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Em busca da felicidade

O tempo tem mais quartos que a lua

Passa mais devagar quando estamos em casa. Todos. Numa tentativa forçada de abrandar o ritmo. Forçada pela virose, que nos apanhou a todos e nos tem mantido de pijama em casa. Uma forma de o destino fazer ironia atendendo ao meu pedido constante de andar de pijama polar todo o Inverno.

O tempo passa mais devagar, lento, não nos apercebemos nas horas a passar, mas não corremos atrás dos ponteiros. Deixamo-nos estar. Afinal de contas estamos todos abraçados, pernas e braços envoltos num abraço de família que inclui patas de cães e um sofá totalmente preenchido. Não é preciso correr se já estamos onde queríamos chegar.

É de uma rapidez que ninguém dá conta. Lá para sexta-feira já me devo queixar que passou muito depressa.

Demais como sempre.

O tempo tem mais quartos que a lua. Mas para já, neste preciso momento o tempo está no tempo certo. 

Concorri mas não ganhei #2

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(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado, escrito para um campeonato de escrita criativa em que participei)

 

Tempo. O que é o tempo? Para que serve o tempo? Como se conta o tempo? O tempo.

Se perguntasse a um cientista iria dizer-me que o tempo é a soma dos segundos, que resultam nos minutos, que acabam nas horas, que formam os dias, que compõem as semanas, que se transformam nos meses, que resultam nos anos sempre iguais.

Dir-me-ia que o tempo serve para contar e organizar, para sabermos onde temos de estar a cada momento. Para sabermos quando começa e acaba o dia.

Para mim o tempo é um Foda-se gigante. Raras são as vezes que olho para o relógio e não digo Foda-se, já são estas horas.

O tempo é um ditador que inventou um objeto com ponteiros para nos perseguir. Aquele que diz que quando o ponteiro está nas nove tenho de estar no trabalho em vez de deitada na minha cama ou espraiada ao sol.

Para mim, que sou uma sentimental e que mandava à fava qualquer cientista, para mim, o tempo devia contar-se em momentos. O momento em que beijei com paixão pela primeira vez, os momentos em que senti o sol escaldar a minha pela nas tardes de praia. O momento em que vi o meu filho pela primeira vez, o momento em que soube que eras o amor da minha vida.

O momento em que disse “sim”.

 

Levanto-me de manhã e lavo a cara. A que traz a rugas marcadas pelo tempo a passar por mim. Olho-as e conto o meu tempo em momentos.

Depois o alarme do telemóvel toca. O ditador outra vez. Tira-me do tempo contado em momentos e lança-me nesta vida de tempo em ponteiros.

Foda-se, já passa das nove!

O tempo não passa, voa

(ontem estávamos já deitados a tentar convencer o pequeno a ir dormir. o Nuno olhava para as fotos que temos na parede do quarto)

 

Nuno - Aquelas fotos têm quase todas 10 anos...

Eu - As da direita têm todas 10 anos. As da esquerda, em cima têm 10, as debaixo têm 9.

Nuno - Fogo...como é que é possível?!

Eu - O tempo voa. Ainda ontem parece que estávamos fartos de 2016 e agora já vamos no fim de Janeiro.

 

(o Nuno continuou a olhar para as fotos. eu fiquei a olhar para elas. a recordar esses dias. momentos das nossas palhaçadas. em que estávamos mais novos, com a cara a precisar de menos botox, cabelos mais fartos e cabeças menos desgastadas)

 

Nota: Não tinha vontade de escrever nada, mas depois recebo um daqueles comentários que me fazem ganhar inspiração. Malta menos medicada que eu, que aqui vem e gosta.

O tempo como um saco elástico

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Tenho esta mania, não sei se lhe posso chamar mania, mas à falta de uma palavra melhor cá vai esta. Tenho a mania de tentar fazer do tempo um saco elástico. Estico, estico, estico. Sempre a tentar enfiar nas mesmas 24 horas que já sei que existem mais coisas. Vou só fazer mais isto. Tenho a certeza que dá para encaixar só mais aquilo. Na permanente ideia de que as ideias utópicas de gestão magnifica de tempo permitem que se aproveite o maldito em toda a sua essência.

Mas será que se aproveita?

Vejo-me a bater-me com os ponteiros do relógio. Em permanente ansiedade pela tarefa auto proposta seguinte. Aquela que tentei encaichar entre a tarefa 147 e 194, que são obrigatórias e não posso fugir.

Depois páro ao final do dia com o corpo dormente da tareia que levou, ainda a vibrar com a eletricidade que circula por dentro. Um resultado da adrenalina permanente que o corpo carrega sobre si mesmo para, por força da vontade, e contra a necessidade do descanso, se obriga a fazer.

Depois pergunto-me, será que aproveitas mesmo? Lembras-te dos pormenores do dia? Estiveste feliz e descansada ou andaste a toque de caixa, que é como quem diz a toque de vontades, as tuas e as dos outros? Somadas às necessidades e às obrigações.

Aproveitas-te o tempo? Ou gozaste só aqueles cinco minutos em que, sem pensar em mais nada, paraste no tempo e no momento para ver o teu filho brincar na banheira. Patinho para lá, tartaruga para cá? Dois, três, seis e a mãe esconde a cara atrás do muro da banheira.

Será que feitos os nove’s fora do dia não gozaste só cinco? Não horas mas minutos. Nem mesmo aqueles em que o devias embalar estavas ali. A cabeça a pensar no tempo que passa no relógio, nos minutos que  passam e ele não adormece. Ele, com quem querias estar mais tempo e agora desejas que adormeça, para teres mais dez minutos para ti, leres duas páginas e meia e ir dormir.

Pegar no despertador do telemóvel, simpático, até te diz as horas que vais dormir. Sempre menos de sete, invariavelmente menos de seis e meia, com frequência nem essas porque aquele que menos vejo no dia acorda a meio da noite à procura de aconchego, encontramos espaço no meio de uma cama onde já não há e prometemos que vamos comprar uma maior.

O saco estica, estica e às vezes rebenta. Quando me sento no sofá com a sensação de que mal me mexo. Quando já não estou certa de ser quarta ou quinta feira, quando penso que faltam duas semanas para o natal e afinal estamos a quatro dias.

Percebo aí que o saco está a rebentar e que o tempo não é elástico, elástica é a minha vida, torno-me eu, para por dentro de um saco de fibra dura mais e mais peças.

Páro e penso o que ando a fazer ao meu tempo, que de tantas coisas que faço, mal faço alguma coisa com ele.

 

Valem-me os dias de sol

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Mesmo com o frio valem-me os dias de sol. Os dias de fim de semana com tempo e com o sol vivo lá fora. Valem-me os momentos vividos com calma, os passeios na praia, os minutos que passam devagar, no descanso do ponteiro, enquanto olho para ti, com a tua pazinha a fazer escavações na areia da praia. Valem-me as tuas corridas em direção ao mar, que não entendes que está frio e ao mar não vamos de roupa. Quer dizer, se calhar um dia vais. Vais mergulhar vestido e saber o que é sentir a força do mar nas nossas roupas.

Mas se fores vai com juízo. Não te aventures muito e trata de ter uma muda de roupa dentro do carro.

Que não te quero doente, filho.

Valem-me os momentos as tuas palavras palradas, as que ninguém entende mas eu percebo. O areal é um mundo de possibilidades que só tu, na tua inocência entendes.

Ah, como invejo a tua inocência. Nunca a percas, filho. Essa capacidade de ver o mundo em todas as suas possibilidades, e não só as vãs.

Valem-me os dias em que não há horas, há o nascer e o pôr do sol, aqueles em que posso dizer “deixa-o estar, brincar mais um pouco” deixa…

Deixa estar. Se der tempo. Calhando a dar.

Frases comuns que de comuns nada têm na correria dos dias. Não deixo estar quando queres brincar até tarde. Tem de dar tempo, para trabalhar, para as viagens de casa trabalho, para fazer jantar e para te dar banho. Não calha a dar, tem de dar. Que outra hipótese temos.

E vivo assim a minha semana. Entra as fotografias e os vídeos que trago comigo. Aquelas que dantes eram a fotografia tipo passe na carteira do pai.

Vejo uma e outra vez e lembro-me, que daí a dias, poucos dias. Menos um hoje. Menos outro amanhã. Daí a dias é fim de semana outra vez. E o único tempo que conta é o que está la fora. É o sol que nos deixa sair e viver os minutos do tempo devagar. No descanso do ponteiro.

 

 

Uma música - uma história #5

 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

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Pai consegue pôr a mala no carro ou quer ajuda? – Estava distraído mas saí do meu torpor quando ouvi chamarem por mim, Pai. Engraçado como a cabeça se habitua e desabitua aos nomes porque nos chamam. A maior parte do ano não chamam por mim. A vida é complicada, eu sei. Há o trabalho, há os miúdos, há os afazeres da vida e o que faz um velho o dia inteiro em casa?!

Fica melhor assim, pai, com pessoas da sua idade. – Pessoas que eu não conheço e nunca vi. Como se eu tivesse perdido a minha capacidade de pensar, como se estivesse inerte. Pessoas da minha idade, como se fossemos diferentes das outras pessoas só porque somamos mais anos. Como as crianças que são afastadas dos temas dos adultos quando a conversa é, para os adultos que a têm, demasiado complexa. Em crianças não sabemos que chegue para fazer parte, quando envelhecemos perdemos a capacidade de achar. Somos velhos e as nossas ideias são velhas. Fraldas, rabos por limpar, arrastadeiras e dentes na mesa-de-cabeceira. É assim que se veem os velhos. Já não são úteis à sociedade, nem à família, nem a ninguém.

Eu e a minha Amélia tínhamos planeado passar a velhice juntos. Uma casa perto da dos filhos, ajudar a cuidar dos netos. Ver os netos crescer e mimar o que não mimamos os filhos. A Marta conseguiu emprego longe e quis ir viver perto dos pais do marido. O Paulo ainda ficou aqui por perto, mas nunca se quis casar, gosta muito de ter a vida dele. Não quer compromissos, pelo menos é o que ele diz. Foi o que me disse há dias atrás quando me cumprimentou na noite de natal. Nem sei se me conhecia bem. Então pai como está? – Estou bem obrigada e tu como tens andad… - e assim ficou pendurada a pergunta, Já estava a ver lá o e-mail dele. Não quis incomodar. Devem ser coisas importantes do trabalho.

Eles pensam que eu não percebo nada mas lá onde estou vamos à internet, tenho conta de facebook e tudo. Mas não lhes mandei pedido de amizade, podem não ter tempo de aceitar, podem achar que me quero meter e não quero. Vem cá jantar pelo natal pai? Tá bem?

Tá, claro que está. Foi a nossa conversa quando a Marta me ligou há dias para me ir buscar. O natal lembra o melhor das pessoas e vão sempre buscar-me para cá passar uns dias. Ver os miúdos, trocar umas prendas, contar peripécias. Eu sento-me sempre na mesma cadeira e ouço. O pai do meu genro tem sempre histórias mirabolantes para contar. Eu sou um homem simples. Levei uma vida simples. Eu e a minha Amélia. Só queríamos ver os miúdos a crescer, a casar, a ter filhos. Tomar conta dos netos. Os netos. Lindos os meus netos, a Constança e o Guilherme. Lindos como os seus nomes.

Um dia hão de ir visitar o avô sim? O avô gostava muito. – Disse-lhos no ano passado. Não têm tempo. Ficaram sem jeito. Olharam um para o outro e não tinham tempo. Percebi que até gostavam de ir, mas têm as coisas deles e não podem perder tempo com velhos porque ser jovem dura pouco, ser velho é que parece uma eternidade. Se calhar é porque não tenho muito para fazer. Pouco para conversar. Lá fazemos jogos e temos “atividades”, uma espécie de colégio com alunos cheios de artrose. Valem-me os livros. Mantém-me vivo. Leio os meus e os da minha Amélia. Íamos ver os netos a crescer.

Quando soube que a Marta ia viver para longe perdeu anos de vida. Tinha o sonho de ter os filhos perto.

Porque não ficas ao pé da mãe filha? Ajudamos com os meninos! – disse-lhe – Aí mãe, os meninos vão para o colégio e os meus sogros ajudam com o que fizer falta. Tenho de sair daqui, evoluir mãe. Entende?

Não entendia. Nunca entendeu. Porque raio evoluir tinha de ser longe?

Vimos os netos de quando em vez. E numa manhã de primavera a Amélia partiu. Fiquei eu. Eu e o tempo que sempre me faltou, veio para me fazer companhia todo o dia, como quem diz, tanto pediste pelo tempo, ora agora aqui me tens!

E tenho. Tempo é coisa que não me falta. É estranho, tenho o fim da vida à porta e o que não me falta é tempo, se me perguntassem aos quarenta dizia que era o que mais falta me fazia.

Há um silêncio estranho quando olham para mim, uma culpa que ninguém deve ter. A vida é assim, quem quer um velho em casa? Um velho a meter o bedelho e a estorvar. Sempre que se contorna o frigorífico lá está o velho, ao sair da casa de banho, ao entrar na sala. A ver televisão. E se o velho adoece, quem lhe muda as fraldas?

Vamos pai? Está pronto? – Estar, não estou, mas é a vida. Passei a vida a dizer que é a vida. E é, cada um com o seu destino.

Calho a ser promovido um dia e hoje morava mais perto, como os sogros da minha filha. Viajam eles. Eu vou à terra, quer dizer…ia.

É o que mais me custa, não sair. Não passear para onde me apetece. Temos espaços e jardins e até fazemos excursões. Mas não é passear.

Entre no carro pai. Temos de ir. – Pois temos. Quer dizer tu tens. Eu podia fazer o que me apetecesse, mas não pode ser. Não posso arranjar dificuldades. Às vezes penso que havia de fazer birra como os miúdos. Afinal de contas levam-nos tão a sério a uns quanto a outros. Mas não, sei que ainda sou crescido.

O carro arranca e lembro-me da minha Amélia, do dia em que a Marta nasceu e dos planos que fizemos. Do dia em que o Paulo nasceu e compramos uma casa maior. Poupámos mais. Um quarto para cada um. Como eramos felizes. No dia em que cada um partiu e na cor cinzenta que tomou conta da minha Amélia, que ia criar os netos e viver perto dos filhos.

Mas fica para mim. No meu silêncio. Na vida que ainda vivo com a minha Amélia enquanto olho pela janela do meu quarto, nos dias de sol, nos dias em que as mocinhas lá me perguntam. – Então, estão tão caladinho, está a magicar alguma?

Não estou. Estou a viver o meu silêncio. Aquele de que é feita a minha vida quando se apaga o barulho de fundo.

 

 

 

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Só me apetece berrar

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Com quem? Com o mundo.

Hoje era suporto termos entrado às 8 da manhã. A minha sogra vai fazer alguns exames de tarde e não tenho com quem deixar o sôtor. Por isso tenho de sair mais cedo.

Às 5 horas e 50 minutos, sim, cinco horas e cinquenta minutos (por extenso para garantir que toda a gente entende a gravidade da coisa) estava a tocar o despertador. E não, hoje não era para fazer snoze, era mesmo para levantar.

Ainda o relógio não dava as 6 da manhã já o miúdo virava o barril de leite que bebe todas as manhãs. E isto em voo, ou seja, ainda a dormir. Que o tipo tem essa capacidade.

Volta para a cama e nós despachamo-nos.

Estava tudo a andar sobre rodas. Pego no pequeno para lhe vestir o quispo (sempre a dormir) e percebo que a fralda não funcionou bem, tem xixi até à barriga. Troca fralda, body e pijama (que ele ainda continuar a dormir). Já suava. Para não falar nas dores nas costas, que isto de despir e vestir um ser vivo que não colabora tem que se lhe diga.

Saímos.

Deixamos o pequeno.

São 7 horas e 10 minutos. Temos tudo para chegar a horas.

Quando chegamos à auto estrada na rádio dizem que a fila está na estação de serviço do Seixal.

O quê?

Foda-se, estão a gozar comigo!

Não, ninguém estava a gozar. E não, não houve acidente. Estava nevoeirozito e pelos vistos a malta que vai os primeiros 15 dias do mês de carro e os outros 15 de transportes deve ter enfiado a cremalheira dentro do volante e levava seu veiculozito ali com o ponteiro nos 20 km/hora não fosse a porca da muralha da china erguer-se de repente na A2.

De maneira que cheguei ao trabalho faltava 1 minuto para as 8 e meia.

Só me apetece berrar.

Gritar.

Partir partos e bater com portas.

Só não me apetece descabelar-me toda porque gastei uma pipa de massa no feriado em produtos bons para o cabelo e não posso dar cabo disto assim, sem mais nem menos.

Arre!

 

O pombo que anuncia a chuva

Quando era miúda, pr’ái há mais de 20 anos, ofereceram à minha mãe um pombo que dizia se ia estar bom tempo ou não. Se estivesse calor o pombo continuava branco. Se houvesse chuva o pombo ficava assim a atirar para o roxo nas penas. Era feito de um material frio e rugoso (não sei descrever bem com o que se parece).

Entendi mais tarde que o material de que era feito absorvia a humidade e em resultado disso mudava de cor.

 

Mais alguém se lembra disto?

 

Tenho andado à procura na net e não há meio de encontrar uma imagem.

O avô e as fotografias na carteira

Não é que queira estar todos os minutos contigo. Preciso de tempo para mim. Para respirar. Para ser eu. O que me custa são as horas intermináveis que estamos afastados. Aqueles em que aprendes coisas novas, as que eu tenho pouco tempo para te ensinar porque a vida diz que há outras coisas para fazer.

O bem ou o mal de trabalhar paredes meias com um Centro Comercial, somada à tarefa pontual de me ver a almoçar sozinha, resulta na invariável passeata pelos corredores do Colombo. Procuro as lojas caras, com as coisas que comprava se tivesse muito dinheiro.

Pela direita e pela esquerda passam mães com os seus filhos. Estão de férias, estão de folga, são mães a tempo inteiro ou trabalham por conta própria, vida de disciplina mas com o conveniente de poder tirar uma tarde aqui e ali.

Vejo as outras mães e tenho uma vontade maior de te abraçar. Lembro-me das saudades que tenho de ti. Aquelas que faço por esquecer, que forço por calar, porque a vida segue o seu rumo e há contas para pagar.

Penso que vou voltar ao escritório e dizer “por mim, por hoje já chega, vou andando” e punha-me a caminho de casa. E ia buscar-te mais cedo. E íamos ao jardim. Brincar na areia.

Lembro-me que não vale muito a pena sonhar acordada e resta-me o telemóvel. As tuas fotografias para acalmar a lamechas que quer vir ao de cima. Lembrar-me que o que trabalho é também para ti. Muito para ti. Alguns dias só para ti.

E recordo-me da carteira do avô. Com as fotografias de todos nós. Do tempo em que não havia telemóveis. Ponto. Muito menos com fotografias. Do tempo em que quando queríamos trazer connosco quem mais amávamos, lá se guardava a fotografia tipo passe. Para quando o coração apertava. Para quando o cacilheiro se atrasava. Para quando o rio parecia um oceano.

 

Queria, quer dizer, quero....

Dar à vida o tempo que a vida merece.

 

Acordar depois das sete.

Levantar-me com a calma que o corpo pede.

Tomar o pequeno almoço sem a pressão dos ponteiros do relógio a avisar que a manhã já vai longa.

Levar-te ao colégio. Levar-te aos avós. Com a tranquilidade necessária para passar no jardim primeiro.

Duas corridas e três palhaçadas.

Regressar a casa para passear os cães sem lhes acenar com o saco porque estão a demorar demais.

Tratar da roupa, da loiça e da casa.

Levar-me ao ginásio.

Correr, levantar pesos, saltar e alongar.

Depois de uma sauna ou quem sabe de um banho turco, a chuveirada merecida.

Passar pelo mercado com tempo para escolher.

Peixe fresco da senhora de baton vermelho. Legumes da horta da D. Hortência (a quem nunca perguntámos o nome verdadeiro).

 

Dar à vida o tempo que a vida merece.

 

Ir buscar-te para almoçares em casa. Ou deixar-te a almoçar pelos avós.

Passar as tardes entre os textos. Entre os parágrafos e os capítulos.

Ir buscar-te pelas quatro. A tempo de caminhar com vagar até ao jardim.

A tempo de ser tua mãe. De ser pessoa e de ser capaz de escutar.

Chegar a casa para pegar nos cães outra vez.

Vamos todos. Passear, correr, atirar bolas e voltar.

Que os teus bonecos estão a começar e o jantar não se faz sozinho.

Ver-te brincar.

Poder ver-te e escutar-te sem a pressão da lista imaginária de afazeres.

Deitar-te antes das dez da noite.

Ler mais que uma página do livro que perdura na mesa de cabeceira e ter tempo um para o outro.

Que os crescidos precisam de ser crescidos neste mundo de gente que é grande.

Acabar o dia com a calma com que começa.

Nas rotinas alternativas, mas sempre iguais destes dias calmos e serenos.

 

Queria, quer dizer, quero...quero muito...

Dar à vida o tempo que a vida merece.

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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