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Em busca da felicidade

Um passeio com o Augusto

passeio.jpg

 (imagem retirada da net)

 

Os óculos RayBan e o cigarro no canto da boca definem a imagem que o marca. Não importa a roupa, que hoje é mais cinzenta e creme, ao contrário do preto que lhe marcou tantos anos.

- Não precisa fumar à pressa, homem. Temos tempo.

Segue-se um tá bem, de quem quer que não lhe digam o que fazer. Não por ter mais idade, mas porque sempre foi assim. Não acho, tenho a certeza. Carrego o mesmo gene comigo.

Dá a volta ao carro para cumprimentar o neto que esperneia na cadeira. Impaciente. Disseram-lhe que ia à praia e deu com ele à porta do prédio velho do avó. O velho a fumar o cigarro e ele cansado de esperar por ter os pés na areia.

Entra no carro. Uma mistura de tabaco e Old Spice. Reconheço-lhe o cheiro em qualquer lado.

- Então Nuno, como vai isso? Então minha filha?

O sarcasmo no minha filha, de quem estende a mão para apertar a ponta dos dedos. De quem queria que eu tivesse saído do carro para o cumprimentar com dois beijos mas não pude porque garantia o entretenimento da criatura mais pequena. Aquela que em vontades, beiços e birras não é muito mais nova que ele.

- Tava ao telefone com o Gaspar. Encontrou o teu irmão na Charneca e queria que eu fosse lanchar com ele, vê lá!

- Então isso é bom!

- Ahhh, esse gajo quer é conversa e eu preciso de descansar.

- Estás reformado.

O relembrar permanente de que não tem compromissos com ninguém. De que devia sair mais. Entreter-se menos com a TV.

- Anda a chatear-me para comprar um computador para falar com ele na internet. Tá maluco.

- Olha que te fazia bem!

- Ahhh, fazia agora. Já tenho com que chegue para me entreter. Depois é só contarem histórias tristes e outras que eu não entendo. Não tenho pachorra já!

- Histórias tristes? Mas aconteceu alguma coisa a alguém?

- Sei lá. Não percebi nada daquilo. Diz que agora o Manel se chateou com o filho. Não percebi nada daquilo. Depois fico sempre com a história a meio. É o que te digo. Já não tenho paciência. Mas aquilo também são alguns 13 ou 14 irmãos. Uns ouvem uma coisa, contam aos outros e depois nunca ninguém sabe muito bem que raio é que aconteceu.

- Mas dão-se tão bem pai e filho.

- Pois dão. Eu sei lá. O que eu sei é que o Manel é bom rapaz. Mas de vez em quanto chateia-se com as pessoas. Foi como quando há uns anos se chateou com a mulher. Eu a dizer-lhe “tu vê lá, fala com a moça, que gosta de ti e é tua amiga”, mas o gajo é casmurro pá. Faz-me sempre lembrar de quando voltei do Ultramar, sem um tostão à frente. Estes gajos foram todos bem colocados, perto de casa e eu fui logo para longe. Tive de falar com o engenheiro, não tinha recebido o primeiro ordenado, não tinha ajudas de custo, não trouxe dinheiro, tinha um filho para criar, não podia ir para longe. Foi o engenheiro que me adiantou um ordenado. Senão não sei como era a vida.

As lembranças do Ultramar sempre presentes. Dos anos em que foi atirado para uma guerra que não era dele. O filho que não viu nascer. Os três anos que lá esteve. O regresso uma pessoa diferente. Menos afável e mais revoltada com a vida.

- Então senhor Augusto, há quanto tempo é que não vai à Costa.

- Sei lá. Da ultima vez que lá fui passei no Barbas, mas já nem me lembro há quanto tempo foi. Se calhar já lá vão 2 ou 3 anos.

Chegamos à Costa para encontrar o parque de estacionamento de que já não se lembrava. Recorda as estradas antigas e quebradas que ali estavam. As paragens de autocarro de que também eu me lembro. Aquelas onde esperávamos pelo Autocarro em pequenos para ir à praia da Bola de Nivea.

- É pá estão ali a vender castanhas.

- Queres?

- Pelo menos meia dúzia, assim quentinhas.

Lá foi meia dúzia quentinha. Descemos até à areia. Para ver o neto a correr o areal afora.

- Anda Ricardinho, vamos sentar-nos naquela rocha a comer as castanhas.

As castanhas comeu-as ele, que o pequeno queria era escavar areia.

- Vai ser engenheiro o meu neto. Vais ver.

Ao fim de meia hora já ia ser pedreiro, tal o apresso do moço por encher as rochas de areia.

- Vamos lanchar senhor Augusto?

- Lanchar?

- Sim, lanchar?

- Lanchar o quê?

- Sei lá, uma fartura, um waffle, um pão com chouriço.

- Pão com chouriço!?!?!?!? Atão e há caldo verde?

- Há.

Pensou.

- Bom…vocês é que sabem.

Percebemos que era mesmo aquilo. Como a criança que sorri de contente porque sabe que o chocolate é para ela.

- Vamos ao caldo verde.

Pelo caminho ainda comprou um boneco para o neto empurrar. E agora vai perguntar-me todos os dias se ainda gosta dele.

Comeu o caldo verde. Meio pão com chouriço e ainda deu conta do arroz doce. Tudo acompanhado da sua imperialzita.

Regressamos com as conversas das coisas que não se alteram quando queremos. As que fazem os “tem de ser” da vida. As que nos fazem deitar a pedir que o amanhã seja melhor. Nem que esse amanhã chegue só para o ano que vem.

Fazemos a viagem com a conversa vazia que preenche o tempo.

O Augustinho ficou feliz de ver o mar. Relembrar as praias que caminhou em novo. As me mediu para hoje estarem com as conhecemos.

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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