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Em busca da felicidade

Uma aeronave, a minha Costa, a falta de bom senso e os juízes do sofrimento

Conheço a Costa da Caparica como a palma da minha mão.

Todos os fins de semana é para lá que vou para a praia.

 Fico ali, a um cantinho perto das rochas.

 Sou mãe.

 E levo o meu filho para a praia da Costa da Caparica todos os fins de semana.

 

Por todos estes motivos tem-me sido difícil aceitar o que aconteceu esta semana. Afetar-me-ia fosse a localidade que fosse, mas a realidade bate mais forte quando toca à porta de uma casa tão perto da nossa.

A caída de uma aeronave que, pelo que pude ler, teve uma avaria nos motores. Uma aeronave que estava a dar instrução a um potencial piloto. Uma aeronave que estava, em treino, a sobrevoar por cima de milhares de pessoas.

Nunca achei graça nenhuma aos aviõezinhos que passam na praia. Quando era miúda parávamos para ver o que estava escrito naquelas bandas que arrastam, não havia telemóveis, e-mails nem redes sociais. Ficávamos a saber das promoções ali na praia.

Nunca percebi bem para quê, não íamos sair a correr para ir à promoção. Estávamos sentados a comer uma sandes de fiambre e manteiga. Daquelas que têm sempre um sabor diferente quando as comemos depois de sair do mar.

Hoje não há cão nem gato que não tenha telemóvel. Raros são os casos a quem falta o acesso à internet para atualizar o estado do fecebook, ou para pôr mais um coraçãozinho no Intagram.

Com acesso a mensagens e redes sociais, quando a avioneta passa a dizer que há 80 % de desconto não-sei-onde, já toda a gente sabe do desconto.

Mas este estava em treino. E ao que parece amarar é uma coisa que requer técnica. Técnica essa que a pessoa em treino não tinha. Então e o tipo que o estava a formar? Também não tinha técnica?

É preciso técnica para saber que se mandamos um avião contra pessoas alguma coisa vai correr mal?

Não. Mas é preciso bom senso.

Quer dizer que para se salvar a vida de quem, por opção, escolheu estar a pilotar uma avioneta, põe-se em causa a vida de quem está descansado à beira mar. Ah, e já agora mata-se uma criança e um adulto. Só assim. Sem mais.

Ou será que se queria apenas salvar o avião? É a ideia com que fico.

Afinal de contas não estamos a falar de um boing a cair a pique de 10 000 pés. Estamos a falar de um passarote que paira perto do chão. Seria o embate assim tão forte que causaria a morte imediata de quem o pilotava?

São questões com que fico.

Mas adiante.

 

Conheço a Costa da Caparica como a palma da minha mão. Por isso mesmo sei que o que não falta são espaços próximos onde podem treinar. Onde podem andar avionetas e drones. Se se estatelarem no chão não põem fim à vida de nenhum inocente.

 

Volto à frase: «Amarar é uma técnica difícil», explicaram. Então, se calhar, mas mesmo só se calhar, não faz sentido que uma aeronave ande a ser pilotada por alguém inexperiente e que, ao desejar voar perto do mar, em caso de problema com o aparelho, ponha em causa a vida de pessoas inocentes. Pior. De crianças.

E quando falamos de crianças cresce-me uma amargura no interior. Uma azia que ferve.

Uma criança que se perdeu por razões idiotas e incompetentes.

 

Será para mim difícil continuar a ir à praia sem tirar os olhos do céu.

Espero que ponham as mãos neste tema. Que seja devidamente legislado. Que se compreenda o perigo que pode ser.

É pena que não haja multa para a falta de bom senso.

 

Como se não bastasse, depois do desastre, e perante a morte de uma criança (não desconsiderando, de todo, a outra vida perdida), chegam os moralistas de serviço, as carpideitas profissionais, os juízes do sofrimento; a sua avaliação final é determinante: o pai não estava a sofrer quanto baste.

Ao que parece o sofrimento é hoje medido como o sal nas receitas de culinária. Tem de haver um q.b. para que o publico se compadeça com um pai que não só perdeu uma filha, como a viu ser atropelada por uma avioneta, no meio da praia, enquanto brincava, feliz na sua vida.

Pelos vistos o senhor, a quem não tenho palavras para me dirigir; a dor que sente será tão forte que para mim - sortuda eu - não é tangível. Pelos vistos este homem não tem direito ao choque, a ficar fora de si, a perder o controlo, a deixar-se levar pela falta de aceitação da realidade.

Não!

Este pai tinha de chorar quanto baste para que lhe sentíssemos a dor através do ecrã.

Mas que mundo este em que vivemos em que nem a dor alheia somos capazes de respeitar.

Há sempre um moralista ao canto, uma velha de janela que se debruça sobre o parapeito da varanda e julga sobre a vida do vizinho da frente, mesmo que não faça ideia dos contornos tortuosos de que a vida tantas vezes se reveste - sortuda ela.

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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