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Em busca da felicidade

Um político, um banqueiro e um cigano vão meter papeis à Segurança Social

O gabinete da Segurança Social tinha aberto portas como num qualquer dia normal. Já havia uma fila de pessoas à porta que lá estavam desde as 7:30 da manhã, mães com filhos ao colo, casais que acabaram de ser pais, velhotes que já tinham estado no dia anterior na CGD e este era o dia de ir visitar a senhora da SS para saber de estava tudo OK com a reforma.

Às 10:15 já não havia senhas e, a ultima pessoa branca de olhos azuis residente no Bairro Social C, já se tinha ido embora a reclamar que era sempre a mesma merda na SS porque as senhas acabavam cedo. Estava desempregada há 3 dias e precisava meter os papeis. Tinha trabalhado numa empresa de limpezas pelo ordenado mínimo. Essa faliu e foi para uma empresa de catering, também a ganhar o ordenado mínimo. Depois de dois dias doente com uma apendicite, despacharam-na ao fim do primeiro contrato. Depois foi para uma empresa de trabalho temporário, uns dias estava no café do Colombo, outros estava a recolher tabuleiros e ainda havia dias em que fazia limpezas nas casas de banho porcas do aeroporto da Portela. Também aqui ganhava o ordenado mínimo.

À saída cruzou-se com um cigano.

“Já não há senhas!” disse-lhe.

“Não há senhas! ÁÁÁÁÁiiiiii, filhas da puta que gastaram as senhas todas! Vão já encontrar senhas senão vou partir esta merda toda!”

“Veja lá o que é que consegue! Bom dia!”

“Bom dia. Obrigada menina!”

O cigano sobe as escadas e constata que não há mesmo senhas. Trinta a cinto “Aís” depois aparece a mulher, a irmã, a mãe, o cunhado e os 9 filhos do casal. Iam pôr os papeis para o subsidio do ultimo.

Levanta-se um arraial completo de gritaria “vou-te matar a mãe! Áiiiiii, dá-me uma sénha!!! Deves tê-las guardadas!!!!”

Instala-se a confusão e os seguranças acorrem para ajudar. A PSP pôe-se a caminho, mas como apanha um acidente no alto de Monsanto não consegue chegar tão depressa quanto queria.

A gritaria mantém-se, os velhotes assistem a tudo contentes porque está a ser mais divertido que as manhãs da Júlia e, à tarde, quando forem ao supermercado já vão ter de que se queixar.

Nisto chega um político. Vai direito à maquineta das senhas, a pressa era tal que nem se deu conta da confusão que para lá ia.

- Não. Há. Senhas.

Diz para a senhora que estava encostada à máquina porque já não havia cadeiras disponíveis para se sentar.

- Pois não! Há horas que não há senhas!

- Mas. Porquê?

- Devem ter sido os cabrões dos ciganos! São sempre os ciganos! Chegam aqui e tiram as senhas todas!

O político olha para a família de ciganos e decide que talvez seja melhor mandar chamar o gerente da espelunca. Isto falar com pessoas de baixo nunca tinha resolvido nada e não ia ser agora. Dirige-se então ao balcão de informações.

- Bom dia. Preciso. Que. Me. Mande. Chamar. O. Gerente. Deste. Belo. Espaço. Que. Não. É. De. maneira. Tão. Lindo. Quanto. O. Freeport. Mas. Que. Não. Está. Mal.

- Não há gerente Engenheiro…quer dizer senhor…melhor…ãhhhh…ó pá isto não tem gerente, tem chefe de serviço. Só se quiseres falar com esse. Mas ele agora está um bocado embrulhado ali com os ciganos.

- Veja. Lá. Homem. Tenho. O. Carlos. À. Minha. Espera. Para. Irmos. Para. Paris. Ver. As. Obras. Na. Casa. Dele!

- O chefe de serviço é aquele que o cigano está a segurar pelos colarinhos. Olhe, fale com o cigano!

O político vai ter com o cigano. Pede-lhe que liberte o chefe de serviço porque precisa mesmo de falar com ele. O cigano resiste a largar o chefe de serviço, mas depois reconhece a pessoa que o estava a abordar.

- Você é o ... !

- Sou. Sim. Senhor!

O cigano espeta um banano no chefe de serviço e deixa-o arrumado a um canto. Limpa as mãos às calças e estende a mão direita ao político para lhe dar um aperto de mão.

- Aprecio muito o seu trabalho. Ao pé de si nem me sinto cigano.

O político fica a olhar incrédulo para o chefe de serviço. Agora como é que ia arranjar senha? Lembrou-se rapidamente de que a tipa ao pé da máquina das senhas lhe tinha dito que quem tinha as senhas todas eram os ciganos e, já que o chefe da família gostava tanto dele, ia certamente conseguir que lhe arranjasse uma.

- Fico. Contente. Que. Goste. Muito. Do. Meu. Trabalho. Esforço-me. Pela. Comunidade. Olhe. Já. Que. Gosta. Tanto. Do. Meu. Trabalho. Acha. Que. Podia. Dar-me. Uma. Senha. Em. Troca. De. Um. Livro. Meu. Autografado. Esteve. No. Top. De. Vendas!

O cigano explicou ao político que estava a conversar com o chefe de serviço mesmo por causa disso, não havia já senhas quando tinha chegado. Mas gostava da ideia de ter um livro autografado. Mas já agora que estava na companhia do Engenheiro queria aproveitar para saber se ainda corria.

- Corro. Sim. Senhor. Porquê?

O cigano tinha cinco caixas de t-shirts da ARDIDAS na carrinha. Precisava despacha-las mas os clientes na feira andavam a ficar esquisitos. O político estava com pressa, mas como tinha medo que aquele fã se chateasse e lhe acabasse por aplicar uma xinada aceitou ir à carrinha ver o material.

- Isto. É. De. Muita. Qualidade. Mas. Está. Mal. Escrito. Você. Não. Arranja. Isto. Como. Deve. De.ser?

- É contrafeito. Vem sempre assim. Roubado é melhor…

- Não. Diga. Roubado. É. Uma. Palavra. Feia. Que. Lhe. Pode. Dar. Problemas. Diga. Antes. Que. São. Emprestadas. Da. Empresa. De. Um. Amigo. De infância.

O cigano confirmou que estava perante o seu ídolo.

Comprometeram-se a voltar a encontrar-se noutra ocasião para arranjar forma de vender as t-shirts em Paris a turistas chineses que achavam que tudo era arte.

O político e o cigano voltam às finanças e o Político vai ter com a senhora das informações. Não havia chefe de serviço…estava indisponível e também não havia senhas. Nem ele, nem o senhor cigano tinham senhas e ambos precisavam de ser atendidos.

- Só se convencer alguma pessoa a ceder-lhe a sua senha.

O político micou umas velhotas ao canto da sala de espera, eram aquelas, só precisava que duas dispensassem as senhas. Uma para ele e outra para o amigo cigano. Afinal de contas nunca se sabia quando é que o seu recente amigo não lhe dava a tal xinada.

- Boa. Tarde. Minhas. Lindas. Senhoras. Posso. Sentar-me. Ao. Pé. De. Vocês?

As senhoras que sim, desde que o cigano não viesse também. Gostavam muito de toda a gente e até tinham amigas ciganas. Mas agora não lhes apetecia que o cigano se sentasse ali tão perto.

Dois dedos de conversa bem dados e o político lá lhes prometeu um chá na humilde casa de sua mãe, ali para os lados do Marquês. Nesse chá falariam melhor dos cursos de engenharia dos netos de ambas as senhoras. Conseguia puxar uns cordelinhos, desde que eles não se importassem de fazer as provas finais num domingo. Entretanto e em troca das senhas deixava um livro autografado a cada uma. Tinha muitos lá em casa, afinal de contas o amigo Carlos tinha gostado tanto que lhe tinha comprado vários exemplares, quis ler o livro várias vezes mas não queria repetir as folhas.

As velhotas foram à sua vida e o político orientou a senha ao cigano.

Enquanto esperavam e debatiam o negócio das t-shirts aparece um senhor bem penteado acompanhado de três tipos vestidos de preto. Quase pareciam ex-Mossad. O senhor comportava-se como se fosse dono daquilo tudo e estava manifestamente indignado por não haver senhas.

- Só se quiser que o chefe de serviço volte a si e depois fala com ele.

- Acha que falo com chefes de serviço?

Indignou-se o homem. Mandou chamar uma administrativa que trazia sempre consigo para as tarefas mais aborrecidas.

- Ó Margarida, meta-me aí o José Afonso em linha.

A administrativa tinha o numero direto para o ministro e colocou-o em contacto com o senhor banqueiro num ápice.

- Isto é inadmissível, pá! Tenho de despachar os papeis para o RSI hoje. Arranja-te!

E arranjou-se.

Passada meia hora todos os funcionários foram chamados pelo chefe de serviço que, fazia poucos minutos, tinha sido acordado do seu desmaio para falar com o Gabinete principal do Ministério. Era para fechar portas e atender o senhor banqueiro.

Uma das funcionárias indignou-se, queixava-se que o cigano lhe tinha oferecido pancada se não fosse atendido.

- Duas lambadas passam-te daqui a dois dias. Se fores para a rua é pior!

A funcionária explicou que enquanto funcionária publica não podia ser despedida, por isso aquilo era conversa de merda. O chefe de serviço explicou-lhe que podia ser transferida para a Cova da Moura. A funcionária calou-se e aceitou que podia correr o risco de levar dois estalos.

Faltavam dois números para a vez do político (que conseguiu convencer o cigano a ficar com o numero depois do dele em troca de mais dois livros autografados) quando o chefe de serviço avisou que iam fechar portas por causa de um imprevisto. Retomariam atividade no dia seguinte à mesma hora e pediam desculpa pelo inconveniente.

O cigano ainda tentou pregar-lhe mais um banano, mas os amigos da Mossad eram mais engenhosos que o cigano e mostraram-lhe a saída.

 

No dia seguinte o político e o cigano conseguiram meter os papeis.

 

 

(a história relatada é puramente ficcional não tendo por intenção ofender nada nem ninguém)

 

Concorri mas não ganhei #10

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Acordo com alguém a bater à porta ao de leva. Levanto-me estremunhada, os passos descompassados. Terei ouvido mesmo alguém a bater à porta ou terá sido o móvel velho da sala a ranger outra vez? Aquele que uma vezes me acorda, que outras me assusta.

O cão abana o rabo enquanto cheira por baixo da porta.

“O que foi Baltazar? Quem está à porta?!”

A pergunta retórica feita ao cão que sei incapaz de responder. Mas é alguém que conhece, nunca fica tão contente. Sempre desconfiado, o meu eterno protetor.

Espreito e lá estás tu. Encharcado. Chove lá fora. Que fazes aqui?

Abro a porta devagar. O corpo a pedir o teu abraço molhado com emergência. A cabeça a dizer que não. Que me deixaste, que me magoaste, que voltaste costas sem dó nem piedade, que me adormeci em lágrimas e não sei a que horas pararam os soluços e começaram os sonhos. Sempre contigo.

Entras sem dizer uma palavra. Invades a minha boca num beijo profundo, as tuas mãos a percorrer o corpo que ansiava por ti mesmo antes de te saber à minha porta.

“Não te quero aqui...” murmuro entre beijos e fôlegos. Não o queres aqui. Repete a minha consciência. Aquela que sabe que depois de mais uma noite de entrega vais embora. Vais dizer que não podes voltar. Vais lembrar-te que trazes um anel na mão esquerda que marca o teu compromisso com aquela que é a mãe dos teus filhos. Vais sair e eu, eu vou ficar aqui. Sozinha com as minhas lágrimas. Acompanhada pelo Baltazar que me trouxeste da primeira vez que voltaste para mim. Acordada não pelo teu abraço carregado de desejo, mas pelo móvel velho que continua a ranger.

Bateste ao de leve e eu abri a porta. Deixei-te entrar e perdi-me em ti.

Concorri mas não ganhei #9

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

“Toda a infelicidade dos homens provém da esperança”, Albert Camus.

Tinha razão, esta bandido.

Palmilho o curto corredor que separa o meu quarto da sala, no bolso a cigarreira que comprei à procura de esconder as imagens hediondas de mulheres grávidas com cigarros na mão. Tipos a definhar com os pulmões cinzentos. Imagens para quê? Há anos que definho e não é pelos cigarros que mais me decomponho.

Esperei uma vida inteira por uma vida diferente da que tinha a cada momento. “A esperança é a última a morrer”, dirinha a minha mãe que Deus tem. Venhinha e debruçada sobre o tanque da roupa. Quis comprar-lhe uma máquina, das boas naquele tempo, mas não quis. “Mulher que é mulher asseada esfrega os seus trapos com as mãos, só Deus sabe o que metem lá nessas máquinhas”. Esperou pela cura coitada. Atraiçoada pela esperança.

Casei porque disse que casava. Queria ter virado costas no dia mas não pude. Já tinha dito que casava. Tive esperança que a amasse. Não amei.

Não havia dinheiro para pagar para algum outro desgraçado ir no meu lugar. Passar pelos matos e pelos pântanos podres. Sobrou a esperança de uma doença desconhecida. Que me levasse a vida lentamente e não às mãos de um preto.

Atraiçoou-me a maldita. A esperança e Deus, que me meteram naquele barco a caminho de uma guerra que não era minha.

A mulher morreu cedo.

Seria agora que ela ficava comigo?

A esperança? Não. Essa porca. A que amei anos em silêncio.

A esperança era de que me quisesse.

Não quis.

A puta da esperança que alimentei.

Nunca aceitei nenhum dia como aparecia. Esperei sempre pelo que não tinha.

Sento-me com o talão na mão. É hoje que me sai a sorte grande. Há anos que tenho esperança nisso.

Concorri mas não ganhei #8

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

- Dizem que se chama Ernesto.

- Dizem?

Do outro lado desta porta branca e fria. Do outro lado deste pequeno quadrado de vidro a que chamam janela. A que usamos para espreitar os pacientes. Do outro lado continua a rir. Como quem vê a vida a acontecer naquele pedaço de parede sem cor.

- Dizem porque ninguém sabe ao certo quem é. De onde veio. Se tem familia. Apareceu aqui à porta um dia. Sem documentos. Sem telémovel. Nada.

- E o Dr. Sanches o que achou dele. Vejo na ficha que não chegou a conclusão nenhuma. Neurótico. Pouco mais que isso.

Acena para a parede. Está feliz.

- Tem momentos normais. Circula por aí. Sei que o Sanches já tentou que ele falasse...mas nada.

- Vou entrar.

- Espera! Normalmente os episódios mais complicados são assim. Passa quase uma hora a rir para a parede, a falar, depois acena e entra em estado de delirio total.

- Parece-me inofensivo.

A fração de segundos em que retirei os meus olhos deste homem para fitar o Dr. Fonseca foram suficientes para encontrar um cenário completamente diferente.

Os olhos espelham desespero. Grita. “Não”. “Não”. Mais alto. Corre para a parede. Para. Dobra-se sobre si mesmo em dor. Rosto contraído.

Desmaia.

 

Sento-me ao lado da cama onde agora está deitado com as mãos e os pés amarrados.

Procedimento.

Acorda.

- Prefere a parede à janela por algum motivo em particular?

Fita-me e não responde. Aguardo. Fita de novo o teto.

- A minha janela está aqui.

Aponta com o indicador para a parede.

- Como assim?

- No quadrado de vidro já não a vejo brincar. Nesta tela lembro-me do dia em que a ensinei a andar de bicicleta pela primeira vez. Em que lhe disse adeus. Em que a vida acabou.

Concorri mas não ganhei #7

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Recebeste uma mensagem

De: mãe

A fila está enorme. Queres fazer um jogo?

 

Recebeste uma mensagem

De: Filha linda

Um jogo?! Que jogo? Porque é que estás a mandar mensagens? Estou no carro contigo!

 

Recebeste uma mensagem

De: mãe

Sei lá, vamos inventar. Eu pouso o meu telemóvel e tu pousas o teu.

Porque assim garanto que me respondes.

Às vezes parece que não estás no carro comigo.

 

Recebeste uma mensagem

De: Filha linda

Tá bem! Mas se for chato volto para a net. Pouso em três…

 

Recebeste uma mensagem

De: Mãe

Combinado. Dois, um…

 

- Às vezes gostava que o céu fosse cor-de-rosa.

- Às vezes gostava de ter um avião para não ficar fechada no carro tantas horas. Nestas filas horríveis.

- Às vezes gostava de ter mais tempo para fazer o jantar.

- Às vezes gostava de não ter de comer verdes ao jantar. Especialmente brócolos.

- Às vezes gostava de cozinhar para a minha filha só o que ela gosta de comer. Mas tenho medo que fique doente.

- Às vezes gostava que a minha mãe fosse menos chata.

- Às vezes gostava de me preocupar menos.

- Às vezes gostava de poder falar com as minhas amigas o tempo que me apetece.

- Às vezes gostava de ter conversas com a minha filha sem ela se aborrecer comigo.

- Às vezes gostava de morar perto da escola e das minhas amigas.

- Às vezes gostava de trabalhar menos para estar mais tempo com a minha filha.

- Às vezes gostava de acabar com os jogos que a minha mãe inventa.

- Às vezes gostava de dizer à minha filha que a amo muito.

 

Porque amo. Mesmo muito, para lá do que a razão sabe explicar.

 

Recebeste uma mensagem

De: Filha linda

Também te amo, mãe.

Concorri mas não ganhei #6

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Para a estrela mais brilhante no meu céu

Podia contar-te um mundo de coisas. Explicar-te que a vida é complexa e que raramente se transforma no que esperamos dela. Que existem momentos que nos ultrapassam e redefinem as nossas vidas de formas que nunca antes pensamos ser possível.

Mas quero dizer-te que a vida tem vida própria. Que se move como entende e que, de forma inesperada, como uma bola que curva sem que estivéssemos à espera, nos tira o tapete e nos manda ao chão.

Lembro-me do dia em que desci a rua de Almada de mão dada contigo. Sabendo-me doente, sabendo-te pequena e indefesa. Sabendo-nos precisadas uma da outra.

A bola curva de que tenho fugido. Sei que inevitavelmente me atingirá.

Sonho com o dia do teu casamento. O teu cabelo em cachos debaixo de um véu imaculadamente branco. As curvas do corpo abraçadas por um vestido branco de cetim, costurado por mim. Cada pérola pregada pela mãe orgulhosa.

Imagino-te de canudo na mão. Alcançarás o que para mim jamais foi uma hipótese. Quanto mais um sonho.

Sonho com os momentos da tua vida desde o dia em que te abracei pela primeira vez.

A vida pode ser maravilhosa, porque a vida, meu amor, nada mais é que um aglomerado de momentos. Fazemos deles o melhor que conseguimos. Aproveitamos cada sopro.

Faz amigos. Brinca com as bonecas. Só mais um pedacinho. Pisa as poças que não pisaste até hoje. Rebola na areia da praia. Apaixona-te pelo Manuel que está na carteira ao lado, mas não lhe dês o teu coração. O amor virá mais tarde.

Lembra-te de mim sempre com um sorriso. Não penses nos momentos que podiam ser.

Aprende o que és. Escuta-te. Sê feliz. Que eu sou, feliz aqui dentro do teu coração.

Com amor,

mãe

Concorri mas não ganhei #5

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

O pequeno bairro escondido no meio das montanhas acordou sombrio e escuro depois de meses de alegria. O som dos gritos da mulher do médico ecoava pelos montes e transportava pelo ar a dor de quem perde quem ama. De quem perde a razão de viver.

- Não se entende quem o possa ter feito.

Tinham chegado aquela cidade ainda tudo era cinzento. Os miúdos corriam pelos campos sujos e descalços, não viam livros nem cadernos, comiam o que havia e entregavam-se às brincadeiras parvas que a ignorância traz. Os pais trabalhavam de sol a sol nas minas. Chegavam a casa tão escuros quanto os dias. Esses que não pareciam mais claros que a noite.

- Falta alegria a esta gente. Falta alento.

Disse para a mulher no dia em que decidiu ficar. Montou o consultório para tratar as maleitas de quem só lhe pagava em galinhas. Às vezes um queijo. Outras hortaliças.

- Aí doutor que me morre o homem.

Demasiado tempo dentro da mina. Falta de sol e uma alimentação de tripas e pão.

Aos domingos fazia de pastor. Trazia as histórias do Senhor. Falava da luz que havia para lá das montanhas. Da vida que ninguém conhecia. Passava os domingos sentado no jardim do bairro, a ensinar aos miúdos as letras. Que a vida podia ser diferente das minas.

Mesmo sem luz aquela gente foi ganhando alento. Dias melhores podiam vir.

- Porque faria alguém mal ao médico?

Estava um dia sombrio e os gritos chiavam aos ouvidos de todos. O bairro acordou em agonia.

- Mataram o médico!

A mulher foi encontra-lo estendido no escritório. No meio do próprio sangue. O bandido tinha entrado pela janela.

A mulher, essa enlouqueceu e o bairro, o bairro voltou à escuridão que o carvão das minas reserva sem perdão.

Concorri mas não ganhei #4

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Almada, 23 de Agosto de 2010

(como disseste “uma carta leva sempre data”, aqui vai ela. Nos e-mails não usamos isto, tens de abrir conta avô)

Tenho que te dizer, bela jogada. Estava mesmo a ver que me levavas o rei, mas não.

Como estás, avô?

“E tu rapaz?” Não é? Quase te ouço e tenho vontade de rir.

Estou bem. Tenho saudades tuas. Tenho saudades da aldeia. Das tardes passadas no alpendre, entre jogadas de xadrez, histórias do Ultramar e uns pedacinhos de pão com chouriço. Sempre um canto do pão. Sempre um pedaço de chouriço em cima. E a tua navalha que trouxeste da Guiné.

O pão aqui não sabe ao mesmo. Compro montes de pães com chouriço na cantina da escola, mas nenhum sabe da mesma maneira.

A mãe inscreveu-me num monte de atividades bué muito cansativas. Agora ando no Karaté, duas vezes por semana ao fim da tarde, na natação, noutros dois dias e ao fim de semana vou ao futebol.

Há montes de tempo que não vejo as minhas series na TV. Tenho saudades dessas tardes sem fazer nada depois da escola. Das tardes que passava em tua casa.

Aqui não vamos para a rua brincar. Fico sempre fechado em casa. Por isso é que ando em tantas atividades.

Tenho saudades da tua casa avô. Do cheiro a lenha acabada de cortar no Inverno. De te ajudar a carrega-la enquanto discutimos a minha ultima jogada.

Tens de falar com a mãe para ela me deixar ficar contigo nas férias. Está bem?

Porque é que não vens passar uns tempos connosco? Temos um quarto a mais.

Pensa nisso. E depois diz-me se queres começar um jogo novo.

Este acabou.

Adoro-te avô e tenho saudades tuas.

p.s.: rainha para bispo, C5 para F8. Xeque-mate

Concorri mas não ganhei #3

 

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Por favor não deite este papel fora. Responda a este questionário e volte a colocar a folha no envelope e o envelope debaixo da porta.

Obrigada.

A minha professora diz que as pessoas não sorriem o suficiente. Que as pessoas andam sempre de cara fechada e que sofrem sem sabermos.

Nunca reparei que as pessoas não sorriem.

A minha professora mandou-nos como trabalho de casa pedir a algumas pessoas que respondam a perguntas sobre serem felizes.

Eu não gosto de andar a fazer perguntas por isso fiz este questionário. Depois venho cá buscar.

Não sou sua vizinha da frente nem moro no seu bairro. Posso ser rapaz ou rapariga, ter dito vizinha não quer dizer nada.

Peço-lhe que não dê respostas muito grandes porque tenho ainda mais dez questionários para ler e depois tenho de fazer um resumo e não queria ter muito trabalho. Sou jovem e quero viver. Preguiçosa, mas honesta, ou honesto, dependendo de ser rapaz ou rapariga.

Se vir uma senhora ruiva, quase a chegar aos cinquenta, sempre com vestidos floridos e com uma mala creme, sorria por favor. Não me apetece fazer mais trabalhos destes e de qualquer forma a vida é curta demais para estar de trombas.

Ah e, obrigada pela participação (se não participar não vou conseguir ter boa nota e se não tiver boa nota a minha mãe vai-me pôr a cortar relva o verão todo).

_____________________

 

Questionário:

  1. (pergunta cliché – teve de ser)

Qual foi a última vez que sorriu?

  1. (esta também)

Acha que as pessoas sorriem pouco?

  1. (esta é mais ou menos porque tem de ser, eu melhorei)

Feche os olhos, pense num momento feliz. Agora descreva o que o fez sorrir.

  1. (esta é minha)

O que é que vai fazer hoje para ser feliz?

Concorri mas não ganhei #2

tempo.jpg

 

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Tempo. O que é o tempo? Para que serve o tempo? Como se conta o tempo? O tempo.

Se perguntasse a um cientista iria dizer-me que o tempo é a soma dos segundos, que resultam nos minutos, que acabam nas horas, que formam os dias, que compõem as semanas, que se transformam nos meses, que resultam nos anos sempre iguais.

Dir-me-ia que o tempo serve para contar e organizar, para sabermos onde temos de estar a cada momento. Para sabermos quando começa e acaba o dia.

Para mim o tempo é um Foda-se gigante. Raras são as vezes que olho para o relógio e não digo Foda-se, já são estas horas.

O tempo é um ditador que inventou um objeto com ponteiros para nos perseguir. Aquele que diz que quando o ponteiro está nas nove tenho de estar no trabalho em vez de deitada na minha cama ou espraiada ao sol.

Para mim, que sou uma sentimental e que mandava à fava qualquer cientista, para mim, o tempo devia contar-se em momentos. O momento em que beijei com paixão pela primeira vez, os momentos em que senti o sol escaldar a minha pela nas tardes de praia. O momento em que vi o meu filho pela primeira vez, o momento em que soube que eras o amor da minha vida.

O momento em que disse “sim”.

 

Levanto-me de manhã e lavo a cara. A que traz a rugas marcadas pelo tempo a passar por mim. Olho-as e conto o meu tempo em momentos.

Depois o alarme do telemóvel toca. O ditador outra vez. Tira-me do tempo contado em momentos e lança-me nesta vida de tempo em ponteiros.

Foda-se, já passa das nove!

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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