. A responsável por o meu pai ainda hoje ser o mimado que é. É a avó que me lembro melhor. Fazia anos no dia 1 de Abril. Dia das mentiras. Levava-me ao mercado da esquina e comprava-me um bolinho seco com canela. Sempre. Mesmo quando a minha mãe dizia que não podia. Especialmente quando a minha mãe dizia que não podia. Arriscaria a dizer que é a mulher que o meu pai mais amou. Ainda hoje chora quando fala da mãe, e já lá vão mais de 20 anos. Faleceu em nossa casa. Aos nossos cuidados.

A velhota Gertrudes.

O meu avó João era um homem com H grande. Pai do meu pai. O que a minha mãe gostava dele. O que a minha mãe gostava de o chamar pai apesar de ser sogro. Um homem que era só coração. Dele só me lembro de se rir para mim. De resto lembro-me dele sempre a tentar passar despercebido. O Alzheimer levou a melhor.

Coisas más acontecem a pessoas boas.

Gostava tanto de te ter conhecido melhor avô. De saber em primeira mão o que a mãe tantas vezes me contou.

A avó Maria, que nunca se chamou Maria. De nome Lurdes, sempre foi a avó Maria. Não sei porquê. Sei que sempre foi assim. A que dividia as sardinhas pelos filhos, sobrinhos e netos. A que comia as cabeças do peixe porque eram mais saborosas. A que vivia num rés do chão "casa de bonecas" e que albergava lá dentro mais de 20. Havia sempre mais um canto para alguém. A que comia doces às escondidas e faleceu cega porque ninguém mandava no que comia. Foi com 86 anos. Já foi bem. Para quem teve 13 filhos e uma vida de provação, 86 não é mesmo nada mau.

Lembro-me de a ir visitar a casa da minha tia. Lembro-me de comer um gelado. Eu um, ela outro. Lembro-me que dava uma nota à minha mãe para "comprar à menina umas collants das que ela gosta". Lembro-me como se fosse hoje de ter pedido ao genro que salvasse a cadelinha feia que ninguém queria. Não podia ver animais a passar mal. E o Augustinho lá fez a vontade à velhota. Sempre foi o fraco dele. Os pedidos dos velhotes. Acho que sempre teve medo do que idade pode fazer dele, que não lhe atendam aos pedidos, por isso sempre atendeu aos outros de cabelo grisalho.

Por fim o meu avô António. O pai da minha mãe. Nunca o conheci. Faleceu antes de eu nascer.

Sempre vivi com uma pena terrível de não o ter conhecido. Tenho esta coisa desde miúda. De terem existido pessoas que eu gostava de ter conhecido e que agora já não existem.

Queria tanto ter uma ligação com o meu avó que lhe quis ficar com o Clube de Futebol. Um dia, numa conversa, percebi que o meu avó era do Sporting. Eu, Benfiquista até aí, decidi mudar. Não nos tínhamos conhecido, mas íamos ter alguma coisa em comum, éramos os 2 do Sporting.

Mais tarde percebi que afinal era do Benfica e eu tinha entendido mal a conversa. O orgulho impediu-me de voltar atrás.

Por isso hoje sou do Sporting. Não de coração, mas por convicção. Por decisão.

Quando o Ricardo nasceu, veio como eu. Já com uma avó em falta. A minha mãe. Aquela que tomaria conta dele e que lhe ensinaria tudo o que me ensinou a mim. A que me responderia torto todos os dias que lho levasse com a t-shirt por passar. Que o aprumo é coisa de muita importância.

Quando o Ricardo nasceu percebi que lhe queria dar o que eu não tinha tido. Não os bonecos, os jogos e as roupas caras. O carinho que nem sempre tive. A atenção que nem sempre esteve disponível. Os avós que fazem parte da família.

Hoje fica com os avós paternos. Tem mimos demais e ainda bem. Tem as vontades feitas e dois guardas a cada segundo.

Tem a avó que lhe arranja os calções e o avô que ainda ontem dormiu mal não fosse os "irresponsáveis" dos pais cortarem demais os caracóis aos menino.

Tem o avô que faz birra quando não lá vai pelo menos uma hora ao fim de semana. Que isto de passar 48 horas sem ver o neto não é coisa que se faça. Um homem que passou a vida a trabalhar para que nada faltasse ao filho. Só faltou ele muitas vezes. Porque não se pode estar em todo o lado.

Hoje vejo-o a viver no neto tudo de uma vez. O filho e o neto. Por isso, a não ser que seja para o obrigar a fazer o que não quer "porque o mêneto comigo não chora" é ele que faz tudo. Dá papa, adormece e troca fraldas.

Depois há o Augustinho. Homem de poucas responsabilidades, mas aquele cromo que faz tanta em qualquer família. Aquele avô que dá as batatas fritas às escondidas dos pais e depois põe as culpas no miúdo ou diz que não sabe como aquilo aconteceu.

Podia ter posto um post ontem sobre os avôs. Mas o dia dos avós é todos os dias. Quando faz frio ou faz sol.

É sempre que queiramos, que saibamos pôr as nossas diferenças de parte, que compreendamos que podemos não ver as coisas da mesma forma, mas que há sempre algo de muito especial num amor velhote de avós. Aquele que nunca se esquece, aquele que alimenta as nossas memórias de Natal, aquele que saboreamos nas filhoses de abobora, feitas à mão e que um dia não voltarão a existir.

Vivam os avós e tudo o que foram para nós. Que são para os nossos filhos. Às vezes basta deixarmos.

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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