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Em busca da felicidade

Um canteiro de buganvilias

  (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

 

Tinha de fazer a pergunta. A que trazia presa na garganta desde o dia em que nos beijamos pela primeira vez.

Perguntaste-me se sim porque ela te disse que não?

A moça composta. A serena. A senhora. A que todos queriam. A joia de valor no meio da prata.

Carregamos os sacos para dentro de casa. Passamos o quintal que tanto desejei ter e olho para ti. Vejo-te empenhado em organizar tudo. O cuidado nos passos para não pisar as buganvilias que insisti em plantar. As que regas porque me queres ver feliz. Ou as que regas porque te custa que nunca me queiras como eu queria que quisesses.

Pouso os sacos no chão. Estás atrás da porta do frigorífico. Tudo arrumado e organizado nas caixas certas.

Mil vezes parei aqui neste mesmo sitio. Mil vezes fiz a pergunta dentro da minha cabeça. Mil vezes perdi a coragem antes de a verbalizar.

Perguntavas o que queria para o almoço e eu deixava para mais tarde.

Um ano mais tarde. Dois anos mais tarde. Três anos mais tarde. Uma casa e quatro anos mais tarde.

- Perguntaste-me se sim porque ela te disse que não?

Percebo que verbalizei pela primeira vez a pergunta. Paira no ar. Paira em ti enquanto seguras uma caixa que fica suspensa na tua mão. Não sei se pela surpresa na pergunta, se pela dificuldade em encontrar a resposta. Porque a verdadeira não me podes dar.

- Não percebi o que disseste.

- Percebes-te sim.

Agora que deixei sair tenho de seguir em frente.

- Sabes que gosto muito de ti.

- Essa não é a resposta para a minha pergunta.

- Mas de que raio te foste lembrar?!

- Vejo que sabes de quem estou a falar.

- Como assim?!

- Nem perguntaste quem era ela. Sabes quem é ela.

- O que se passa contigo?

- Responde.

- Não vou responder a perguntas tontas. Sabes que gosto muito de ti.

Continua com as arrumações. Vejo-o nos minutos que se seguem, não sei quantos, não os contei. Descontraído a arrumar as suas coisas. Perdido no seu mundo. Alheio à pergunta que ficou no ar. Como se se evaporasse. Como se fosse possível que ficasse rarefeita em pequenos pedaços que respiramos e deitamos fora numa expiração forte. A de quem sopra um bolo com 100 velas.

Dou pequenos passos atrás.

Pego na mala e ponho-a ao ombro.

Em transe saio pela porta. Despeço-me das buganvilias e desejo que as continue a regar. Saio pelo portão.

Não olho para trás, que se olhar volto e finjo que não perguntei a pergunta que tinha encravada na minha garganta como uma espinha.

Ando. Primeiro devagar. Sinto a primeira lágrima e ando mais depressa. Quero que o vento que me bate na cara a leve. Vem outra, maior, mais forte. Sinto-me a ceder. Corro. Com as minhas calças de ganga velhas e a t-shirt que lhe roubo todos os fins de semana. Corro. Corro para esquecer o aperto que trago ao peito.

Corri todo o quarteirão e voltei à casa de partida.

Digo olá às buganvilias e segredo-lhes que foi tudo uma partida tola.

Entro em casa para o encontrar a fazer o almoço. Descontraído.

- Tens fome?

- Tenho.

- A mesa está posta. Vamos almoçar.

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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