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Em busca da felicidade

Sweet September

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O calor de Agosto chegava ao fim. Os dias de praia ficavam para trás. O corpo já estava satisfeito de banhos de mar e sandes de fiambre com manteiga, daquelas que têm sempre um sabor diferente quando saímos do mar. Já tinha dito?

Naquele tempo o verão era longo. Os trabalhos de casa não se arrastavam com cadernos, fichas e livros. As férias eram férias, passadas em casa, com tardes de brincadeiras lentas, onde não havia a pressa de brincar com todos os brinquedos; havia a imaginação para fazer mil histórias com duas bonecas e três vestidos. Usávamos a imaginação sem limites.

Havia as tardes em que pintava, desenhava e os ponteiros do relógio não acusavam as horas. A mãe havia de chamar para jantar.

Na rua não havia crianças da minha idade, já nasci «fora de horas», diria a minha mãe; os mais velhos já eram adolescentes e esses pouco queriam saber de jogar à apanhada, saltar ao elástico ou de brincar com bonecas.

Cresci muito metida em casa, eu com a minha companhia. Eu com a minha companhia e a minha imaginação. Talvez por isso hoje a minha cabeça não pare; afinal de contas não sabe fazer outra coisa.

Setembro trazia algo de especial. Quando Setembro chegava comprávamos os livros da escola. Coisas novas para aprender, imagens, desenhos, textos, exercícios. Livros. Íamos comprar o material escolar, os cadernos, os estojos, as canetas. Um mundo tão mais pequeno que o que existe hoje. Talvez por isso ainda mais encantado.

Não mudou em mim esse encanto. Ainda hoje me perco nas alas de material escolar. Adoro. Cheiram-me aos meus meses de Setembro. Aqueles em que eu ansiava pela escola. Pelas histórias dos amigos que tinham terra. Sabem o que é ter terra? Ter terra é «ir passar férias à terra».

- Onde vais de férias?

- Eu vou para a terra.

Que inveja que eu tinha dos colegas que tinham terra. Achava que eu era uma desterrada, nascida e criada três prédios abaixo da escola. Para mim ter terra era ir de férias para longe, onde só havia campo e estava uma avózinha ao pé de um fogão a fazer bolachas e chocolate quente. A descascar fruta fresca. A fazer limonadas. A deixar-nos correr à vontade porque os avós são sempre mais permissivos. Sabem por experiência que tudo pode acabar bem, que a vida é curta, que um dia aquele brilho de criança vai dar lugar a uma luz mais baça, toldada pela vida, moldada pelos afazeres que carregam a alma e nos tornam mais tristes, incapazes de ver as coisas pelo que podem ser, forçados a reconhece-las apenas pelo que são.

Setembro era tempo de deixar os dias lentos em que inventava o que fazer, para ter o que fazer, para encontrar os amigos, dar abraços, contar histórias, ouvir as deles, sempre tão mais interessantes que as minhas.

Quando era miúda lembro-me que a meio de Agosto desejava por Setembro. Como se Setembro tivesse uma qualquer aura divina onde se escondiam todas as coisas boas. Hoje percebo que era assim porque tinha tempo, tinha tempo para achar que havia tempo a mais. Para descansar da escola e sentir falta dela. Fazem-me falta esses tempos. Gostava tanto que o meu filho conhecesse essa vida mais lenta e saborosa.

Cresci e o encanto com o mês de Setembro acompanhou-me sempre. Enquanto puder é em Setembro que tiro férias. Hoje, com 34 anos continuo a ansiar pelo mês de Setembro, não para que as férias acabem, mas para que comecem.

 

Welcome September, I've been waiting for you!

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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