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Em busca da felicidade

Uma música - Uma história #2

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 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)  

 

Os dias são passados de forma sempre igual. Vou à escola mas tenho pouca paciência para ouvir o que a professora tem para dizer. Ela é simpática e tudo mas não percebe que eu sou um miúdo em missão. Não sabe o que é a vida numa família que não é uma família porque é uma coisa feita à pressa para crianças que já não têm pai nem mãe.

Às vezes uma das educadoras deixa-nos ir até ao jardim. Elas ficam a conversar. Coisas da vida delas. Às vezes coisas sobre as nossas. No outro dia percebi que falavam de mim. Elas desviaram o olhar, fingiram quando acharam que eu estava a entender que era de mim que estavam a falar. Este já não é adotável. Que para quem não sabe significa que não há família que me queira.

É verdade, não me apresentei. Chamo-me Pedro, tenho sete anos, o meu pai é uma nuvem que passou e nunca mais ninguém viu, ou pelo menos era assim que a minha mãe o descrevia. Eu tenho pensado muito nisso e acho que ele não me queria e por isso foi-se embora. A mãe tentou fazer o lugar dos dois. A minha mãe foi para o céu o ano passado. Aqui gozam comigo porque digo que a minha mãe foi para o céu, os bebés é que falam assim. Mas morrer é muito pesado. É muito "para sempre". E eu acho que ela anda sempre comigo. Que toma conta de mim. Eu só não a vejo.

Ficou doente quando eu tinha quatro anos. A mãe dela tinha deixado de lhe falar, porque ela tomava más decisões. Eu acho que a má decisão fui eu. Nunca me disseram, mas como a mãe dizia, sou um miúdo esperto demais. O meu avô já tinha ido para o céu. Espero que a mãe o tenha encontrado, falava bem dele, gostava muito dele, deve estar feliz por vê-lo de novo.

A avó deve ser uma bruxa. Eu se tiver uma filha um dia vou tomar conta dela até ir para o céu. Como a mãe fez comigo. Só espero é ir para o céu mais velhinho que a mãe.

Como não tinha ninguém e a avó não quis ficar comigo. Disseram que não me reconheceu como família. Vim parar aqui.

Aqui tomam conta de crianças que não têm pais ou que os pais não conseguem tomar conta delas. Devem estar a trabalhar ou coisa assim. Ainda que no outro dia uma menina falava que o pai tinha umas brincadeiras esquisitas com ela. Eu pelo menos achei. Mas o que é que eu sei de brincadeiras com o pai? Só tive mãe.

Quero dizer. Tenho.

Vou estar sempre contigo, aqui, no teu coração. Disse enquanto pousava a mão no meu peito. Fazia isso quando queria que eu prestasse atenção ao que dizia. Acho que já sabia que não ia ficar muito tempo.

Vim para cá antes de a mãe ir para o céu porque não tinha com quem ficar e como a mãe estava muito fraquinha as senhoras enfermeiras tinham de estar a tomar conta dela. Mas a Joana, daqui da casa, levava-me para a ver todos os dias.

- Tens de te portar bem para encontrares outra mãe.

- Mas eu não quero outra mãe. Quero-te a ti.

- Eu sei. E eu vou estar contigo sempre, aqui, no teu coração.

Tivemos esta conversa montes de vezes.

Depois um dia não tivemos mais.

 

A Primavera começou cedo este ano e por isso ficámos mais tempo no jardim. Encontrei-a sentada num dos bancos, trazia um lenço na mão e parecia estar a chorar porque aquela coisa preta que as senhoras põem à volta dos olhos estava toda borrada. Não me parece que se tenha pintado assim de propósito.

Não sei porquê mas fui sentar-me ao lado dela.

- Olá. - disse-lhe. Usei o meu melhor sorriso. A mãe disse-me para usar sempre o meu melhor sorriso. E eu uso, porque ela está a ver e eu quero que saiba que faço o que ela diz.

Olhou para mim e chorou mais.

- Não gostaste de mim. - se calhar é por isso que dizem que eu não sou adotável. Se calhar sou feio.

Riu enquanto chorava. Limpou as lágrimas.

- Não.

- Então vou-me embora.

- Espera. Não. Não é isso. Conheci um menino parecido contigo.

- Eu conheço muitos meninos parecidos comigo.

Riu-se.

- Eu imagino. Era meu filho.

Ah. Já tem filhos. Não vai querer mais um. Do que ouvi "as probabilidades de adopção de casais com filhos é muito reduzida."

- E era muito parecido contigo.

- Era?

- Sim.

- Queres dizer é? Ou era quando tinha a minha idade.

- Não. Era. Só. A tua mãe?

- Está no céu.

- Tenho pena.

- Eu também. Mas ela está sempre comigo. Aqui, no meu coração. - bati no peito. Onde a mãe costumava pôr a mão dela.

Sorriu.

- O teu filho já é crescido?

- Não.

- Que idade tem?

- Tinha sete anos?

- Tinha?

- Sim. Está no céu.

Entendo. Coitadinha. A mãe dizia muitas vezes que era normal as mães irem para o céu. Mas os filhos não. É contra a natureza.

Limpou as lágrimas.

- Então e o teu pai?

- É uma nuvem que nunca mais ninguém viu.

Franziu a testa e depois fez uma cara de quem entendeu tudo.

 

Nas ultimas semanas encontrei a Margarida todos os dias no jardim. Enquanto os outros meninos brincavam nos escorregas nós conversávamos. Eu contava-lhe das coisas que fazia com a minha mãe. De como ela brincava comigo como se fosse do meu tamanho. Nunca falamos da parte má. Ela contou-me as brincadeiras que fazia com o filho. Nunca me contou a parte má. É que a parte má não interessa. Percebem? Só interessam as coisas boas. É assim que guardamos as nossas pessoas dentro do coração. Com as coisas boas. Com os dias de riso.

Hoje vou encontrar a Margarida outra vez e tomei uma decisão. Quando queremos alguma coisa temos de trabalhar para isso. Foi uma coisa que a mãe me ensinou. Quando gostamos de alguém temos de lhe dizer.

Hoje sentei-me no banco onde encontrei a Margarida da primeira vez. Escolhi as melhores roupas que tinha e tive a certeza de que as cores combinavam. Peguei na caixinha com a prenda que tinha preparado. Uma pulseira cheia de cores. A mãe dizia que eu tinha jeito para as fazer e usava-as toda orgulhosa.

Quando chegou reparou que eu estava muito giro.

Fiquei contente por ter reparado.

- Margarida, sabes que gosto muito de ti e acho que gostas de mim.

- Verdade.

Começou a rir e a ficar corada.

- Tenho um pedido para te fazer.

Levantei-me. Pus um joelho no chão. Abri a caixa onde estava a pulseira que fiz e perguntei-lhe.

- Aceitas ser minha mãe?

 

Acabei agora de arrumar o meu ultimo livro na minha caixa de cartão. Olho à volta e despeço-me do quarto cheio de camas onde dormi nos últimos dois anos. Saio e espero cá fora pela Margarida. Olho para o céu e lembro-me que lá estás.

Tu vais estar sempre aqui, no meu coração. Pus a mão no meu peito, no mesmo sitio onde a mãe costumava pôr.

 

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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