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Em busca da felicidade

Uma espécie de crise dos trinta

Tenho a sensação de que a partir de um determinado momento da minha vida, não sei precisar qual, o tempo em anos parou de contar na minha cabeça. Os números que compõem a minha idade começaram a soar de forma estranha e a pergunta “que idade tenho mesmo?” a ocorrer-me muitas mais vezes do que seria normal.

Recordo-me de ser miúda e de gostar de ostentar os 7 anos e 9 meses, para dar a ideia de que daí a nada tinha quase 8, essa idade tão mais próxima da independência.

Os anos foram passando, com dias lentos e verões de conversas no jardim. A maioridade chegou sem o sabor que lhe tinha imaginado. A palavra responsabilidade para mim já não era há muito uma novidade e o mercado de trabalho de quem desconta apareceu assim de fininho.

A carta de condução ia mudar a minha vida.

Não mudou, mas limpou a minha conta. Que chumbei 3 vezes no exame de condução. Um mistura de trafulhice por não “dar um agrado financeiro ao inspetor (ou lá o que é que lhe chamam)” e sistema nervoso.

Sem carro restava-me avaliar a capacidade do condutor da Carris para seguir corretamente o Código da Estrada.

A entrada nos vintes passou sem dar conta dela. De cabeça enfiada entre três trabalhos e o curso, dias havia em que não era certo saber como me chamava. Passava despercebida a mim e ao mundo. Relaxava na ocasional noite de copos com a amiga açoriana que nunca mais vi depois de me ter entregue ao horário noturno da faculdade numa tentativa de encontrar um emprego melhor.

Encontrei de facto. Aquele que ainda hoje tenho. Mais de 10 anos depois. Sempre pagam melhor que a uma qualquer psicóloga saída da universidade cujo rendimento médio é zero (há exceções, acredito, só não conheço nenhuma).

“Pareces ter mais idade” é frase que ouço com recorrência. “Porra, pareço assim tão mais velha?!” Não, afinal até pareço mais nova do que sou, mas diz que quando abro a boca e falo, aparento ter quase mais 15 anos em cima.

Faz um certo sentido. A vida deu-me um curso intensivo dos males da vida e hoje já tenho em cima mais drama do que muita gente há-de ter no espaço de uma vida. Longa. Mas Graças a Deus! Que sejam poucas as pessoas a dar de caras com chatices, se pudesse escolher nem as tinha visto. Que eu detesto drama, e se der rio-me do gajo mesmo quando me bate à porta. Puta que o pariu. Já que levo com as chatices ao menos que goze o prato com as gargalhadas possíveis.

Os anos foram passando dentro dos vintes. Entra Inverno, saí Verão, olha é outra vez Outono e tens mais uma Primavera no lombo.

Já tenho 30 anos, foda-se, como é que isto aconteceu?

Então o tempo vai passando.

Pois é.

Umas viagens dentro da Europa. Uma casa comprada. Uns quilos para cima e outros para baixo. E uma cambada de dias sempre iguais.

Nasce um filho aos 31 e paro para pensar na puta da vida.

As ansiedades e os medos de um mundo que me esforço por não ver. Esgueirando-me por entre as merdas de todos os dias. Com palas para seguir em frente. “Não olhes para trás que tropeças. E esbardalhaste ao comprido.”

Passam os 32 sem grande alarido e batem à porta os 33. Digam lá outra vez. Sem velas sopradas, sem bolos comprados e poucas chamadas de parabéns.

Paro e penso. Tás nos 33 a caminho do mesmo que fizeste nos vintes. Ver os intas passar e depois bates com a cara nos entas, esses cabrões que não têm volta a dar, que quando entras nos entas já de lá não sais, e tudo é igual.

A somar às maleitas.

O braço que dói, o ombro que guincha, o joelho direito que range mais que a porra da porta da sala no Inverno e o esquerdo que estala tão alto que mais parece que se está a escangalhar todo.

O reflexo ao espelho já aponta para as rugas e para uma cara mais chupada que antes. As fotos de há 10 anos têm mais parecenças com o miúdo que o reflexo do espelho.

O cabelo está baço e já não sei o que é calçar um par de sapatos de salto agulha há anos.

As roupas são sempre parecidas e só aquela blusa com flores destoa no guarda fatos. Aquela comprada num dia de rasgo de alegria com o miúdo à porta da loja a querer fanar os sapatos todos na prateleira de baixo.

As expetativas da miúda de 10 defraudadas. Os sonhos da jovem adulta de 18 furadas. As certezas da mulher de 25 grandes dúvidas.

O ginásio parece uma maravilha num dia e o inferno no outro. As lojas têm tanta roupa boa e bonita que era preciso ganhar as quintas d’Tarde é Sua para investir uma milena em cartão todos os meses a ver se compunha a caixa de roupas a que chamo guarda fatos.

Chegam as ansiedades. A hipocondria. O ver que os velhos afinal sempre têm razão e a vida passa depressa demais. O puto que cresce sem controlo. A mostrar que os dias passam e que nós nem damos por eles.

“Já precisas de umas calças novas?!”.

Foda-se mais como?! Como? Se ainda ontem te colocaram nos meus braços e eu te disse "Olá" pela primeira vez?! Espera não foi ontem. Foi há quase 2 anos e os minutos continuam a passar.

Há anos que não pintas esta tromba.

Penso todos os dias de manhã quando me vejo ao espelho. Penso todos os dias em que passo pelas colegas arranjadas. Quando penso como é que raio é que arranjam tempo. O meu parece fugir por entre os dedos. Talvez não pensem em arranjar tempo. Arranjam-no de facto.

Passo a hora de almoço a dar voltas numa loja de roupa. Gastava o ordenado em horas se não me fizesse falta.

“Compras só uma peça” Para quê? Se parece que tudo o que tenho em casa está velho e gasto. Depois vestia isto com o quê?! Só se fosse nua. Mas não, com isso também não, que a pele está mais gasta que as camisas que tenho lá para casa. Penso que não vale a pena comprar agora, não antes de largar estas banhas no ginásio. Este pneu que insiste em perseguir-me.

Volto para o trabalho de mãos a abanar.

Depois continuo o meu dia. Igual aos outros. Dentro dos intas e penso “será que há crise dos trinta ou sou eu a sofrer por antecipação os quarenta? Afinal de contas sempre me disseram que pareço mais velha de cabeça!”

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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