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Em busca da felicidade

Uma escolha impossível

(O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

 

 

Sou uma cobarde. Sou uma merda. Sou tudo o que de pior pode haver num ser humano. Saí de madrugada e virei costas. Fechei os olhos e deixei que as lágrimas corressem pelo meu rosto. Engoli em seco.

Se ficasse ela ficava sem mãe. Se partisse também.

Escolhi partir.

Escolhi viver. Ou sobreviver. Ficar a saber dela no meu canto, bem longe. Sobreviver com o sabor de uma fotografia que de vez em quando aquela pessoa de confiança me enviava.

Matava saudades. Ou fingia que matava.

Tive de partir. Faz hoje dez anos que parti. Que virei costas ao ser que mais amo. Que finjo que a vida faz sentido. Que me adormeço com o sabor das minhas lágrimas a correr pelo meu rosto.

Sou uma cobarde. Sou uma merda. Sei que sou. Mas tinha medo de morrer. Sabia que um dia ele me havia de matar. E se me matasse matava a esperança de um dia ser feliz com ela, a minha luz. A ela nunca tocou. Era a sua princesa. Tenho a certeza que quando crescesse se viraria contra ela. Odiava mulheres. Achava-as sujas. Ia achar a filha suja também. A mente não era sã. Mas fingia bem.

Era bom pai para a filha. Tratava-a como uma pedra preciosa. Era o meu descanso.

Caí muitas vezes. Fui muitas vezes contra o guarda-roupa. Era desastrada. Ninguém sabia que a minha falta de atenção me fazia ir contra os punhos do meu marido.

“Tens mesmo ar de porca!” Dizia-me. Normalmente depois da visita da mãe. Essa velha insuportável. Nunca aceitou que o filho se casasse. Muito menos comigo. Não sei porquê, sempre a tratei bem. “Este chão está um nojo. A tua mulher não limpa isto bem!”, ouvia-a dizer, “não te criei a pão de ló para viveres assim, num pardieiro”, continuava.

“Vou falar com ela mãe, tem razão, uma pessoa não pode viver assim”.

Nessa noite tropeçava contra os punhos do meu marido. “És uma porca. PORCA.” Arremesso. “Metes-me nojo. NOJO”. Arremesso. “Mato-te antes de te deixar criar a minha filha para ser uma porca como tu. PORCA.” Arremesso. “Onde é que andaste para não teres tempo para limpar a casa?”. Mão levantada. “A esfregares-te num outro porco qualquer. VADIA.” Arremesso final.

Deixava-me estendida no chão. Eram raros os dias em que tínhamos as nossas conversas e eu não ficava inconsciente.

A minha filha nunca percebeu. Era muito pequena. Só soube que a mãe era desastrada.

Quando soube que estava grávida quis abortar. Aquele bebé ia prender-me a este monstro. Preparei tudo. Ia fazer um aborto. Depois ia fugir. Se ele soubesse que estava grávida ia bater-me até eu perder o bebé. Tinha a certeza disso.

A meio das escadas daquele prédio decrépito quebrei. Não conseguia. Não conseguia matar este ser que agora crescia dentro de mim.

Desci as escadas. Tudo se ia resolver.

Nessa noite contei-lhe. Contei-lhe que ia ser pai e vi o homem pelo qual me apaixonei apoderar-se daquele corpo. Não me tocou durante nove meses. Trazia-me flores todos os dias. Quando soube que ia nascer uma menina ficou radiante. Eu tinha medo, pensei que se soubesse que não ia ser pai de um homem tudo mudasse, mas não, queria ter uma filha, dar uma neta à mãe.

Fui tratada como uma princesa. Pelo pai da minha filha, pela minha sogra. Eu, a criadora daquele ser tão desejado.

Quando nasceu foi o dia mais feliz da minha vida. Peguei-lhe logo que veio ao mundo.

Mas foi só aí.

Quando ele olhou para mim vi que o brilho que tinha nos olhos durante aqueles meses tinha desaparecido. Ignorou a minha existência. Pegou na minha filha e levou-a com ele. Foi mostra-la à mãe.

Gritei. Gritei de dor. Queria a minha filha ao meu peito.

“Cala-te.” Vociferou a enfermeira. Era amiga da velha.

Nunca amamentei a minha filha. Não me deixaram.

“Toda a gente sabe que és fraca. O teu leite vai ser fraco de certeza. Vais fazer mal à menina, mais vale tratarmos de a alimentar de outra maneira. Bem sei que te alimentas mal. Pensas que quero a minha neta fraca como tu?”.

Não foi uma pergunta.

Pouco tive que dizer sobre a forma como a minha filha era criada. Como se vestia, como se calçava.

Eles é que sabiam.

Tinha de fazer como me diziam e mesmo assim nunca estava bem.

No dia antes de decidir fugir apanhei a maior sova de todas. Não fui ao hospital. Não me deixavam ir. Se fosse ao hospital iam fazer perguntas. E às vezes não havia respostas aceitáveis.

Às vezes apanhava pela forma como tinha sido sovada. Sim. A velha ia lá a casa, ralhava com ele, “tens de ter mais atenção, tens de a ensinar de outra maneira, assim ainda fazem perguntas, desapontas-me”. Nesses dias apanhava mais. Nos sítios certos. Apanhava a dobrar.

Pensei em matá-lo. Mas era bom pai. A menina amava-o mais que tudo. Não suportava a ideia de ver a minha filha a sofrer, a ser entregue a uma instituição. Se o matasse ia viver longe dela na mesma. O pai morto. A mãe reclusa. Ia ficar com a avó. Essa peça. Ia envenena-la contra mim. Ia fazer do pai um mártir.

Por isso decidi fugir.

Peguei no dinheiro que tinha conseguido pôr de lado quando pensei no aborto. Mantive-o escondido junto aos meus pensos higiénicos. Era o único sítio que sabia que ele não mexia. Essas porcarias. Essa badalhoquice. “Porque raio é que as mulheres têm isso! Que nojo.” Lembro-me de uma vez que fomos à praia com um casal amigo. As coisas ainda eram bonitas nessa altura. Ainda me levava flores todos os dias que íamos jantar fora. Ainda me ligava só para dizer que me amava. Ainda era um homem normal. Aquele com que aceitei casar. Apareceu o período à rapariga, não era regular e às vezes acontecia-lhe. Sujou a toalha de praia. Nunca mais saímos com esse casal. “Aquela porca.” Como lhe chamava. Como lhe passou a chamar depois de se ter transformado.

Não foi logo que casámos, foi alguns meses mais tarde. A mãe começou a passar alguns dias connosco, começou a encontrar-me defeitos. Ligava-lhe todos os dias.

As minha saias, as que sempre tinha usado, as que vestia quando jantávamos fora e me elogiava, passaram a ser curtas demais. A minha maquilhagem fazia-me parecer uma puta. Os meus sapatos eram muito altos. Podia desequilibrar-me e cair das escadas. Conforme me explicou no dia em que fingiu que me empurrava mas que me segurou por um braço, com força. Ficou marcado durante uma semana. “Lembra-te, quando olhares para a marca de como te poupei, um acidente pelos sapatos de cabra que escolhes usar.” Deixei de usar saltos.

A seguir aumentaram os insultos e depois de ripostar numa discussão veio o primeiro soco.

A princípio pedia perdão e comprava-me presentes. Depois até isso foi deixando de acontecer. Os insultos, as tareias faziam parte dos nossos dias. Até eu já os via como normais. Até ao dia em que só parava quando eu perdia a consciência.

Isso aconteceu depois de a minha princesa nascer.

Por isso parti. Parti e nunca mais olhei para trás. Parti sem deixar uma carta, um bilhete. Nada. Para quê? Nenhuma daquelas pessoas iria entrega-lo à minha filha.

Sei que não me procuraram. Deixaram de querer saber no momento em que desapareci. Acho que foi um alívio. Queriam que morresse e a verdade é que para eles morri.

Não deixei uma carta nem um bilhete. Mas escrevi. Naquela noite escrevi uma carta para a minha filha. Queria que ela soubesse o quanto a amava, que soubesse que, independentemente do que lhe pudessem ter dito eu sempre quis ser uma boa mãe. Sempre a tratei com carinho. Que parti por opção. Não para facilitar a minha vida, mas para construir uma para nós.

Ia arrastá-la para onde. Não tinha dinheiro, não tinha família, não tinha emprego. E mesmo que tivesse, que emprego poderia manter eu se fugisse dali.

Por isso fui e criei as condições para dar à minha filha a vida que ela merece. Uma vida com amor, carinho, com uma mãe.

Tenho um negócio próprio, uma boa vida financeira, uma cabeça melhor e mais forte.

A velha ouvi que morreu. Ao que parece sentiu-se mal e no hospital alguém se enganou no tratamento. Ficou-se.

O outro morreu atropelado. Pelos vistos atropelamento e fuga. Parece que a matrícula não estava registada, que o condutor nunca foi encontrado.

É pena. Tenho pena.

Tenho pena que tenha tido de esperar tantos anos. Mas para que as coisas fossem bem-feitas tinha de ser assim.

Agora chove e eu estou do lado de fora da casa que um dia foi minha. A casa que tem os meus piores fantasmas. A casa onde, simultaneamente, vive a minha razão de viver. A minha filha.

Tenho de a conquistar. Tenho de lhe explicar as minhas razões. Tenho de lhe entregar a carta que lhe escrevi há 10 anos. Meio comida e amarela do tempo. A carta que trago comigo junto ao peito todos os dias. A carta que tinha de ser entregue em mãos. A carta que eu própria li vezes sem conta quando quase quebrava.

Não estou com medo da chuva que me possa molhar. Estou com medo de não me conseguir expressar. Estou com medo que haja uma tempestade à minha espera.

Tenho de a conquistar. Tenho deixado que o meu coração bata todos os dias à espera deste momento.

E se não me aceitar? E se não me compreender?

Tenho de tentar.

Entro.

Uma amiga que tive de deixar para trás preparou o terreno para mim. A mesma que sempre soube do que se passava. A mesma que me mandava todos os meses fotografias tuas.

Entro na sala e vejo-a de costas. Cabelos longos e escuros, muito lisos, como os meus. Olho e vejo a mesma menina de seis anos que deixei para trás. A que ainda vejo com uma bandolete cor-de-rosa.

Volta-se e vejo a mesma menina com o rosto de uma jovem mulher.

- Desculpa. – digo e sinto-me cair sobre os meus joelhos. Quebro.

- Não peças desculpa. Eu sei porque partiste. – sinto-a abraçar-me – lembro-me de ti caída no quarto. Lembro-me de te ver assim vezes sem conta. Lembro-me de achar estranho que tivesses mais nódoas negras que eu, que caia no escorrega. Depois ouvia as conversas. E com o tempo fui juntando os pontos.

- Desculpa. Não fui uma mãe para ti.

- Foste mais mãe do que pensas. És a pessoa mais forte que conheço. Só alguém forte vira costas a quem mais ama para lhe procurar uma vida melhor. Sabia que voltavas. Sempre soube.

- Como?

O sorriso e o olhar cúmplice entre duas pessoas disse tudo. A filha que afinal sempre tive, apesar de longe e a amiga, que no silêncio conseguiu dizer-lhe tanto. Conseguiu-lhe a promessa de uma mãe que há muito estava perdida.

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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