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Em busca da felicidade

Uma vaga de calor, outra de fogo

 

Todos os anos o verão se inicia, mais coisa menos coisa, de forma semelhante. Uma vaga de calor, uma enchente nas praias e um incêndio. Hectares e hectares de terra reduzidos a cinzas e a expressão "mais do mesmo" proferida no conforto dos lares de quem mora a quilómetros de distância. Uma espécie de condolências previstas porque já não há novidade. Depois aparecem os donos das casas que ardem, que perdem os animais, que ficam reduzidos à roupa do corpo. Então vociferamos "haviam de mandar para dentro do fogo o filho da puta que fez isto!", e seguimos à nossa vida. Afinal de contas o que mais nos apoquenta são os quarenta graus e a espera de que o calor abrande para levar a criançada e os nossos próprios lombos para a praia.

Todos os anos nos revoltamos, porque pouco mais há a fazer. Ou se calhar até há, mas a vida tem de seguir o seu rumo e todos temos os nossos próprios problemas.

Este ano passou a ser proibido fumar nas praias, levantou-se a contestação, que a liberdade de quem fuma mais uma vez é posta em causa, que quem não gosta que não fume, que não podem fumar porque há porcos que mandam as beatas para o chão, e todo um outro rol de indignações. É verdade que há gente que fuma que é porca, que deixa as beatas enterradas na areia, aquelas que depois tenho de andar a tirar das mãos do meu filho de dois anos, explicando-lhe que há cáca na areia porque há gente badalhoca no mundo. Mas também há gente que não fuma que deixa papeis de gelado, pacotes de batatas fritas, para não falar nos caroços de fruta, porventura sob a desculpa de que mais tarde no ano nascerá ali um pessegueiro.

O problema não está na beata deixada, está no fumo que tem de ser inalado por quem está na toalha ao lado. Está no facto de o meu filho respirar o tabaco de um tipo qualquer, que acha que fumar depois de sair do mar é a melhor coisinha a fazer, mesmo tendo uma criança de dois anos ao lado. Na cara estampado um "se calhar é melhor escolher outro lugar". Então criam-se leis que para nada servem, porque nestes dias que estive de férias, a tentar apanhar os benefícios da praia devo ter fumado mais do que um maço de tabaco. Vale ter sido gratuito.

Ora em que redunda esta questão da praia? Redunda em algo que nos é mais próximo a nós, nas grandes cidades e que achamos que estes fogos são matéria de quem vive na aldeia, a nós que temos todos muita pena e partilhamos fotos com terras a arder acompanhados de emojis tristes, a nós que nos esquecemos muitas vezes que todo o mal resulta da falta de civismo e displicência permanente de que padece o nosso país. A não ser que nos bata à porta, não nos indignamos à séria. Não exigimos mais.

Os fogos a que assistimos todos os anos são atribuídos a alegados piromaníacos que, pelos vistos, apenas padecem da doença em tempo de verão, uma qualquer versão sazonal da maleita. Ou isso ou são pagos para o fazer. Identificados dezenas de vezes pelas autoridades, passam umas temporadas em instituições para se reabilitarem e voltam a fazer de novo. No ano passado recordo-me que foi identificado um tipo que era considerado como potencial culpado de mais de 40 fogos. Mais de 40 fogos, não será quanto baste para o prenderem por 25 anos, pelo menos? Ou para o mandarem para a fogueira? Porque não, afinal de contas gosta tanto de ver coisas a arder, talvez fosse uma forma de o ajudar a ter uma morte feliz. 

Mas são só terras, são só hectares, são só os pulmões do nosso país. Lá morre de quando em vez um bombeiro, mas esses lá está "sabem ao que vão, é uma coisa de risco, mas coitados" dizem alguns. Dizem dos heróis que salvam com precárias condições o nosso pais de arder. Têm menos destaque nos noticiários que um atropelamento com fuga numa cidade de outro país e a vida continua.

De qualquer modo não são os piromaniacos que são culpados, são os que fazem fogueiras, são os que deixam lixo no chão que, sob calor intenso como esteve ontem, pode iniciar um incêndio. E aí, neste pequeno acontecimento, todos somos responsáveis, os que deixam no chão, os que veem e não apanham porque a porcaria não é deles e os que veem deitar para o chão e não dizem nada a quem o faz, antes rosnam um "valentes porcos" para si mesmos, como se resolvesse alguma coisa.

O mal fica lá, no mesmo sitio, pela falta de civismo de uns e pelo orgulho dos outros que não limpam porque "não são pagos para andar a limpar a merda dos outros".

Mas e desta vez? A ultima vez que vi a noticia contavam-se 39 mortos. Falamos de 39 pessoas inocentes que sucumbiram ao fumo e foram carbonizadas. Algumas dentro dos carros. Agora a culpa anda de um lado para o outro. Os bombeiros a combater chamas, as famílias a viver o horror, nós a ficarmos sensibilizados por 10 minutos, o suficiente para escrevermos posts destes e partilharmos fotografias no Facebook. Depois quando o calor abrandar vamos para a praia.

Mas que quero eu com esta conversa?

Quero que sejamos mais cívicos, que sejamos mais limpos, que sejamos melhores que os idiotas. Que apanhemos a beata do chão mesmo que não seja nossa, que não deixemos lixo porque "ah, já estava sujo, mais uma porcaria, menos uma porcaria", que tenhamos a coragem de dizer a quem manda uma beata pela janela do carro que é um porco, que sejamos exigentes com a necessidade que todos temos de cuidar do que é nosso, o nosso planeta, as nossas pessoas.

Que sejamos exigentes com quem legisla, que cumpram penas pesadas aqueles que são apanhados a pôr fogo, que sejam encarcerados por anos. 

Evitar o que aconteceu ontem é responsabilidade de todos nós. Que a assumamos como tal, em vez de partilhar condolências nas redes sociais porque é bonitinho.

Comecei a manhã com o Nuno a dizer-me o que aconteceu, sabe que fico revoltada e de estômago às voltas com estas situações, mesmo que sejam só terras. Esta hoje foi pior, porque temos um amigo perto, porque de madrugada o Nuno lhe mandou uma mensagem a saber como está. Hoje sabemos que está bem.

Gostava de ter um final brilhante para este texto, mas somem-se-me as palavras. São abafadas pelo numero de pessoas que se perderam naquilo a que todos os anos chamamos de "mais do mesmo" e de "não há novidade". Que se invista mais em helicópteros e meios para os bombeiros, em vez de auto estradas. Que se salvem mais terras que bancos falidos. Que se criem os apoios necessários às famílias que perderam quem amam e o que tinham. Que se revejam as leis, que se encarcerem os culpados de fogo posto, que se apliquem coimas a quem deita lixo ao chão.

Que a bem ou a mal, todos passemos a ser mais responsáveis pelo bem estar do nosso país.

Às famílias as minhas condolências. Pouco mais posso dar, para além da promessa de que no que depender de mim para o ano tal tragédia não se repetirá. E que farei tudo ao meu alcance para que o meu filho seja um miudo e mais tarde um homem consciente, que sabe respeitar a vida e a natureza.

 

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