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Em busca da felicidade

Um político, um banqueiro e um cigano vão meter papeis à Segurança Social

O gabinete da Segurança Social tinha aberto portas como num qualquer dia normal. Já havia uma fila de pessoas à porta que lá estavam desde as 7:30 da manhã, mães com filhos ao colo, casais que acabaram de ser pais, velhotes que já tinham estado no dia anterior na CGD e este era o dia de ir visitar a senhora da SS para saber de estava tudo OK com a reforma.

Às 10:15 já não havia senhas e, a ultima pessoa branca de olhos azuis residente no Bairro Social C, já se tinha ido embora a reclamar que era sempre a mesma merda na SS porque as senhas acabavam cedo. Estava desempregada há 3 dias e precisava meter os papeis. Tinha trabalhado numa empresa de limpezas pelo ordenado mínimo. Essa faliu e foi para uma empresa de catering, também a ganhar o ordenado mínimo. Depois de dois dias doente com uma apendicite, despacharam-na ao fim do primeiro contrato. Depois foi para uma empresa de trabalho temporário, uns dias estava no café do Colombo, outros estava a recolher tabuleiros e ainda havia dias em que fazia limpezas nas casas de banho porcas do aeroporto da Portela. Também aqui ganhava o ordenado mínimo.

À saída cruzou-se com um cigano.

“Já não há senhas!” disse-lhe.

“Não há senhas! ÁÁÁÁÁiiiiii, filhas da puta que gastaram as senhas todas! Vão já encontrar senhas senão vou partir esta merda toda!”

“Veja lá o que é que consegue! Bom dia!”

“Bom dia. Obrigada menina!”

O cigano sobe as escadas e constata que não há mesmo senhas. Trinta a cinto “Aís” depois aparece a mulher, a irmã, a mãe, o cunhado e os 9 filhos do casal. Iam pôr os papeis para o subsidio do ultimo.

Levanta-se um arraial completo de gritaria “vou-te matar a mãe! Áiiiiii, dá-me uma sénha!!! Deves tê-las guardadas!!!!”

Instala-se a confusão e os seguranças acorrem para ajudar. A PSP pôe-se a caminho, mas como apanha um acidente no alto de Monsanto não consegue chegar tão depressa quanto queria.

A gritaria mantém-se, os velhotes assistem a tudo contentes porque está a ser mais divertido que as manhãs da Júlia e, à tarde, quando forem ao supermercado já vão ter de que se queixar.

Nisto chega um político. Vai direito à maquineta das senhas, a pressa era tal que nem se deu conta da confusão que para lá ia.

- Não. Há. Senhas.

Diz para a senhora que estava encostada à máquina porque já não havia cadeiras disponíveis para se sentar.

- Pois não! Há horas que não há senhas!

- Mas. Porquê?

- Devem ter sido os cabrões dos ciganos! São sempre os ciganos! Chegam aqui e tiram as senhas todas!

O político olha para a família de ciganos e decide que talvez seja melhor mandar chamar o gerente da espelunca. Isto falar com pessoas de baixo nunca tinha resolvido nada e não ia ser agora. Dirige-se então ao balcão de informações.

- Bom dia. Preciso. Que. Me. Mande. Chamar. O. Gerente. Deste. Belo. Espaço. Que. Não. É. De. maneira. Tão. Lindo. Quanto. O. Freeport. Mas. Que. Não. Está. Mal.

- Não há gerente Engenheiro…quer dizer senhor…melhor…ãhhhh…ó pá isto não tem gerente, tem chefe de serviço. Só se quiseres falar com esse. Mas ele agora está um bocado embrulhado ali com os ciganos.

- Veja. Lá. Homem. Tenho. O. Carlos. À. Minha. Espera. Para. Irmos. Para. Paris. Ver. As. Obras. Na. Casa. Dele!

- O chefe de serviço é aquele que o cigano está a segurar pelos colarinhos. Olhe, fale com o cigano!

O político vai ter com o cigano. Pede-lhe que liberte o chefe de serviço porque precisa mesmo de falar com ele. O cigano resiste a largar o chefe de serviço, mas depois reconhece a pessoa que o estava a abordar.

- Você é o ... !

- Sou. Sim. Senhor!

O cigano espeta um banano no chefe de serviço e deixa-o arrumado a um canto. Limpa as mãos às calças e estende a mão direita ao político para lhe dar um aperto de mão.

- Aprecio muito o seu trabalho. Ao pé de si nem me sinto cigano.

O político fica a olhar incrédulo para o chefe de serviço. Agora como é que ia arranjar senha? Lembrou-se rapidamente de que a tipa ao pé da máquina das senhas lhe tinha dito que quem tinha as senhas todas eram os ciganos e, já que o chefe da família gostava tanto dele, ia certamente conseguir que lhe arranjasse uma.

- Fico. Contente. Que. Goste. Muito. Do. Meu. Trabalho. Esforço-me. Pela. Comunidade. Olhe. Já. Que. Gosta. Tanto. Do. Meu. Trabalho. Acha. Que. Podia. Dar-me. Uma. Senha. Em. Troca. De. Um. Livro. Meu. Autografado. Esteve. No. Top. De. Vendas!

O cigano explicou ao político que estava a conversar com o chefe de serviço mesmo por causa disso, não havia já senhas quando tinha chegado. Mas gostava da ideia de ter um livro autografado. Mas já agora que estava na companhia do Engenheiro queria aproveitar para saber se ainda corria.

- Corro. Sim. Senhor. Porquê?

O cigano tinha cinco caixas de t-shirts da ARDIDAS na carrinha. Precisava despacha-las mas os clientes na feira andavam a ficar esquisitos. O político estava com pressa, mas como tinha medo que aquele fã se chateasse e lhe acabasse por aplicar uma xinada aceitou ir à carrinha ver o material.

- Isto. É. De. Muita. Qualidade. Mas. Está. Mal. Escrito. Você. Não. Arranja. Isto. Como. Deve. De.ser?

- É contrafeito. Vem sempre assim. Roubado é melhor…

- Não. Diga. Roubado. É. Uma. Palavra. Feia. Que. Lhe. Pode. Dar. Problemas. Diga. Antes. Que. São. Emprestadas. Da. Empresa. De. Um. Amigo. De infância.

O cigano confirmou que estava perante o seu ídolo.

Comprometeram-se a voltar a encontrar-se noutra ocasião para arranjar forma de vender as t-shirts em Paris a turistas chineses que achavam que tudo era arte.

O político e o cigano voltam às finanças e o Político vai ter com a senhora das informações. Não havia chefe de serviço…estava indisponível e também não havia senhas. Nem ele, nem o senhor cigano tinham senhas e ambos precisavam de ser atendidos.

- Só se convencer alguma pessoa a ceder-lhe a sua senha.

O político micou umas velhotas ao canto da sala de espera, eram aquelas, só precisava que duas dispensassem as senhas. Uma para ele e outra para o amigo cigano. Afinal de contas nunca se sabia quando é que o seu recente amigo não lhe dava a tal xinada.

- Boa. Tarde. Minhas. Lindas. Senhoras. Posso. Sentar-me. Ao. Pé. De. Vocês?

As senhoras que sim, desde que o cigano não viesse também. Gostavam muito de toda a gente e até tinham amigas ciganas. Mas agora não lhes apetecia que o cigano se sentasse ali tão perto.

Dois dedos de conversa bem dados e o político lá lhes prometeu um chá na humilde casa de sua mãe, ali para os lados do Marquês. Nesse chá falariam melhor dos cursos de engenharia dos netos de ambas as senhoras. Conseguia puxar uns cordelinhos, desde que eles não se importassem de fazer as provas finais num domingo. Entretanto e em troca das senhas deixava um livro autografado a cada uma. Tinha muitos lá em casa, afinal de contas o amigo Carlos tinha gostado tanto que lhe tinha comprado vários exemplares, quis ler o livro várias vezes mas não queria repetir as folhas.

As velhotas foram à sua vida e o político orientou a senha ao cigano.

Enquanto esperavam e debatiam o negócio das t-shirts aparece um senhor bem penteado acompanhado de três tipos vestidos de preto. Quase pareciam ex-Mossad. O senhor comportava-se como se fosse dono daquilo tudo e estava manifestamente indignado por não haver senhas.

- Só se quiser que o chefe de serviço volte a si e depois fala com ele.

- Acha que falo com chefes de serviço?

Indignou-se o homem. Mandou chamar uma administrativa que trazia sempre consigo para as tarefas mais aborrecidas.

- Ó Margarida, meta-me aí o José Afonso em linha.

A administrativa tinha o numero direto para o ministro e colocou-o em contacto com o senhor banqueiro num ápice.

- Isto é inadmissível, pá! Tenho de despachar os papeis para o RSI hoje. Arranja-te!

E arranjou-se.

Passada meia hora todos os funcionários foram chamados pelo chefe de serviço que, fazia poucos minutos, tinha sido acordado do seu desmaio para falar com o Gabinete principal do Ministério. Era para fechar portas e atender o senhor banqueiro.

Uma das funcionárias indignou-se, queixava-se que o cigano lhe tinha oferecido pancada se não fosse atendido.

- Duas lambadas passam-te daqui a dois dias. Se fores para a rua é pior!

A funcionária explicou que enquanto funcionária publica não podia ser despedida, por isso aquilo era conversa de merda. O chefe de serviço explicou-lhe que podia ser transferida para a Cova da Moura. A funcionária calou-se e aceitou que podia correr o risco de levar dois estalos.

Faltavam dois números para a vez do político (que conseguiu convencer o cigano a ficar com o numero depois do dele em troca de mais dois livros autografados) quando o chefe de serviço avisou que iam fechar portas por causa de um imprevisto. Retomariam atividade no dia seguinte à mesma hora e pediam desculpa pelo inconveniente.

O cigano ainda tentou pregar-lhe mais um banano, mas os amigos da Mossad eram mais engenhosos que o cigano e mostraram-lhe a saída.

 

No dia seguinte o político e o cigano conseguiram meter os papeis.

 

 

(a história relatada é puramente ficcional não tendo por intenção ofender nada nem ninguém)

 

Eu por outras bandas # 2

Há uns meses atrás a Carolina do blog Gesto, Olhar e Sorriso convidou-me para participar numa rubrica que se chama "Completas-me". Nesta rubrica o autor do blog convidado escreve o principio de uma história que deve ser completada pela Carolina.

Aceitei de imediato o convite e hoje podem ver o resultado aqui.

Espero que gostem.

Como cancelar a inscrição no ginásio

Atleta+cansado.JPG

 

 

(a Maria dirige-se à receção do seu ginásio)

 

Senhora do ginásio – Boa tarde.

Maria – Boa tarde. Olhe eu pretendia cancelar a minha inscrição no ginásio. Já passou o período de fidelização que era de um ano.

Senhora do ginásio – Pois, compreendo. Deixe-me ver as suas condições.

 

(A Maria aguarda)

 

Senhora do ginásio – O seu contrato renova automaticamente a cada 6 meses, pelo que só pode cancelar daqui a 3.

(sorriso de quem já lixou mais um)

Maria – Pois, mas eu vou trabalhar para longe e não faz sentido manter a inscrição. Creio que isso está previsto nas condições.

Senhora do ginásio – Está sim, senhora. É só trazer uma declaração da empresa e procedemos ao cancelamento.

 

(a Maria pede uma declaração no trabalho e volta para cancelar a inscrição)

 

Senhora do ginásio – Boa tarde.

Maria – Boa tarde. Estive cá há pouco e queria então formalizar o cancelamento da minha inscrição no ginásio.

(a senhora lê com atenção o documento e devolve-o à Maria).

Senhora do ginásio – Peço desculpa mas a informação que aqui consta não é suficiente para cancelarmos a inscrição. Necessitamos de saber a morada completa do seu novo posto de trabalho.

 

(a Maria recebe o documento e volta a pedir à empresa que lhe passe uma declaração, desta vez com a morada da empresa. Volta ao ginásio)

 

Senhora do ginásio – Boa tarde.

Maria – Sou eu outra vez, tenho aqui a declaração com a informação adicional que me pediu.

(pára a ler o documento, vai ao computador e devolve a declaração)

Senhora do ginásio – Está com sorte, não precisa cancelar a inscrição, temos um ginásio a 49 km do seu emprego. Poderá ir lá treinar.

Maria – A 49 km? Isso não me dá jeito nenhum.

Senhora do ginásio – Terá de dar. Porque o seu contrato diz que só pode cancelar a inscrição se for trabalhar para alguma localização onde, num raio de 50 km, não exista nenhum ginásio nosso. E no seu caso tem sorte. Há um a 49 km.

(a tipa do ginásio mascava lentamente uma pastilha e sorria com prazer)

Senhora do ginásio – Assim, ou vai trabalhar para outro sitio, ou então tem algum problema médico que a impeça de treinar.

 

(a Maria vai ao médico, pede uma declaração onde este atesta os seus problemas de coluna e de como devia evitar fazer treinos intensos. Com a declaração médica volta ao ginásio)

 

Senhora do ginásio – Boa tarde.

Maria – Boa tarde. Quero cancelar a minha inscrição no ginásio. Tenho aqui a declaração médica.

(a tipa do ginásio lê o documento com atenção, vai ao computador, volta e devolve a declaração)

Senhora do ginásio – Está com sorte, temos aqui atividades muito boas para o problema de saúde que tem.

Maria – Mas eu não quero fazer atividades mesmo boas. Quero fazer o que o meu médico mandou. E por isso quero cancelar a inscrição no ginásio.

Senhora do ginásio – Compreendo. Mas com o problema de saúde referido não é possível cancelar a inscrição. Está no contrato.

Maria – Como assim?

Senhora do ginásio – Tem: problemas cardíacos, ossos fraturados, doenças cronicas, traumatismo craniano ou alguma forma de psicose?

Maria – Não, tenho problemas de costas.

Senhora do ginásio – lá está…

Maria - Lá está o quê?

Senhora do ginásio – Não está abrangido...

(a Maria já ia a sair e voltou atrás)

Maria – Só mais uma pergunta…psicoses? Não percebi…

Senhora do ginásio – Malta que lhe para a boneca e pesos não corre bem. Se lhes dá para acertar com um haltere em alguém é uma chatice.

 

(a Maria transtornada sai desvairada do ginásio, não olha quando atravessa a estrada e leva uma valente passa de um mata-velhos. Fratura 4 costelas, parte uma perna e leva 10 pontos na cabeça. Quando sai do hospital, ainda de moletas volta ao ginásio com uma nova declaração médica)

 

Senhora do ginásio – Boa tarde.

Maria – Quero cancelar a minha inscrição. Está aqui a declaração médica.

(a tipa lê tranquilamente a declaração, vai ao computador e devolve a declaração)

Senhora do ginásio – Está com sorte. É uma situação temporária, pelo que, caso se resolva até ao período destes 6 meses, pode sempre voltar, se não for assim, pode sempre cancelar 30 dias antes deste período de 6 meses.

(a Maria fica louca da marmita e arreia duas valentes arrochadas com a muleta direita na tipa do ginásio. É retirada à força e escoltada pela policia)

 

(uma semana mais tarde recebe em sua casa uma carta do ginásio)

 

“Face ao sucedido nas nossas instalações, vimos por este meio informar que não é bem vinda em nenhum dos nossos ginásios por tempo indeterminado. Melhores cumprimentos."

 

Uma música - uma história #5

 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

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Pai consegue pôr a mala no carro ou quer ajuda? – Estava distraído mas saí do meu torpor quando ouvi chamarem por mim, Pai. Engraçado como a cabeça se habitua e desabitua aos nomes porque nos chamam. A maior parte do ano não chamam por mim. A vida é complicada, eu sei. Há o trabalho, há os miúdos, há os afazeres da vida e o que faz um velho o dia inteiro em casa?!

Fica melhor assim, pai, com pessoas da sua idade. – Pessoas que eu não conheço e nunca vi. Como se eu tivesse perdido a minha capacidade de pensar, como se estivesse inerte. Pessoas da minha idade, como se fossemos diferentes das outras pessoas só porque somamos mais anos. Como as crianças que são afastadas dos temas dos adultos quando a conversa é, para os adultos que a têm, demasiado complexa. Em crianças não sabemos que chegue para fazer parte, quando envelhecemos perdemos a capacidade de achar. Somos velhos e as nossas ideias são velhas. Fraldas, rabos por limpar, arrastadeiras e dentes na mesa-de-cabeceira. É assim que se veem os velhos. Já não são úteis à sociedade, nem à família, nem a ninguém.

Eu e a minha Amélia tínhamos planeado passar a velhice juntos. Uma casa perto da dos filhos, ajudar a cuidar dos netos. Ver os netos crescer e mimar o que não mimamos os filhos. A Marta conseguiu emprego longe e quis ir viver perto dos pais do marido. O Paulo ainda ficou aqui por perto, mas nunca se quis casar, gosta muito de ter a vida dele. Não quer compromissos, pelo menos é o que ele diz. Foi o que me disse há dias atrás quando me cumprimentou na noite de natal. Nem sei se me conhecia bem. Então pai como está? – Estou bem obrigada e tu como tens andad… - e assim ficou pendurada a pergunta, Já estava a ver lá o e-mail dele. Não quis incomodar. Devem ser coisas importantes do trabalho.

Eles pensam que eu não percebo nada mas lá onde estou vamos à internet, tenho conta de facebook e tudo. Mas não lhes mandei pedido de amizade, podem não ter tempo de aceitar, podem achar que me quero meter e não quero. Vem cá jantar pelo natal pai? Tá bem?

Tá, claro que está. Foi a nossa conversa quando a Marta me ligou há dias para me ir buscar. O natal lembra o melhor das pessoas e vão sempre buscar-me para cá passar uns dias. Ver os miúdos, trocar umas prendas, contar peripécias. Eu sento-me sempre na mesma cadeira e ouço. O pai do meu genro tem sempre histórias mirabolantes para contar. Eu sou um homem simples. Levei uma vida simples. Eu e a minha Amélia. Só queríamos ver os miúdos a crescer, a casar, a ter filhos. Tomar conta dos netos. Os netos. Lindos os meus netos, a Constança e o Guilherme. Lindos como os seus nomes.

Um dia hão de ir visitar o avô sim? O avô gostava muito. – Disse-lhos no ano passado. Não têm tempo. Ficaram sem jeito. Olharam um para o outro e não tinham tempo. Percebi que até gostavam de ir, mas têm as coisas deles e não podem perder tempo com velhos porque ser jovem dura pouco, ser velho é que parece uma eternidade. Se calhar é porque não tenho muito para fazer. Pouco para conversar. Lá fazemos jogos e temos “atividades”, uma espécie de colégio com alunos cheios de artrose. Valem-me os livros. Mantém-me vivo. Leio os meus e os da minha Amélia. Íamos ver os netos a crescer.

Quando soube que a Marta ia viver para longe perdeu anos de vida. Tinha o sonho de ter os filhos perto.

Porque não ficas ao pé da mãe filha? Ajudamos com os meninos! – disse-lhe – Aí mãe, os meninos vão para o colégio e os meus sogros ajudam com o que fizer falta. Tenho de sair daqui, evoluir mãe. Entende?

Não entendia. Nunca entendeu. Porque raio evoluir tinha de ser longe?

Vimos os netos de quando em vez. E numa manhã de primavera a Amélia partiu. Fiquei eu. Eu e o tempo que sempre me faltou, veio para me fazer companhia todo o dia, como quem diz, tanto pediste pelo tempo, ora agora aqui me tens!

E tenho. Tempo é coisa que não me falta. É estranho, tenho o fim da vida à porta e o que não me falta é tempo, se me perguntassem aos quarenta dizia que era o que mais falta me fazia.

Há um silêncio estranho quando olham para mim, uma culpa que ninguém deve ter. A vida é assim, quem quer um velho em casa? Um velho a meter o bedelho e a estorvar. Sempre que se contorna o frigorífico lá está o velho, ao sair da casa de banho, ao entrar na sala. A ver televisão. E se o velho adoece, quem lhe muda as fraldas?

Vamos pai? Está pronto? – Estar, não estou, mas é a vida. Passei a vida a dizer que é a vida. E é, cada um com o seu destino.

Calho a ser promovido um dia e hoje morava mais perto, como os sogros da minha filha. Viajam eles. Eu vou à terra, quer dizer…ia.

É o que mais me custa, não sair. Não passear para onde me apetece. Temos espaços e jardins e até fazemos excursões. Mas não é passear.

Entre no carro pai. Temos de ir. – Pois temos. Quer dizer tu tens. Eu podia fazer o que me apetecesse, mas não pode ser. Não posso arranjar dificuldades. Às vezes penso que havia de fazer birra como os miúdos. Afinal de contas levam-nos tão a sério a uns quanto a outros. Mas não, sei que ainda sou crescido.

O carro arranca e lembro-me da minha Amélia, do dia em que a Marta nasceu e dos planos que fizemos. Do dia em que o Paulo nasceu e compramos uma casa maior. Poupámos mais. Um quarto para cada um. Como eramos felizes. No dia em que cada um partiu e na cor cinzenta que tomou conta da minha Amélia, que ia criar os netos e viver perto dos filhos.

Mas fica para mim. No meu silêncio. Na vida que ainda vivo com a minha Amélia enquanto olho pela janela do meu quarto, nos dias de sol, nos dias em que as mocinhas lá me perguntam. – Então, estão tão caladinho, está a magicar alguma?

Não estou. Estou a viver o meu silêncio. Aquele de que é feita a minha vida quando se apaga o barulho de fundo.

 

 

 

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