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Em busca da felicidade

Pendurei os cortinados

Detesto a lida da casa. Gostava muito de ser uma daquelas fadas do lar que têm sempre tudo a brilhar e que não conseguem dormir em pleno descanso sem que a casa cheire a lavanda por cada esquina. Eu desejava que tudo aparecesse feito com um estalar de dedos e, na impossibilidade de o fazer dessa forma mágica, obrigo-me ao indispensável para viver numa casa higienizada. 

Por isto, pela falta de tempo e muito porque desde que tivemos um filho e mantivemos empregos a tempo inteiro, nos tem sido completamente impossível fazer limpezas a fundo, decidimos contratar uma empresa para vir fazer limpeza à casa toda. Veio cá um senhor a casa, viu as assoalhadas, tirou notas e depois explicou-nos como tudo funcionava. Quando o tipo acabou de falar eu fiquei a pensar que alguém da NASA cá vinha a casa esfregar os azulejos e que me iam pedir um ordenado e um rim em troca. Afinal de contas não iam usar aspirador, não iam usam esfregona e panos apenas tecidos de microfibras de uma natureza tal que da entrada do quarto conseguiam atrair as impurezas dos caixilhos das janelas.

Os preços pareceram-me bons demais para tanta coisa de qualidade, mas tinha de ter a casa limpa e isso era o que interessava.

No dia da limpeza aparecerem duas mocinhas simpáticas (obviamente pagas miserávelmente à hora), havia um aspirador velho, um balde, uma esfregona e uma quantidade elevada de panos da loja dos chineses.

O pior que podia acontecer era limparem o interior da casa de tal forma que nem os eletrodomésticos ficavam. O melhor era a casa até ficar limpinha ao final do dia.

Foi o que aconteceu (a segunda hipótese quero dizer). E sim, nos dias seguintes conseguiamos sentir o cheiro da casa lavadinha.

Para agilizar o processo de limpeza tirámos todos os cortinados da casa e eu fui lava-los numa daquelas lavandarias self service que há agora. Até parecem cogumelos, num raio de 1 km da minha casa há pelo menos 4.

Casa limpa, cortinados lavados e secos, faltava passar e pendurar.

Pois faltava. E ficou a faltar durante mais ou menos um mês.

Hoje foi o dia, chego a casa, monto a tábua de passar, saco do ferro e atraco-me aos cortinados. Ligo a televisão na VH1 (já não tenho idade para a MTV, eu agora é mais clássicos e guess the year) e vou curtindo uma música enquanto danço ao sabor do ferro e deixo um braço mais trabalhado que outro. Quem não me conhece ainda julga que sou tenista, reformada mas tenista.

Nisto começou a tocar o "Always" dos Bon Jovi. Já não sei há quantos anos não via o video clip daquela porra. Tinha uma prima que era fã e ouvia aquilo a torto e a direito. Ela tinha as musicas gravadas numa cassete, para ocupar o resto de uma fita de um filme e tinha gravado do TOP +. A trabalheira que dava para gravar só as músicas que se queria sem publicidade nem as falas dos apresentadores. 

Começo a cantar, a acompanhar o videoclip e começo, pela primeira vez na vida, a esmiuçar verdadeiramente a essência daquela história. Há duas moças bem jeitosas, se tivesse de dizer que queria ser como uma delas, nem sabia bem qual escolher, e depois há um moço que, coitadinho, deixa tanto a desejar mas que as papa as duas. Eu, hoje com 34 anos, sem entender como é que o moço fez aquilo. Nisto a rapariga mais engraçada, que era a namorada dá com ele embrulhado com outra e vai de se meter nos copos com um tipo que me faz lembrar bastante o fantasma da opera, mas em chunga. À semelhança com o namorado tem o penteado tonichas e a falta de beleza. Andam contudo, muito provavelmente no mesmo ginásio. A moça bebe demais, embriaga-se, deixa-se papar pelo fantasma da opera, que afinal é pintor e faz um quadro lindo, lindo da moça enquanto ela dorme como uma sereia, magnificamente embrulhada num lençol de cetim. O namorado papão dá com aquilo e deita fogo ao atelier do fantasma da opera. A música acaba e uma pessoa pensa como é que em 4 minutos se pode dar tanto drama.

Nisto entra-me o miúdo pela sala adentro e grita "Macha!". Já sei que tenho de mudar de canal e ponho no Panda.

 

Ao final da noite foi momento de pendurar as cortinados, até pareciam novos, tal não era o tempo em que as paredes passaram sem tecidos.

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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