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Em busca da felicidade

Uma música - Uma história #4

 (O texto que se segue é original, da minha autoria e totalmente ficcionado)

 

Procuro-te nas nossas conversas. No que eras. O que eu conhecia. Como tínhamos assunto para falar horas a fio. Nem dávamos pelos minutos a passar. Os cafés fechavam e nós ali, na mesma mesa, quase escorraçados. Íamos cada um para sua casa sempre com coisas para contar. Um assunto para terminar. Tínhamos sonhos e vontades. Coisas que íamos fazer.

Começar uma vida juntos. Aos poucos. Passos pequenos.

As compras da semana. A prestação do carro. A renda da casa. Tomar conta do ordenado um do outro e ter uma opinião sobre o que cada um gasta.

Perguntar se parece bem levar aquela blusa quando na verdade quero perceber se vais ficar preocupado com mais aquele dinheiro que vai sair da conta.

Aprender a viver de forma desindependente. E sim desindependete. Porque não passei a ser dependente. Ganho o meu ordenado e sou dona do meu nariz. Mas deixei de fazer dele o que quero. Porque agora tenho um parceiro nos negócios da vida. O que paga metade da renda. O que paga metade das contas. Metade do colégio dos miúdos.

E as conversas vão ficando sempre iguais. As contas substituem as memórias de infância. Os recados da escola dos miúdos as nossas peripécias de infância. As chatices do trabalho os nossos sonhos de tudo o que íamos ser.

E a vida vai passando. Os dias vão contando sem nos apercebermos que aos poucos nos afastamos mais e mais. Que pouco sabemos um do outro. Afinal de contas fizemos as perguntas todas quando devíamos ter feito. Que perguntas vamos fazer agora? Já sabemos tudo um do outro, não é?

Achas que não é?

Se calhar devia ser diferente.

Hoje sei que gosto do que antes me parecia estranho. Hoje vejo a vida de forma diferente e até encaro a forma de viver dos outros com a possibilidade de assemelhar a minha à deles. Daqueles que em tempos erradamente critiquei. Não porque agora lhes quero seguir os passos. Mas porque agora aprendi que não se critica. Que a vida de cada um a cada um pertence. E eu nada tenho que ver com isso. Que enquanto estive a olhar para as escolhas dos outros segui em carreiro e não pensei para mim. Não vi os erros que cometia e segui de forma sempre igual.

Não percebi que devia ter perguntado mais vezes como estavas. Que queria que me perguntasses mais vezes como estou. Não como quem pergunta já sabendo a resposta que quer ouvir. Porque se respira e os exames dizem que está de saúde é porque está bem. Há muitas formas de estar mal e o pior é o mal estar da alma. É um mal que se entranha e nos consome. Nos faz esquecer o que somos, o que queremos, o que desejamos.

Esquecemo-nos de rir. E aprendemos a esboçar o sorriso adequado. A invejar. Porque o tempo passa e os nossos dias são iguais.

Tão iguais que por vezes parece que se repetem. Com os mesmos gestos e as mesmas expressões.

Queria que me dissesses para hoje ir jantar à beira da praia. Levar os miúdos e deixa-los correr no meio da areia. Se calhar acabávamos a correr atrás deles. Se calhar acabávamos sentados na areia, conscientes da nossa idade, felizes e abraçados.

Os miúdos dormiam logo quando chegassem a casa. Cansados.

Queria que me abraçasses com um abraço e não pondo os braços em torno de mim. Esse gesto que passou a ser o teu abraço. A reação de rotina porque é assim. Como quem nem dá conta de que já está a chegar a casa quando o trajeto de comboio é sempre igual.

É segunda feira e jantávamos à beira mar. Comíamos chocos grelhados e conversávamos com bebidas coloridas. Não te ia contar coisas da minha infância. Acho que já as conheces todas. Queria lembrar-me contigo das memórias que construímos em conjunto. Sonhar com a casa que vamos comprar quando ganharmos a lotaria.

E os miúdos corriam na areia.

E nós encontravamo-nos outra vez.

Tenho saudades de te ver. Há anos que não converso contigo.

E estás lá em casa todos os dias.

 

 

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Este não é o meu cantinho, este não é o meu refugio e este não é o meu diário público. Este é o meu tasco. Servem-se petiscos carregados de óleo velho, jolas, caracoladas e meia dúzia de piadas parvas. Se procura um espaço mais aprimorado é tentar na porta ao lado. Aqui arrota-se. Dão-se chupas aos miúdos (sim com açúcar...nada de stevia). Aqui dão-se erros ortográficos, baralha-se a semântica e escrevem-se frases à Saramago…e não falo da qualidade intrincada de ideias, é mesmo pela falta de pontuação. Aqui corre-se ocasionalmente, mas sempre com os bofes pela boca e acompanhado do #excuses, muitas #excuses. Aqui faz-se o que dá na real gana, mas sempre com algum juízo. Se estiver confortável com o acima disposto, sente-se e mande vir um pires de caracóis que já atendemos.

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