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Em busca da felicidade

O facebook e a feira da minha terra

Quando eu era miúda vivia numa vila pequena da Margem Sul que dá pelo nome de Corroios. Hoje já nem sei se é vila, se o que será. Mas também não importa para o caso. O que importa é que em Agosto dava-se o acontecimento do ano: a feira de Corroios. As ruas eram fechadas ao trânsito e davam lugar às bancas dos feirantes: pipocas, algodão doce, cachorros quentes, mel, charcutaria diversa, chupas&rebuçados, mantas, rifas. Tudo acabava nos carroceis e nos carrinhos de choque. Os meus irmãos iam andar de carrinhos, atirando as viaturas uns contra os outros, eu, porque era pequena demais para essas andanças (e porque uma menina não anda à pancadaria em carros sujos), ia com os meus pais ao leilão dos cobertores. Era uma senhora gorda, que falava alto que chegasse para não precisar de um altifalante. Abria a porta da carrinha, repleta de mantas, cobertores, lençóis com folhos, toalhas de um turco nunca visto. Dava o mote para base de licitação e ali estávamos, a ver quem levava o cobertor com o desenho do leão para casa.

Até chegarmos à dita carrinha cirandávamos pelas outras bancas. Raras vezes íamos comprar alguma coisa, por isso o recado: «veem com os olhos, não se mexe no que não se vai comprar, não se chateia quem está a trabalhar». A minha mãe gostava pouco daquela gente que, aos seus olhos, fazia pouco de quem trabalhava. Porque eles andavam sempre por ali. Entravam nas bancas, mexiam em tudo, criticavam o produto, perguntavam o preço, criticavam o preço, que o bem «não vale isso nem que você se pele», pousavam o bem, criticavam o vendedor, não tinha jeito para atender os clientes, assim não havia de vender nada.

Estas pessoas nunca estiveram interessadas em comprar nada. Umas porque nem dinheiro tinham, outras porque achavam interessante fazer pouco de quem vendia na feira. Eles que trabalhavam em escritórios ou em lojas finas de perfumes eram muito melhores que «aquela gente».

Hoje acho que estas pessoas têm todas contas no Facebook, entram nas páginas públicas dos outros e, apesar de não gostarem do que são, ou apesar de os invejarem, ou seja lá pelo que for, entram. Para eles é o mesmo que entrar numa loja para implicar com o dono, implicar com a vendedora. Criticam o que a pessoa é, o que a pessoa disse, o que a pessoa não disse, o que a pessoa vai ser daí a 5 anos e ainda regateiam a profundidade da bosta que dizem.

É a feira de Corroios chutada para a estratosfera digital. A massa de gente que vai, gosta. Quer que a feira volte. Respeita. Depois há os nichos de gente que ciranda a terra como se estivessem a fazer um favor a Deus nosso Senhor. São uma espécie de bullys sociais, ou apenas os idiotas que antigamente se sentavam ao canto da taberna, mas agora têm um telemóvel com touch screen.

 

Tenho um profundo respeito pelo Nuno Markl, faz-me rir, e eu respeito pessoas que, sem me serem nada, me alegram o dia. Penso que de todos os humoristas é o mais inofensivo. Não que os demais sejam ofensivos, acho que não há nenhum de que não goste, e adoro os mais ácidos. Fazer rir não é fazer mal. Fazer mal é deixar um animal abandonado à sua mercê, preso num rail. Fazer mal é ver alguém cair e, em vez de lhe estender a mão, desviar-se para que não impacte 2 cagagésimos o seu dia. Fazer mal é sair do meu caminho para ofender alguém só porque essa pessoa disse o que pensava.

 

A maldade das pessoas resume-se à sua frustração, má formação, ignorância e maldade. Fazer rir é um trabalho difícil e pessoas como o Nuno trabalham todos os dias para alegrar alguém, para arrancar uma gargalhada num dia de merda. Essa é a vitoria do seu dia de trabalho. Vejam como é difícil.

Ser humorista não é ser médico, mas quando estamos na merda e nem os médicos conseguem ajudar só há uma coisa a fazer: rir. Rir muito disto tudo.

 

Hoje, quando vi a mensagem do Nuno Markl no Instagram lembrei-me da feira da minha terra. Lembrei-me das pessoas que entravam nas bancas de quem estava a trabalhar, não queriam comprar nada, só queriam estragar-lhe o dia.

 

Espero que o Nuno pense o mesmo que a senhora das toalhas de mesa e saiba que: «estes cabrões só para aqui vêm para me dar conta da mona». Que os mande pastar e nos continue a fazer rir, mas rir muito. Eu cá sei a falta que ele me faz todos os dias a caminho da 25 de Abril.

 

 

Aí a p%&ta da memória

crs.png

 

Fomos ao AKI comprar umas coisas que nos faziam falta. Seguimos para a caixa:

 

Senhor da caixa

Deseja pagar como?

 

Nuno

Multibanco

 

Começa à pesca do MB na carteira. Nada de encontrar o dito; parecia um daqueles velhotes que colocam a arrastadeira de lado e se enconstam ao balcão a contar os trocos enquanto dizem: «ora menina ajude-me lá a contar aqui as moedas.»

Eu armada em chica esperta saco do meu MB:

 

Eu

Deixe estar, está aqui o meu. Afinal de contas sai tudo do mesmo poço.

 

Lampeira marco o código. Dá erro. Só me estava a ocorrer o código de entrada da porta de casa.

 

Eu

Grande merda. Parecemos dois pategos. Porra que não me lembro do código.

 

Retirei o cartão e o Nuno pagou com o dele (entretanto encontrou).

 

#putadamemória

#jánãodápamais

#estoutodaqueimada

 

 

As cuecas do estropiado

calvin.png

 

Tenho este habito estúpido de estar sempre a dizer baboseiras. Tenho esta mania de querer ser engraçada, de entender que tudo pode ser alvo de uma piada, de que mais vale rir quando pouco mais há a fazer. O sarcasmo ajuda. Pelo menos a mim. Ridicularizar a vida quando ela nos pontapeia, dá-me uma certa leveza de espírito. Que mais não seja porque não lhe faço totalmente a vontade: «até pode ser como entendes, mas eu escolho se rio ou choro!»

O Nuno estava sentado na cadeira, cateter enfiado no braço, branco como a cal, aflito com dores. E eu, eu desesperada para que sorrisse. Tenho sempre para mim que se conseguir uma gargalhada ajudo ao medicamento. Que tenho o poder de fazer a cabeça esquecer da dor, nem que seja por uma fração de segundo.

 

«Não querias era que passasse o dia lá com o francês! Para a próxima diz, escusas de te meter numa destas!»

Recebi na segunda-feira um colega francês que veio a Portugal de propósito para ver o resultado de um projeto que pilotei. Deixei-o sentado e corri para ir com o Nuno ao hospital. (nada de preocupações, o colega tinha outras coisas para fazer).

 

«Deves ter bebido água demais nestes dias! Os teus rins não estão habituados a trabalhar!»

O Nuno raramente bebe água. Todos os dias leva uma garrafa para o trabalho. Todos os dias a garrafa volta como foi. Todos os dias lhe digo que «qualquer dia…qualquer dia…». Costumamos brincar que se vendêssemos um rim dele nos dariam bom dinheiro, afinal de contas tem alguns anos mas está como novo, quase não foi usado. Daí foi um saltinho, esta situação podia facilmente resultar de um excesso de água. Já se sabe que quando uma pessoa se habitua a fazer pouco depois reclama, pelo que era uma boa piada. Nada.

 

«Acho que estiveste demasiado tempo de costas para o vento este fim de semana! Bateu-te tanta areia da praia nos rins que criou um calhau por osmose!»

Puxadinha…mas o desespero é lixado.

 

«Estava aqui a pensar amor…que cuecas trazes tu? Tens umas cuecas em condições, certo? É que estava aqui a lembrar-me das cuecas do estropiado…tens de pensar em comprar uns pares da calvin klein, imagina tu que tens de tirar as calças….»

Ficou com mais dores ao pensar que eu lhe estava a impingir uma forma de gastar mais dinheiro.

 

Não é fácil estar casado comigo. De maneira nenhuma. Um gajo a sofrer as dores de parto que a gaja não imagina porque foi para uma cesariana marcada, e a tipa a fazer piadas de cuecas. Tenham dó!

 

Nota: Pelo menos agora um de nós sabe o que são as dores de parto…e não sou eu!

 

Sôtor quer é tasco

Tony-Husband-Cartoons-Punch-1991-10-23-43-2.jpg

 

Quando eu e o pai fizemos 3 anos de casamento fomos jantar fora. Levámo-lo. Aliás, como relatei aqui, passámos a referida data em família, acabámos a tarde na praia e aproveitámos para jantar num restaurante simples à beira mar.

Sôtor ficou encantado com aquilo.

Não é que nunca tenha ido a um restaurante. Aliás, farto disso está ele. Mas ir comer à beira mar depois de uma tarde bem passada a mandar os pais fazer castelos na areia, é outra coisa.

 

Por isso, desde esse dia, sempre que saímos da praia arrasta-me até aos cartazes para me dizer as coisas boas de comida que o espaço à beira mar tem. Invariavelmente são: «pão, tatas fitas e tonas.» Para quem não sabe «tonas» são azeitonas. Claro, dah!

No fim de semana passado disse-me:

«Mãe, pai, cado…fôa!», e apontava para a esplanada do restaurante em frente à praia.

«Queres comer fora?»

«Shim!»

Fizemos-lhe a vontade. Depois, não só comeu fora como cravou uma bugiganga da rua dos pescadores. Levou um avião, o qual usa para me atormentar. Todos os dias me pede folhas para que EU lhe desenhe o homem aranha, a pilotar o avião, onde vai o papa. Para sôtor meu filho o papa vai em todos os aviões. Ou seja, a ser verdade o papa é um vadio que passa a vida no laréu em vez de estar a fazer o trabalho dele lá no Vaticano.

 

Este fim de semana quando saímos da praia repetiu-se a conversa.

Disse-lhe:

«Olha lá, tu queres é tasco, pá!»

Ele respondeu satisfeito com a ideia e contente consigo mesmo:

«Cado, tasco!»

 

Já viram a minha vida?

 

Os pais às vezes são um bocado pategos

No sábado decidimos ir dar uma volta à Toy's ur Us de manhã. Já andamos há várias semanas para lhe comprar um triciclo e era importante saber se ele se interessava por um ou não; porque o que é certo é que nem sempre o tipo acha graça ao queremos que ache graça.

Estávamos preparados psicologicamente para o caos, que ele se larga-se que nem um louco a varrer prateleiras e a dizer: «qué isto. quê isto. Cado quê isto!», nós doidos, com sorrisos amarelos para os outros pais enquanto voltávamos a colocar tudo no devido lugar.

Mas nada disto acontecer.

Sôtor entrou na loja com olhar circunspeto, parecia matutar: «isto deve ser uma brincadeira de rasteira, só pode!». Cirandava pelo espaço, primeiro suspeito, depois encantado. Afinal de contas aquilo pode de facto parecer a Disney para um tipo com dois anos e meio.

«Anda com o pai ver os popós!», correu para o pai.

Não compreendo a loucura que esta criança tem com carros. Mas só vê carros, carros e carros à frente.

Devia estar à espera de algo completamente diferente, porque quando viu os carros de tamanho mini em que dava para ele, de facto, andar la dentro, ficou possuído pelo demónio.

Perdi a conta às vezes que ele entrou e saiu dos dois Jeep's que estavam em exposição. Depois, acrescentando à nossa boa ideia, decidimos pô-lo a experimentar um Audi que tinha bateria. Não demorou minuto e meio a perceber como se punha para fora da loja. Qual Velocidade Furiosa 10.

Nós de mãos à cabeça.

«Pronto filho, já chega. Agora temos de ir ver outra coisa.», disse-lhe eu arrastando-o em direção ao triciclo. Quando lá chegámos o que aconteceu foi mais ou menos o que passo a relatar.

 

O miúdo parou ao lado do triciclo, olhou para mim, depois para o pai, depois para o triciclo e fez cara de quem pensou: «Vocês drogam-se?! Ou isso ou bebem. Então primeiro falamos de carros de primeira linha, e depois querem que me monte neste engenhoca com três rodas e dois pedais. MAIS! Querem que dê à perna, quando os outros andam sem esforço. Tenham juízo!». Verbalizou apenas o «Não!» e pôs-se a andar para os Jeep's.

 

Reconheci a minha pateguice. A verdade é que lhe mostrámos isto...

 

...depois isto...

 ...e no fim queríamos que ele levasse para casa....isto....

 

Eu no lugar dele dizia: «Vão ser burros lá pra vossa terra...atão! Devem estar a fazer pouco de um gajo!»

 

 

Ser uma gaja boa tem as suas vantagens

Ontem caminhava pelo shopping durante a hora de almoço e dou com um moço que trazia um saquinho de papel do Celeiro cheio de mercadorias. A determinada altura o saco rompe e lá andava o rapaz a catar tudo: o lanche, a água, as proteínas. Eu ajudei com a garrafa de água que rolou para perto de mim.

O rapaz, sem jeito diz-me: "estes sacos são uma porcaria."

Sorri, porque sei que são.

Hoje fui ao Celeiro comprar lanche. À minha frente uma moça vê todas as suas compras enfiadas num saco de papel mais fino que uma folha de impressora. Ao lado o moço das barbas coloca um saco dentro de outro - por forma a dar-lhe mais consistência - para que a moça gostosa transporte um pacote de mirtilos. Logo mirtilos, que são mais pesados que os cocos!

Depois não me digam que ser boa não tem vantagens! Pois não, não tem!

 

O meu marido é um homen sabio

Eu

Olha diz aqui que ser vegetariano pode fazer mal à saúde.

 

 

Marido

Isso já se sabe há anos. Ser omnívoro também faz mal. Estar vivo faz mal à saúde.

 

 

A primeira vez que vi o Titanic

Enquanto trabalho ponho os phones para ouvir música. Tira-me do som das teclas dos outros computadores e ajuda-me a concentrar nas tarefas menos cerebrais. Também me ajuda a estar calada e focada no que tenho para fazer.

Normalmente prefiro musica clássica, para ler documentos e para escrever relatórios. Mas para coisas rotineiras têm de haver letra para me entreter os neurónios.

No inicio da semana dei com os 10 + dos Roxette. Ontem desencantei a Celine Dion. Não é coisa que goste por aí além, mas traz-me lembranças.

Hoje ouvia a música do Titanic e lembrei-me de quando vi o filme pela primeira vez, numa sala de cinema minúscula no Miratejo. Era a ultimo dia em que o filme ia passar e, a maior parte das raparigas com que ia já tinha visto o filme pelo menos duas vezes. Algumas já choravam antes mesmo de entrar.

Quando chegou a parte de o Jack estar seguro na mão da Rose já havia um rio dentro da sala de cinema. Toda a gente a chorar como madalenas e eu, eu ria descontroladamente.

Pois.

Nunca entendi porque raio não se revezaram em cima da porta de madeira. E depois aquela cena de ela tentar deslarga-lo da mão dela. Brutal.

Ainda hoje me farto de rir sempre que vejo.

 

Um político, um banqueiro e um cigano vão meter papeis à Segurança Social

O gabinete da Segurança Social tinha aberto portas como num qualquer dia normal. Já havia uma fila de pessoas à porta que lá estavam desde as 7:30 da manhã, mães com filhos ao colo, casais que acabaram de ser pais, velhotes que já tinham estado no dia anterior na CGD e este era o dia de ir visitar a senhora da SS para saber de estava tudo OK com a reforma.

Às 10:15 já não havia senhas e, a ultima pessoa branca de olhos azuis residente no Bairro Social C, já se tinha ido embora a reclamar que era sempre a mesma merda na SS porque as senhas acabavam cedo. Estava desempregada há 3 dias e precisava meter os papeis. Tinha trabalhado numa empresa de limpezas pelo ordenado mínimo. Essa faliu e foi para uma empresa de catering, também a ganhar o ordenado mínimo. Depois de dois dias doente com uma apendicite, despacharam-na ao fim do primeiro contrato. Depois foi para uma empresa de trabalho temporário, uns dias estava no café do Colombo, outros estava a recolher tabuleiros e ainda havia dias em que fazia limpezas nas casas de banho porcas do aeroporto da Portela. Também aqui ganhava o ordenado mínimo.

À saída cruzou-se com um cigano.

“Já não há senhas!” disse-lhe.

“Não há senhas! ÁÁÁÁÁiiiiii, filhas da puta que gastaram as senhas todas! Vão já encontrar senhas senão vou partir esta merda toda!”

“Veja lá o que é que consegue! Bom dia!”

“Bom dia. Obrigada menina!”

O cigano sobe as escadas e constata que não há mesmo senhas. Trinta a cinto “Aís” depois aparece a mulher, a irmã, a mãe, o cunhado e os 9 filhos do casal. Iam pôr os papeis para o subsidio do ultimo.

Levanta-se um arraial completo de gritaria “vou-te matar a mãe! Áiiiiii, dá-me uma sénha!!! Deves tê-las guardadas!!!!”

Instala-se a confusão e os seguranças acorrem para ajudar. A PSP pôe-se a caminho, mas como apanha um acidente no alto de Monsanto não consegue chegar tão depressa quanto queria.

A gritaria mantém-se, os velhotes assistem a tudo contentes porque está a ser mais divertido que as manhãs da Júlia e, à tarde, quando forem ao supermercado já vão ter de que se queixar.

Nisto chega um político. Vai direito à maquineta das senhas, a pressa era tal que nem se deu conta da confusão que para lá ia.

- Não. Há. Senhas.

Diz para a senhora que estava encostada à máquina porque já não havia cadeiras disponíveis para se sentar.

- Pois não! Há horas que não há senhas!

- Mas. Porquê?

- Devem ter sido os cabrões dos ciganos! São sempre os ciganos! Chegam aqui e tiram as senhas todas!

O político olha para a família de ciganos e decide que talvez seja melhor mandar chamar o gerente da espelunca. Isto falar com pessoas de baixo nunca tinha resolvido nada e não ia ser agora. Dirige-se então ao balcão de informações.

- Bom dia. Preciso. Que. Me. Mande. Chamar. O. Gerente. Deste. Belo. Espaço. Que. Não. É. De. maneira. Tão. Lindo. Quanto. O. Freeport. Mas. Que. Não. Está. Mal.

- Não há gerente Engenheiro…quer dizer senhor…melhor…ãhhhh…ó pá isto não tem gerente, tem chefe de serviço. Só se quiseres falar com esse. Mas ele agora está um bocado embrulhado ali com os ciganos.

- Veja. Lá. Homem. Tenho. O. Carlos. À. Minha. Espera. Para. Irmos. Para. Paris. Ver. As. Obras. Na. Casa. Dele!

- O chefe de serviço é aquele que o cigano está a segurar pelos colarinhos. Olhe, fale com o cigano!

O político vai ter com o cigano. Pede-lhe que liberte o chefe de serviço porque precisa mesmo de falar com ele. O cigano resiste a largar o chefe de serviço, mas depois reconhece a pessoa que o estava a abordar.

- Você é o ... !

- Sou. Sim. Senhor!

O cigano espeta um banano no chefe de serviço e deixa-o arrumado a um canto. Limpa as mãos às calças e estende a mão direita ao político para lhe dar um aperto de mão.

- Aprecio muito o seu trabalho. Ao pé de si nem me sinto cigano.

O político fica a olhar incrédulo para o chefe de serviço. Agora como é que ia arranjar senha? Lembrou-se rapidamente de que a tipa ao pé da máquina das senhas lhe tinha dito que quem tinha as senhas todas eram os ciganos e, já que o chefe da família gostava tanto dele, ia certamente conseguir que lhe arranjasse uma.

- Fico. Contente. Que. Goste. Muito. Do. Meu. Trabalho. Esforço-me. Pela. Comunidade. Olhe. Já. Que. Gosta. Tanto. Do. Meu. Trabalho. Acha. Que. Podia. Dar-me. Uma. Senha. Em. Troca. De. Um. Livro. Meu. Autografado. Esteve. No. Top. De. Vendas!

O cigano explicou ao político que estava a conversar com o chefe de serviço mesmo por causa disso, não havia já senhas quando tinha chegado. Mas gostava da ideia de ter um livro autografado. Mas já agora que estava na companhia do Engenheiro queria aproveitar para saber se ainda corria.

- Corro. Sim. Senhor. Porquê?

O cigano tinha cinco caixas de t-shirts da ARDIDAS na carrinha. Precisava despacha-las mas os clientes na feira andavam a ficar esquisitos. O político estava com pressa, mas como tinha medo que aquele fã se chateasse e lhe acabasse por aplicar uma xinada aceitou ir à carrinha ver o material.

- Isto. É. De. Muita. Qualidade. Mas. Está. Mal. Escrito. Você. Não. Arranja. Isto. Como. Deve. De.ser?

- É contrafeito. Vem sempre assim. Roubado é melhor…

- Não. Diga. Roubado. É. Uma. Palavra. Feia. Que. Lhe. Pode. Dar. Problemas. Diga. Antes. Que. São. Emprestadas. Da. Empresa. De. Um. Amigo. De infância.

O cigano confirmou que estava perante o seu ídolo.

Comprometeram-se a voltar a encontrar-se noutra ocasião para arranjar forma de vender as t-shirts em Paris a turistas chineses que achavam que tudo era arte.

O político e o cigano voltam às finanças e o Político vai ter com a senhora das informações. Não havia chefe de serviço…estava indisponível e também não havia senhas. Nem ele, nem o senhor cigano tinham senhas e ambos precisavam de ser atendidos.

- Só se convencer alguma pessoa a ceder-lhe a sua senha.

O político micou umas velhotas ao canto da sala de espera, eram aquelas, só precisava que duas dispensassem as senhas. Uma para ele e outra para o amigo cigano. Afinal de contas nunca se sabia quando é que o seu recente amigo não lhe dava a tal xinada.

- Boa. Tarde. Minhas. Lindas. Senhoras. Posso. Sentar-me. Ao. Pé. De. Vocês?

As senhoras que sim, desde que o cigano não viesse também. Gostavam muito de toda a gente e até tinham amigas ciganas. Mas agora não lhes apetecia que o cigano se sentasse ali tão perto.

Dois dedos de conversa bem dados e o político lá lhes prometeu um chá na humilde casa de sua mãe, ali para os lados do Marquês. Nesse chá falariam melhor dos cursos de engenharia dos netos de ambas as senhoras. Conseguia puxar uns cordelinhos, desde que eles não se importassem de fazer as provas finais num domingo. Entretanto e em troca das senhas deixava um livro autografado a cada uma. Tinha muitos lá em casa, afinal de contas o amigo Carlos tinha gostado tanto que lhe tinha comprado vários exemplares, quis ler o livro várias vezes mas não queria repetir as folhas.

As velhotas foram à sua vida e o político orientou a senha ao cigano.

Enquanto esperavam e debatiam o negócio das t-shirts aparece um senhor bem penteado acompanhado de três tipos vestidos de preto. Quase pareciam ex-Mossad. O senhor comportava-se como se fosse dono daquilo tudo e estava manifestamente indignado por não haver senhas.

- Só se quiser que o chefe de serviço volte a si e depois fala com ele.

- Acha que falo com chefes de serviço?

Indignou-se o homem. Mandou chamar uma administrativa que trazia sempre consigo para as tarefas mais aborrecidas.

- Ó Margarida, meta-me aí o José Afonso em linha.

A administrativa tinha o numero direto para o ministro e colocou-o em contacto com o senhor banqueiro num ápice.

- Isto é inadmissível, pá! Tenho de despachar os papeis para o RSI hoje. Arranja-te!

E arranjou-se.

Passada meia hora todos os funcionários foram chamados pelo chefe de serviço que, fazia poucos minutos, tinha sido acordado do seu desmaio para falar com o Gabinete principal do Ministério. Era para fechar portas e atender o senhor banqueiro.

Uma das funcionárias indignou-se, queixava-se que o cigano lhe tinha oferecido pancada se não fosse atendido.

- Duas lambadas passam-te daqui a dois dias. Se fores para a rua é pior!

A funcionária explicou que enquanto funcionária publica não podia ser despedida, por isso aquilo era conversa de merda. O chefe de serviço explicou-lhe que podia ser transferida para a Cova da Moura. A funcionária calou-se e aceitou que podia correr o risco de levar dois estalos.

Faltavam dois números para a vez do político (que conseguiu convencer o cigano a ficar com o numero depois do dele em troca de mais dois livros autografados) quando o chefe de serviço avisou que iam fechar portas por causa de um imprevisto. Retomariam atividade no dia seguinte à mesma hora e pediam desculpa pelo inconveniente.

O cigano ainda tentou pregar-lhe mais um banano, mas os amigos da Mossad eram mais engenhosos que o cigano e mostraram-lhe a saída.

 

No dia seguinte o político e o cigano conseguiram meter os papeis.

 

 

(a história relatada é puramente ficcional não tendo por intenção ofender nada nem ninguém)

 

Sôtor é que sabe #3

Ao final do dia decidi ir fazer panquecas para o pequeno almoço de hoje. É um habito, fazer uma "fornada" de panquecas, guardar no frigorífico, e ter sempre pequeno-almoço feito para a semana.

Dizia eu que me fui pôr a fazer panquecas, eram quase dez da noite. Assim que sôtor percebeu o que eu ia fazer começou a cirandar.

A determinada altura lá estica a mãozinha para "desviar" uma panqueca, enquanto diz para o pai "queca". Como quem diz, chega aí uma. Lá o pai arranjou uma desculpa porque estavam quentes que iam brincar e que daí a minutos já podia comer porque já estavam boas.

Não se passaram sequer 10 minutos e ouço-o a correr de uma ponta da casa para outra a dizer:

"QUECA, QUECA, QUECA!"

A vizinhança a passar e a ouvir aquele belo serviço.

Parto-me a rir e dou-lhe metade de uma.

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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