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Em busca da felicidade

Pasteis de belém com canela e açúcar em pó

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Os sábados tornaram-se nos nossos dias de família, não há trabalho, nem efectivo nem falado, não há afazeres, nem laborais nem domésticos, há apenas família. Umas vezes incluída uma ida às Bifanas com o Augustinho, que também tem saudades do neto, afinal de contas só o vê de 15 em 15 dias, acho que é por isso que lhe está sempre a dizer é o avô, filho!, como quem tenta imprimir-lhe na memoria a sua existência. Sempre um cromo, sempre tonto, mas nunca com má intenção.

Os sábados começam invariavelmente com o levantar cedo para ir à piscina, umas vezes com a mãe outras com o pai, um fica cá fora a ver, a aplaudir, a desejar estar na água com os outros dois, o outro está com o pequeno, vangloriando o que faz, o que ainda não consegue fazer e garantindo que o que fica menos bem feito é porque não quer fazer, não é porque não sabe.

Depois fazem-se as compras da semana, sempre no mesmo hipermercado, aquele que descobrimos mais fácil e que menos tempo ocupa do nosso descanso.

Quando regressamos a casa vem sempre no saco um pacotinho com 2 pasteis de nata, normalmente o campeão dorme a sua sesta quando chegamos, está cansado da brincadeira, e vai recuperar energias. Os pais aproveitam o momento só os dois, recostam-se nas cadeiras da cozinha e comem um pastelinho de nata acompanhado com um café. Um pastelinho de nata com canela e açúcar em pó. Como nos meus tempos de infância.

A primeira dentada faz-me recuar no tempo, volto a ser ainda mais pequenina, de totós, cada um preso com os elásticos cor-de-rosa que tinham caranguejos em formato de rebuçado. O meu vestido com bolinhas cor de rosa ou o das risquinhas vermelhas feito com o tecido que tinha sobrado do trabalho para uma cliente, sempre que ficavam satisfeitas diziam “ai D. Zé não quero o resto do tecido, faça uma coisinha para a menina” e a minha mãe fazia. Chamava-me “gostas deste?”, eu acenava que sim, “queres fazer um vestido à pressão?” e eu que sim outra vez. Um vestido à pressão era aquele que numa tarde com menos trabalho se encaixava meia hora lúdica agarrada à máquina para fazer um vestido com folhos para a filha, que pouco tinha de princesa com o seu cabelo de carapinha, a sua pele escura e as canelas sempre marcadas pelas quedas. A princesa que se arranjou. Para o passeio o vestido era sempre acompanhado pela peúga de renda e o sapato de fivela. Composto todo o modelo como as meninas que apareciam nas revistas. Se me visse hoje de leggings gastos, camisola com borboto e botas de fivelas ia ficar desolada.Uma maria-rapaz meu deus!

As tardes de verão em que íamos passear aos jardins de Belém. Eu encantada com o tamanho daquele jardim, ao pé de casa não tinha nada assim. Para mim era imenso. Quando passados vários anos, já em adulta, voltei a passear nos jardins de Belém senti alguma decepção, procurava os jardins imensos que tinha na minha mente e o que havia eram jardins, bonitos sim, mas não como os da Alice no País das Maravilhas.

Nunca fui grande amiga de pasteis de nata, gostava só dos pasteis de Belém, havia qualquer coisa de especial naquele complemento da canela de depois o açúcar em pó, sempre nesta ordem.

Saíamos de casa sempre depois da hora de almoço, a minha mãe arranjada, sempre de fato, muito senhora, os seus sapatos de salto, os que mais gostava eram de verniz. O meu pai sempre de preto, parecia um cigano com Ray-Ban estilo aviador, o único que ainda hoje usa. Não usava preto por gosto, usava preto por luto, que um irmão mais velho não deve perder o mais novo assim sem mais nem menos, a mãe fazia luto, nenhuma mãe deve perder um filho, e ele fazia luto para acompanhar a mãe, mostrar-lhe o que nunca lhe sabia dizer em palavras, que estava e estaria lá para ela até ao seu ultimo suspiro.

Chegávamos e andávamos pelos jardins, tirávamos fotografias, daquelas que tínhamos de ficar muito quietinhos e com o sorriso aterrachado na cara até alguém dizer “Já está”, não havia digitais e não se sabia como iam ficar, depois mandar revelar para alguém estar de olhos revirados ou a olhar para o lado era deitar fora dinheiro que não havia, não se colavam fotografias tontas em álbuns para mostrar aos amigos, não se compravam molduras para as expor em casa. Não se fazia aquilo que faço hoje na minha casa, quando escolho as fotografias mais parvas para ter nas molduras, não as que nos mostram mais polidos, as que nos mostram como somos na nossa essência.

Tenho saudades desses tempos, tenho saudades dos nossos passeios a Belém, dos meus vestidos feitos à pressão. Vou a Belém e procuro os jardins onde passeávamos, procuro os jardins onde ficou a minha infância, os jardins onde dei gargalhadas, levei ralhetes e tentei apanhar flores. Os jardins dos nossos pasteis de Belém com canela e açúcar em pó.

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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