Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Em busca da felicidade

Pensava que estávamos no Sec. XXI, afinal isto ainda anda à moda de 1800

800.jpg

 

- Viste a Adélia ontem?

- Que é que tem?

- Aí mulher, não deste conta?! Trazia um olho negro.

- A sério?! Não me digas que ele lhe chegou a roupa ao pelo outra vez.

- Só pode. Ela diz que é distração, que são quedas, mas eu cá não sou otária e uma lambada assente fica bem assinada.

- Coitada pá!

- Coitada a porra, quem manda!?

- Como assim, que sabes tu?

- Aí mulher sei lá o que sei. Sei o que vejo, aquelas roupas que não são de mulher que se preze. Os sorrisos para o Manel da mercearia. As conversas longas com o Tony na porta do prédio. Ali, toda lânguida. Eu, ao meu marido já lhe disse que o quero longe dela. Que toda a gente acha que dorme aqui e ali.

- A sério? Nunca tinha ouvido tal coisa.

- Pois. Diz que sim. Sempre toda armada em fina e depois é o que se vê. O homem fica com cara de corno e arreia-lhe na cara. Vamos a ver e até já apanhou algum lá na cama. Coitado é dele. Que um homem tem honra e deve ser respeitado.

- Lá nisso tens tu razão.

- Se fosse eu andava ela bem tapada e fechada em casa. Cá agora poucas vergonhas.

 

Esta conversa teria um lugar comum em qualquer bairro português nos anos de 1940/1950 e seus próximos. Duas mulheres foram à bica e, do alto do seu comando beato, sentenciam sore a vida alheia, decidindo entre o café e o pastel de nata o que corre bem ou mal na vida alheia. Apelidando as outras de vadias e fáceis. Umas porque fazem o que a vontade lhes pede mas o mede reprime. Outras porque a invejz tolda a vista e desfoca o pensamento.

Os homens eram a cabeça da casa, à mulher cabia a lida da mesma, os filhos, a falta de escolaridade, o respeito ao marido e a capacidade de, de quando em vez, porque o arroz estava demasiado cozido, levar porrada. Ou porque o dia de trabalho tinha corrido mal, ou porque o vizinho olhou para ela ao subir as escadas. Como se a sua própria existência justificasse uma punição. Porque a raiva latente e frustrada de um homem lhe permitia espancar a mulher. Toda a gente achava normal. Fazia parte.

Se a mulher em causa não fizesse parte do grupo das beatas de serviço era-lhe ainda sentenciado um “bem feita”, porque mulher de bem anda tapada, mal enjorcada e enfiada em casa.

Tive uma tia que foi alvo de violência doméstica. Faleceu no ano que eu nasci. Era analfabeta. Viva do campo e apanhava todos os dias, mesmo doente, mesmo grávida. Apanhava como se levar porrada fosse o desporto favorito do marido. Nunca o deixou. A família sempre soube, mas ninguém fez nada, porque “entre marido e mulher ninguém mete a colher”. A minha tia adoeceu, passou por todos os tratamentos acompanhados por porrada diária, preparou a vida dos filhos, soube que lhe faltava pouco tempo de vida. Apanhou mesmo assim. Faleceu. Não conheceu o amor de um homem que lhe prometeu cuidados, teve filhos desse homem e apanhou em todas as gravidezes. Nunca soube o que era amor sem mau trato.

A minha tia era uma mulher linda. A mais bela das 4 irmãs. A que mais sofreu.

 

Esta semana passava pelo Facebook e dei com um post das Capazes, não tinha conhecimento do caso, porque tenho andado com a cabeça fora das noticias. Ao que li (que não foi tudo) um tribunal ilibou/reduziu sentença de um marido que espancou a mulher, porque esta tinha tido uma conduta incorreta: traiu-o. Logo, foi conferido ao marido o direito – para limpar a sua honra – de bater na mulher.

Lê-se no acórdão (informação retirada do post que li) que em outras culturas essa conduta é até condenada à morte. Como se chamassem a atenção da vitima para sorte que teve, porque calha a viver nessas terras e levava pedradas até lhe extraírem do corpo o mal e a vida.

No mesmo acórdão falam em realidades de 1800, o que faz todo o sentido. Para mim faz, claro! Porque a realidade de 1800 deve de facto marcar a nossa vida. Eu diria até que podemos andar um pouco mais pela história, voltar ao tempo da inquisição e avaliar a vida dos juízes que foram responsáveis por esta aberração. Caso se encontre algum motivo de suspeita e em caso de duvida, mandamo-los para a fogueira. Depois ninguém se pode queixar, afinal de contas em mil e troca o passo fazia-se assim. Porque raio se havia de fazer hoje de forma diferente.

 

Esta não é a primeira vez que as mulheres são desconsideradas em situações extremas. E esta realidade começa a tornar-se preocupante, verdadeiramente preocupante. Parece que, de facto o país está entregue a uma gestão calamitosa que segue como um barco de cruzeiro, alheia aos danos que causa. À preocupante realidade cultural a que vamos assistindo.

 

Ele é vitimas de violência doméstica que apanharam porque mereciam. É a Joana Amaral Dias que quer espaços no metro só para mulheres como se, no lugar de lutarmos por respeito e direitos, fosse melhor escondermo-nos dos lobos maus porque somos delicadas flores que têm de ser tratadas como animais diferentes.

 

Podia estar aqui a escrever eternamente sobre este tema, mas já tanta coisa foi dita. Tanta coisa correta e acertada que não vale de nada repetir. Vale expressar o meu repudio, a minha solidariedade para com a vitima (que se torna vitima múltiplas vezes) e preocupar-me com o rumo que este mundo está a seguir. Preocupamo-nos tanto com os temas “grandes”, com os Trumps e as Coreias do Norte e não vemos que as maleitas pequenas nos corroem enquanto sociedade.

 

------ Gostar da Página ------

----ATENÇÃO!----

Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

--------Instagram--------

------Blogs de Portugal------

----- Seguir no Bloglovin -----

Follow

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

------- Mais sobre mim -------

foto do autor

------------ Arquivo ------------

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D