Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Em busca da felicidade

Tenho de aceitar que chegou a hora de ir para o colégio...

overprotective.jpg

 

Saí de uma reunião a correr. Fui para o carro a correr. Fomos de carro a acelerar até ao Aqueduto das Águas Livres. Constatamos que afinal as pessoas não estão de férias, não: as pessoas estão escondidas em cantos para se mandar à fila às seis da tarde e empatar a minha vida.

Tenho dias em que não gosto particularmente de pessoas.

Quando chegámos ao colégio já estava uma das diretoras à nossa espera. Teve a amabilidade de ir ter connosco depois das 19 horas e nós retribuímos chegando atrasados. Somos mesmo assim, pessoas que gostam de dar de volta.

Subimos ao escritório e os meus olhos percorriam outra vez o espaço, o meu cérebro matutava: será que não houve mesmo nada de errado que te tivesse escapado na ultima visita?

Sentamo-nos, entregámos documentos, justificámos a falta de declaração médica e eu começo a sentir o meu incomodo a instalar-se. 

Adorei e detestei a diretora pelo menos 20 vezes no espaço de uma hora.

Ela dizia: "Está ainda com os avós...hummmm...não vai ser fácil, têm de estar preparados!"

Eu pensava: que sabe esta alma do meu filho. quem julga ser. o meu filho adapta-se se eu achar que se vai adaptar. ou será que se adapta? e se ele chora e chama por mim? e se ele pede colo e ninguém lhe dá? se calha isto é tudo um erro, vou pegar nas cópias dos documentos e vamos por-nos a andar.

Depois ela esclarecia: "Mas eles adaptam-se melhor que os pais, nós (país) temos sempre receio, eu trabalho no ramo há 19 anos e quando foi com os meus fiquei aflita."

Eu pensava: parece-me adorável esta senhora. aqui ele fica bem. preenche o documento Cátia, preenche.

Deu-nos um documento para identificação da criança e dos pais. Identificação do encarregado de educação: eu; não sei se foi a melhor escolha, porventura devíamos ter escolhido alguém mais responsável e ponderado...como o pai, por exemplo. 

Detesto a sensação de que me estou a esforçar para agradar a alguém, mas a verdade é que vou deixar o meu único bem precioso aos cuidados daquele espaço: quero que gostem de mim, quero que gostem de nós. Porque se gostam, acarinham e eu não quero que lhe falte nada.

A tentativa de me "integrar" num espaço acompanha-se, invariavelmente, pelo nervosismo de quem receia fazer merda. Porque é normal para mim meter a pata na poça. É normal ser desbocada, é normal dizer coisas fora do contexto, é normal tentar ser engraçada para aliviar o ar. Quero que gostem de nós, mas quero que respeitem também.

Começo a preencher a declaração. Na segunda linha estava a morada, dei comigo a escrever que vivia no 38º andar. Nesta terra não há prédios com mais de 5 andares e mesmo esses já é um pau. Isto é depois do cú de judas, não há arranhas céus aqui.

Mas há gente parva e atrofiada...como eu.

Continuo e engano-me na data de nascimento do meu filho, penso: que raio de mãe se engana no mês de nascimento do filho? Ah, já sei! Eu. Será possível?! Concentra-te.

Peço um corretor à diretora, estava no cabeçalho da declaração e já precisava corrigir 2 erros. Logo, estava bem encaminhado.

A senhora falava. O Nuno respondida. Eu preenchia a declaração e sentia o suor a escorrer-me costas abaixo. A adorar e detestar a diretora de forma intercalada.

Dou comigo na descrição dos dados dos pais: escolaridade? licenciatura. licenciatura escreve-se assim? de certeza que está bem. ahhh otária estás tão habituada ao corretor automático que mais pareces uma ignorante. É assim! Será? Tu vê lá Cátia Filipa, tu faz boa figura mulher, lá porque tem uma mãe estúpida a professora não tem de ficar a saber. se percebem que mal sabes escrever vão pensar-te uma ignorante e o miúdo vai de arrasto. concentra-te. presta atenção ao que fazes. tipo de sangue? sei lá o tipo de sangue do miúdo! nem o meu. uma boa mãe sabia de cor o tipo de sangue do filho. deve estar no boletim, vai ver, mostra-te capaz.

Quando acabei de preencher o documento estava esgotada e numa fase de detestar a diretora. O melhor era o miúdo ficar com os avós até aos 18 anos, por essa altura já estaria rijo para enfrentar a vida.

Lá entregámos a declaração. Lá ficou com lugar reservado. Lá ficou combinada a data de começar. Lá esclareci mais 350 questões. Justifiquei-me outras 350 pelas questões colocadas. Detesto quando tento esforçar-me para que as pessoas gostem de mim. É-me muito mais fácil ser uma besta e quem não gosta que vá à sua vida.

Cheguei ao carro e pensei em todos os cenários de guerra. E se alguém conseguisse entrar pelo colégio e raptasse o meu filho, logo o meu menino. E se alguém deixasse o portão aberto e ele, com a mania que é independente, à procura da mãe e do pai, se escapulisse para a rua? E se a educadora for marada da mona e arrear nos miúdos e o puto me ficar com traumas para a vida? E se o enfiam numa sala sem comer por todas as horas que lá está? E se me cai a brincar com os colegas, quem é que o vai amparar como eu? E se há um miúdo muito maior do que ele que lhe bate todos os dias? Ele é tão dócil. Como é que eu vou saber? Como é que lhe vou explicar que pode espetar biqueiros no outro até se cansar, desde que seja para se defender? A mãe estará cá para tratar do resto. E se não come como deve de ser? E se ele tem saudades? E se ele não quiser brincar com os outros meninos e se isolar? E se ele pedir por mim? E se ele se sentir mal? E se ele gostar e não tiver saudades da mãe? E se correr tudo bem? E se ele for mais independente do que eu o quero acreditar? E se for só tudo paranoia da minha cabeça? A mesma que ainda não acredita que ele não nasceu ontem.

#vaiserbonito

 

12 comentários

Comentar post

------ Gostar da Página ------

----ATENÇÃO!----

Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

----- Seguir no Bloglovin -----

Follow

------Blogs de Portugal------

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

------- Mais sobre mim -------

foto do autor

------------ Arquivo ------------

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D