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Em busca da felicidade

Sôtor "o céptico decidido"

 

Andamos a tentar usar o Pai Natal como forma de o convencer a portar-se melhor. Por isso, quando se lembra de começar a pedir coisas tentamos direcionar a conversa. Estas duas que relato abaixo são recorrentes.

 

Pede um brinquedo e eu digo-lhe:

- Sabes que para receberes presentes tens de te portar bem?

- Então não quero receber presente nenhum.

Ou seja, prefere não receber nada a que lhe comprem as opções. Não se vende por nada!

 

Pede um brinquedo e eu aproveito a época para recorrer ao senhor das barbas:

- Sabes que para receberes presentes temos de escrever uma carta ao Pai Natal. Queres escrever a carta hoje?

- Não. Já não quero presente nenhum.

Ou seja, quando pede sabe que quem orienta as prendas são os dois mouros que dão conta de tudo o resto. Os mesmos que ele considera dominar. Porque raio havia de meter ao barulho um velho de barbas que não é tido nem achado para esta conversa. 

 

Em resumo: É mesmo muito, muuuuuito meu filho.

Eu e as comezainas de Natal

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A maior parte das pessoas queixa-se do natal e das suas comezainas. De andarem de bandulho bem cheio e engordarem sempre p'a cima de 2 quilos.

Eu sou ao contrário, perdi 1 quilo. E isto porquê?

Porque esta alma não gosta de praticamente nada de natal. Não gosto de sonhos, de filhoses, detesto bolo rei (quer dizer se tiver um momento desafogado até tiro tudo e fico só com a massa), não gosto de tronco de natal, nem de lampreia de ovos (blhac, quem é que inventou aquela porra?), nem azevias e muito menos de broas castelares. Parece que uma pessoa está a roer uma rolha ou coisa que o valha.

Gosto do bacalhau com couves. Ponto. O cabrito, se bem feito também, mas o resto. Nada.

Este ano de sobremesa fiz uma mousse de chocolate e comi uma taça. Fiz uma torta de chocolate com chantilly por dentro para levar para a casa do meu irmão. Aquilo que comi a mais foi isso. Duas taças de mousse e uma fatia e meia de torta.

Esta semana chego ao ginásio e tinha perdido um quilo. É que ainda por cima este ano nem uma caixa de bom-bons me calhou.

 

Os brinquedos, as crianças, os pais e a noite de Natal

 

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Ainda não percebi se as escolhas feitas pelas marcas para segurar os brinquedos nas caixas têm por objetivo segurar os ditos no sitio, garantir que as crianças não se magoam ou pretendem apenas fazer os pais suar que nem porquinhos na noite de natal com as crias a guinchar e a gritar numa pressão que nem o pior dos patrões consegue imprimir.

Já não basta os desgraçados dos pais trabalharem que nem mouros para comprar às crias os tão desejados objetos, que depois, em muitos casos se fingem ser entregues por um velhote gordo de barbas brancas que desce sempre pela chaminé mesmo que a casa não tenha, granjeando sempre os louros dos presentes que os putos recebem à laia de bons comportamentos que aconteceram de quando em vez. Nos intervalos das birras e das vontades, vá. A somar a isto ainda os coitados têm de estar ali, munidos da caixa de ferramentas, chave de fendas, busca poles e alicate. Tudo para garantir e extração dos bonecos de dentro da caixa.

Tudo para culminar na potencial choradeira quando, depois de feita a extração, se percebe que a porra do boneco não trás pilha. Quando se corre a casa toda e se esventram todas as gavetas para perceber que não há aquele tamanho em casa.

"Até pensava que já não se faziam".

O que vale é que este ano no AKI já há uma caixa por 12 euros e tal com pilhas de todas as qualidades imagináveis. Pode ser que tenham salvo alguns pais este natal.

É que uma pessoa pelo preço que cado boneco custa pensa sempre que trás pilha. É o minimo.

Senhores das marcas. Menos. Qualquer dia vemos o J.I. Jo colado com silicone do bom. Não vá o gajo tentar sair da caixa. Que o tipo é manhoso e cheio de truques.

 

E o Natal passou-se assim

Escrevo este post com o dia 25 a chegar ao fim e os resumos deste Natal de 2016 com balanço mais positivo que em 2015.

Para mim, desde que sôtor nasceu que a prenda é sempre a mesma. A que peço e a que, felizmente, tenho tido.

Não espero que se mantenha assim por muitos anos. Só quero mesmo que seja assim para sempre

Pois que a minha prenda é essa mesma. Sôtor meu filho. Saudável e feliz. Que mais posso eu querer?

75 milhões de euros? Sim. Mas só se esta parte estiver garantida.

Pois então, em jeito de sumário tenho a dizer:

- Ceia de Natal bem boa com marido, filho e sogros em casa. Trocámos meia dúzia de prendas e estávamos na tulha antes das 23 porque sôtor não tem idade para noitadas. (ou pelo menos era isso que eu pensava).

- Às 5h 30 minutos sôtor entende que é boa hora para a alvorada. Na excitação de brincar com os brinquedos novos até acordou mais cedo. Tentámos convence-lo a dormir mas o gajo nada de aceitar. Antes das 6 da manhã estávamos a caminho da sala para montar Lego. 

- Sôtor tem uma memória melhor que a de sua mãe e recordava-se perfeitamente do que tinha recebido tendo o tipo percebido que faltava uma caixa de peças (os avós levaram para ele brincar durante a semana). Por forma a tranquilizar a coisa, e porque estávamos a dormir, decidimos dar-lhe um tapete de pintar que tínhamos decidido que só lhe íamos dar mais tarde.

- Era suporto as canetas terem tinta de fácil lavagem, e à partida até têm, mas só no tecido especifico. Porque já esfreguei as mãos do puto e até esta hora ainda estão verdes.

- Às 7h 15 minutos conseguimos convencer sôtor a voltar para a cama. Dormimos quase até às 10 e passámos parte do dia grogues. Todos.

- Pela primeira vez na vida chegámos atrasados a um almoço de família e até o meu irmão me ligou porque não tínhamos dito nada.

- Almoçamos com família numerosa e sôtor portou-se como um herói, sendo, em permanência encorajado pelo tio a dizer "Benfica".

- Sôtor descobriu que o tio tem uma pequeno jardim na parte de trás de casa e, na zona onde está uma espécie de horta, escavou diversos buracos. O tio aprovou de maneira que não aceitamos reclamações.

- Sôtor dormiu o sono dos justos no caminho e hora e meia depois.

- Jantar - tostas e chá derivado das comezainas do dia.

 

Foi um bom Natal e afinal o Espírito de Natal sempre apareceu, devia estar à espera do fim de semana.

Agora, Ano Novo! Venha de lá o gajo!

 

Feliz Natal - Merry Christmas

 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

 

Sento-me na minha cadeira atrás do balcão. Uma cadeira alta que me permite ver com atenção todas as pessoas que passam à porta da loja. No meio das mãos tenho o chocolate quente que acabei de fazer. A loja não tem feito dinheiro que chegue para mandar arranjar o aquecimento e lá fora...lá fora neva. Casaco, gorro e luvas. Assim ando eu.

Em torno dos livros enfeites de natal. Umas bolas vermelhas que já não se seguram no pinheiro velho que tenho à entrada, uns pisa papeis com o pai natal e a neve que lhe cai em cima. À entrada uma rena com um ar chanfrado. Normalmente rouba uma gargalhada a quem entra.

Vendi alguns livros para crianças. Especiais nesta altura. Uns romances. Dos namorados para as namoradas de há poucos meses. Outros de maridos que o ano passado tiveram a terrível ideia de oferecer uma varinha mágica. A joia está mais do que vista e o livro passa a mensagem de que se preocupam. Isso e levar uma dedicatória amorosa na primeira página.

Aquela que normalmente ajudo a escrever.

Só por isso vêm a esta velha livraria. Porque os supermercados vendem todos os livros mais barato.

Já liguei à Clara, que vai passar o natal com os sogros. Queria que eu fosse. Mas família é família e eu sinto-me fora de sitio. E o meu sitio é aqui. A ver a neve cair.

Decidi abrir a loja, nunca se sabe quem tem um livro para comprar à ultima da hora.

 

Está a nevar lá fora. Passa das sete da tarde e já escureceu. A rua está linda. As luzes que enfeitam os prédios. As casas que parecem piscar com os pinheiros junto à janela. As pessoas que não fogem da neve. Afinal é natal e só alguns privilegiados têm neve como fundo de pano.

Parece tirado de um livro.

Resguardo-me com mais um casado e fecho a loja. Páro de costas para a porta, olho para o céu e deixo que a neve me caia sobre o rosto. Seria quase romântico se alguém me esperasse em casa.

 

Mal rodo a chave na porta ouço a coleira do Fiódor. 

- Olá menino. Já tinhas saudades minhas.

Roça-se nas minhas botas e faz um olhar ameaçador ao Winston, que apesar de ter três vezes o tamanho dele e lhe rosnar de vez em quando, fica sempre em sentido.

Adoram-se....mas os ciumes.

Passeio o Winston e aproveito para me perder na azafama das outras famílias. A menina que avisa o pai que o peru já está pronto, "a mãe mandou dizer", o pai que rosna "na minha terra é bacalhau", enquanto se desfaz no sorriso de quem não perde tempo com estas coisas. Afinal é Natal.

Volto para casa e acendo a lareira. Está tanto frio.

Ponho a mesa para mim e preparo as taças do Winston e do Fiódor.

São especificas com desenhos de natal. Eu tenho um individual vermelho e guardanapos dourados. 

A meu lado a melhor prenda que o pai e a mãe me deram. O meu primeiro livro. Gosto de o ler todos os anos, pelo menos até adormecer. É como se voltássemos ao mesmo natal e o recebesse outra vez. Não troco prendas à meia noite nem deixo bolachas ao pai natal. Recordo memórias boas.

A campainha toca.

- A esta hora deve ser engano. - digo para mim.

O Winston corre para a porta. Não conhece por isso é engano de certeza.

Espreito e vejo que o Edward. Mas o que é que está a fazer aqui?

Abro a porta.

- Hi, I mean, Hola!

- Hi.

 

O ano passado a minha prenda de natal da Clara e do Jorge foi uma viagem a Londres. Nunca tinha saído de Portugal e sempre sonhei em conhecer Londres, passear nos jardins, ir a camden lock...sei lá!

- Mas o que vou eu para lá fazer sozinha? - perguntei-lhes.

- Nunca se sabe, ainda conheces alguém. Nós ficamos com o Winston e o Fiódor.

Ficaram com os patudos e eu lá fui. Num dos dias passei num pequeno supermercado para comprar avelãs. 

Descalcei-me e fui passear na relva em Hide Park. Os esquilos por todo o lado. A subirem pelas minhas pernas, em cima do meu ombro.

- Uma avelã para ti, outra para ti, mais uma para ti...

You shouldn't feed the squirrels.

Viro-me.

Tem olhos escuros e barba por fazer. Anda a passear o cão que, por estranho que pareça ignora os esquilos, deve estar habituado.

- Yeah...I know, but this are hazelnuts...squirrels eat hazelnuts, righ?! I bought them just for them.

Ele sorriu. Estava a meter-se comigo.

- OK, I wont tell...you bought hazelnuts just for the squirrels...and I thought I was nuts.

Ficámos a conversar o resto da tarde. Passeámos pelo jardim e conversámos como se nos conhecêssemos desde sempre.

- I have a crazy idea...we should exchange numbers.

Disse ele. Trocámos.

No dia seguinte encontrei-o novamente. Se calhar porque sem saber, de propósito fui ao mesmo sitio na esperança não admitida de o voltar a encontrar. E ele, se calhar porque todos os dias passeia os cães no mesmo sitio ou porque procurava o mesmo que eu, lá estava, à mesma hora.

Conversámos. Despedimo-nos.

Nunca o esqueci. O olhar. A forma como parecia que nos conhecíamos desde sempre.

Trocámos mensagens. E-mails. Mas recentemente nunca mais soube nada dele e toda esta coisa da distância fez-me cair em mim e perceber que sou parva.

 

Agora ele está aqui.

 

So, it's Christmas and you're here.

- Yeap.

- Why?

Ele olhou em volta e parou os olhos em mim. Não me pareceu estar incerto quanto às palavras. Estava a aproveitar aquele momento. Tanto quanto eu.

Não aguentei a tensão que sentia e quebrei o silêncio.

Shouldn't you be with you family?

- Yes, I should.

- But yet...

- Yet I'm here, on your living room, looking at you and I'm sure I made the right choice.

- What's that?

- Coming here for my present...

Dá dois passos em minha direção e acaricia o meu rosto.

- ...you.

Beijou-me. Beijámo-nos. 

As músicas de natal que tocavam na televisão começaram a fazer sentido e quando nos afastamos, alguns centímetros um do outro, o Fiódor enroscava-se às pernas dele.

O Fiódor raras vezes gosta de alguém. 

Sentámo-nos no sofá, dividimos o jantar que eu tinha só para mim. Ele riu-se das taças de comer do Fiódor e do Winston e quando começou a nevar pegou-me na mão e saímos. Dançamos debaixo da neve como nos filmes.

 

 

 ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***   ***  ***

 

O Natal é o que quisermos, como quisermos, com quem queremos, com quem amamos. É um momento que deve ser feliz, passado junto dos que mais amamos. As prendas, essas devem ser a companhia dos outros e aquela mala que combina com os sapatos que gosyámos. 

 

Dessejo a todos um feliz natal, cheio daquilo que mais importa, de pessoas que amamos.

Um grande natal em especial para aqueles que hoje, no lugar de estar com as suas familias, estão a trabalhar para garantir que todos temos um feliz natal e que quem sabe está ali, de banco, para dar a alguém o melhor presente de sempre. Vida.

 

Feliz Natal a todos!

Este é o meu presente. Uma pequena e lamechas história.

Piroseiras!

 

Dizem que é Natal mas não o sinto

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Dizem que é Natal mas não o sinto. As luzes ligadas nos centros da cidade perdem-se com a azafama dos carros. Os condutores que se ofendem e bufam por todos os poros, enraivecidos e frustrados por estar em mais uma fila de transito ao fim de semana.

As obras que empatam. As obras que não acabam. Raios partam as obras.

Dizem que é Natal mas não o sinto. Ninguém anda feliz pelos corredores do Centro Comercial. Todos de cara fechada em correria para a próxima caixa que abre na tentativa de passar à frente de quem já estava na fila. O desespero por despachar as prendas.

Como se o Natal fossem só prendas.

O bacalhau. Aí o bacalhau! As couves. Aí as couves. Este ano tenho uma toalha nova e três bolas de cristal na árvore.

Mas descabelo-me sempre que perco o elevador porque me faltam as luvas que a avó diz que quer e estão na loja da esquina à direita ali no primeiro andar. Já estou no zero.

As prendas que os miúdos querem e o quanto se gasta por cada natal.

Passas em minha casa ou eu na tua. É que se for na minha tenho de cozinhar e limpar e preferia mesmo era não ter de fazer nada.

Aí que já estou fartinha do Natal.

Entro nas lojas e não ouço as musicas a tocar. Sempre as mesmas, bem sei. Mas aqueles que nos lembram que é Dezembro, que o ano está a acabar, que noutras cidades neva e há gente lá fora a fazer bonecos com narizes de cenoura velha.

Dizem que é Natal mas não o sinto. Não consigo sentir a alegria que o Natal deve trazer. O desejo pela ceia em que nos sentamos todos à mesa a contar as peripécias de um ano que está a chegar ao fim.

Será que sou eu? Será que é o cansaço? A falta de horas de sono?

Dizem que é Natal mas não o sinto. Não me ocorre cantarolar as musicas. Não tenho paciência para o Sinatra a lembrar que “it's beginning to look alot like christmas”, maybe 'cause to me it doesn’t look like Christmas at all.

 

 

Afinal sempre tenho uma resolução para 2017

 

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Desenvolver 5 dioptrias em cada vista para a estupidez.

 

Uma pessoa para ir ao ginásio à hora de almoço tem de atravessar as trincheiras do Colombo.

Uma pessoa espera duas eternidades e meia para apanhar um elevador com espaço.

Uma pessoa pára no 0 e sai para deixar sair um casal com um carrinho de bebé.

Uma pessoa vai a entrar e está um ser vivo* colado à porta para entrar. Mal deixa o casal sair.

Uma pessoa diz ao ser vivo...

- Olhe que vamos voltar a entrar. Só saímos para deixar o bebé passar.

Uma pessoa pensa que o ser vivo vai dizer "desculpe lá não os vi" e, em vez disso, diz...

- Há aqui muito espaço.

Uma pessoa que tem mais pêlo na venta que o Chewbacca num dia mau, responde...

- Não é essa a questão. Devia aguardar pela sua vez. Deixar entrar quem já cá estava.

Ser vivo insiste em não entender e responder de volta...

- Não percebo o seu problema.

Pessoa responde.

- É natural que não. Tem que ver com uma questão de educação.

- Continuo a não entender.

Pessoa compreende que para lá de mal educado ser vivo tende para a estupidez, então diz...

- Deixe lá, é Natal, é o que vale.

 

É isto...

 

it's beginning to look alot like christmas

stupid in every store

 

*na minha perspetiva para se chegar ao patamar de pessoa é preciso compilar um conjunto de características, níveis vá, no que toca à educação, civismo e saber viver em comunidade. não cumprindo com os mínimos é apenas um ser vivo que habita o planeta.

Have yourself a merry little Christmas

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 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

 

As ruas estão preenchidas pela azafama feliz dos que comprar os últimos presentes de natal. As luzes brilham como se a vida se passasse dentro de uma bola de cristal, cuidadosamente pendurada numa árvore quase perfeita. A neve cai ligeira e adorna os gorros de quem passa. Cai quase numa suave melodia de inverno.

Páro em frente à loja de brinquedos e torno-me mais uma vez na criança que fui um dia. As luzes, os comboios e as bonecas. Espreito pela pequena fresta e vejo as famílias. Os pais procuram os presentes que os olhos dos filhos dizem ser os favoritos. As que o pai natal vai entregar naquela manhã nevosa de dia 25. Antes mesmo de saírem para construir o boneco de neve, com o nariz que é uma cenoura velha e os olhos, que, quem sabe, serão este ano dois botões de um casaco velho.

O mesmo chapéu de sempre.

Atrevo-me a entrar.

- Precisa de ajuda.

Aceno que não.

Só quero ver o rosto das crianças que correm pela loja. Cada uma com dois brinquedos, um em cada mão. Ansiosos por mostrar aos pais o que mais desejam. A menina, de saia aos quadrados e laço de cetim. A que ainda não largou a mão do pai, a que estende o dedo na direção da boneca que está na prateleira mais alta.

A musica de natal ouve-se em toda a loja. Não há chatices, nem as crianças brigam.

- Sobrinhos ou filhos? – diz a vós a meu lado.

- Como?

- Parece-me nova demais para filhos…de qualquer forma…sobrinhos ou filhos?

- Ahhh, nem uma coisa nem outra.

- Eu, sobrinhos. Raio dos miúdos querem tudo.

Sorrio e penso em dispersar.

- Não me quer ajudar?

- Como?

- Ajudar-me. Precisava de uma mão feminina que me ajudasse.

Sorri. Ajudei-o a escolher a boneca para a sobrinha. O comboio para o afilhado.

Saímos da loja juntos. Eu de mãos a abanar.

- Bebemos um café?

Acenei que sim. Quem sabe o meu presente de natal.

 

O gira discos chega ao fim da música e abro os olhos. Encontro a nossa árvore velha, as mesmas bolas e as mesmas fitas. Por baixo não há presepio. Na televisão passam os mesmos programas de todos os anos, aqueles que tu já não conseguias ouvir.

Pus a mesa para nós. Nós e a nossa música de natal.

Lá fora neva, tal como no dia que nos vimos pela primeira vez.

O filho está bom, foi passar o natal com a família da mulher. Diz que é uma casa grande, gente de bem. A filha está para fora, sabes disso. A vida aqui está difícil. Quis pagar-lhe o bilhete mas conheceu alguém para lá e quer um natal diferente.

Entendo.

As minhas irmãs lá estão. Já me ligaram a desejar boas festas.

A Lola faz-me companhia. Este ano comprei-lhe um fato vermelho, coçou-se um bocado mas depois lá percebeu que é quentinho.

Fazes-me falta tu.

Fazer bacalhau para um é esquisito. Mas fiz. Porque tu estarás sempre cá.

Olho para as bolas de natal e lembro-me do dia em que bebemos o nosso chocolate quente depois de nos escondermos da neve que depois de ligeira se impôs. Ou porque nos queriamos esconder do mundo para um momento só nosso.

Lembro-me de conversarmos como se nos conhecêssemos há mil anos. Naquela cafetaria velha, chocolate quente a aquecer as mãos que teimavam em estar frias.

Fecho os olhos e dançamos outra vez no meio da rua ao som da música que saía das lojas. Debaixo da neve.

- Posso ver-te amanhã outra vez? – perguntaste.

Beijei-te e soubeste que sim.

Pediste-me para trocarmos presentes.

- Aqui, agora.

- Não tenho nada para dar à troca.

- Tens. Quero o teu numero de telefone. Quero poder ligar-te.

Dei-te o meu número e, em troca deste-me a boneca que tinhas comprado. Não havia sobrinha nenhuma.

Nem sobrinho.

Tinhas entrado na loja para falar comigo. Contaste-me anos mais tarde.

- Entrei na loja porque vi o que mais queria este natal. E todos os outros. Tu.

 

Levanto-me da cadeira que sempre foi tua. Ponho a nossa musica no gira discos. Aquela que sempre dançamos no natal. Com a casa cheia ou só nós dois, como nos primeiros natais e nos últimos. Os momentos em que estamos sempre por nossa conta, não é? No principio e no fim.

Fecho os olhos e finjo dançar contigo. Se apertar bem os olhos ainda consigo sentir os teus braços em torno de mim.

A boa boca encostada ao meu ouvido e uma musica num sussurro….

Have yourself a merry little Christmas

Let your heart be light

 

 

Já estou farta do Natal

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Estamos a 19 e já deito bolas vermelhas e douradas pelos olhos. Toda a gente vai de carro para o trabalho ou parece ir. A música na rádio é sempre a mesma e nem o “esta noite branca” dos Anjos passa nem que seja para degustar um sabor diferente. Quem diria pôr Sinatra para conferir alguma qualidade a isto! Isto que devia ser uma época de felicidade e compreensão, de família e amor, mas não passa da data mais consumista do ano.

As pessoas passam nos corredores dos Centros Comerciais cegas em busca dos presentes que ainda lhes faltam mas já estão esgotados nas 3 lojas da especialidade em que passaram.

Fumam e estão a três milímetros de espumar e arrancar a cabeça da velhota cheia de laca que tem 16 pacotes de bombons e 8 de peúgas quentinhas para embrulhar. É que os netinhos recebem uma nota, mas não se quer esquecer dos netos das amigas e muito menos dos sobrinhos netos que ainda nem desembrulharam as peúgas dos ano passado.

Ainda tenho a porra do bacalhau para ir comprar e tenho medo de me meter no Continente, não vá passar-me dos carratos e dar com aquele andarilho que é uma espécie de cesto nos costados de mais um idiota.

E olha, ironia do destino ou não, começou a tocar na rádio a “noite branca” dos Anjos!

 

É isto!

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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