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Em busca da felicidade

Concorri mas não ganhei #10

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Acordo com alguém a bater à porta ao de leva. Levanto-me estremunhada, os passos descompassados. Terei ouvido mesmo alguém a bater à porta ou terá sido o móvel velho da sala a ranger outra vez? Aquele que uma vezes me acorda, que outras me assusta.

O cão abana o rabo enquanto cheira por baixo da porta.

“O que foi Baltazar? Quem está à porta?!”

A pergunta retórica feita ao cão que sei incapaz de responder. Mas é alguém que conhece, nunca fica tão contente. Sempre desconfiado, o meu eterno protetor.

Espreito e lá estás tu. Encharcado. Chove lá fora. Que fazes aqui?

Abro a porta devagar. O corpo a pedir o teu abraço molhado com emergência. A cabeça a dizer que não. Que me deixaste, que me magoaste, que voltaste costas sem dó nem piedade, que me adormeci em lágrimas e não sei a que horas pararam os soluços e começaram os sonhos. Sempre contigo.

Entras sem dizer uma palavra. Invades a minha boca num beijo profundo, as tuas mãos a percorrer o corpo que ansiava por ti mesmo antes de te saber à minha porta.

“Não te quero aqui...” murmuro entre beijos e fôlegos. Não o queres aqui. Repete a minha consciência. Aquela que sabe que depois de mais uma noite de entrega vais embora. Vais dizer que não podes voltar. Vais lembrar-te que trazes um anel na mão esquerda que marca o teu compromisso com aquela que é a mãe dos teus filhos. Vais sair e eu, eu vou ficar aqui. Sozinha com as minhas lágrimas. Acompanhada pelo Baltazar que me trouxeste da primeira vez que voltaste para mim. Acordada não pelo teu abraço carregado de desejo, mas pelo móvel velho que continua a ranger.

Bateste ao de leve e eu abri a porta. Deixei-te entrar e perdi-me em ti.

Concorri mas não ganhei #9

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

“Toda a infelicidade dos homens provém da esperança”, Albert Camus.

Tinha razão, esta bandido.

Palmilho o curto corredor que separa o meu quarto da sala, no bolso a cigarreira que comprei à procura de esconder as imagens hediondas de mulheres grávidas com cigarros na mão. Tipos a definhar com os pulmões cinzentos. Imagens para quê? Há anos que definho e não é pelos cigarros que mais me decomponho.

Esperei uma vida inteira por uma vida diferente da que tinha a cada momento. “A esperança é a última a morrer”, dirinha a minha mãe que Deus tem. Venhinha e debruçada sobre o tanque da roupa. Quis comprar-lhe uma máquina, das boas naquele tempo, mas não quis. “Mulher que é mulher asseada esfrega os seus trapos com as mãos, só Deus sabe o que metem lá nessas máquinhas”. Esperou pela cura coitada. Atraiçoada pela esperança.

Casei porque disse que casava. Queria ter virado costas no dia mas não pude. Já tinha dito que casava. Tive esperança que a amasse. Não amei.

Não havia dinheiro para pagar para algum outro desgraçado ir no meu lugar. Passar pelos matos e pelos pântanos podres. Sobrou a esperança de uma doença desconhecida. Que me levasse a vida lentamente e não às mãos de um preto.

Atraiçoou-me a maldita. A esperança e Deus, que me meteram naquele barco a caminho de uma guerra que não era minha.

A mulher morreu cedo.

Seria agora que ela ficava comigo?

A esperança? Não. Essa porca. A que amei anos em silêncio.

A esperança era de que me quisesse.

Não quis.

A puta da esperança que alimentei.

Nunca aceitei nenhum dia como aparecia. Esperei sempre pelo que não tinha.

Sento-me com o talão na mão. É hoje que me sai a sorte grande. Há anos que tenho esperança nisso.

Concorri mas não ganhei #8

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

- Dizem que se chama Ernesto.

- Dizem?

Do outro lado desta porta branca e fria. Do outro lado deste pequeno quadrado de vidro a que chamam janela. A que usamos para espreitar os pacientes. Do outro lado continua a rir. Como quem vê a vida a acontecer naquele pedaço de parede sem cor.

- Dizem porque ninguém sabe ao certo quem é. De onde veio. Se tem familia. Apareceu aqui à porta um dia. Sem documentos. Sem telémovel. Nada.

- E o Dr. Sanches o que achou dele. Vejo na ficha que não chegou a conclusão nenhuma. Neurótico. Pouco mais que isso.

Acena para a parede. Está feliz.

- Tem momentos normais. Circula por aí. Sei que o Sanches já tentou que ele falasse...mas nada.

- Vou entrar.

- Espera! Normalmente os episódios mais complicados são assim. Passa quase uma hora a rir para a parede, a falar, depois acena e entra em estado de delirio total.

- Parece-me inofensivo.

A fração de segundos em que retirei os meus olhos deste homem para fitar o Dr. Fonseca foram suficientes para encontrar um cenário completamente diferente.

Os olhos espelham desespero. Grita. “Não”. “Não”. Mais alto. Corre para a parede. Para. Dobra-se sobre si mesmo em dor. Rosto contraído.

Desmaia.

 

Sento-me ao lado da cama onde agora está deitado com as mãos e os pés amarrados.

Procedimento.

Acorda.

- Prefere a parede à janela por algum motivo em particular?

Fita-me e não responde. Aguardo. Fita de novo o teto.

- A minha janela está aqui.

Aponta com o indicador para a parede.

- Como assim?

- No quadrado de vidro já não a vejo brincar. Nesta tela lembro-me do dia em que a ensinei a andar de bicicleta pela primeira vez. Em que lhe disse adeus. Em que a vida acabou.

Concorri mas não ganhei #7

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Recebeste uma mensagem

De: mãe

A fila está enorme. Queres fazer um jogo?

 

Recebeste uma mensagem

De: Filha linda

Um jogo?! Que jogo? Porque é que estás a mandar mensagens? Estou no carro contigo!

 

Recebeste uma mensagem

De: mãe

Sei lá, vamos inventar. Eu pouso o meu telemóvel e tu pousas o teu.

Porque assim garanto que me respondes.

Às vezes parece que não estás no carro comigo.

 

Recebeste uma mensagem

De: Filha linda

Tá bem! Mas se for chato volto para a net. Pouso em três…

 

Recebeste uma mensagem

De: Mãe

Combinado. Dois, um…

 

- Às vezes gostava que o céu fosse cor-de-rosa.

- Às vezes gostava de ter um avião para não ficar fechada no carro tantas horas. Nestas filas horríveis.

- Às vezes gostava de ter mais tempo para fazer o jantar.

- Às vezes gostava de não ter de comer verdes ao jantar. Especialmente brócolos.

- Às vezes gostava de cozinhar para a minha filha só o que ela gosta de comer. Mas tenho medo que fique doente.

- Às vezes gostava que a minha mãe fosse menos chata.

- Às vezes gostava de me preocupar menos.

- Às vezes gostava de poder falar com as minhas amigas o tempo que me apetece.

- Às vezes gostava de ter conversas com a minha filha sem ela se aborrecer comigo.

- Às vezes gostava de morar perto da escola e das minhas amigas.

- Às vezes gostava de trabalhar menos para estar mais tempo com a minha filha.

- Às vezes gostava de acabar com os jogos que a minha mãe inventa.

- Às vezes gostava de dizer à minha filha que a amo muito.

 

Porque amo. Mesmo muito, para lá do que a razão sabe explicar.

 

Recebeste uma mensagem

De: Filha linda

Também te amo, mãe.

Concorri mas não ganhei #6

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Para a estrela mais brilhante no meu céu

Podia contar-te um mundo de coisas. Explicar-te que a vida é complexa e que raramente se transforma no que esperamos dela. Que existem momentos que nos ultrapassam e redefinem as nossas vidas de formas que nunca antes pensamos ser possível.

Mas quero dizer-te que a vida tem vida própria. Que se move como entende e que, de forma inesperada, como uma bola que curva sem que estivéssemos à espera, nos tira o tapete e nos manda ao chão.

Lembro-me do dia em que desci a rua de Almada de mão dada contigo. Sabendo-me doente, sabendo-te pequena e indefesa. Sabendo-nos precisadas uma da outra.

A bola curva de que tenho fugido. Sei que inevitavelmente me atingirá.

Sonho com o dia do teu casamento. O teu cabelo em cachos debaixo de um véu imaculadamente branco. As curvas do corpo abraçadas por um vestido branco de cetim, costurado por mim. Cada pérola pregada pela mãe orgulhosa.

Imagino-te de canudo na mão. Alcançarás o que para mim jamais foi uma hipótese. Quanto mais um sonho.

Sonho com os momentos da tua vida desde o dia em que te abracei pela primeira vez.

A vida pode ser maravilhosa, porque a vida, meu amor, nada mais é que um aglomerado de momentos. Fazemos deles o melhor que conseguimos. Aproveitamos cada sopro.

Faz amigos. Brinca com as bonecas. Só mais um pedacinho. Pisa as poças que não pisaste até hoje. Rebola na areia da praia. Apaixona-te pelo Manuel que está na carteira ao lado, mas não lhe dês o teu coração. O amor virá mais tarde.

Lembra-te de mim sempre com um sorriso. Não penses nos momentos que podiam ser.

Aprende o que és. Escuta-te. Sê feliz. Que eu sou, feliz aqui dentro do teu coração.

Com amor,

mãe

Concorri mas não ganhei #5

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

O pequeno bairro escondido no meio das montanhas acordou sombrio e escuro depois de meses de alegria. O som dos gritos da mulher do médico ecoava pelos montes e transportava pelo ar a dor de quem perde quem ama. De quem perde a razão de viver.

- Não se entende quem o possa ter feito.

Tinham chegado aquela cidade ainda tudo era cinzento. Os miúdos corriam pelos campos sujos e descalços, não viam livros nem cadernos, comiam o que havia e entregavam-se às brincadeiras parvas que a ignorância traz. Os pais trabalhavam de sol a sol nas minas. Chegavam a casa tão escuros quanto os dias. Esses que não pareciam mais claros que a noite.

- Falta alegria a esta gente. Falta alento.

Disse para a mulher no dia em que decidiu ficar. Montou o consultório para tratar as maleitas de quem só lhe pagava em galinhas. Às vezes um queijo. Outras hortaliças.

- Aí doutor que me morre o homem.

Demasiado tempo dentro da mina. Falta de sol e uma alimentação de tripas e pão.

Aos domingos fazia de pastor. Trazia as histórias do Senhor. Falava da luz que havia para lá das montanhas. Da vida que ninguém conhecia. Passava os domingos sentado no jardim do bairro, a ensinar aos miúdos as letras. Que a vida podia ser diferente das minas.

Mesmo sem luz aquela gente foi ganhando alento. Dias melhores podiam vir.

- Porque faria alguém mal ao médico?

Estava um dia sombrio e os gritos chiavam aos ouvidos de todos. O bairro acordou em agonia.

- Mataram o médico!

A mulher foi encontra-lo estendido no escritório. No meio do próprio sangue. O bandido tinha entrado pela janela.

A mulher, essa enlouqueceu e o bairro, o bairro voltou à escuridão que o carvão das minas reserva sem perdão.

Concorri mas não ganhei #4

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Almada, 23 de Agosto de 2010

(como disseste “uma carta leva sempre data”, aqui vai ela. Nos e-mails não usamos isto, tens de abrir conta avô)

Tenho que te dizer, bela jogada. Estava mesmo a ver que me levavas o rei, mas não.

Como estás, avô?

“E tu rapaz?” Não é? Quase te ouço e tenho vontade de rir.

Estou bem. Tenho saudades tuas. Tenho saudades da aldeia. Das tardes passadas no alpendre, entre jogadas de xadrez, histórias do Ultramar e uns pedacinhos de pão com chouriço. Sempre um canto do pão. Sempre um pedaço de chouriço em cima. E a tua navalha que trouxeste da Guiné.

O pão aqui não sabe ao mesmo. Compro montes de pães com chouriço na cantina da escola, mas nenhum sabe da mesma maneira.

A mãe inscreveu-me num monte de atividades bué muito cansativas. Agora ando no Karaté, duas vezes por semana ao fim da tarde, na natação, noutros dois dias e ao fim de semana vou ao futebol.

Há montes de tempo que não vejo as minhas series na TV. Tenho saudades dessas tardes sem fazer nada depois da escola. Das tardes que passava em tua casa.

Aqui não vamos para a rua brincar. Fico sempre fechado em casa. Por isso é que ando em tantas atividades.

Tenho saudades da tua casa avô. Do cheiro a lenha acabada de cortar no Inverno. De te ajudar a carrega-la enquanto discutimos a minha ultima jogada.

Tens de falar com a mãe para ela me deixar ficar contigo nas férias. Está bem?

Porque é que não vens passar uns tempos connosco? Temos um quarto a mais.

Pensa nisso. E depois diz-me se queres começar um jogo novo.

Este acabou.

Adoro-te avô e tenho saudades tuas.

p.s.: rainha para bispo, C5 para F8. Xeque-mate

Concorri mas não ganhei #3

 

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Por favor não deite este papel fora. Responda a este questionário e volte a colocar a folha no envelope e o envelope debaixo da porta.

Obrigada.

A minha professora diz que as pessoas não sorriem o suficiente. Que as pessoas andam sempre de cara fechada e que sofrem sem sabermos.

Nunca reparei que as pessoas não sorriem.

A minha professora mandou-nos como trabalho de casa pedir a algumas pessoas que respondam a perguntas sobre serem felizes.

Eu não gosto de andar a fazer perguntas por isso fiz este questionário. Depois venho cá buscar.

Não sou sua vizinha da frente nem moro no seu bairro. Posso ser rapaz ou rapariga, ter dito vizinha não quer dizer nada.

Peço-lhe que não dê respostas muito grandes porque tenho ainda mais dez questionários para ler e depois tenho de fazer um resumo e não queria ter muito trabalho. Sou jovem e quero viver. Preguiçosa, mas honesta, ou honesto, dependendo de ser rapaz ou rapariga.

Se vir uma senhora ruiva, quase a chegar aos cinquenta, sempre com vestidos floridos e com uma mala creme, sorria por favor. Não me apetece fazer mais trabalhos destes e de qualquer forma a vida é curta demais para estar de trombas.

Ah e, obrigada pela participação (se não participar não vou conseguir ter boa nota e se não tiver boa nota a minha mãe vai-me pôr a cortar relva o verão todo).

_____________________

 

Questionário:

  1. (pergunta cliché – teve de ser)

Qual foi a última vez que sorriu?

  1. (esta também)

Acha que as pessoas sorriem pouco?

  1. (esta é mais ou menos porque tem de ser, eu melhorei)

Feche os olhos, pense num momento feliz. Agora descreva o que o fez sorrir.

  1. (esta é minha)

O que é que vai fazer hoje para ser feliz?

Concorri mas não ganhei #2

tempo.jpg

 

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Tempo. O que é o tempo? Para que serve o tempo? Como se conta o tempo? O tempo.

Se perguntasse a um cientista iria dizer-me que o tempo é a soma dos segundos, que resultam nos minutos, que acabam nas horas, que formam os dias, que compõem as semanas, que se transformam nos meses, que resultam nos anos sempre iguais.

Dir-me-ia que o tempo serve para contar e organizar, para sabermos onde temos de estar a cada momento. Para sabermos quando começa e acaba o dia.

Para mim o tempo é um Foda-se gigante. Raras são as vezes que olho para o relógio e não digo Foda-se, já são estas horas.

O tempo é um ditador que inventou um objeto com ponteiros para nos perseguir. Aquele que diz que quando o ponteiro está nas nove tenho de estar no trabalho em vez de deitada na minha cama ou espraiada ao sol.

Para mim, que sou uma sentimental e que mandava à fava qualquer cientista, para mim, o tempo devia contar-se em momentos. O momento em que beijei com paixão pela primeira vez, os momentos em que senti o sol escaldar a minha pela nas tardes de praia. O momento em que vi o meu filho pela primeira vez, o momento em que soube que eras o amor da minha vida.

O momento em que disse “sim”.

 

Levanto-me de manhã e lavo a cara. A que traz a rugas marcadas pelo tempo a passar por mim. Olho-as e conto o meu tempo em momentos.

Depois o alarme do telemóvel toca. O ditador outra vez. Tira-me do tempo contado em momentos e lança-me nesta vida de tempo em ponteiros.

Foda-se, já passa das nove!

Concorri mas não ganhei #1

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  (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Entrego a carta e recebo a surpresa. O espanto de quem nunca imaginou que um dia dissesse já chega.

Mas queremos saber o porquê. É um funcionário exemplar.

Eu explico. Claro que explico. É simples.

Simples demais. Porque não estou vivo. Porque o meu coração bate. O ar entra e sai dos meus pulmões. Mas eu não estou vivo. Os dias passam por mim e eu esgueiro-me por entre eles. Nem dão conta de mim. Sou a cópia da minha sombra. Não nos encontro a diferença.

Dizem que estou vivo mas não me sinto a viver. Arrasto-me por entre as horas. Aceno com a cabeça a cada pedido. Não me lembro do que é o prazer, tão longe vai a ultima vez que o senti.

As contas não param de crescer.

A mulher insiste aos meus ouvidos. Os miudos precisam, querem, gostam, exigem. O dinheiro tem de aparecer.

Será que não precisam de um pai vivo? E eu não estou. Se calhar já não querem saber. Sabem-me vivo quando estendo a nota que pediram de manhã antes de sairem do carro.

Gostava de um beijo. Um abraço.

Amo-vos muito. Murmuro atrás da porta fechada.

Lamechices de velho.

Não me lembro da ultima vez que estive vivo. Quero sentir. Quero ouvir o batimento do meu coração descontrolado.

- E se te dissesse que comecei a viver agora? Acreditavas?

Foi a primeira frase que disse à minha mulher. Conquistei-a. Quero entrar em casa e sentir que a faço viver também. É a sombra de uma sombra. Ambos somos.

Chego a casa antes da hora esperada. Encontro-a na sala.

E se eu te disser que podemos começar a viver agora? Acreditas?

 

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