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Em busca da felicidade

Saga: os meus bons professores #1

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Como havia prometido neste post demoníaco, cá estou eu para falar de bons professores. É verdade, apesar das abéculas que me calharam em algumas disciplinas (e cadeiras) ao longo de mais de década e meia de estudos, tenho muitas coisas boas a contar.

Vou assim começar esta saga pelo principio, ao contrário do que - segundo entendo - acontece com a Guerra das Estrelas.

 

Para grande surpresa da minha mãe, eu adorei a escola. Ainda hoje, se tal me fosse permitido eu adoraria continuar a estudar, quem sabe uma vida académica. Gosto de me sentar naquelas cadeiras. Gosto dos livros, de ouvir ensinar quem sabe o que eu não sei. E é aqui que se dá a magia, ou o total desgosto.

Ser professor, para quem o faz com gosto e paixão, pode fazer com que se transforme numa das mais importantes profissões, logo a seguir aos médicos, enfermeiros e bombeiros.

Uns salvam-nos a vida, o corpo e estes, por aquilo que nos ensinam, podem salvar-nos a alma.

Para muitas crianças, adolescentes, jovens adultos cujos casas são tudo menos lares, onde impera  a desordem e a falta de amor; para estes é muitas vezes na escola, na pessoa de um ou dois professores, que encontram a força, a motivação, o caminho para fazer muito mais com as suas vidas do que cingir-se a espelhar o que têm em casa.

Tenho uma profunda admiração por professores, mas apenas por aqueles que são, de facto, professores. Aqueles que profanam esta tão digna profissão tenho pena e vergonha.

 

No meu percurso escolar tive: péssimos professores , falei deles aqui; professores maus, malta que até gostava de fazer aquilo, mas pá, não levavam jeito, mais ou menos como quem se candidata ao Ídolos e assassina as músicas (não é por mal, mas não dá); professores normais, que executavam bem a sua função, ensinavam corretamente, mas não marcavam ninguém; e tive professores que foram muito mais que professores, ensinaram-me o que precisava de aprender e ensinaram-me a ver a vida de várias formas.

 

É sobre estes professores maravilhosos que quero falar. Um post que requer mais tempo e dedicação do que o anterior, afinal de contas estes merecem tudo e mais um bocadinho.

 

Primária – «Não me chames de «Senhora professora», o teu nome é Cátia, vou chamar-te por Cátia, o meu é Maria Helena, gostava que me chamasses assim: Maria Helena.»

 

Esta foi a primeira frase que trocámos. Espantou-me, deixou-me levemente indignada porque eu tinha praticado para fazer como a menina da Casa na Pradaria e ofendeu-me ligeiramente que me fosse chamar de Cátia, esse nome tão pimba. Depois lembrei-me que a culpa não era dela e redirecionei novamente a minha frustração para o meu irmão que, numa bela tarde se lembrou de pedir para eu ter este nome. Na altura, e sendo já a quarta na fila, estava lá a minha mãe para se chatear com o nome. «Pode ser isso! Menos uma coisa em que pensar!»

Os meus irmãos tinham todos estudado numa escola como a que eu via nos desenhos animados; uma casinha branca com telhas amarelas, janelas em torno, um recreio em terra batida. Eu fui estudar para a escola nova, mais cómoda para a minha mãe, ficava do outro lado da estrada. Menos encantada para mim, afinal de contas era no rés-de-chão de um prédio.

Lá se ia a Casa na Pradaria outra vez.

Sempre que ia entregar um filho à escola a minha mãe punha a melhor roupa, pegava no filho pela mão, pedia para falar com a professora e explicava que quem educava os seus filhos era ela, mais ninguém. Por isso não admitia que mais alguém lhes tocasse, caso houvesse molho devia ser avisada do mau comportamento. Ela encarregava-se da disciplina. À professora cabia o ensino. Educação e Ensino eram coisas diferentes, aos pais cabia o primeiro, à escolha e respetivos professores o segundo.

A minha mãe era uma senhora com pelo na venta. Composta, bem posta e que impunha respeito. Não aceitava desaforos e não se ensaiaria nada em, do alto do seu tailleur azul, igual ao da princesa Diana, arrear uma murraça nas trombas de alguém se se atrevesse a bater-lhe nos filhos.

Os meus irmãos todos detestaram a escola. Todos choraram para ir para a escola. Todos viram colegas a levar reguadas nas mãos. A eles não lhes tocou nada.

Os meus irmãos eram seres vivos sociáveis.

Eu sempre fui um animal arisco, parecia ter sido criada no meio do mato, entre bichos e palmeiras.

No meu primeiro dia de aulas a minha mãe vestiu - como seria de esperar - o seu tailleur azul, pegou-me pela mão e atravessou a estrada. Pediu para falar com a professora, explicou-lhe que eu era um pouco diferente. Não que fosse deficiente, mas era meio bicho do mato e era provável que fosse chorar assim que ela virasse costas. Deu o mesmo chá de sempre: «se alguém bate nos meus filhos, sou eu!»

A Maria Helena tranquilizou-a. Explicou que não havia nada de bater em crianças naquela sala de aula. Que na escola só uma professora mantinha esse «método», mas que estavam a tentar mudar. Que as crianças não aprendiam com pancada, aprendiam com amor.

A minha mãe achou aquilo lindo, ainda assim, cética, ficou à porta. Esperou pelo recreio.

Estava tudo bem.

Continuou a esperar.

Eu saí com um sorriso que ela não tinha visto muitas vezes antes. Eu; a minha trunfa de caracóis escovados que ia até ao rabo e que, segundo uma colega, ela fofa como a lã de uma ovelha (na altura achei que era um elogio); a minha mochila maior que eu; os meus totós; as minhas meias com folhos e os meus sapatos de verniz com fivela.

Tinha adorado a escola e a minha mãe caminhou em transe até casa. Passou o dia abismada: «será que o animalzinho da família havia de se tornar num ser instruído, coabreca!?!»

Foi com a Maria Helena que aprendi a escrever, a ler, a ter paciência com os colegas. A tocar flauta. Foi com ela que acreditei que podia aprender. Deu-me apoio quando a minha mãe ficou doente, permitindo-me continuar a aprender apesar das faltas pelas tardes passadas no hospital, a acompanhar exames, tratamentos, o diabo a quatro.

De acordo com a Maria Helena eu era «uma menina muito inteligente» e as faltas não afetavam a minha aprendizagem.

Quando a escola primária acabou lembro-me que fui ter com ela para lhe deixar uma fotografia minha. Queria que se lembrasse de mim. Na altura não sabia ainda expressar isso. Tinha sido meio civilizada, mas no fundo ainda vivia o animalzinho que tinha cruzado a porta no primeiro dia.

Um animalzinho, apesar dos totós, das meias com folhos e do cabelo de lã.

 

Nos anos que se seguiram encontrei-a várias vezes, conversávamos à porta da escola. Perguntava pela minha mãe. Perguntava-me por namorados e aconselhava-me a ter calma, a esperar pela pessoa certa, a concentrar-me nos estudos em vez de me entregar a namoricos e a esquecer a escola para fazer uma vida de bairro. Mesmo não sendo já minha professora impulsionava-me sempre para tentar ser mais. Para estudar, para me instruir. Lembrava-me que as coisas más podem passar e a vida pode ser melhor. Nunca se sabe. Depois reformou-se. Nunca mais soube nada dela.

Mas gostava, gostava muito. Gostava de a voltar a encontrar, de saber como foi a vida sem criançada à volta. De lhe contar que os seus conselhos se mantém comigo. Gostava de lhe dizer que a menina de meias aos folhos e totós de carangueijo, a mesma que era um bicho do mato; essa continuou a estudar, formou-se, tem o canudo mas ainda não o foi buscar, encontrou a pessoa especial de que ela falava, arranjou um emprego em condições, mesmo atrás de uma secretária. Continua a esforçar-se todos os dias por ser melhor.

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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